Homeostase

15/04/2019 às 3:09 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
Tags: , ,

Muito bom esse texto. Recebi de uma grande amiga por email. É grande, mas vale a pena a leitura.

Homeostase


O Corpo do pai – Siddhartha Mukherjee*

O telefone tocou às três da manhã. Minha mãe, em Nova Delhi, estava em prantos. Meu pai tinha caído mais uma vez e falava coisas absurdas, ela disse. E direcionou o telefone para ele, que balbuciava lentamente palavras sem sentido, num tom irreconhecível, agudo e anasalado. Repetia sem cessar seu apelido, Shibu, e o nome da aldeia de sua infância, Dehergoti. Era como se ministrasse a si mesmo a extrema-unção.

“Leve ele para o hospital agora mesmo”, pressionei-a do outro lado da linha, de Nova York. “Vou pegar o próximo voo.”
“Não, não, espere!”, minha mãe respondeu. “Talvez ele melhore sozinho.” No mundo dela, comprar uma passagem internacional de um momento para outro era uma extravagância imperdoável, própria de gângsteres transcontinentais ou astros de cinema. Ela não conhecia ninguém que tivesse chegado “adiantado” para a morte do pai ou da mãe. A parcimônia de sua geração se cristalizara em uma superstição pura e simples: se eu pegasse um avião naquele momento, talvez atraísse a catástrofe.

“Vá dormir e pense melhor”, ela disse, cada vez mais ansiosa. Desliguei e mandei um e-mail para minha agente de viagens. Reservei uma passagem para o próximo voo da Air India.
A saúde de meu pai, aos 83 anos de idade, vinha decaindo havia semanas. Os telefonemas tarde da noite tinham aumentado em frequência e se expandido na amplitude dos comunicados, como as ondas que antecedem a tempestade em formação: os acidentes estavam se tornando mais comuns, e mais graves suas consequências. Aquele não era o primeiro tombo no ano. Poucos meses antes minha mãe o encontrou estendido na varanda, o braço quebrado e dobrado por baixo do corpo. Ela apanhou uma tesoura e cortou a camisa dele, enquanto meu pai urrava em dupla agonia – à dor provocada pela camisa em retalhos que minha mãe lhe tirava pela cabeça juntava-se o horror de ver uma peça de roupa em perfeito estado ser rasgada diante de seus olhos. Era, eu bem sabia, uma picuinha antiga: a mãe dele, que atravessou a fronteira durante a Partição da Índia levando os cinco filhos para Calcutá e que jamais teve roupas suficientes para repartir entre os me

Minha mãe, por sua vez, tentou minimizar a gravidade da situação. “Kicchui na”, ela disse. “Veja, não é nada.” Era uma frase à qual ela, o contrapeso estabilizador da família, muitas vezes recorria. “A gente dá um jeito”, dizia, e eu acreditava nela. Dessa vez, porém, tinha lá minhas dúvidas.
Vinte horas depois eu aterrissava numa Nova Delhi abafada e sufocada pela névoa da poluição. Do aeroporto corri para a casa de meus pais, joguei as malas sobre a cama e peguei um táxi para a unidade intensiva de neurologia. A terapia intensiva ocupava quatro salas ao redor de um átrio. Parte do piso estava em reforma – o chão de cimento entremeado de lascas de mármore, com um talho como o de um lábio fendido, expunha canos, conduítes e esparramava pedaços de concreto pelo corredor. Tudo bem: se alguém tropeçasse e batesse a cabeça no chão, encontraria um neurologista logo adiante.
Meu pai estava num estado de sedação profunda. Chamei-o e, por um instante, pensei que ele tivesse girado a cabeça na minha direção por ter me reconhecido. Senti uma explosão de alegria – até que o vi girar a cabeça diversas vezes para um lado e outro, e percebi que se tratava de um movimento automático, repetitivo, ritmado, padronizado. Seu cérebro parecia escorregar por alguma cadeia evolutiva, atravessando uma série de alçapões filogenéticos – paft, paft, paft – rumo a uma consciência primitiva e reptiliana. Com o tempo, comecei a enxergar, naquele movimento vazio e circular, sinais enviados dos ínferos do inferno.
Um residente da neurocirurgia veio falar comigo. Sabia que eu era médico; estendeu a mão e me chamou de dr. Mukherjee. Parecia ter uns 35 anos – rosto pálido, orelhas grandes, ar confiante. Senti uma antipatia imediata e irracional.

“Seu pai teve um grande sangramento no cérebro”, ele disse. “Somando-se a isso o quadro de demência, não sei que tipo de recuperação podemos esperar.” Ainda acrescentou que o nível de sódio no sangue tinha caído para 128 – um valor crítico e outro índice de severo dano ao tecido cerebral.
Minha raiva se assemelhava à indignação de um estudante de medicina: queria lhe dizer que eu sabia interpretar uma tomografia e entendia o significado do nível baixo de sódio, mas engoli em seco.
“Está tudo sob controle”, ele me garantiu. “Faça seu papel de filho, deixe a medicina conosco.” E partiu apressado para cuidar dos demais pacientes.

Eu tinha chegado havia poucos minutos quando notei que a frequência cardíaca exibida no monitor estava perigosamente alta. Tateei sob os lençóis até encontrar o pulso inchado de meu pai e medi-lo. A pulsação estava normal; a máquina mostrava um valor que era quase o dobro. Chamei a enfermeira. Era uma mulher pequena, dona de um rosto expressivo, jaleco branco sobre um sári azul.
“Ah, aquele monitor? Ele não funciona”, ela disse, descartando minha preocupação com um gesto casual, como se se tratasse de um brinquedo com uma rodinha emperrada. Então, enquanto eu a observava, ela desligou o aparelho. Os bipes da máquina cessaram. Oficialmente, meu pai não tinha mais pulso. Bem, graças a Deus, esseproblema foi resolvido, ela parecia sugerir triunfante, e dali seguiu para outro leito.
Depois de uma hora, voltou para limpar meu pai. Um montinho de saliva havia se formado no canto da boca semiaberta; tinha a cor esverdeada e a consistência da água suja de algas na superfície de um lago. Ela o removeu com um cateter de sucção. A bomba à qual o cateter estava conectado zuniu brevemente, e então desfaleceu com um sonoro silvo, como um elefante despencando para a morte. Vi que a vedação de borracha que prendia o tubo à bomba havia rachado. A enfermeira encolheu os ombros a título de desculpa. Depois, olhou em torno mecanicamente, à procura de reposição, mas ambos sabíamos que não haveria nenhuma.

Saí do hospital às onze da noite. A uns poucos quilômetros de casa, uma moto tinha capotado na estrada, catapultando para o espaço um jovem rapaz sem capacete. Alguém havia acendido uma série de sinalizadores em torno do local do acidente, a fim de desviar o tráfego. As janelas do meu táxi tinham sido reduzidas à opacidade total pelos famosos ventos abrasivos que sopram em Delhi, e a cena do lado de fora se revestia da estranheza de alguma celebração – um festival ou uma festa de casamento – filmada por uma câmera embaçada. Os sinais invertidos quase me fizeram rir. Delhi estava de ponta-cabeça. A cidade estava quebrada. O hospital estava quebrado. Meu pai estava quebrado.
As coisas que funcionam à nossa volta possuem uma transparência vítrea, mas só quando o vidro trinca podemos ver o funcionamento delas. Veja, não é nada. Habitar uma máquina que funciona bem é, em grande medida, não se dar conta de seu funcionamento. Trata-se de uma dádiva que aceitamos sem pensar, ingratos, ignorantes. Anos atrás, na qualidade de jovem médico em busca de um dinheirinho a mais, eu fazia um bico numa clínica ambulatorial de uma área pobre a poucos quilômetros de Boston. Trabalhava aos sábados das dez da manhã às oito da noite e, exausto, encerrava o dia num boteco próximo, com uma tortilha acompanhada de cerveja.

A clínica era administrada, com eficiência feroz e orçamento precário, por uma enfermeira de 60 e poucos anos que trabalhava ali praticamente desde sempre. Certa manhã, atrapalhado com o horário de verão, cheguei uma hora mais cedo para meu turno e pus-me a observá-la enquanto ela organizava os preparativos para o dia. Ao lado de cada leito ela dispôs um tubo de plástico esterilizado para a máscara de oxigênio. Examinou o conteúdo do “carrinho de reanimação”, que armazenava os remédios e o equipamento de emergência. Seu último ato naquela manhã poderia ter batido novo recorde de obsessão: ia de baia em baia, todas vazias, e alisava os lençóis; em seguida, ficava de quatro no espaço exíguo que separava a cabeceira de cada cama da parede e lubrificava os reguladores das válvulas que, presas à parede, forneceriam oxigênio ao paciente.

Não atribuí grande importância a toda aquela silenciosa atividade matinal até que, na mesma semana, uma mulher de meia-idade chegou à clínica com os olhos esbugalhados e os lábios azuis – em meio a um ataque de asma que punha sua vida em risco, ela não conseguia respirar. Movê-la da maca da ambulância para a cama levou menos de um minuto – mas isso só porque os lençóis haviam sido alisados e estavam bem presos, de modo que o corpo convulso deslizou facilmente para o leito. O regulador do oxigênio girou sem nenhum esforço – e não é que estava lubrificado? – e, quando estendi o braço para apanhar um cateter intravenoso, uma agulha borboleta do tamanho e do calibre certo apareceu no exato momento em que precisei dela, o que me permitiu manter meus olhos treinados na veiazinha fina e arroxeada da dobra do cotovelo. A essa altura, a enfermeira já tinha aberto o carrinho de reanimação. Pedi epinefrina, e lá estava ela, na seringa.

“Quer entubar?”, ela perguntou. Soou mais como uma ordem do que uma sugestão. Não era de modo algum minha intenção. Num ataque de sinceridade, eu poderia ter admitido que não era lá muito bom nesse procedimento; das poucas vezes que havia tentado, a visão livresca que eu tinha das cordas vocais reluzindo atraentes além da epiglote, como uma espécie de terra prometida em forma de “V”, havia me escapado. Mas agora eu não tinha escolha. Escancarei a boca da mulher. “As próteses”, a enfermeira disse, seca, bem em cima da hora – e eu as removi. Empurrei o laringoscópio para além da dobra protuberante da língua, até conseguir enxergar o orifício e, então, pedi o tubo. Na hora não notei que sua ponta recebera uma pitadinha de lubrificante. O tubo deslizou para dentro. Se não estivesse untado, poderia ter sido um desastre.
Chamamos uma ambulância para levar a paciente a um hospital com terapia intensiva. Meu turno tinha acabado. Quando olhei ao redor, vi que, na pressa de estabilizar a paciente, eu provoquei uma bagunça estrepitosa: tubos plásticos, a caixa do laringoscópio, as proteções das agulhas, as próteses, tudo estava no chão. Mas eu sabia que na manhã seguinte a ordem se restabeleceria. Os lençóis seriam esticados, o carrinho de reanimação seria reabastecido, as válvulas, azeitadas.

No final da década de 20, o fisiologista Walter Cannon cunhou a palavra “homeostase”, juntando os termos gregos hómoios(semelhante) e stásis (quietude). Ele propunha que a capacidade de manter a constância interna era uma característica essencial de qualquer organismo. Sua obra tinha raízes na experiência que adquiriu trabalhando com as tropas aliadas durante a Primeira Guerra Mundial, quando observou as complicações fisiológicas do choque traumático. Mas também se inspirava no trabalho de predecessores como o fisiologista francês Claude Bernard, que escreveu: “A constância [fixité] do ambiente [milieu] interior é condição para a vida livre e independente.”
O que vale para uma instituição que funciona bem também pode valer para os corpos que nela trabalham. A temperatura, por exemplo: o corpo humano normal se mantém dentro de uma faixa extraordinariamente estreita – algo entre 36 e 37 graus –, a despeito das enormes variações, muitas vezes imprevisíveis, em seu ambiente. Eu embarquei num voo da Air India numa fria manhã de outono nova-iorquina e um tubo de alumínio me arremessou até uma Nova Delhi em que, a despeito da estação, fazia calor; mas minha temperatura, caso eu a tivesse medido, não teria sofrido alteração nem mesmo de 1 grau. E a termorregulação de um pinguim-imperador é de nos fazer passar vergonha. Enquanto a temperatura ambiente cai incríveis 61 graus, variando de 21 graus positivos a 40 negativos, a temperatura de um filhote de pinguim se altera apenas 2 ou 3 graus.

O nível de sódio em nosso sangue é mantido rigorosamente entre 135 e 145 miliequivalentes por litro – um número controlado por sensores extraordinários em nosso cérebro, em conjunto com um mecanismo igualmente preciso que retém ou libera sal e água nos rins. “A constância, num sistema aberto tal como nossos corpos representam, demanda a ação de mecanismos que operem na sua manutenção”, Cannon escreveu. “A homeostase não é acidental: ela resulta de um autogoverno organizado.”
A descoberta de Cannon inverteu uma lógica antiga. Ao longo de gerações, os fisiologistas descreviam animais como se falassem da montagem de uma máquina, isto é, como a soma de partes dinâmicas. Os músculos eram os motores; o coração, uma bomba; os nervos, conduítes elétricos. Pulsar, girar, bombear, faiscar; a ênfase recaía no movimento, nas ações, no trabalho – Não fique aí, parado: faça alguma coisa. Ao mudar o foco da fisiologia, deslocando-o da ação para a manutenção da fixidez, Cannon e Bernard promoveram uma alteração fundamental em nossa concepção do funcionamento do corpo humano. Paradoxalmente, um elemento central da “atividade” fisiológica passou a ser a promoção da stásis. Não faça nada: fique parado.
Em torno de Cannon, teóricos de todas as áreas se entusiasmaram com a ideia de sistemas capazes de se corrigir, resistentes às forças ativas da mudança. Em 1935 o botânico inglês Arthur Tansley cunhou a palavra “ecossistema”; a manutenção da estabilidade logo seria descrita como uma das propriedades centrais dos sistemas ecológicos.
Em pouco tempo, economistas relacionavam homeostase a mercados capazes de se corrigir; o matemático Norbert Wiener percebeu que máquinas e criaturas poderiam ser governadas por sistemas autônomos de controle estabilizados por circuitos de “retroalimentação”. Células, cidades, sociedades e até instituições políticas – tudo tinha a capacidade de se estabilizar por meio da atuação de forças autorreguladoras e promotoras do equilíbrio. A Rainha Vermelha de Lewis Carroll era a monarca simbólica. O mundo gira tão depressa sob seus pés, ela diz a Alice, que “você tem de correr o mais que pode para continuar no mesmo lugar”.
Mas eu duvido que mesmo Cannon – morto em 1945, sua carreira emoldurada por duas guerras mundiais – tenha percebido o enorme esforço fisiológico necessário para a manutenção desse “autogoverno organizado”. Um esforço contínuo, que abrange todo o sistema – e um esforço imperceptível. As válvulas precisam ser lubrificadas; os lençóis, alisados e presos; os carrinhos de reanimação, reabastecidos; o lixo, descartado. Ar e temperatura precisam vibrar e pulsar imperceptíveis. Inspirar. Expirar. Repetir.

Eu era bastante versado nas razões pelas quais meu pai fora parar no hospital. Mas levei bastante tempo para inverter a pergunta: O que o poupara por tanto tempo do declínio agudo? Precisei reimaginar a queda – a pancada, o sangue, o delírio, o coma – e tentar entender por que esses desastres não ocorreram antes, à medida que o cérebro dele avançava lenta e inexoravelmente rumo à demência, atordoado e irreconhecível.

Como era meu pai, em repouso e em movimento? Ele adorava viajar – quase tanto quanto minha mãe detestava. Durante toda minha infância e adolescência, nos primeiros dias do verão, meu pai chegava em casa num fim de tarde com quatro passagens e formulários para requisição de vistos. Anunciava que em duas semanas ou por aí partiríamos para alguma cidade estrangeira e desconhecida – Cairo, Adis-Abeba, Bangcoc, a Moscou pré-glasnostou a Teerã pós-Xá –, enquanto, em particular, minha mãe espumava, pensando no que levar, a quem pedir dicas e em como alimentar os filhos durante a viagem. Psicologizar esse fato é tentador – meu pai havia sido o garoto obrigado a fugir de casa –, mas às vezes, como ele próprio gostava de enfatizar, uma passagem para além da fronteira era só uma passagem para além da fronteira.

Ah, e ele adorava feiras. Shoppings, em especial os americanos, o deprimiam: comprar sem barganhar era morrer sem lutar. Quando placas anunciando “preço fixo” começaram a aparecer nos shoppings de Delhi – sobretudo para afastar pechincheiros inveterados como ele –, meu pai viu naquilo um sinal do fim iminente da civilização. Mas nunca passou batido por um homem com uma carroça de mercadorias. Talvez assim estivesse predestinado a levar seu primeiro tombo, mais de um ano antes, ao voltar de uma feira nos arredores com um saco de cebolas em cada mão, quando foi socorrido pelos vendedores de frutas e legumes – eles o conheciam pelo nome, sabiam exatamente onde morava e o levaram para casa qual um rei ligeiramente estropiado, numa carrocinha de fruta adaptada para a ocasião.

Ele nos contou que havia tropeçado numa pedra solta e, por algum tempo, as coisas se acomodaram em casa. Mas o mundo já começara a girar em torno dele. Sua noção de equilíbrio piorava a cada dia. Minha mãe contratou um fisioterapeuta, além de um enfermeiro para cuidar dele durante o dia. Um carpinteiro instalou grades de madeira na cama em que ele sempre dormira. Quando fui vê-lo, no final daquele verão, ele parecia ter sido atingido por um castigo bíblico: o homem que gostava do movimento constante estava agora confinado em sua cama, os sapatos confiscados e a bengala escondida num armário, para que ele não a encontrasse e se sentisse tentado a sair por aí. Certa noite em que ele delirava muito, para evitar que caísse nós o prendemos às grades da cama com os cordões de seu pijama. Quando me levantei na penumbra do amanhecer, eu o flagrei chorando baixinho, o rosto entre as mãos amarradas.

Então, calmamente, um novo tipo de fisiologia foi se aglutinando ao seu redor. Os vendedores de frutas e legumes começaram a aparecer em casa. O enfermeiro, um jovem mirradinho cujo apelido era Bishnu – o deus, entre outras coisas, da manutenção e da preservação –, desenvolveu o hábito de, toda manhã, sentar meu pai na cadeira de balanço na varanda, com um monte de vendedores reunidos, como uma multidão a venerá-lo. Meu pai ficou felicíssimo de estar de volta entre os seus. Podia provocá-los lá de cima – um rei em prisão domiciliar, mas, ainda assim, um rei. Ralhava por causa dos preços; protestava contra a péssima qualidade das berinjelas; perguntava por que, naquela idade, ainda tinha de suportar que lhe vendessem uma couve-flor maltratada, e por que os peixes nunca eram exatamente frescos. Era um pequeno milagre: como o seu Mukherjee não podia mais ir à feira, a feira ia até o seu Mukherjee.

Com os olhos de hoje, compreendi que também aquilo era uma espécie de ho-meostase. Os pequenos rituais o salvaram, protelaram outra queda, restauraram sua dignidade e atenderam sua necessidade de constância. “Na morte, a gente se desmancha”, escreveu Philip Larkin:
Cada fragmento
Que nos compunha põe-se velozmente a separar-se,
Sem ninguém ver e para sempre.
Por um tempo, no entanto, minha experiência com a morte de meu pai não se constituiu desse desmanchar-se em fragmentos como os de um cometa, e sim do contrário: ver uma infinidade de forças minúsculas a mantê-lo coeso. Ele sabia que, na pechincha cósmica, estava perdendo, mas pelo menos o vendedor de cebolas ainda lhe fazia um bom preço.
Eentão as coisas se desfizeram, e de uma maneira que em certa medida lembrava Hemingway: de início, pouco a pouco; depois, tudo de uma vez. Bishnu teve que voltar para a aldeia, aparentemente devido ao recrudescimento de sua hepatite.

Contratamos um novo cuidador, mas a rotina diária mergulhou no caos. Uma tarde, quando meu pai deveria estar em segurança em seu posto na varanda, o novo cuidador o deixou sozinho. Em poucos minutos, meu pai se esgueirou para fora da cadeira de balanço, calçou os chinelos e cambaleou até a cozinha. Tocou o ombro direito da minha mãe, um gesto outrora tão comum que ela nem se voltou para perguntar o que ele fazia ali, de pé na cozinha, ao lado dela. Quando enfim ela se virou, ele já começava a tombar para o lado. Bateu a cabeça no tampo de mármore da bancada, o mármore de ricos veios de que tanto se orgulhava – “Calacata, e não Calcutá”, costumava dizer sobre a pedra, para lembrar às pessoas como chegou longe –, e caiu com um baque surdo no chão.

Uma pancada no cérebro é uma boa maneira de tirar de alguém o equilíbrio da vida livre e independente. Por ironia, de todos os órgãos, o cérebro é o que dispõe de menos espaço para se expandir – o crânio é um espaço fixo. Em outras partes do corpo, o sangue acaba por escoar. No crânio, porém, ele pode se ocultar como um segredo terrível, formar um coágulo e, depois, pressionar o macio tecido neuronal. O coágulo pode, então, crescer, aumentando a pressão e danificando progressivamente a função cerebral num processo crescente, fora do alcance da homeostase. De fato, tendo uma vez falhado a autorregulação, versões semelhantes do mesmo processo podem acometer sistemas complexos de todos os tipos, naquilo que por vezes é chamado de “falhas em cascata”. Uma árvore abatida por uma tempestade derruba uma linha de transmissão; o aumento da carga provoca a falha de outro componente da rede, aumentando ainda mais a carga e transformando uma interrupção local no fornecimento de energia num blecaute nacional. A falha numa única divisão de um banco pode deflagrar um cataclismo global. Falhas em cascata, pois.

O poder da homeostase é tal que é difícil antever falhas desse tipo; tudo retorna ao normal, até que a normalidade cede. Duas horas depois do tombo na cozinha, meu pai parecia estar bem, exceto por uma contusão na testa. Ele pediu um pouco d’água e sentou na cadeira, amuado com a manhã arruinada. Os vendedores tinham ido embora. Passadas quatro horas, ele disse que não estava se sentindo muito bem. Sob pressão, seus neurônios lhe enviavam mensagens confusas: sentia calor e, um minuto depois, frio. Tirou a camisa, suava profusamente. Em seguida, pediu um cobertor. Almoçou qual uma Cachinhos Dourados zangada – o chapati estava quente demais, a lentilha não suficientemente condimentada – e então sentiu uma necessidade acachapante de dormir. Acordou uma hora mais tarde, abanando os braços, em delírio. E foi pouco depois disso que minha mãe me ligou.

Daí em diante os acontecimentos se precipitaram numa velocidade de tirar o fôlego. Na terapia intensiva, o sódio seguia despencando – 131… 128… 122. O coma se aprofundou em virtude do desequilíbrio dos sais. Depois, a respiração foi diminuindo por causa do coma. Dióxido de carbono, que se transforma em ácido quando misturado à água, acumulava-se em seu sangue. O coração começou a se comportar de maneira bizarra – o músculo se fez lento; o ritmo, errático – em razão do coquetel de ácidos, bases e sais circulando no sangue. Depois, os rins começaram a falhar. E, porque os rins falhavam, sua função cerebral piorou, realimentando o ciclo de decadência.
Mas meu pai se recusava a aceitar a morte sem barganhar. Seu corpo reagia espasmodicamente, apegando-se às derradeiras constâncias da vida com uma espécie de astúcia primordial, como se ele soubesse, sentisse no sangue e nos ossos, que às vezes o mercado se vira contra você e que, então, só resta aceitar a oferta menos ruim – um equilíbrio miserável ainda é melhor que equilíbrio nenhum. Uma taxa de sódio de 125? Ele a aceitaria, mas com algum subsídio cruzado: fecharia setores do cérebro, contanto que pudesse manter o coração funcionando.

Ao longo daquelas semanas, meus sentimentos em relação ao neurocirurgião e à enfermeira da uti foram se encaminhando do ódio para uma espécie de admiração. Também eles tinham de se contentar com um equilíbrio miserável. Entre migalhas, carências e faltas, tinham conseguido estabilizá-lo. Sim, minha clínica naquela área pobre perto de Boston era uma pequena maravilha do engenho homeostático, mas, em comparação com o que aquele hospital de Delhi enfrentava, o orçamento minúsculo de que ela dispunha era o de uma economia pujante. Quando acabava um frasco de epinefrina, havia outro para pôr no lugar; o lubrificante para as válvulas não faltava. Em Delhi, por sua vez, o procedimento mais corriqueiro já demandava escolhas e improvisação. Manter aquele hospital funcionando exigia uma série de jeitinhos – incontáveis, inglórios e constantes.

No 12º dia depois da queda, meu pai recuperou um nível precário de consciência. Os médicos retiraram o respirador, deixando uma máscara de plástico para o oxigênio. O hospital me ligou para dizer que eu deveria ir visitá-lo.
Ele tinha saído do coma, mas discretamente, os olhos ainda fechados. O cirurgião entrou, acompanhado de um exército de enfermeiras. “Precisamos transferi-lo para a geriatria”, ele disse. “Não há mais nada a fazer por aqui.”
Eu olhei para o cirurgião como se ele estivesse louco. A geriatria ficava em outro hospital, a mais de 3 quilômetros. Como iríamos deslocar aquele homem praticamente inconsciente e cheio de tubos e cateteres?
O cirurgião se manteve firme. Cada leito da terapia intensiva, eu sabia, tinha uma lista de espera de dezenas de pacientes. “Os níveis de sódio foram normalizados”, ele disse num tom quase acusatório – a normalidade significava que a uti não era mais o lugar do meu pai. Sobre nossas cabeças, o alto-falante da comunicação interna crepitou: era uma chamada de urgência da sala ao lado.

Uma hora mais tarde, os cateteres intravenosos e o tubo de alimentação haviam sido desconectados de suas fontes e pendiam soltos ao redor de meu pai. Um homem magro de uniforme branco entrou portando uma manivela de metal. “Tem uma ambulância a postos lá embaixo”, informou. “O motorista só pode esperar dez minutos.” E começou a girar a manivela para baixar a cama. Uma das rodinhas estava quebrada; com uma toalha úmida ele calçou o pé claudicante para poder deslizar a cama pelo chão.
A enfermeira apareceu. “A camisola do paciente”, ela disse. “O senhor não pode levar. É propriedade do hospital.” Fiquei horrorizado. Parecia impossível despir aquela camisola toda babada e, ao mesmo tempo, deixar intactos tubos e cateteres.
“Eu pago pela camisola”, respondi.
“Não pode. É a política do hospital”, ela disse com firmeza, e tornou a desaparecer.

Num acesso de fúria, peguei uma tesoura e cortei a camisola; tirei-a e a pendurei nos monitores. Retalhar peças de roupa, ao que parecia, estava se tornando um hábito familiar. Envolvi meu pai numa colcha rajastani fininha que minha mãe havia mandado de casa e o atendente e eu saímos quase correndo. A cama pendia para o lado, e a toalha debaixo da rodinha traçava o arco de nossa rota pelo corredor.
A “ambulância” a postos era um furgão de entregas adaptado, no qual uma prancha de madeira fazia as vezes da cama. Posicionamos o leito hospitalar na porta traseira e começamos a girar a manivela de novo, dessa vez para erguer meu pai até a altura do piso do furgão. A manivela girou algumas vezes, e então emperrou com um rangido ameaçador. Baixamos a cama e tentamos de novo, e mais uma vez só conseguimos erguê-la até certa altura, e ali ela ficou, suspensa num limbo terrível. Restavam cerca de 60 centímetros entre o nível da cama e o piso do furgão.
“E agora?”, perguntei ao atendente.

“Nós vamos precisar levantá-lo”, foi a resposta.
“Sessenta centímetros?”, tornei a perguntar.
E ele me olhou como se estivéssemos no meio de um duelo mortal. Enrolei a colcha no meu pai e me acocorei dentro da traseira do furgão. “Se você levantar as pernas dele, eu puxo”, disse. Do estacionamento, cerca de cinquenta pessoas desocupadas e uns poucos vira-latas nos observavam. Uma mulher com uniforme de enfermeira passou por nós; devia ter acabado de terminar seu turno. Pesquei 200 rúpias do bolso. Será que ela podia segurar os cateteres e a ponta do tubo de alimentação enquanto levantávamos meu pai?
Ela apanhou o dinheiro e, encarapitando-se sobre a cama de meu pai, subiu no furgão. Eu puxei meu pai, e ele soltou um gemido: estava suspenso entre o furgão e a cama, a coluna curvada para trás. Seu tronco, desajeitado, escorregava, arrastando consigo cateteres intravenosos e sondas nasogástricas, como uma imitação indiana e muito malfeita da Deposição – “A Deposição na Ambulância Improvisada”. Aquilo me partiu o coração. A mulher segurava os cateteres enquanto eu puxava meu pai com toda força. Mais cinco minutos de trancos e puxões e conseguimos embarcá-lo. Sua cabeça pendia para um lado. Por um bom momento achei que o tivéssemos matado. Mas ele voltou a respirar.
O furgão partiu em meio ao tráfego. Nos semáforos, os carros rugiam feito animais enjaulados, e nós seguíamos lentamente adiante. Balancei a cabeça, incapaz de acreditar naquilo tudo. Tinha passado a última hora puxando meu pai feito um saco de batatas, para além de uma fenda de 60 centímetros no sistema de atendimento.

“Se você abandona uma coisa à própria sorte, você a deixa à mercê de uma torrente de mudanças”, escreveu G. K. Chesterton em 1908. “Se você abandona um poste branco à própria sorte, ele logo será um poste preto. Se você deseja particularmente que ele seja branco, precisa pintá-lo continuamente; isto é, você precisa estar sempre promovendo uma revolução. […] Uma vigilância quase antinatural é de fato exigida dos cidadãos por causa da horrível rapidez com que as instituições humanas envelhecem.”
Meu pai tinha uma boa ideia do que era a rapidez do declínio: ele o vira acometer não apenas uma, mas duas cidades. No final da década de 60, foi obrigado a deixar Calcutá, a capital do estado de Bengala Ocidental, que havia mergulhado no caos, seu amor esgotado, suas reservas exauridas. Inundada de imigrantes depois da Partição, a cidade cresceu enormemente em poucos meses. (“A Partição destroçou o coração de Bengala”, como ele gostava de dizer, “e, depois, quebrou a espinha de Calcutá.”) Todos os sistemas se esfarraparam e, então, se romperam: a moradia, o transporte, a governabilidade.

Mas foi a segunda ruptura – a de Delhi, a cidade para a qual ele se mudou – que partiu a espinha e o coração dele. Por um breve interlúdio, em meados da década de 70, Delhi parecia uma capital em pleno funcionamento. Era a mais nova velha metrópole do mundo. O ar era respirável, a rede de esgoto funcionava, ônibus amarelos e verdes transportavam as pessoas pelos amplos bulevares ladeados por flamboyants. A percepção da prosperidade atraía na mesma medida em que o desespero compelia milhões de homens e mulheres a enxamear a cidade. Por um tempo, parecia que Delhi daria conta daquele influxo, que absorveria cada golpe e incharia até se tornar uma robusta megametrópole. Nada tinha importância, até que, de repente, passou a ter – as pessoas começaram a olhar em volta, a sufocar na poluição, a sofrer com um sistema de esgoto em colapso, a ver a violência geral e sexual transbordar dos ônibus e ruas arborizadas, e então tentaram entender o que, afinal, tinha acontecido. A horrível rapidez com que as instituições humanas envelhecem.
Não muito tempo depois de eu ter transferido meu pai para a geriatria, li a obra máxima de Walter Cannon, A Sabedoria do Corpo. Cannon publicou o livro em 1932, depois de ter começado a estudar mecanismos autorregulatórios em seu laboratório de Boston. Levou algum tempo para o mundo compreender o significado mais amplo do que ele postulava.

A homeostase, a capacidade de manter um equilíbrio funcional, acabaria por se revelar um dos princípios centrais de todos os organismos e é muitas vezes descrita como um dos princípios definidores da vida. Se um extraterrestre ectoplásmico e metabolizador de enxofre fosse descoberto, digamos, nas proximidades de Alpha Centauri, haveria grande probabilidade de também ele possuir em suas funções corporais mecanismos autorreguladores resistentes a mudanças. E esse princípio básico se aplica à maioria dos sistemas complexos. Sua stásis aparente é uma ilusão – a ilusória imobilidade da Rainha Vermelha no espaço.
Objetos em repouso, Newton nos ensinou, permanecem em repouso até que forças exteriores atuem sobre eles. O universo de Newton era governado pela inércia e pelo movimento, um cosmos mecânico controlado por leis invioláveis. Corpos postos em movimento moviam-se rumo ao esquecimento até que outras forças, agindo sobre eles, os obrigassem a interromper esse movimento.

Mas seres vivos, Cannon percebeu, não eram abstrações newtonianas. A fim de criar biologia viva a partir da física fria, os organismos precisavam desenvolver leis próprias e aptas a fazer frente à inevitabilidade da inércia e da decadência. No longo prazo, Cannon sabia, vamos todos nos tornar objetos em repouso. A Rainha Vermelha vai parar de correr e será arremessada para longe; o pinguim gelado terminará congelando os calcanhares até a imobilidade total. O corpo ereto vai tombar, doente. Ainda assim, seguimos dizendo Veja, não é nada – até que nós próprios nos transformamos em nada. É como se a natureza tivesse sido construída para desafiar a mais natural das leis: no fim, nós todos vamos esfriar, morrer, nos dispersar e nos dissipar.
A manutenção, no entanto, não se deixa mensurar; é só quando o vidro trinca que ela se torna visível. Nos vários meses transcorridos entre o declínio, a hospitalização e a morte de meu pai, registramos centenas de parâmetros em seu corpo: a temperatura, o ritmo da respiração, os níveis de potássio, creatinina, de cloreto e bicarbonato, os da saturação do oxigênio no sangue, além dos dados resultantes do exame de urina. O que não medimos – não podíamos medir – era quanto seu corpo trabalhava para estabilizar esses valores, quanta “vigilância antinatural” era necessária para manter as coisas estáveis e quanto sua fisiologia há de ter sucumbido quando os números, por fim, mergulharam na anormalidade. Em suma, não tínhamos nenhuma medida real da resistência homeostática, da reserva fisiológica.

Veja, eu queria gritar a cada dia que cuidei de meu pai no hospital, é alguma coisa. Essas forças da conservação, da autocorreção e da resistência ao declínio, em sua luta invisível dentro de nós – em nosso corpo, em nossas cidades e mesmo em nosso ecossistema planetário –, são o oposto de nada. Os hospitais que funcionam, as ambulâncias que erguem suavemente os pacientes do chão – nós negligenciamos as pequenas revoluções que mantêm essas funções, mas, quando tudo se desagrega, tomamos súbita consciência das rachaduras deixadas para trás. Se pudéssemos medir o vigor homeostático – se pudéssemos de alguma maneira capturar e quantificar a resiliência –, aí então talvez encontrássemos um modo de conservar as coisas dignas de conservação antes de seu desmoronamento, ou de aprender a interromper aquelas que queríamos que fossem interrompidas. É fácil perceber o tipo de atividade que compele à mudança; a stásis, por outro lado, demanda atenção mais vigilante.

Depois que seu corpo parou de resistir à morte, meu pai morreu rapidamente. “A velhice é um massacre”, escreveu Philip Roth. Para meu pai, no entanto, ela foi mais uma dissolução – um amolecimento contínuo da resistência das fibras. Ele não foi propriamente abatido pela morte: foi, sim, sendo reduzido por ela. Os eletrólitos no sangue, que, na UTI, pareceram momentaneamente estáveis, jamais se estabilizaram de verdade. Na geriatria do novo hospital, variaram para cima e para baixo em torno de seus valores normais, aproximando-se ciclicamente de seus limites e ultrapassando-os. Meu pai voltara a balançar a cabeça aleatoriamente a maior parte do tempo. E logo todos os seus sistemas fisiológicos começaram a ruir em cascata, desfazendo-se numa sucessão tão rápida que se podia imaginá-los zunindo ao se quebrar, como acontece com os elásticos. Zing: falência renal. Zing: arritmia severa. Zing: pneumonia e falência respiratória. Infecção do trato urinário, sépsis, falência cardíaca. Zing, zing, zing.

Todas essas proezas da resiliência sucumbiram ao fato da fragilidade. E, conforme as semanas avançavam, uma verdade essencial que eu procurava não reconhecer se tornou evidente: quanto mais eu via meu pai no hospital, pior me sentia. Será que ele estava sentindo aquilo tudo? Dois meses haviam se passado desde que dera entrada na geriatria. Uma noite, à mesa do jantar, falei em levá-lo de volta para casa. Esperava encontrar resistência àquela sugestão, não houve nenhuma.
Assim, desligamos os monitores chilreantes, retiramos os cateteres intravenosos e a sonda gástrica presa ao nariz. Demos um banho nele, fizemos sua barba, calçamos seus sapatos e o envolvemos em sua pashmina preferida. Depois nós o deitamos em sua própria cama. O peixeiro providenciou um sável espetacular – um peixe que ele adorava. Minha mãe o temperou com mostarda e gengibre, transformou-o numa espécie de mingau, que foi dando a ele com uma colherinha de criança. Meu pai morreu dormindo, três dias mais tarde, seu corpo inquieto finalmente em repouso.

SIDDHARTHA MUKHERJEE
Siddhartha Mukherjee, médico oncologista e escritor, é ganhador do prêmio Pulitzer pelo livro O Imperador de Todos os Males

Anúncios

Deixe um comentário »

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Comentários são livres, só não aceito nem publico xingamentos !

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Blog no WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d blogueiros gostam disto: