A mais perfeita tradução

09/05/2019 às 2:15 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 3 Comentários
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Só discordo num ponto da jornalista Eleonora Ramos nesse artigo: nós que não votamos no que está ai NÃO MERECEMOS !117259_Vitrine


A gente merece

A violência tem várias faces e nomes, usa fantasias, máscaras e cresce rapidamente, se reproduz, contamina o ar, extermina vidas. Pode ser uma arminha feita de dedos, um soco na mulher, um tiro no cachorro, um lin- chamento, um xingamento, um AR-15, uma surra de chinelo de cetim.

A risonha lider do governo, Joyce Hasselmann, do alto dos seu mais de um milhão de votos, encarna bem a atual política oxigenada pela violência em todos os níveis. Maquiadissima, a deputada mais votada do Brasil diz numa recente entrevista que conheceu Bolsonaro como jornalista, numa entrevista, e foi “amor à primeira vista”. Ali encontrou seu lider, seu mito, o maior político brasileiro, o futuro maior presidente que, ela espera, aceite ser reeleito em 2022,

Caminhou ao lado dele, aliás, um pouco atrás, até chegar a essa superministra, emprestada à Câmara Federal, onde é lider do seu governo. “A forma com que foi feito o presidente quebrou, não existe ninguém igual a ele”, deslumbra-se Joyce, que assume o papel de conselheira solidária e porta-voz das vontades do presidente. Mas garante que está aí para o que der e vier. Considera que seu trabalho na Câmara é pacificar, apagar incêndios, como ela diz. A maioria desses incêndios são promovidos pelos filhos do presidente, deitando e rolando no poder, a falarem besteira e escrever cerrado. Sobre o O2, Carlos, que já demitiu um ministro, o pai declarou dever-lhe a presidência. Disse com todas as letras que deve a vitória nas eleições ao seu garoto, aquele que, ainda adolescente, tatuou o nome do pai no braço direito. E foi justamente com o chamado  de Carlucho que Joyce teve uns probleminhas, que ela soube contornar. Não dá pra bater de frente com o preferido do presidente.

Na tal entrevista, em horário nobre, programação de ponta da Globonews, soltou o verbo. O movimento feminista não representa todas as mulheres, Bolsonaro não é machista, é conservadora de direita desde criancinha, pai e mãe de dois filhos que educa com muita palmada, é durona com eles, não perdoa mentira. Viveu violência doméstica na infância, foi agredida por pai alcoólatra, esses percalços (que o presidente chama percalços) presentes na vida de muitas famílias. Superou. Mas, sabemos, a violência deixa marcas, é a ciência que diz, revelando-se em sintomas, vestígios, às vezes um simples chinelo de cetim, às vezes o fascínio pelas armas, a deputada tem várias em seu apartamento de Miami, às vezes o apoio mais ou menos explícito de milicianos ou ao extermínio de bandidos. Inclusive garante que “quem mata não são as armas, são as pessoas”, semelhante ao antigo “só puxei o gatilho, quem matou foi Deus”.

Joyce é a mais perfeita tradução do Brasil de Bolsonaro.

(Eleonora Ramos)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 08.05.2019

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