“Não li, não gostei”, o analfabetismo continua

16/05/2019 às 3:17 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 2 Comentários

Podem me taxar de todo e qualquer complexo, menos o famoso “complexo de vira-lata” tão bem explicado por Nélson Rodrigues. Paulo Freire foi e é grande, para muito além das fronteiras dessa inculta , incauta e bela Pindorama.

O que o método Paulo Freire ensinava e ainda ensina é que o analfabeto que tomar consciência de sua condição pode aprender a ler

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PAULO FREIRE, O INCOMPREENDIDO

Era o ano de 1963 e um amplo projeto de alfabetização foi programado pelo governo João Goulart. Seria a aplicação do método Paulo Freire. As inscrições para alfabetizadores foram abertas e milhares de pessoas acorreram. O treinamento começaria em breve, mas o movimento militar que derrubou Jango abortou a ideia. O analfabetismo continuaria esperando. O Livro “Pedagogia do Oprimido” tornou-se uma relíquia após ter circulação proibida. Teve uma ou duas edições iniciais e quem o possuía guardava-o com medo da proibição e porque também era uma raridade. Comentava-se o método Paulo Freire a portas fechadas. Quem havia lido o livro conhecia a chave do sucesso, uma palavra que se tornou um palavrão: “conscientização”.

O que o método Paulo Freire ensinava e ainda ensina é que o analfabeto que tomar consciência de sua condição no mundo pode aprender rapidamente a ler, a partir da descoberta psicológica da palavra mais importante para sua sobre- vivência. No caso do grupo de pedreiros que estavam construindo Brasília, essa palavra chave descoberta pelo grupo foi “tijolo” e naquela mesma noite em que o grupo estava reunido um participante elaborou uma tosca frase: “tu já lê”. Todavia “Pedagogia do Oprimido” tornou-se material altamente subversivo.

Fui em 1976 para os Estados Unidos para o doutorado em educação superior na The ia State University através do Plano Intensivo de Capacitação Docente – CA- PES, brilhante ideia executada pelo ministro do planejamento Reis Veloso. Graças a esse projeto temos atualmente pós-graduação de norte a sul do Brasil Lá, na primeira aula sobre currículos, Dr Wiliam Toombs classificava a abordagem dos vários tipos, a saber, o acadêmico, o profissionalizante, e dissertava sobre cada um deles, quando a certa altura ele me surpreendeu dizendo “temos também o humanismo no curriculo” cujos representantes são Paulo Freire e Ivan Illich, este último autor do livro “Sociedade Sem Escola”. Podem imaginar minha surpresa em saber que o subversivo Paulo Freire era nos Estados Unidos o “humanista”? Isso em 1977. E “Pedagogy of the Opressed” era um livro bem vendido.

Conheci o prof. Paulo Freire e pude relatar-lhe o episódio acima. No Governo de Dr. João Durval Carneiro, o secretário de educação e cultura era Dr. Edivaldo Boaventura e o diretor do Departamento de Educação Continuada era o prof. Laerte Lima. Aquela época a Universidade Federal da Paraíba desenvolvia um arrojado programa de Educação de Adultos. Convidamos a UFPB para desenvolver um curso de especialização em educação de adultos. Uma das semanas do curso foi trabalhada pelo prof. Paulo Freire. Atualmente as ideias de Paulo Freire são combatidas à base do “não li, não gostei”. O analfabetismo continua.

(Alírio de Souza)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 13.05.2019

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