Salve Chico !

02/06/2019 às 3:01 | Publicado em Artigos e textos, Midiateca, Zuniversitas | 1 Comentário
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Domingo, dia de música. Chico, o maior artista vido deste país, ganhou recentemente um Camões. A música de hoje é atualíssima. Apesar de você, amanhã há de ser outro dia !. Brindo também os que por aqui passarem com mais uma boa crônica do professor, compositor e poeta baiano Jorge Portugal.



CHICO BUARQUE DE CAMÕES

Gente boa, pode escrever numa pedra: a Música Popular Brasileira é uma das três expressões culturais mais ricas, profundas e sofisticadas do planeta! E a sua conquista do mundo começou com o mestre-maior de todos nós, Dorival Caymmi, com sua “O que é que a baiana tem?”, pela interpretação de Carmen Miranda.

Ele, Caymmi, continua no meu altar mais elevado, mas pensem na poesia-filosófica de Caetano, na metafísica socioespiritual de Gilberto Gil, nas profecias poéticas de Raul, no existencialismo universal do Clube da Esquina e na lírica-social de Chico Buarque. Por favor! Tem muito mais, fico só com os cinco.

Pois bem, semana passada, um deles, justo Chico, foi agraciado com o Prêmio Camões, mais importante da literatura lusófona, pelo conjunto da obra. Falamos da prosa de ficção (Estorvo, Budapeste etc), dramaturgia (Gota d’Água, Calabar etc.), contos, crônicas e, sobretudo para este escriba, a poética-letrística musical.

Assim que soube da notícia, começou o tumulto na minha cabeça: vou escrever sobre esse fato, mas… Mariana, minha editora, só me permite 2.700 caracteres com espaço. O que fazer? Tentar escrever sobre tudo nesse cantinho exíguo de página, não dá!

Recorri, na quarta-feira, à ajuda dos pré-universitários do curso “Clássicos” no Acadêmico, lotado de meninas, e perguntei: quem aqui já ouviu falar de Chico Buarque? 80% da turma levantou a mão. Beleza! Emendei: e quem já leu algum livro dele? 100% da turma, não. Arrisquei por fim: e quem sabe cantar uma música de Chico? Uma garota esperta responde: aquela… “agora eu era herói…” outra falou timidamente: Cálice?

Aí, então, eu decidi: no espaço de Mariana mal vai dar para eu escrever sobre o cancioneiro lírico de Chico. Começo por Januária, daquele garoto de 18 anos que descreveu a musa com uma das metáforas-prosopopeias mais belas de toda a MPB: “Toda gente homenageia / Januária na janela / até o mar faz maré cheia / pra chegar mais perto dela..”; avanço algumas casas no jogo das décadas e chego a Olhos nos Olhos, quando o poeta, encarnando a mulher abandonada pelo seu homem confessa no estertor do extremo: “Dei pra maldizer o nosso lar / pra sujar teu nome, te humilhar / e me vingar a qualquer preço / te adorando pelo avesso / pra provar que ainda sou tua..”; caminho um pouco mais na esteira do tempo e encontro o Chico dos quarenta contemplando em segredo total uma musa que encanta a todos e se encanta a si mesma, com a imagem refletida nas vi- trines da cidade: “Passas em exposição / passas sem ver teu vigia / catando a poesia que entornas no chão…” Pronto. Ainda tinha Sobre Todas as Coisas e, pelo menos, Sinhá. Todavia, o espaço que Mariana me deu acaba de acabar.

(Jorge Portugal)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 30.05.2019

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