JOÃO E A CIVILIZAÇÃO

11/07/2019 às 3:32 | Publicado em Artigos e textos, Midiateca, Zuniversitas | 3 Comentários
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Foi-se o grande compositor que revolucionou a música brasileira e a fez ultrapassar nossas fronteiras. Um dos melhores textos que li nesses últimos dias sobre sua partida foi esse artigo do Professor, e também compositor baiano, Jorge Portugal. Dedico este post ao meu irmão Marden que curte a bossa nova desde seu nascimento e sempre que pode nos embala em seu violão com as músicas do grande mestre JOÃO GILBERTO !

 

JoaoGilberto


JOÃO E A CIVILIZAÇÃO

Em ocasiões diferentes, claro, fiz a mesma pergunta a alguns “monstros sagrados” da MPB sobre o momento em que ouviram pela primeira vez Chega de Saudade, cantada por João Gilberto. As respostas foram impressionantes pela precisão da memória, o local em que estavam, a sensação experimentada e a decisão que tomaram para, de alguma forma, adquirir um violão.

Todos estavam na faixa de 17, 18 anos e elegem esse fato como o que mudou para sempre cada vida. Tanto Chico como Gil, Paulinho da Viola e Caetano. Este último, já mais tarde, lapidou o verso “melhor do que tudo só mesmo o silêncio/ melhor do que o silêncio só João”, e sentenciou: “O Brasil ainda não mereceu a Bossa Nova”.

Sim, gente, a melhor contribuição que demos ao mundo foi (e é) a nossa Música Popular, ímpar no planeta. E, dentro da Música Popular, a Bossa Nova, nosso instrumento civilizatório. A Bossa mudou a forma grandiloquente das interpretações, costurou a metalinguagem em muitas composições, fazendo música e letra “dialogarem” na canção, influenciou a música no mundo, a começar pelo Jazz norte-americano.

Todavia, como todo processo civilizatório excludente, nunca chegou para todos, em uma nação como o Brasil, em que a escola mal faz a linha de transmissão da cultura, e os mass media fazem da cultura uma mercadoria, apenas. Ilustrando: do- mingo pela manhã, saí de Itapuã para ver meu Téo na casa da mãe, em São Caetano, e contratei a corrida com meu “personal uber”, Admilson.

Entrei silencioso no veículo — ainda sob o impacto da morte de João, no sábado – e ele, percebendo minha tristeza, me perguntou: “Triste, professor, o que houve?” Respondi, ainda desanimado: “A morte de João, Admilson, me pegou em cheio”. E ele: “Que João? Algum amigo seu? Era professor também? Empresário? Político?” Mal acreditando no que ouvia, redobrei a paciência: “João Gilberto, bicho. Cantor. Chamado muitas vezes o pai da Bossa Nova. Nunca ouviu falar?” Ele: “Não. Cante aí uma música que ele gravou”, Cantei: “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça…” Aí ele reagiu: “ah! Essa eu já ouvi. E a conversa estancou.

À noite, Brasil campeão da Copa América. Taça levantada pelo capitão Dani Alves, baiano, juazeirense, conterrâneo de João, portanto. Tive a vã ilusão de que, ao levantar a taça, fizesse menção à memória de João Gilberto, o que poderia despertar a curiosidade de milhões de brasileiros. Qual nada! Na verdade, João ainda faz muita falta a este País que, em muito, nem sabe que ele existiu. Mas… o Brasil um dia merecerá a Bossa Nova. Chega de saudade por hoje.

(Jorge Portugal)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 09.07.2019


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