Canção para dona Elzita e para que todas as mães se reconheçam

03/08/2019 às 3:31 | Publicado em Artigos e textos, Midiateca, Zuniversitas | 1 Comentário
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Em memória de dona Elzita, de minha saudosa mãe e de todas as mães do Brasil, brademos:

“DITADURA E SEUS SEGUIDORES NUNCA MAIS !”

Alerta


Canção para dona Elzita e para que todas as mães se reconheçam Carelos Zacarias

Morta no último dia 25 de junho, aos 105 anos, Elzita Santa Cruz não teve o direito de enterrar seu filho Fernando. Buscou por 40 anos, sem sucesso, alguma notícia sobre o paradeiro do jovem que, como tantos outros, havia desaparecido nos tempos da ditadura. Nessas décadas, Elzita recusou-se a mudar de casa, onde preservava o quarto do filho, e também de número de telefone.

Meses depois de ter seu filho desaparecido em fevereiro de 1974, Elzita escreveu ao marechal Juarez Távora, indagando se era “justo”. “humano” e “cristão” que “um órgão de segurança encarcere, depois de sequestrar, um jovem que trabalhava e estudava, sem que à sua família seja dada qualquer informação sobre o seu paradeiro e as acusações que lhe são imputadas?”. Não era justo, mas assim era o Brasil e por isso Elzita temia o destino de Fernando, que havia caído nas mãos da repressão. Sem se intimidar, junto com Risoleta Collier, mãe de Eduardo, que desaparecera com Fernando, procurou pelos jovens junto aos órgãos de repressão na vá esperança de poder responder ao que havia perguntado ao marechal: “Que direi ao meu neto quando jovem for e quando me indagar que fim levou o seu pai, se ele não tiver a felicidade de ver seu regresso? Direi que foi executado sem julgamento? Sem defesa? Às escondidas, por crime que não cometeu?”.

Quarenta anos depois do desaparecimento de Fernando e Eduardo. que eram estudantes e militantes da Ação Popular Marxista Leninista (APML), suas famílias, enfim, tiveram noticias dos seus destinos. Segundo relatório da Comissão Nacional da Verdade, ambos haviam sido presos e em seguida executados por agentes do DOI-Codi do Rio, que depois incineraram seus corpos numa usina em Campos Goytacazes.

Como outras mães, Elzita não pôde enterrar o seu filho, mas incansável na busca pela verdade, felizmente não teve o infortúnio de ver o vilipêndio pronunciado por Bolsonaro contra sua memória e a de todas as vitimas da ditadura. O chefe do Executivo, após dizer que poderia contar para Felipe, filho de Fernando e presidente da OAB, o que havia acontecido com o seu pai no período militar, numa live enquanto cortava o cabelo, afirmou, irresponsavelmente como de costume, que o estudante havia sumido por uma ação da cúpula da APML.

Elzita e todas as mães e pais de desaparecidos e vitimas da ditadura são a antítese do Brasil de Bolsonaro. Longe desse pais de escárnio e vergonha, o pais que dona Elzita e todas as mães de vítimas do Estado sonharam, a canção que ecoa, e que sabe a esperança, é a que se inspira em Drummond: “Morrer acontece/ com o que é breve e passa/ sem deixar vestígios/ Mãe, na sua graça,/ é eternidade/ Fosse eu rei do mundo,/ baixava uma lei:/ Mãe não morre nunca/ mãe ficará sempre/ junto de seu filho”. Para que Elzita e todas as mães dos que lutam por um pais justo e democrático se reconheçam.

(Carlos Zacarias de Sena Júnior)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 02.08.2019


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