A memória, a escrita e a história ameaçados 

13/08/2019 às 3:05 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 1 Comentário
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Mais uma excelente crônica do Professor Paulo Ormindo (UFBA). Uma breve digressão da história da escrita, de sua origem até os nossos dias.

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A memória, a escrita e a história ameaçados  foto-paulo-ormindo_thumb_thumb_thumb_thumb_thumb

A memória humana é curta. No neolítico, para se conservar a memória de um chefe, se construía um dólmen ou uma estela. Logo o homem se deu conta de que era necessário gravar sua memória. Surge assim na Mesopotâmia, em 3.200 a.C., a primeira escrita de caracteres cuneiformes feita no barro, depois cozido. Para dar portabilidade à escrita, os egípcios escreviam em hastes batidas do papiro e os gregos e romanos, no couro, ou pergaminho.

A escrita, além de preservar a memória _passou a ser um meio de comunicação vencendo grandes distâncias: geográficas, através do correio, e do tempo, através da história. Sem escrita não poderia haver história, de tal modo que as civilizações são classificadas como pré-históricas e históricas. A notação musical já era conhecida dos egípcios. A atual feita no pentagrama surge no século VII com o canto gregoriano. O registro da imagem data de 1826 com a fotografia. do som de 1878 com o disco, e do movimento em 1895 com o cinema. Todos eles têm uma base material: pergaminho, papel, vinil e celuloide.

Entre 1945 e 1953 arqueólogos encontraram em potes em 11 cavernas da Cisjordânia rolos de textos bíblicos em hebraico, aramaico e grego, datados entre o século II a.C. e o ano 70 d.C. O fato de estarem em três idiomas e tão bem guardados demonstra a intenção de preservar uma memória e transmiti-la a gerações futuras. O ar seco da região os conservou. O papel em condições normais dura pelo menos 500 anos, e temos fotos de 190 anos perfeitas.

A gravação magnética foi inventada em 1920, mas só se comercializou a partir de 1946. O suporte magnético é volátil e vídeos e de 50 anos, como os das Copas e a da chegada do homem à Lua, são verdadeiros borrões. Discos ópticos, como CD, DVD e Blue Ray, com validade de apenas cinco anos, estão sendo substituídos por pen drives e nuvens. Ninguém mais escreve cartas, só twitters. limitados a 180 caracteres. As novas gerações não sabem construir um discurso, apenas frases soltas. O Word lê para iletrados textos escritos. Meu bom empregado analfabeto se comunica com todo mundo através do WhatsApp voice, e não quer aprender a escrever. Quando numa farmácia peço para ele soletrar o nome de um remédio ele me diz, vou fotografar e lhe mando!

Mais grave é que a diplomacia se faz hoje por Twitter, e os processos jurídicos e as carteiras de trabalho estão sendo digitalizados em arquivos controlados pelo Estado. Que garantia tem o cidadão de que suas provas não serão apagadas, vazadas ou adulteradas? Nossos dados pessoais e preferências são vendidos pelos cartões de crédito. O que será da história quando os jornais impressos forem todos substituídos por blogs e redes sociais apócrifos? Só restará a história oficial dos vencedores e uma sociedade digital com Alzheimer. Bem-vindos a 1984 de Orwell!

(Paulo Ormindo de Azevedo)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 10.08.2019

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