Saló e a “revolução conservadora” de Bolsonaro 

19/08/2019 às 2:07 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 1 Comentário
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A que ponto chegamos…em tão pouco tempo !

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Saló e a “revolução conservadora” de Bolsonaro  carelos-zacarias_thumb

Ironias mal feitas e escatologias à parte, sete meses de bolsonarismo no governo parecem ser suficientes para qualquer pessoa ter uma avaliação mais ou menos precisa do que é a atual governança. Tudo bem que ninguém devia alegar o direito de dizer-se ignorante sobre quem era Bolsonaro. Politico do baixo clero, deputado irrelevante sobre quem posavam os holofotes apenas quando gerava polémicas, o atual presidente do Brasil, por sete mandatos e passando por nove partidos, havia se notabilizado por não liderar nenhum projeto e por exaltar a ditadura. entre outras bizarrices. Eleito, deu sequência ao histrionismo que parece surpreender a muitos, embora investido de imenso poder conferido a si para dirigir os destinos do País, não o das pessoas.

Bolsonaro presidente não é mais do que o deputado. Obcecado por temas comportamentais relativos à sexualidade, agora devidamente complementado pela escatologia, o presidente cultiva uma pulsão de morte que só se viu nos aterrorizantes regimes fascistas ou protofascistas europeus. José Millan Astray, um dos generais mais importantes do franquismo, por exemplo, costumava gritar “viva Ia muerte, muera Ia inteligencia” ao mesmo tempo em que oferecia aos recrutas que se uniam à Legião uma nova vida que deviam pagar com a morte. Neste quesito, o apreço do ex-capitão pelo coronel torturador Brilhante Ustra, sempre exaltado como herói, diz muito do que é este governo.

O bolsonarismo, que por um lado tem aliados que entoam um discurso ultraneoliberal que promete tirar o Estado do “cangote do cidadão”, por outro conforma uma prática totalitária que põe o governo a tentar interferir em todos os setores da vida de qualquer brasileiro. Quando tenta desregulamentar aquilo que se constitui nos mínimos marcos civilizatórios do Brasil, Bolsonaro mostra sua face mais perversa. Inclui•se o desprezo pela floresta amazónica e pelo destino dos povos originários, a alteração das normas que regem o trânsito, com direito a supressão da obrigatoriedade das cadeiras de bebé e dos radares, o ataque ao conhecimento e as ciências, com baixas e vilipêndio continuo sobre as universidades e órgãos prestigiosos como o IBGE, a Fiocruz, o ICMBio e o INPE. Não há setor que esteja isento da intervenção governamental e é esse o motivo que a ironia feita com excrementos também denuncia as obsessões do bolsonarismo.

Avança a “revolução conservadora”, prometendo varrer o comunismo do Pais, como Bolsonaro voltou a repetir esta semana, quem sabe sonhando em exibir cabeças de adversários e inimigos como troféus. como fizeram Franco e Millán Astray em suas campanhas no norte da África, ou então obrigando seus adversários a comerem seus próprios excrementos, como fizeram os fascistas retratados na clássica obra Saló ou os 120 dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini.

(Carlos Zacarias de Sena Júnior)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 16.08.2019

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