Será que ainda sou o herói dos meus filhos ?

20/08/2019 às 2:34 | Publicado em Artigos e textos | 1 Comentário
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Dedico esse post com muito carinho a Rosana e a Camilla. Jânio Ferreira mais uma vez escrevendo poesia em prosa.

escultura-coração


Será que ainda sou o herói dos meus filhos ? JanioFerreira

Apesar de soar meio cliché. nunca liguei para datas que o calendário define como apropriadas para exaltar nascimentos, mortes, mães, pais e que tais, embora não tenha nada contra quem adora celebrá-las. Só que, aqui pra nós, qual o sentido de levar alguém para almoçar somente quando a folhinha diz que aquele é o seu dia? De que adianta acender uma vela para alguém que partiu, apenas no último dos 365 sóis que cruzam sua lápide? Qual o propósito de se desejar uma nova era só em 31 de dezembro, se um novo ciclo se inicia todo dia?

Pois muito bem, domingo passado foi a vez dos pais. E, como tal, fui alvo de várias mensagens de lojas onde comprei, de empresas aéreas em que voei, de operadoras de cartões que ainda não paguei, e até de estabelecimentos onde nunca pisei. Na sequência, recebi alguns telefonemas das queridas tias que me restam, e respondi aos “eu te amo” dos meus filhos, com um: “eu também”.

Mas, na boa, agora que eles estão com a idade que eu tinha quando os tive — e que eu já estou com mais do dobro de quando os ninei o que me interessa saber de verdade é se continuo fazendo jus às mensagens que os três, ainda crianças, me escreviam — e que até hoje estão coladas no meu armário —, do tipo: “pai, você é o meu herói!”.

E aí, diante do espelho, miro minhas rugas e me pergunto se, hoje, no lugar da exclamação escrita com o hidrocor do orgulho. não estaria uma seca virgula da decepção antecipando um “mas.„”, cujas reticências abrigariam mágoas que prefiro desconhecê-las.

Claro que, amáveis como são, eles continuarão dizendo que ainda sou o mesmo Super-Homem que transformava um simples lençol de lã numa poderosa capa que os protegia das trovoadas de dezembro, embora eu saiba que estou mais para o velhinho do desenho UP — Altas Aventuras já que a qualquer momento posso sair voando na minha cadeira de balanço. levado por coloridos balões.

Mudando de assunto, semana passada meu amigo Rogério Xavier, cordelista de primeira, esteve na Flipelô e filmou um papo com minha querida Mabel Velloso. E ai, quando ele disse que era de Paulo Afonso, ela se declarou minha leitora e completou dizendo que até recortou um dos meus textos (O Menino Que Libertava Pipas) para um trabalho com seus alunos. No final, falou: “não sei se ele vai se lembrar de mim”.

Poxa, dona Mabel, como eu poderia me esquecer de uma pessoa que transborda a doçura das primeiras águas do Subaé (onde sua Cano se banhou) e do São Francisco (onde minha Cecília nadou)? A propósito, guardo uma linda mensagem que você me mandou quando escrevi, em 2007, um texto sobre nossas duas rainhas e suas coroas em forma de coque, que foi fundamental para que eu botasse fé na leveza de meus dedos. Um grande e carinhoso beijo.

(Jânio Ferreira Soares)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 17.08.2019

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