Passividade

30/08/2019 às 3:28 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Esse texto, de autoria de Paulo Muzell, me foi enviado por e-mail por Luiz Henrique Pantaleão, meu grande amigo Panta, dos velhos tempos de ECT. Traz um bom resumo dos tempos nebulosos atuais.


PASSIVIDADE

A gente sabia que num país de enormes desigualdades, com baixo nível de renda e de escolaridade, a consolidação de uma sólida consciência cidadã sempre foi algo remoto, distante. A história não deixa nenhuma dúvida sobre a fragilidade da nossa democracia, cujos direitos e a propalada igualdade são meras formalidades.
O que a gente – eu, pelo menos – não imaginava é que uma parcela representativa das nossas classes médias fosse tão estúpida e reacionária a ponto de odiar os desvalidos, os negros, os LGBT, os índios e incapaz de reconhecer e até ser contrária aos avanços ocorridos no longo ciclo dos governos petistas nas áreas da educação, saúde, assistência social, além do expressivo aumento do poder de compra do salário mínimo.
Uma burlesca farsa comandada por uma grande mídia canalha associada com instituições apequenadas – judiciário, congresso, STF, MPF – mandaletes de uma oligarquia atrasada, derrubaram uma presidenta honesta, legitimamente eleita, um pouco inábil e desastrada, é verdade, colocando em seu lugar um inexpressivo vice traidor – um ficha suja – que veio para acelerar a retirada dos direitos dos trabalhadores e a entrega das riqueza e do patrimônio nacional;
O povo não reagiu;
Entregaram a EMBRAER, aprovaram a reforma trabalhista, um criminoso ataque a históricos direitos, aceleraram o programa de privatizações que prepara a entrega ao setor privado os correios e a produção e distribuição da água;
Aceleram a entrega do pré-sal – a maior riqueza nacional – para o capital internacional;
Novamente o povo não reagiu;
Depois, no que certamente é o maior e mais desastroso equívoco na nossa história, elegeu um presidente despreparado e destemperado, um fujão que escapou dos debates durante o processo eleitoral, um inimigo dos direitos humanos e da democracia, portador de evidentes sintomas de graves psicopatias;
O povo também não reagiu;
Bolsonaro odeia os negros, os índios, os pobres, os LGBT;
Entregou para os americanos a base de Alcântara;
Está promovendo um criminoso desmatamento da Amazônia;
Acha que violência se combate com violência: “bandido bom é bandido morto”, afirma. Provavelmente não enquadra na categoria “bandido” os milicianos;
Encaminha a toque de caixa a MP da Liberdade Econômica, que retira mais direitos e garantias dos trabalhadores: o Brasil volta aos tempos da escravidão;
Atenta contra a saúde da população brasileira ao defender o uso indiscriminado de agrotóxicos;
É mais que submisso, é um capacho dos interesses norte-americanos;
Assume descaradamente práticas nepotistas;
Para impedir a apuração de fortes indícios de irregularidades cometidas por familiares seus, interfere ilegalmente nas atividades de órgãos de Estado – Receita Federal, Polícia Federal, Ministério Público Federal – para impedir o prosseguimento das investigações;
Apoia abertamente a ditadura militar e elogia e homenageia odiosos torturadores;
Ainda assim o povo não reagiu.
É possível entender tamanha passividade? Nosso povo não vai reagir? Até quando os partidos de oposição vão alimentar a vã esperança de que um Supremo acovardado e apequenado vai libertar Lula? Será que podemos ter alguma esperança que a energia libertária das revoltas contra opressão lá da Guerra dos Palmares, do Levante dos Tupinambás, da Balaiada, da Revolta do Vintém e da Guerra dos Canudos poderá renascer? Eu penso como Saramago que afirmou: “sou um otimista pela vontade e um pessimista pela razão”.

(Paulo Muzell)

 

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