Lula Livre

18/11/2019 às 2:19 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Um bom artigo de Cláudio André de Souza para reflexão sobre o atual cenário político do país.

Exclamacao


Lula Livre

Três traumas jogaram o país em uma crise democrática sem proporções nos últimos anos. O primeiro se deu ao final do segundo turno de 2014, quando o então candidato derrotado Aécio Neves (PSDB) insistiu na tese do impeachment, promovendo uma grande conspiração para a derrubada de Dilma Rousseff (PT). A presidente reeleita tentou refundar a sua governabilidade, mas encontrou uma trama bem articulada pelo vice-presidente para derrubá-la em um golpe parlamentar às antigas.

Depois disso, veio a descoberta de que o presidente Michel Temer (MDB) estava imerso em escândalos de corrupção, algo cristalizado pelas investigações que levaram à prisão de Eduardo Cunha e à delação da JBS, forçando o presidente a responder a duas denúncias da PGR, vetadas, porém, pelo plenário da Câmara dos Deputados.

O terceiro trauma foi consumado com o julgamento em velocidade recorde de Lula, pulando uma fila de 264 processos na segunda instância, para o levar à prisão em abril do ano passado. Após a #Vazajato, há evidências de que os procuradores jamais tiveram nas mãos elementos probatórios ligando Lula aos esquemas de corrupção na Petrobras. A fragilidade jurídica levou uma parte dos eleitores a acreditar em uma nova conspiração para tirar Lula das eleições passadas.

Esses três fatos associados nos levaram a uma crise de representação. Em 2018, o país elegeu presidente um deputado do “baixo clero” e três governadores dos maiores colégios eleitorais (São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, respectivamente) ancorados em um discurso anticorrupção e, ao mesmo tempo, crítico às regras do jogo. Como pano de fundo, a “nova direita” produziu a negação dos pilares fundamentais da democracia representativa e do processo de igualdade como um valor universal em nossa Constituição.

A saída provisória de Lula da prisão – como um mecanismo previsto na Constituição em respeito aos trâmites recursais – impacta a legitimação da competição e da representação política, já que o ex-presidente é o principal líder de um dos polos do eleitorado brasileiro, já liderado anteriormente pelo PTB de Vargas e pelo PCB de Prestes.

Ao contrário dos “males” da polarização observada por alguns analistas políticos, a liderança de Lula nesse momento fornece representatividade ao sistema político, havendo, portanto, uma combinação de interesses entre políticos, partidos e eleitores, algo desejável e necessário às democracias representativas.

Mesmo diante da inelegibilidade do ex-presidente, a sua influência é decisiva para a reorganização interna do PT e conquista de votos da esquerda para as eleições de 2020. Lula tem consciência de que dificilmente será candidato em 2022, mas, sem dúvida, será um dos líderes políticos mais influentes até lá.

(Cláudio André de Souza)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 15.11.2019

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