Abstinência mental

14/01/2020 às 3:03 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Excelente esse artigo de Claudio Carvalho. Confiram!

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Abstinência mental

O historiador britânico Eric Hobsbawn chamou o século XX de “A era dos extremos”. Com essa expressão, ele qualificou uma época marcada por duas guerras mundiais, uma acirrada polarização política e ideológica com a Guerra Fria e progressos científicos que modificaram radicalmente os costumes numa cultura cada vez mais globalizada. Se vivo fosse, imagino o que diria sobre a escalada do fascismo e da intolerância.

Com a queda do muro de Berlim e a desintegração da União Soviética, a utopia socialista sumiu do horizonte e em seu lugar o que ocupou a frente da cena foi o predomínio do “self”, de uma subjetividade centrada num “eu” hipertrofiado e narcisista. Os conflitos e as contradições da vida coletiva, antes mediados pela política, cederam lugar a um tipo de individualismo desconectado do passado e sem perspectivas em relação ao futuro. A sensação de desamparo e desalento gera depressão e transtornos de ansiedade.

Essas mudanças foram potencializadas pela internet ao permitir uma circulação de informações numa quantidade e velocidade estonteantes, tornando o mundo mais complexo ao mesmo tempo em que comprimia o tempo necessário para compreender e processar tanta informação. O trabalho mental, necessário para produzir conhecimento, foi substituído por uma busca ansiosa por reconhecimento e autoafirmação de um “eu” voltado para si mesmo e cada vez mais distanciado do outro. Isso é a antipolítica.

Os ideais universalistas de pertencimento à raça humana ou a uma classe social se dispersaram em múltiplas identidades, comunidades e coletivos. Nem a religião foi capaz de religar os caquinhos de uma fé despedaçada e substituída por uma promessa de gozo, aqui e agora. As seitas fundamentalistas replicam seus fanáticos e o religioso sai de cena. O senhor é meu pastor, nada me faltará! É o rebanho gozando de seu status de manada.

O Brasil ocupa posição de vanguarda no atraso. Qualquer coisa era melhor do que o PT. “Qualquer coisa” chegou e o prognóstico é desalentador. A ministra Damares, certamente depois de uma conversa com Jesus na goiabeira, lançou uma campanha de abstinência sexual para reduzir a gravidez na adolescência. Num país onde meninas desamparadas sofrem de infecção urinária crônica a doenças sexualmente transmissíveis por falta de cuidados básicos, seria cômico, se não fosse trágico, tamanha estupidez.

O curioso é que a ministra não está sozinha nessa ciranda. Em tempos de “ninguém solta a mão de ninguém”, a abstinência mental chegou antes da sexual e os “coletivos” podem dançar em torno da fogueira que queima a Constituição, celebrando a criminalização do racismo, da homofobia e do feminicídio. A fumaça exala o cheiro das Marielles e dos jovens de Paraisópolis. Mas as selfies garantem a existência. Feliz ano velho, abstinentes!

(Claudio Caralho)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, ontem.

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