Ninguém sairá o mesmo desta quarentena

31/03/2020 às 2:13 | Publicado em Artigos e textos, Espaço ecumênico, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Um dos melhores textos que li sobre a realidade atual. Parabéns Fernanda Torres, sempre lúcida e didática. E a gente ainda fica com vontade de ler o livro…

Exclamacao


Ninguém sairá o mesmo desta quarentena

Devo a João Ubaldo Ribeiro a indicação do livro “A Distant Mirror”, da historiadora americana Barbara Tuchman, sobre o calamitoso século 14 na Europa. Trata-se do período da peste negra, originada na Ásia central, que dizimou dois terços da população europeia e deu um fim à Idade Média.

É uma leitura e tanto para a quarentena de agora.

A Guerra dos Cem Anos, o príncipe negro e a Batalha de Crecy; os dois papados, um romano e um francês empenhadíssimo no ignóbil mercado de indulgências; a corrupção na Igreja e os primeiros cristãos indignados que, décadas depois, influenciariam a reforma protestante de Lutero. Está tudo lá.

Mas nada, no relato de Tuchman, se compara às procissões de penitentes em meio à peste. “Monty Python em Busca do Cálice Sagrado”, do Monty Python, e “O Incrível Exército de Brancaleone”, de Mario Monicelli, têm cenas impagáveis sobre o tema. A diferença é que a autora descreve o caos com realismo e minúcia desoladora.

Clamando pela proteção do Senhor, os tementes se juntavam às romarias ainda sãos, caíam doentes no decorrer do trajeto e terminavam o périplo em covas rasas. Foi necessário o alarmante milagre da multiplicação de óbitos para que a Igreja suspendesse missas, procissões e aglomerações de fiéis.

Sete séculos depois, Edir Macedo solta um vídeo na internet afirmando que o medo da Covid-19 é obra de Satanás.

Não satisfeito, procura fundamentar a tese com o depoimento de um patologista, doutor Beny Schmidt, que deveria ter o registro de CRM cassado.

“Morrer é o destino humano”, diz o doutor. “A gente morre de hipertensão, de diabetes, de câncer e de hemorragia, mas de coronavírus a gente não morre, porque Deus não quis.”

Sete séculos depois da disseminação da peste, Jair Bolsonaro desce a rampa do Planalto para trocar gotículas com seus seguidores como se não houvesse amanhã

O Posto Ipiranga da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, preferiu não comentar a indiferença do superior à curva exponencial de contágio pela Covid-19. O ministro tem crédito, estaríamos perdidos na mão do Weintraub. E os panelaços falaram por ele.

Jair governa para o próprio gueto. Se reinasse na Europa do século 14, pregaria o Apocalipse e incitaria o autoflagelo em cortejos suicidas.

Janaina Paschoal pediu a cabeça do presidente depois do abraça e beija dominical. Arrependida confessa do voto que concedeu ao capitão, a deputada representa uma fatia considerável de eleitores conservadores que começam a perceber que o ódio ao PT não pode servir de justificativa para o apoio a um furioso.

A aliança entre o ultraliberalismo econômico e o populismo de extrema direita enfrenta seu primeiro desafio com uma crise que mais parece lição divina.

A iniciativa privada será incapaz de substituir o Estado no atual salve-se quem puder. Todos os países do mundo estão abrindo as torneiras. Paulo Guedes será obrigado a agir na direção contrária de tudo o que aprendeu em Chicago e sonhou e planejou e prometeu. Duro acaso.

Torço para que o centro ressurja dessa emergência. E que o coronavírus, a exemplo da peste negra na Europa do século 14, venha abreviar o obscurantismo medieval travestido de liberal em que nos metemos.

É isso ou a procissão do “FODA-SE” dos possuídos do domingo passado, dispostos a se imolar pelo capitão. Na Europa trecentista, pelo menos, morria-se por Deus.

Há método na loucura de Macedo e de Messias. Quanto mais fatalidades, mais temor ao Altíssimo e mais Altíssimo para confortar. O bispo tem razão, o medo é a arma de Satanás.

No lado pagão, é preciso reconhecer, nota-se o mesmo estado de negação. Por não se sentirem ameaçados pela doença, os jovens descumprem o resguardo e lotam praias, bares e baladas. O egoísmo também serve de instrumento para o Capeta.

Ninguém sairá o mesmo desta quarentena. Daqui a quatro meses atingiremos, dizem, a imunidade de rebanho. Enterrados os mortos, espero que voltemos às ruas mais humanos e menos afeitos a fundamentalismos religiosos, políticos e econômicos.

Talvez esse vírus seja mesmo o recado de Deus. Deus natureza cansado do ódio, da ignorância, da irracionalidade, da brutalidade, da violência e da vileza dos mitos e profetas. Um Deus farto das trevas e ansioso por um Renascimento.

Aconteceu na Europa, 700 anos atrás.

(Fernanda Torres)


Distant_Mirror

CORONAVÍRUS, UMA ABORDAGEM ANTROPOLÓGICA

30/03/2020 às 3:50 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 1 Comentário
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Um dos melhores textos que li sobre o vírus, sob outro prisma. Recebi de uma grande amiga de Salvador-BA por zapzap. Talvez classificasse como “uma abordagem sociológica”, mas deixo para os especialistas essa questão bem menor diante do conteúdo do artigo.

Como ela diz no início: pega teu copo, senta um pouco e presta atenção !

pergunta


CORONAVÍRUS, UMA ABORDAGEM ANTROPOLÓGICA

pega teu copo, senta um pouco e presta atenção nessa, meu camarada.

“as pessoas devem ficar em casa”, recomenda o coro, no teatro a céu aberto, vocalizando num megafone.

e lá vão as pessoas, obedientes,  trancafiarem-se em suas casas.

vemos, nas varandas e nas sacadas italianas, as pessoas tomando vinho, cantando óperas, corificando o bella ciao.

beleza: varanda ok, vinho ok, sobrancelha ok.

aí você olha aquilo e fala: “vejam, as pessoas!”

ilze scamparini, coração sangrando, chora pelas pessoas; guga chacra, todo arrepiado, vai aos prantos pelas pessoas.

compreensível, são seus iguais.

o vírus, insensível, nômade e ubíquo, pilotando sua retroescavadeira anárquica, derruba fronteiras e invade países.

espera passar o carnaval, que ele não é muito de festas, e chega ao brasil.

“as pessoas devem ficar em casa”, grita o guarda municipal, com o apito na mão, numa praça em são paulo.

aí surgem as perguntas, tipicamente brasileiras: “onde é a minha casa?”, indaga o sem-teto.

“o que é uma pessoa?”, pergunta o “menino de rua”.

questões enigmáticas.

marcel mauss, antropologizando a parada, tentou responder à pergunta do garoto andrajoso, escarafunchou diversas culturas mundo afora e saiu mais confuso que o moleque  descamisado, ouça-o:

“são raras as sociedades que fizeram da pessoa humana uma entidade completa, independente de qualquer outra, exceto de deus”.

hummm . pessoa humana?

e tem pessoa inumana?

heidegger ainda tentou organizar a coisa, categorizando essa abstração nas formas ônticas e ontológicas.

mas sabemos que o velho martin é como o velho guerreiro e, tal qual o chacrinha, veio mais para confundir do que para explicar.

nada é mais didático do que aquelas fotografias em preto e branco dos pretos estadunidenses marchando pelas ruas com um cartaz no pescoço onde se lia: “i’m a man.”

hummm .

essa doeu hein, man?

fanon, o gigante, já havia dito que o homem negro não é um homem, é um homem negro.

e há, ainda, mesmo depois de fanon, quem se pergunte: “por que diabos uma pessoa tem que gritar que é uma pessoa?”

e você aí, todo sabichão, achou que sabia essa.

mas… você tá redondamente enganado, meu camarada.

há as pessoas e as não-pessoas.

recorda-te que o estado de direito brasileiro, época escravagista, já havia categorizado o negro como um semovente.

logo, conclua descárticamente, uma não-pessoa-humana!

nada como um vírus para te ensinar o que lhe ocultaram na escola.

agora, imagina você que algumas pessoas, obedecendo ao guarda da esquina, estão em quarentena em casa; porém, com as suas empregadas domésticas que, obviamente, aquarentenaram-se involuntariamente na casa alheia.

eis aí as não-pessoas, tal qual o sem-teto e o “menino de rua”.

lembra-te que lauro jardim nos relatou que um casal de são conrado está trancafiado em casa sem contato com “outras pessoas”?

com o médico eles só falam ao telefone, relata o sabe-tudo.

o diabo é que a mulher que lava os pratos dessas pessoas estava lá, lavando pratos e fazendo a mamadeira do casal de marmanjos.

lembra que eles não tinham contato com “outras pessoas?”

então, percebe a placa gritando no pescoço daquela mulher de avental? “i’m a man!”

na casa da isis valverde flagraram uma mulher negra, torneira da pia aberta, com a mesma placa.

uma lava-pratos acaba de morrer na casa de um casal coronavirizado no ridejanêro.

é só o começo.

ilze scamparini e guga chacra, até agora, não derramaram uma única gota de lágrima.

percebe?

em brasília, um burguezóide, vindo da suíça com a esposa, caronavirizados, resolveu desfilar pelas ruas da capital, e o sacana, ignorando uma ordem do chefe do executivo local, foi ao show do maroon 5.

“am i wrong”?, ele cantava com a multidão, jogando saliva virótica em seus colegas de classe, todos pessoas.

mas ele, claro, estava ali para demonstrar que era ainda mais pessoa do que aquelas pessoas; eis a razão da sua insolência.

o mesmo fez um empresário em trancoso, ignorou o aviso do guarda e foi à praia.

“nada que um mergulho no mar não resolva”, zombou.

no brasil tem as pessoas, as não-não pessoas e as superpessoas; estas, são quelas dos camarotes vips.

esclareçamos logo que o textão tá longo: a definição de pessoa vem do teatro, e designa não o ator, mas o personagem que ele personifica.

persona é mais a máscara que o mascarado.

e no teatro do absurdo brazuca, os papéis estão muito bem definidos.

há os figurões, os figuraças e os figurantes.

pessoas, superpessoas e não-pessoas.

dessas últimas os metrôs, os ônibus e os trens estão abarrotados no horário de pico.

“as pessoas devem ficar em casa”, lembra?

se as pessoas ficam em casa, quem lhes leva o lanchinho para beliscar durante o intervalo de uma série na netflix e na globoplay?

um robô? um drone, uma libélula com o macacão da firma?

ora, uma não-pessoa, montada numa bike enferrujada e carregando uma caixa quadrada nas costas.

pra que essa não-pessoa coma é preciso levar comida para as pessoas comerem, ou cozinhar pra elas e fazer aviãozinho para que elas engulam sem reclamar.

outro dia uma não-pessoa quase se mata nadando contra uma enchente para levar o sushi para uma pessoa ilhada em casa.

concluindo: a cidade, ou a rua, como a nomeia o roberto damatta, tá cheia de puteiros, botecos, consultórios de psicologia e farmácias, e as pessoas estão cada vez mais doentes, solitárias e tristes.

a casa das pessoas é como a gaiola de um pássaro, lá as pessoas não cantam, não dançam e não fodem.

vai ser muito difícil para as pessoas se adaptarem a elas mesmas, em pouco tempo todos passarão a gritar nas varandas, saudosos da solidão compartilhada na multidão.

vão preferir voltar aos puteiros, aos botecos e às farmácias.

morrerão abraçados, espirrando e cuspindo uns nos outros; as personas precisam do palco, ou do picadeiro, ou da área vip.

em casa não dá. há espelhos demais, e ninguém vai botar uma máscara para ficar sentado na frente da TV e, sem a máscara, o que diferencia uma pessoa de uma não-pessoa?

o cabra do show do maroon 5 e o praieiro de trancoso não guentaram nem meia hora.

um vírus, amigo, a porra de um vírus dando uma aula magna de antropologia social e sambando na cara da pessoa humana.

palavra da salvação.”

(Lelê Teles)

Dentro de um Abraço – Jota Quest

29/03/2020 às 3:24 | Publicado em Midiateca | 1 Comentário
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Domingo: música de qualidade. O melhor lugar do mundo é dentro de um abraço !


Bolsonaro acabou, é hora de buscar alternativas

28/03/2020 às 2:36 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 2 Comentários
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Se você está com um problema, por que não encarar, tratar e resolver? Tem gente que diz que esse não é o momento, etc, etc… Mas nesse caso específico, tal qual a pandemia, o tempo urge ! Cada dia, cada hora, cada minuto, cada segundo que um desequilibrado se mantiver no mais alto cargo da República, pior para o país e seu povo. O Professor Carlos Zacarias de Sena Júnior, da UFBA, nos dá mais uma aula de História e nos alerta nesse bom artigo sobre os perigos que passamos atualmente no Brasil, defendendo com veemência o afastamento do maior mandatário.

Alerta


Bolsonaro acabou, é hora de buscar alternativas

Há alguns dias, o jornalista Mario Sergio Conti escreveu na Folha de S.Paulo um corajoso artigo defendendo o afastamento de Bolsonaro. Quando importantes jornalistas do establishment e grandes grupos econômicos se movem para depor aqueles que ajudaram a eleger, as estruturas se abalam quase que com a mesma intensidade que acontece quando as massas se movem através de lutas e greves. Isso acontece quando a correlação de forças está prestes a se alterar ou aquilo que até então existia chega num ponto de impasse, cujas saídas, embora imprevisíveis em toda a sua extensão, precisam ser buscadas.

Conti defende que Bolsonaro “não tem jeito”. Por sua “ignorância vaidosa, o gosto pelo sórdido e o exibicionismo bufo”, que estariam entranhados em sua personalidade, lhe impedindo “mudanças racionais”, algo que lhe tornaria “impermeável ao diálogo franco, a estudar e aprender, porque se orgulha de sua mente miúda e alma perversa”, Bolsonaro teria se convertido num problema de saúde pública para o país. Então defende que o presidente precisa ser afastado por qualquer meio, pois com uma pandemia que está prestes a matar milhares de pessoas e atinge em cheio um “Brasil frágil” que ainda por cima tem um presidente que “abraça seu rebanho”, faz piada e tripudia do cenário, não haveria outra saída senão seu afastamento.

Assumindo a necessidade para a consumação do ato, Conti especula sobre duas possibilidades: a primeira em que “um setor parrudo da elite inventaria um rito sumário para outro impeachment. Algo como se fez com Dilma Rousseff” mas com uma “pirueta parlamentar” a ser “perpetrada na velocidade da luz” e com “gambiarras jurídicas providenciadas pelo Supremo – que não se furta a essas tramoias”, ou seja por “um golpe” (sim, ele admite que Dilma sofreu um golpe); e a segunda forma seria a de o Brasil renunciar a Bolsonaro, desobedecê-lo”, como os brasileiros se organizando por sua conta e risco por outros meios. O artigo de Conti pareceu um vaticínio de duas soluções que, combinadas, ganharam o país nos dias seguintes, porque o Brasil começa a funcionar (no caso, deixar de funcionar para conter a pandemia) à revelia dos desejos genocidas do tresloucado capitão, do mesmo modo, em que um setor “parrudo da elite”, que inclui o Congresso, os governadores e frações importantes das classes dominantes, já se movimentam para escorraçar o inepto governante da cadeira presidencial.

Às vezes a história caminha pra frente quando tiranos ou regimes são depostos ou vêm abaixo por meio da força. Foi assim que acabou a República Velha no Brasil em 1930, quando abriram-se as portas para o desenvolvimento e industrialização nos termos de uma revolução passiva, e também quando o MFA em Portugal derrubou uma das mais longas ditaduras do século XX, abrindo as portas para a Revolução. E que assim seja entre nós.

(Carlos Zacarias de Sena Júnior)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 27.03.2020

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