PEC da Morte e coronavírus

09/04/2020 às 3:46 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 1 Comentário
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Posto agora esse bom artigo de Emiliano José onde ele nos recorda da malfadada “PEC da Morte” e faz o devido link com a situação atual.

Exclamacao


PEC da Morte e coronavírus

É do teatro grego a figura do Deus ex machina, o ser surgido inopinadamente, a mexer com tudo, e a provocar uma solução inesperada, imprevista, na trama. O coronavírus é um Deus ex machina. A aparição mortífera, a colocar a humanidade em estado de guerra, não de alerta, é a revelação nua e crua dos resultados das políticas capitalistas neoliberais de austeridade, onde a saúde pública foi largada a um canto e a saúde privada tornou-se centro de acumulação de extraordinários lucros, pouco se lhe dando as condições de saúde das maiorias. Dizer da loucura da PEC do Teto de Gastos, a oposição o fez, com toda força, mas a classe dominante brasileira, sob o acicate dos barões privados da Saúde e da Educação, fez ouvidos de mercador e resolveu sangrar o povo brasileiro, e caminhar para a tentativa veloz, cruel, de destruir o SUS.

Sabia-se: essa PEC da Morte, apropriadamente chamada assim, ao determinar a limitação do crescimento de despesas do governo brasileiro por 20 anos, significava um gigantesco retrocesso nos serviços públicos, especialmente nas áreas de Saúde e Educação, em torno das quais os conglomerados privados sobrevoavam ávidos, insatisfeitos com as polpudas fatias já dominadas. Queriam mais e mais lucros, e nenhuma preocupação com uma educação e uma saúde voltadas às maiorias. Um País assim, entregue a um SUS atacado por todos os flancos, enfraquecido pela perda de verbas desde o dia 13 de dezembro de 2016, quando a PEC da Morte foi aprovada no Senado, sintomaticamente na mesma data do AI-5, editado 48 anos antes, um País assim está desarmado para enfrentar uma pandemia. Não se preparou para isso, embora ela não possa ser vista como uma absoluta surpresa, como tantos cientistas apontam, devido a fenômenos como o SARS e o Ebola.

Não bastasse isso, e ainda temos um presidente inteiramente despreparado para enfrentar uma conjuntura dessa dimensão, a exigir discernimento, coragem, capacidade de decisão e algum grau de razão científica, a acompanhar a média do pensamento mundial e da Organização Mundial da Saúde. Nada. Bolsonaro foi sempre na contramão disso tudo, até mesmo de Trump, seu ídolo, cujas medidas nos últimos dias, por imposição da dura realidade, tentam evitar catástrofe maior, mirando o trágico exemplo italiano.

Os governadores procuram, com destaque para Rui Costa à frente do Consórcio Nordeste, barrar o desastre, tomando medidas enérgicas, corretas, mas com enormes dificuldades face ao constante bate-cabeça do governo federal, paralisado, com o ministro da Saúde dizendo uma coisa, o presidente, outra. Resta-nos esperar, torcer, por alguma iniciativa tendente a colocar todos à mesa para salvar a vida das pessoas e não deixar a Nação ser esfacelada pela barbárie. Que a política, sempre civilizatória, possa propiciar isso. Quem souber rezar, reze. A Deus e aos orixás. Eu não sei. Soubesse, estaria em preces.

(Emiliano José)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 06.04.2020

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