Dois em um

13/04/2020 às 3:35 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
Tags: , ,

Dois dos melhores artigos que li recentemente. Toda a lucidez do Professor Carlos Zacarias de Sena Júnior e a poesia em prosa de Jânio Ferreira Soares. Compartilho agora, prosa poética primeiro.

DSC00257


Pra quem a vida não mudou na pandemia?

Para o calendário, pois os dias seguem avançando sobre aquilo que chamamos tempo, enquanto o tic-tac das horas continua nos empurrando para um destino que tu não sabes e eu também não sei.

Para o Sol, que neste exato instante lança seus primeiros raios em mais uma manhã deste assustado abril, que doura coqueiros e reflete suas palhas nas paredes e lajotas salpicadas de insetos perecidos enquanto veneravam o lume da derradeira luz de suas vidas.

Para a velha barragem em minha frente, que há anos prende em seu concreto um silencioso São Francisco, coitado, desde sempre aguardando as enxurradas vindas de seus afluentes, rara ocasião em que suas águas são momentaneamente alforriadas e aí seguem soltas até encontrar um mar que elas só conhecem de ouvir falar.

Para os peixes que vivem nessas mesmas águas e, nem aí para resguardos verticais, chapuletam suas caudas na espelhada superfície por onde boiam desprotegidas baronesas em mansos remansos horizontais.

Para os passarinhos, que, com seus cantos em variados timbres, seguem me tirando da cama antes das cinco e me levando pra mais uma semana regada a papos mandettas e performances sonoras caseiras, na sua maioria disputando com as antigas lives transmitidas das dependências do DOI-Codi pelo coronel Ustra e Seus Gorilas Amestrados, até hoje, diga-se, bastante acessadas e elogiadas por militares e simpatizantes do Capitão Cloroquina, que teima que aquela praga que nos assolou em março de 1964 foi só uma alergiazinha.

Para as lagartas de fogo, que acabam de chegar aos montes nas folhas de cajueiros e umbuzeiros e, em breve, sem precisar de nenhum gole de Red Bull, ganharão asas e sairão borboleteando por aí.

Para a Lua cheia, que sempre imperou sobre guerras, pandemias e namorados inspirando poetas e intrometidos a descrevê-la em versos e canções, que tanto podem transformá-la numa simples banda de maracujá quando ela vem saindo por trás de uma serra acolá, como numa nobre porcelana sobre a seda azul, como a definiu um velho e genial baiano ao invocar São Jorge numa madrugada de um distante 1979, nomeando-a sua eterna guia, além de mãe, irmã e filha de todo esplendor.

Para Elis, João Ubaldo, Walter Franco, Leminski, Drummond, Sérgio Sampaio, Raul, Lennon, Belchior, Cazuza e, principalmente, Vinicius e Tom, que, igualmente imunes à contaminação do vírus e dos vivos, não se cansam de cantar na minha vitrola que quando tudo isso terminar, hão de ser milhões de abraços apertados, colados e calados, tudo acompanhado de beijinhos e carinhos sem ter fim, que é pra acabar com esse negócio de você longe de mim.

P.S.: Se der, mantenha a tradição e tome um bom vinho com bacalhau. Depois, seguindo a atual tendência, lave bem as mãos e as panelas e deixe-as de prontidão na varanda.

(Jânio Ferreira Soares)

FONTE:  Jornal A TARDE, Salvador-BA, 11.04.2020


A pandemia e o incontido desejo do “tudo pronto”

“Como posso convencer a minha mulher de que, enquanto olho pela janela, estou a trabalhar?”, diz Joseph Conrad, citado por Antonio Scuratti para descrever o fim de uma era. A frase me vem à lembrança quando passo em revista as discussões em torno da ciência. Do alto do desespero de uma geração que testemunha o próprio ocaso, há quem evoque rezas, orações, simpatias, café, água quente, vinagre ou mesmo cloroquina como antídotos milagrosos para cura da Covid-19. Mas se há alguém que pode trazer a solução, depois de tanto olhar pelas lentes do microscópio como quem estivesse em sua janela, essa pessoa é o cientista.

Nos últimos anos os cientistas foram amaldiçoados no Brasil por governos que reduziram investimentos, retiraram bolsas, dificultaram a pesquisa. Num país que corta bolsas de pesquisadores que estudam o novo coronavírus, não é difícil prever o futuro diante de uma pandemia. Ainda assim, se temos que nos orgulhar do trabalho feito por profissionais da área de saúde que estão na linha de frente do combate à epidemia, há que se lembrar de que esses só existem porque tiveram atrás de si ciência e conhecimento oferecidos em instituições educacionais.

Segundo dados da agência Lupa, o orçamento da Educação no Brasil despencou de R$ 136,4 bilhões em 2015, para R$ 117 bilhões em 2019. Para um país carente em ciência e tecnologia que destina mais de R$ 1 trilhão para o pagamento de juros e amortizações da dívida pública, uma quantia como esta chega a ser ridícula, ainda mais quando se sabe que estão incluídas nas despesas a remuneração de docentes, da educação básica até a superior, além das bolsas de pesquisa que são pagas a estudantes de pós-graduação através da Capes. Na Ciência e Tecnologia, responsável pelo CNPq, encarregado de promover o desenvolvimento científico e que também paga bolsas a estudantes de pós-graduação e de produtividade em pesquisa a professores universitários, a situação não é menos dramática.

Autor do magistral “No coração das trevas”, Conrad tinha dificuldades de convencer a sua mulher que olhar o mundo da sua janela era parte do seu trabalho. Cientistas e pesquisadores precisam de tempo e investimento para produzir resultados. E se já é difícil convencer a sociedade que investir em ciência não é jogar dinheiro fora, imagina quando se tem um ministro da Educação que passa o dia no Twitter a insultar pesquisadores que se queixam de terem suas bolsas cortadas.

O historiador Marc Bloch resumiu o método científico numa breve resposta à pergunta “como posso saber o que vou lhes dizer?”. Ao que concluía: “O espetáculo da busca, com seus sucesso e reveses, raramente entedia. É o tudo pronto que espalha o gelo e o tédio”. É nesse procedimento de sucessos e reveses que serão encontradas as respostas para deter a pandemia. Os cientistas precisam de tempo e de recursos, deixemo-los trabalhar.

(Carlos Zacarias de Sena Júnior)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 10.04.2020

Blog no WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d blogueiros gostam disto: