Dois em um neste fim de sábado

25/04/2020 às 17:19 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Neste fim de sábado, compartilho com os que por aqui passarem dois bons artigos de Professores da Universidade Federal da Bahia (UFBA), na tentativa mais uma vez de entender a realidade confusa que estamos passando em nosso país. Saíram no jornal A TARDE, Salvador-BA, ontem.

Exclamacao


Covid-19 e a Sopa de Wuhan

Recentemente li publicação denominada “Sopa de Wuhan”: pensamento contemporâneo em tempos de pandemia (Aspo, 2020), com textos de Giorgio Agamben, Slavoj Zizek, Jean Luc Nancy, Franco Bifo, Santiago Petit, Judith Butler, Alain Badiou, David Harvey, Byung-Chul Han, Raúl Zibechi, Maria Galindo, Markus Gabriel, Gustavo Yañes González, Patrícia Manrique e Paul B. Preciado. Nesse sentido, os textos trazem o “Estado de exceção” diante do temor da contaminação de Agamben; ao vírus contra o sistema capitalista global de Zizek; “se põe em dúvida toda uma civilização”, segundo Nancy; o planeta e seu “grau de irritação extremo e o corpo coletivo da sociedade padece”, diz Bifo; “o “neoliberalismo se põe descaradamente vestido de Estado de guerra”, de Petit.

Mais adiante, Judith Butler reconhece que o “vírus não discrimina”, mas registra que a exploração capitalista se observa “na supremacia branca, violência contra mulheres, as pessoas queer e trans”; Badiou não crê numa “mudança política significativa em países, como a França”; Harvey trata dos “efeitos econômicos que disparam sem qualquer controle”; Byung-Chul Han sustenta que “voltamos a erigir umbrais imunológicos e fechamento de fronteiras”; Maria Galindo propõe uma “volta a medicina ancestral”, propondo uma desobediência para sobrevivência coletiva; Markus reflete “por que não se escuta quando a cada ano mais de 200 mil crianças morrem por diarreia viral por falta de água potável”, respondendo de imediato porque não estão na Europa; Gonzalez trata da “fragilidade e tirania humana em tempos de pandemia”; Manrique trata de logo que “pensar filosoficamente um evento como estamos atravessando requer, em primeiro lugar, tempo”; por fim, Preciado traz reflexões partindo de Michel Foucault e faz análise da biopolítica e indica que “nossas máquinas portáteis são nossos novos cárceres e nossas casas se converteram em prisões brandas”.

Em suma, que continuemos a exercer a rebeldia de pensar fora dos modelos colonialmente impostos. De fato, o agora nos exige resgatar a solidariedade e o cuidado, fazendo lembrar das falas de Ekedy Sinha da Casa Branca em buscar a “ancestralidade” e do quilombola Antônio Bispo que defende proteger a “intergeracionalidade”. Ademais, as reflexões são válidas diante do dever de ficar em casa, como propõe o constitucionalista Carlos B. Rátis; nas ações (ou omissões) do aparato estatal na “geopolítica do território”, como indica o geógrafo Diosmar Santana Filho; ou “não ouvir o apelo genocida”, como pontua o antropólogo Ordep Serra, em meio a pesquisa que indica que “92% das mães nas favelas dizem que faltará comida após um mês de isolamento” (Data Favela/Instituto Locomotiva). Enfim, vamos em barcos diferentes na travessia, a maioria, sem nada.

(Julio Cesar de Sá da Rocha, Professor e diretor da Faculdade de Direito da FBA)


A primeira vítima é a verdade e todas as outras, os brasileiros

A primeira vítima do novo Covid-19 no Brasil não foi um paulistano, de 62 anos, que faleceu no dia 16 de março, mas a própria a verdade. Num país que tem um presidente que dá uma declaração falsa a cada quatro dias, há chances próximas de zero de a verdade prevalecer, algo que numa pandemia é catastrófico.

Há quase 40 dias dos decretos que determinaram o distanciamento social nos estados e municípios, para se evitar um colapso no sistema de saúde, quase não há dados ou informações da parte de um governo que simplesmente demitiu seu ministro da Saúde em meio a uma pandemia e o substituiu por um empresário que sequer tem a prerrogativa de indicar seus assessores. Nelson Teich, na única coletiva que deu desde a sua posse, voltou a afirmar que o país precisa de um plano para o fim do distanciamento social dentro de um governo que não apresentou plano algum para enfrentar a pandemia. Para piorar, ao invés de técnicos, o ministro estará cercado de militares, indicados por Bolsonaro, já que o presidente trava uma guerra que não é contra o coronavírus, mas contra os brasileiros que estão tentando cumprir as recomendações da OMS e dos epidemiologistas ficando em casa e arcando com todo o prejuízo que isso lhes traz.

Para esses brasileiros, que Bolsonaro disse estarem “acovardados”, não há sequer uma peça de propaganda produzida pelo governo federal para esclarecer o que é a pandemia. Em verdade, o que o presidente espera, e que já disse diversas vezes, é que todos voltem a suas vidas normais, não lhe importando que a “gripezinha” mate milhares, principalmente idosos. E o resultado desse estado de coisas é que não são poucas as pessoas que estão desconfiadas das cenas que passam na TV, onde há covas abertas à espera de mortos, enterros coletivos com caixões lacrados e corpos ensacados nos corredores dos hospitais aguardando quem os recolha.

Se o caminho do caos já não tivesse suficientemente pavimentado para oferecer a Bolsonaro a desejada morte dos 30 mil na sua guerra civil imaginária, o chanceler Ernesto Araújo, que acredita que “o globalismo é o novo caminho do comunismo”, agora “descobriu”, lendo Araújo, que o coronavírus é um disfarce para o “comunavírus”, pois, “a pretexto da pandemia, o novo comunismo trata de construir um mundo sem nações, sem liberdade (…). Um estado de exceção global permanente, transformando o mundo num grande campo de concentração”.

Um senador norte-americano um dia disse: “Você tem direito a suas próprias opiniões, mas não tem direito a seus próprios fatos”. Num país cujo governo vive em guerra contra os seus concidadãos, liquidando a verdade a cada novo dia, muitos sentem-se no direito aos seus próprios fatos, nem que por eles morram e tenham os corpos enterrados em valas coletivas, onde se poderia escrever: “Morto por estupidez”.

(Carlos Zacarias de Sena Júnior, Professor de História da UFBA))

METAFÍSICA CANINA

25/04/2020 às 2:48 | Publicado em Fotografias e desenhos | Deixe um comentário
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Esse vem do blog jlcarneiro.com . Excelente !


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