A CLOROQUINA CRISTALINA EM TERESINA

23/05/2020 às 16:48 | Publicado em Artigos e textos, Fotografias e desenhos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Jânio Ferreira Soares analisando com seu jeito peculiar a realidade atual e nos lembrando a bela história da música Cajuíina. Para que este post ficasse mais completo, resolvi publicar também a charge de Bruno Aziz no jornal  A TARDE de hoje e a bela Cajuína na voz de Caetano Veloso.


A CLOROQUINA CRISTALINA EM TERESINA  Janio_Ferreira

Nesses complicados tempos de idiotices sem fim, dois recentes acontecimentos que até pensei ter outro sentido acabaram por me levar a associá-los a um anjo louco com asas de um avião que decolou antes da hora, e a um velho querubim de brancas madeixas a lamber sua testa cheia de expressões de nãos e de sins.

O primeiro fato foi quando a ministra Damares soube pelas redes que no Hospital Regional de Floriano, cidade a cerca de 250 quilômetros de Teresina, dezenas de portadores de Covid-19 medicados com cloroquina estavam sendo curados. Aí, mesmo sem entender nada do assunto, nossa singela pastorinha da sagrada igreja onde o milagre da goiabeira se deu, pegou um avião e foi até lá testemunhar o fenômeno logo batizado por ela de “o milagre da cloroquina”, felizmente desmentido pelo diretor do hospital, Dr. Justino Moreira, que disse não haver prova do efeito da droga nos pacientes curados.

Dias depois, dando continuidade a essa doentia obsessão por um remédio que um estudo publicado ontem pela Escola de Medicina de Harvard diz que mata mais do que cura, foi a vez do nosso glorioso capitão relinchar mais uma de suas pérolas numa live assistida por centenas daqueles equídeos que se aglomeram diariamente no estábulo de seu quintal, sempre a postos pra seguir o mestre aonde quer que seu potoc, potoc vá, mesmo que o galope suicida siga o rumo do desfiladeiro das valas comuns. Mas voltando à frase, ei-la em todo seu esplendor: “Quem é de direita toma cloroquina, quem é de esquerda toma tubaína”.

Como disse lá em cima, tivesse o mito ao menos folheado algum livro com o tecido morto de seus cascos, ou a ministra soltado à franja ao som de uma melodia sobre a poesia de Torquato, e eu até poderia achar que esse jogo de palavras misturando cloroquina e tubaína, mais a inútil viagem a Teresina, teriam sido uma espécie de provocação a Caetano, que, esquerdista até o talo, só lhe sobraria à opção de uma cajuína quente e choca antes de partir.

A propósito, pra quem não conhece como essa canção aconteceu, conta Caetano que ele a escreveu após uma visita à casa de seu Heli, pai de Torquato Neto, em Teresina. Era a primeira vez que os dois se viam depois do suicídio de Torquato, acontecido em 1972. Quase não se falaram. Apenas olharam fotos antigas, enquanto Caetano chorava sem parar. Sem saber muito o que fazer, seu Heli foi ao quintal, colheu uma pequena rosa e lhe deu. Em seguida, beberam uma cajuína, se despediram e, pra sorte nossa e dessa história, a mão do gênio esfregou a própria garrafa e permitiu que ela também pertencesse ao mundo.

Logo no começo, uma afirmação e a pergunta: “Existirmos: a que será que se destina?”. Se me permite uma resposta, meu velho baiano, a isso daí é que não. Viva Torquato Neto!

(Jânio Ferreira Soares)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 23.05.2020



BRUNO_AZIZ_23_maio_2020

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