“Pós-doutor”, existe?

23/05/2020 às 3:40 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Esse tema acadêmico sempre me intrigou muito. Lendo um dos livros do Cientista Marcelo Gleiser, ao explicar o que vem a ser um Pós-doutorado ele diz que é uma espécie de projeto de pesquisa desenvolvido por um grupo de Doutores numa determinada Universidade, o que, convenhamos, é algo muito vago. Ao ler esse artigo do Professor Alírio de Souza, aprendemos um pouco mais sobre esse tema.

 


“Pós-doutor”, existe?

Sinceramente eu gostaria que alguém me mostrasse um diploma de “Pós Doutor”, ou “Post Doctor”, ou “Pós Ph.D.” Nunca vi nenhum deles. Isso porque há quem diga ser “Pós-Doutor”, significando ser mais que Doutor ou Ph.D., o que em qualquer contestação, ou concurso, ou concorrência implicará na exibição do citado título. Existe?

Não é proibido a ninguém que conquistou o doutorado continuar estudos. Isso implicaria, por exemplo, estagiar num ambiente altamente desenvolvido, ou iniciar-se em determinado campo ou área de estudos, ou uma reciclagem, uma ampliação de conhecimento. Quaisquer dessas atividades se enquadram como educação permanente ou continuada. Em qualquer sistema universitário os títulos são, na graduação: licenciatura, bacharelado, ou diplomas específicos de médico, engenheiro, geólogo, arquiteto, etc. Na pós graduação, no caso brasileiro temos a pós graduação lato sensu, (atualização, aperfeiçoamento, especialização), e a stricto sensu, mestrado e doutorado. E só.

Nos Estados Unidos não há pós graduação lato sensu, mas há três níveis de mestrado, um obtido em nove meses (semelhante à nossa especialização), um outro, de mais ou menos dois anos, o “master of sciences” e, finalmente o “master of arts”, igual ao nosso mestrado, exigindo aproximadamente três anos. O doutorado abrange dois títulos com semelhante rigor, o “Ph.D.” e o “Doctor”. Uma denominação nada lisonjeira é atribuída ao aluno que, tendo obtido os créditos teóricos, não consegue escrever a tese de doutoramento em tempo hábil: ABD , significando “all but dissertation” (tudo, menos a tese). Perdeu o prazo. Os motivos podem variar. Problemas que talvez justifiquem tal circunstância (saúde, etc.) ou desmotivação, abandono ou qualquer outro desinteresse. E o “ABD” gostará que ninguém saiba sua situação acadêmica. E por que tratar aqui do “ABD”? Isso porque numa relação de professores universitários, ao lado do nome de cada qual com seu respectivo título acadêmico (M.A., Ph.D., Doutor), alguém colocou, Fulano de Tal, ABD. Como comprovar tal título?

O estímulo à contínua aprendizagem ou aperfeiçoamento deve ser uma constante nos sistemas de ensino. A universidade norte-americana incentiva o “sabatical leave” (saída sabática) para professores que têm estabilidade, oferecendo seis meses de salário integral ou um ano de meio salário para, se quiserem, realizar alguma atividade intelectual fora de sua universidade. Isso, no sétimo ano, após plano de estudos aprovado pelo Departamento. Geralmente viajam para outros países onde conhecerão diferentes realidades, viverão novas experiências. É comum que escrevam livros. Mas não se tornam “pós-doutores”.

(Alírio de Souza)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 19.05.2020

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