A BRANQUITUDE INVIABILIZA A HUMANIDADE

30/05/2020 às 18:35 | Publicado em Artigos e textos | 1 Comentário
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Muito bom esse artigo do Professor Marlon Marcos.

Stop


A BRANQUITUDE INVIABILIZA A HUMANIDADE

É doído se enxergar como branco, porque vergonhoso, em um país como o Brasil ou os Estados Unidos. A herança da expansão econômica europeia, ao longo da chamada modernidade, nos trouxe ao mais terrível holocausto da humanidade: a escravidão em cima dos humanos negros africanos. Como a raça branca se efetivou como a mais privilegiada e auto assistida no planeta? Através da mecânica social do racismo estrutural que se vigora em um modus vivendi que podemos chamar, em referência a Achille Mbembe, de necropolítica.

A branquitude como projeto de manutenção de poder produz a morte no mundo. É um lugar a ser problematizado e desconstruído se desejamos a saúde das relações sociais, raciais, humanas se assim preferirem. Mas é duro existir como gente sob o peso do racismo vigente emporcalhando o nosso lugar de humanos. É duro ser ético, consciente, antirracista e branco. Mas precisamos violentar a lógica desse sistema racista que se fortalece no capitalismo e nas relações hierarquizadas das classes e dos gêneros. Precisamos de uma reeducação socioexistencial. Compreender que esse “projeto de branco” agencia a exclusão de milhões de pessoas no mundo e mata. Mata cruelmente. Despedaça sonhos e arranca muitos da sua integridade como pessoa vivente no mundo.

Os indígenas e os negros são as maiores vítimas. No Brasil, eles são aviltados por nosso Estado e governos. Atualmente, o risco perverso da morte tira a mínima tranquilidade desses grupos humanos. O presidente da República e seu ministério esparramam seu ódio, frente à imprensa internacional, dirigido aos povos majoritários no processo civilizatório deste país.

A gente dorme e acorda com a morte de crianças negras, assassinadas nas ruas e dentro de suas casas por esse país afora. Para me rasgar de indignidade bastaria citar Davi Fiúza, na Bahia, e no Rio de Janeiro, Ágata, Marcus Vinícius (alvejado pelas costas indo para a escola), João Pedro, morto na insegurança do seu lar de família preta e pobre das favelas. Com o fascismo atual, virou heroísmo de branco praticar o genocídio contra negros e indígenas no Brasil.

Vivemos assim: Salvador, cidade túmulo, como escreve Hamilton Borges, ou Salvador, negro rancor, como expressa Fábio Mandingo. Em Belo Horizonte: Rondó da ronda noturna, grito de Ricardo Aleixo. Davi Copenawa avisa que o céu vai cair. Krenak canta para adiar a queda.

Não me sai da cabeça: um homem negro sendo morto pelo joelho de um homem policial branco sobre o seu pescoço, nos Estados Unidos de Trump.

Aqui a branquitude finge dormir sabendo do preço que terá que pagar, mesmo aqueles que estão em reconstrução. E o poeta baiano Lande Onawale ginga: dá!?/ dá!? /dá no nêgo!?/ no nêgo você não dá. E continua: “vou pingando a alma e o mar vem”.

(Marlon Marcos)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, hoje

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  1. […] o título deste artigo do Professor Marlon Marcos já chama a atenção. Imperdível seu conteúdo. Quem se atrever a ler vai ter curiosidade de […]


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