Canal ZEducando: SEXTOU COM LIVROS – “A simples beleza do inesperado”

23/10/2020 às 14:29 | Publicado em Baú de livros, Midiateca, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Nessa sexta é a vez do livro “A SIMPLES BELEZA DO INESPERADO”, do cientista brasileiro Marcelo Gleiser. Uma beleza de livro, verdadeira poesia em prosa.


Pelé 80 anos !

23/10/2020 às 10:01 | Publicado em Artigos e textos, Midiateca | Deixe um comentário
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Nesses 80 anos do maior jogador de futebol de todos os tempos, faço aqui minha homenagem com essa bela crônica do Tostão e esse vídeo cheio de gols, além da citação do Drummond. Tostão, o craque da bola e da pena, cita Nelson Rodrigues e o ótimo livro “VENENO REMÉDIO”,  de José Miguel Wisnik.


Pele_Carlos_Drummond


A PERFEIÇÃO EXISTE ?

No dia 23, Pelé completa 80 anos. Nelson Rodrigues, com seu delicioso exagero, dizia que a maior qualidade de Pelé era a “imodéstia absoluta”, a certeza de ser muito superior a todos. Nelson dizia ainda que a bola o procurava, com a humildade de uma cadelinha.

Pelé sabia que era o melhor, mas também que precisava dos companheiros para brilhar intensamente. Escutava também opiniões. Contra a Inglaterra, no Mundial de 1970, ele estava muito marcado. Cheguei até ele e falei: “Por que você não muda de lado”? Ele me olhou e, com seus olhos vivos,meperguntou:

“Você acha”? Afirmei que sim. Ele foi para a esquerda, e atuou melhor. Nós todos, coadjuvantes, precisávamos ajudá-lo, pois sabíamos que, quanto mais ele se destacasse, seria ótimo para a equipe e melhoraria a atuação de todos. Isso é jogo coletivo. Um necessita do outro. O restante é conversa fiada.

Conheci Pelé, fora dos gramados, quando começaram os treinamentos para o vexame da Copa de 1966, quando o Brasil foi eliminado na primeira fase. A apresentação foi em Lambari, no interior de Minas Gerais,seguida por dezenas de outras cidades por todo o Brasil. Foi uma estratégia da ditadura para agradar políticos e governantes.

Em Caxambu, outra cidade mineira, houve um jogo-treino contra o Cruzeiro. Meu pai foi de ônibus,com a delegação do time mineiro. Foi me ver e queria conhecer Pelé. Apresentei-o ao Rei, que deu um longo abraço em meu pai, que, emocionado, chorou. Não é todo dia que um súdito conhece o rei.

Vivi, ao lado de Pelé, dois momentos emocionantes, um triste e outro alegre. O triste, no dia seguinte à eliminação da Copa de1966, na voltada Seleção,de trem, ao seu lado, de Liverpool, onde a Seleção ficou concentrada, para Londres, onde pegaríamos o avião para o Brasil. Estávamos todos muito tristes. Um grande silêncio. Pelé parecia que queria me dizer: “Daqui quatro anos, será diferente”.

O outro momento, alegre, foi logo após o fim do jogo contra a Itália, em 1970. Pelé, além de conquistar mais um grande título, estava eufórico, porque tudo tinha dado certo. O Brasil venceu, deu show, e Pelé, que, antes do Mundial, começava a ser criticado porque estaria em decadência, mostrou, para sempre, que era o maior de todos os tempos.

Antes de a bola chegar, Pelé meolhava como se quisesse me dizer tudo o que iria fazer. E fazia. Eu tentava acompanhá-lo, ajudá-lo. A comunicação analógica, pelo olhar, pelos movimentos do corpo, é menos precisa que a digital, porém riquíssima. O corpo não mente.

José Miguel Wisnik, em seu excepcional livro “Veneno Remédio: o futebol e o Brasil”, escreveu que: “Pelé parece funcionar em uma frequência diferente da dos demais jogadores, como se ele tivesse mais tempo para pensar e ver o que se passa, assistindo, em câmera lenta, ao mesmo jogo do qual está participando,em altíssima velocidade, enquanto os outros, em torno dele, parecem estar assistindo ao jogo em altíssima velocidade e jogando em câmera lenta”.

Pelé tinha, no mais alto nível, todas as qualidades técnicas, físicas e emocionais para ser um super atacante. Por isso, era o melhor. Diante das dificuldades, se tornava possesso, uma fera cutucada e enjaulada. Messi não tem as virtudes físicas e emocionais de Pelé, e Cristiano Ronaldo não possui a fantasia, a inventividade, e não dá tantos passes decisivos quanto o Rei. A perfeição existe? Seria Pelé perfeito?

(Tostão)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 21.10.2020


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