Quem controla o presente controla o passado

28/10/2020 às 3:46 | Publicado em Artigos e textos | 1 Comentário
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Mais um excelente artigo do Professor Carlos Zacarias de Sena Júnior, da UFBA. Vale muito a reflexão em tempos sombrios…

Exclamacao


Quem controla o presente controla o passado carelos-zacarias

Há 26 anos eu dou aulas de História na universidade pública. Ao longo desse tempo falei sobre escravidão, ditadura, nazifascismo, Primeira e Segunda guerras mundiais, Revolução Russa, União Soviética e muitos outros temas. Sobre esses assuntos controversos, cujas polêmicas eram incontornáveis, predominavam alguns consensos. Nunca ninguém jamais duvidou de que o escravismo foi um sistema brutal e opressivo e de que a luta dos negros escravizados era justa; nunca ninguém questionou se teria havido um golpe no Brasil a que se seguiu uma ditadura que durou 21 anos; nunca houve quem duvidasse que o fascismo e o nazismo eram de extrema-direita ou que a Revolução Russa tinha sido feita pelos trabalhadores que lutavam contra a exploração e opressão e por aí vai. De uns anos para cá, contudo, determinados consensos desapareceram, da mesma forma que as saudáveis polêmicas se esvaziaram e o terraplanismo avançou sobre a historiografia. O que teria acontecido?

Na perspectiva dos negacionistas e revisionistas que povoam o atual governo brasileiro, tudo seria uma questão de ponto de vista e as narrativas acima seriam apenas fruto de versões com viés ideológico de esquerda e não o resultado do trabalho de historiadores que acessaram arquivos e fontes e apresentaram inúmeras e consistentes provas. Desse ponto de vista, questiona-se qualquer coisa, desde que se tenham convicções de que não foi dessa forma, não importando as evidências e as provas.

A História, como se sabe, não é ciência exata, portanto não há tema que não esteja sujeito a debates acerbos. Todavia, a história supõe compromisso com a verdade e a objetividade almejada pelos historiadores só se estabelece a partir das de provas robustas que, transformadas em narrativas, definem aquilo que pode ser tomado por verdadeiro para muito além da mera retórica.

Em regimes autoritários, contudo, a verdade histórica (como qualquer outra) fica ao sabor dos interesses dos governantes. Não por acaso, uma anedota dizia que na União Soviética stalinista, o futuro era certo, embora o passado fosse imprevisível, e isso se aplica a qualquer ditadura, onde não há profissão mais arriscada do que aquela de quem trabalha com a verdade.

Ao longo de 26 anos tentei convencer meus alunos de que a Revolta da Vacina de 1904 não era fruto da ignorância ou burrice do povo, como quase todos pensavam, mas o resultado de uma conjuntura conturbada de mudança de regime e transformação da política. Cento e dezesseis anos depois, quando não se pode mais dizer que o negacionismo diante da vacina é fruto da ignorância e do obscurantismo, a tarefa dos historiadores, que também precisam explicar o presente, é ainda mais desafiadora. Como disse George Orwell, citando o lema do Partido que controlava a fictícia Oceânia: “Guerra é paz, ignorância é força, liberdade é escravidão”. E quem disse que não?!

(Carlos Zacarias de Sena Júnior)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 23.10.2020

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