Palanques, mãos e narizes

03/06/2021 às 3:29 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Mais uma bela crônica, poesia em prosa. Em tempos nebulosos só a arte e a poesia nos salvam !

“Temos armas para lutar contra o desespero, a tristeza e até a morte: o riso a cavalo e o galope do sonho. Assim enfrentamos essa dura e fascinante tarefa de viver”. (Ariano Suassuna)

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Palanques, mãos e narizes

Na Sociologia das emoções (Arlie Hochschild), não só as subjetividades foram destacadas, mas sofrimentos, medos, angústias da vida social e política de pessoas afetadas por traumas e experiências sociais). Somente nesse registro – o Eu e as outras pessoas – chegamos às “avenidas para a dignidade” (Arjun Appadurai) e criação de brechas de superação. É preciso analisar vergonhas e comportamentos (Norbert Elias).

Quando fizermos uma arqueologia desse biênio 2020 e 2021, lembraremos num futuro não tão distante de constrangimentos, de falta de civilidade e não ter saídas menos mortais – em todos os sentidos, seja físico, moral, cultural. Com narizes à mostra – empinados e arrogantes – os palanques se fazem e aglomeram gentes. Na história da República brasileira já tivemos bufões, fardados ou não, representantes eleitos ou biônicos e fases de altos e baixos. Entretanto, nunca se viu tantos “bestializados” juntos, conforme José Murilo de Carvalho assinalou em obra análoga.

A res publica colocada à deriva e em balança desequilibrada entre pesos e medidas. A forma atual democrática pousada em terras movediças. E as pessoas? Entre dados de vacinação e contaminação, índices que precisam subir e baixar respectivamente para não entrarmos em inércia total e termos a impressão de não existência de “exit”.

Palanques são montados vislumbrando um próximo pleito e, concomitantemente, outros palcos também servem para “festas clandestinas”. Falam os que não deveriam (inclusive confirmados pelos seus superiores –eo“cala a boca já morreu, quem manda na minha boca…” (Ruth Rocha em “O reizinho mandão”). Dançam e celebram os que poderiam servir como exemplos. Perdemos algo no caminho? Sim, pois festejar colapsos, lutos, fome e desemprego é o mesmo que dizer “não ligo”.

Entre cidades, culturas e cidadania haja respiradores! Havemos de buscar em ações políticas (que medo se tem da palavra e área do conhecimento) e agrupamentos (não aglomerações) ideias criativas e práticas melhores que preservem educação e saúde.

Ao ver e saber de palanques e festas (suspensas as juninas, que representam tanto a cultura de um país continental), aprender com provérbios populares para recuperar saberes. E pensando na riqueza de ser e estar no Nordeste, nada como as tintas de Ariano Suassuna: “Temos armas para lutar contra o desespero, a tristeza e até a morte: o riso a cavalo e o galope do sonho. Assim enfrentamos essa dura e fascinante tarefa de viver”. Só não inventamos ainda enfrentamentos contra narizes. Todavia, cordelirando com Salete Maria da Silva (Ufba), “me somo a outras vozes/ Num coro internacional/ Contra tiranos-algozes/ Que não querem solução/ Porém mais competição/ Entre gigantes ferozes”.

(Vanessa Cavalcanti)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador- BA, 26.05.2021

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