Abraço de afogado

08/06/2021 às 3:11 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Mais um bom artigo do Professor Carlos Zacarias de Sena Júnior da UFBA. Nesse ele explica de forma clara as diferenças entre as manifestações recentemente ocorridas no país, algumas pró e outras contra o DESgoverno protofascista instalado neta bela, incauta e inculta Pindorama.

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ABRAÇO DE AFOGADO CarlosZacarias

Falando a apoiadores no cercadinho do Alvorada após as manifestações da oposição realizadas no sábado, 29, Bolsonaro tentou minimizar o acontecimento dizendo que tinha “faltado erva”. O ex-capitão, que senta na cadeira de presidente quando não está espalhando o vírus por aí, desdenhou do imenso sucesso dos atos que pediram o seu impeachment, tentando associar a imagem dos manifestantes a consumidores de maconha, mas só demonstrou desespero.

Acuado pela CPI da Covid-19 que acaba de completar um mês, Bolsonaro cada dia teme mais pelas digitais que deixou no desastre que é a gestão da pandemia no Brasil. Por isso tenta sair das cordas, dirigindo vitupérios aos opositores e espalhando mentiras, porque sabe que se sobreviver até 2022, chegará bastante debilitado. Também escalou seus filhos e principais aliados para atacar os atos da oposição, que foi apontado pelos bolsonaristas como causadores de aglomeração, o que retiraria a moral dos críticos da conduta do presidente.

É claro que houve aglomeração. Milhares de pessoas nas ruas não podem se reunir mantendo o distanciamento. Entretanto, diferentemente das manifestações dos bolsonaristas, os atos realizados pela oposição primaram pelas regras sanitárias, com distribuição de máscaras PFF4, recomendação de distanciamento e orientação para o uso de álcool em gel. Foi, portanto, defendendo o cuidado e exigindo a vacina que milhares de pessoas saíram às ruas e outras tantas permaneceram em casa, resguardando-se ou sentindo-se pouco seguras e esperando outras oportunidades para gritarem sua indignação. Sobre o assunto, as entidades do campo da esquerda já começam a se reunir para pensar os próximos movimentos, entendendo que tão ou mais letal que o vírus é a necropolítica encastelada no Palácio do Planalto, o que deve fazer com que ainda mais gente se junte aos protestos.

Obviamente que Bolsonaro vai fazer o que lhe cabe, inclusive vai tentar posar de estadista, como fez no pronunciamento em rede nacional desta quinta, quando distorceu dados e contou inúmeras mentiras, sendo, contudo, abafado pelos panelaços por todo o país.

O presidente continua negando para a sua base aquilo que salta aos olhos: que está se enfraquecendo, que as milhares de pessoas que saíram às ruas em plena pandemia não suportam mais o seu governo, que há muito mais legitimidade e força da parte dos seus opositores do que dos aliados e que o quadro do país sugere que seu governo tende a afundar. Isso será o suficiente para sua base fanatizada seguir o berrante, mas será cada vez menos eficiente para quem planeja reeleição em 2022, principalmente para a sua instável base aliada, atraída a peso de ouro para a fileira do bolsonarismo, mas prestes a descobrir que o governo é como o Titanic, cujo capitão segura o leme navegando firme rumo ao iceberg.

(Carlos Zacarias de Sena Júnior)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 04.06.2021

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