O bê-a-bá da Covid-19

16/06/2021 às 3:43 | Publicado em Artigos e textos | 1 Comentário
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Mais um bom e indispensável artigo do Professor Paulo Ormindo de Azevedo. Desta vez um pouco da história das grandes pestes que assolaram a humanidade  e a relação que tiveram com os grandes autores, até a atual Covid-19. Vale a pena !


O bê-a-bá da Covid-19   PauloOrmindo

Ela chegou sorrateira e misteriosa como outras pandemias, vingança da Mãe Terra aos ataques do homem. A mais conhecida delas, a peste negra, transmitida pelos ratos, ocorreu no século XIV e matou um terço da população europeia. Os médicos usavam máscaras em forma de pássaros para se defenderem dos miasmas e dos maus espíritos. A última pandemia ocorreu há cem anos e matou quase 100 milhões de pessoas de influenza. Segundo os cientistas, elas vão se repetir com mais frequência ou se perpetuarem com as variantes. A Covid-19 parece ter sido transmitida por morcegos num mercado ou laboratório de Wuahan, na China.

Os ameaçados pela Covid-19 se assemelham aos morcegos, únicos mamíferos voadores, além do homem, com hábitos estranhos, como se isolarem em cavernas, serem notívagos, trajarem luto e dormirem de cabeça para baixo. Das 1200 espécies conhecidas, apenas três são hematófagas. Isto lhe deu uma imagem negativa de serem todos vampiros e fazerem ninhos nos cabelos das mulheres que saiam à noite. Inspirado nos vampiros, o escritor Bram Stoker criou a figura do Conde Drácula num drama de 1897, para caracterizar as atrocidades do príncipe Vlad III, que governou a Romênia no século XV. Já o Batman, o mais famoso morcego dos quadrinhos e hollywoodiano é um herói que luta contra o crime com o amigo Robin e policiais.

Na Idade Média se barravam as pandemias nas portas das cidades, hoje nos portos e aeroportos. As pestes e pandemias sempre foram atribuídas a maldições. A peste negra, aos judeus ou à passagem de cometas. A atual, à necro-política de presidentes contrários ao uso de máscara e lockdowns para aliviar suas falidas previdências sociais. Ou ainda, a Covid -19 teria sido uma maldição da engenharia genética chinesa para dominar o Ocidente. Os morcegos não são vermelhos, têm uma função ecológica importante de controlar a proliferação de insetos, difusão de árvores frutíferas e polimerização de flores. No meu jardim, no final da tarde, gosto de apreciar as acrobacias dos morcegos, que não plainam como os pássaros, em caça aos insetos, e encontro no gramado caroços de frutos que não existem na vizinhança.

A Covid-19 tem provocado muita dor, morte de milhares de pessoas e luto, mas também a solidariedade humana, a imersão em nós mesmo, no isolamento, e a reflexão sobre a vida e a morte. Outras pestes inspiraram autores como Boccaccio, Daniel Defoe (1722), Katherine Anne Porter (1939), Albert Camus (1947), Michael Crichton (1969), Stephen King (1978), Gabriel García Márquez (1985) e José Saramago (1995). Os desta estão ainda escrevendo. No Nordeste a peste não tem sentido negativo. “Um cabra da peste” é um camarada corajoso, trabalhador e “uma pestinha” é uma criança traquina. Não desesperem, há luz na saída da caverna pandêmica. Ah esse Platão incorrigível!

(Paulo Ormindo de Azevedo)

FONTE: JORNAL A TARDE, SALVADOR-BA, 13.06.2021

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