A carta perdida num disco dos Beatles

22/06/2021 às 2:46 | Publicado em Artigos e textos, Midiateca, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Jânio Ferreira Soares mais uma vez nos contando uma história com poesia.


A carta perdida num disco dos Beatles   janio

Em algum cantinho da sala onde Luiza, Júlia e Juca viam filmes com a meninada repousam três fitas VHS com as retrospectivas de 1988/89, 1989/90 e 1995/96, anos em que eles, após fazerem check-in sabe-se lá onde, acomodaram-se numa primeira classe sem igual e, depois de nove meses curtindo a paz amniótica, desembarcaram lindamente da cápsula que os abrigou. É que à época, sem nem sonhar que a queda do muro de Berlim, a morte de Cazuza e as loucuras de Collor logo estariam a um click de seus olhos, imaginava-os dando um play no velho JVC pra conhecer o que ocorria no período compreendido entre as viagens, o choque das luzes e o apagar das primeiras chamas.

Lembrei-me disso ao me inteirar da história de Karlo Schneider, um simpático potiguar louco pelos Beatles, que em 2007, ao saber que seria pai de sua primeira filha, combinou com amigos de escreverem mensagens pra ela, sob a seguinte condição: ele as esconderia e só quando a destinatária completasse 15 anos é que iria procurá-las.

Pois bem, tudo isso, que mais parece enredo de um filme bom, ficaria somente entre seus atores não fossem as inesperadas e desagradáveis surpresas que aconteceriam 14 anos após o nascimento de Bárbara, batizada assim em homenagem à segunda mulher de Ringo, já que “Yoko Ono Schneider” (sabiamente, diga-se) foi rejeitada por sua esposa, Alcione Araújo.

Mas, infelizmente, o script começou a mudar quando o hotel onde Karlo era gerente fechou por causa da pandemia, fato que o fez vender sua coleção de discos, entre eles todos os vinis dos Beatles. Pra completar o drama, em março de 2021 ele chegou ao hospital com uma máscara onde se lia um fictício “Help” na boca e, aos 40 anos, entrou pra temida lista dos heróis que os filhos perdem diariamente pela falta da vacina que o supervilão não comprou.

Pra findar o roteiro, mês passado, depois do baque que arrasou a família Schneider, a escritora Ulla Saraiva, uma das participantes da brincadeira, lembrou-se das cartinhas e, numa dedução lógica, postou no Twitter que Karlo deve tê-las guardado dentro de algum dos LPs dos Beatles provocando um alvoroço danado nos fãs da banda, que desde então procuram desesperadamente encontrar as palavras perdidas que o pai de Bárbara lhe escreveu quando ainda não descia a ladeira a caminho da escola cantando com ela o refrão de Hey Jude.

Como diria a voz modulada do velho Repórter Esso: “Até o fechamento desta edição, as missivas não foram encontradas!”. Bárbara faz 15 em 2022. Até lá, sugiro que ela continue ouvindo os meninos de Liverpool, especialmente Here Come The Sun. Nela, Harrison, como numa profecia pra esse nosso momento, diz que apesar do inverno longo e frio, o Sol sempre volta a brilhar. Que o Sweet Lord de sua outra canção lhe ouça, my dear George.

(Jânio Ferreira Soares)

FONTE: Jornal A TARDE, 19.06.2021

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