100 anos de Paulo Freire

12/07/2021 às 2:49 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Esse tipo de data, num espaço dedicado à Educação, não pode passar em branco. Apesar de todo o negacionismo, síndrome de vira-lata e síndrome de caranguejo que presenciamos, infelizmente, nos dias atuais em terras de Pindorama, o mundo todo reverencia a pessoa e a obra de Paulo Freire.

VIVA PAULINHO !!!

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100 anos de Paulo Freire

É difícil pensar o que celebrar no centenário de Paulo Freire ao analisar a atual conjuntura política de perdas de direitos, retrocessos e pandemia. É difícil pensar como sobrevive o legado deste grande educador num país que perpetua desigualdades e não se escandaliza frente a ausência de políticas públicas que projetem a educação como dispositivo de libertação e emancipação do seu povo.

A pandemia expõe escancaradamente ao mundo o atraso brasileiro no que diz respeito às políticas e ações educativas e desvela profundas marcas da exclusão, agora mais precisamente, nos debates sobre educação tecnológica, sucateamento da docência e secundarização dos direitos civis básicos quando da garantia à educação.

O momento pandêmico em choque com este centenário revela a importância de todo legado freiriano, que defende a educação com compromisso, bom senso e criticidade. Sem muito a comemorar, podemos talvez pensar o centenário de Paulo Freire como um marco para uma nova revolução, que se contrapõem às políticas genocidas e antidemocráticas, a (des)governos alheios à diversidade e aos debates mais urgentes da contemporaneidade. Isso porque Freire nunca se fez tão essencial enquanto intelectual, de reconhecimento internacional, com vasta contribuição epistemológica e metodológica no campo da pedagogia crítica, da educação popular, da educação como direito humano.

Freire é decolonial, o seu enfrentamento às violências epistêmicas do colonialismo está presente no seu pensar em educar aqueles que estão à margem, que habitam as fronteiras e, por isso, ele pensa além delas; traz ao centro do debate sujeitos relegados às periferias das políticas inclusivas. É esse o intelectual que valoriza as culturas no ato de educar, que reconhece a potência da intelectualidade do povo na tarefa dialógica de ensinar e aprender. É o educador que à frente do seu tempo defende que ensinar exige respeito aos saberes dos educandos, exige risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação. Será que por isso Paulo Freire incomoda tanto?

Paulo Freire sempre incomodou, pois do seu campo intelectual buscou ouvir os historicamente silenciados. Nos mostrou que é necessário entender que a educação é, sim, ideológica. Mas a ideologia educativa que Freire nos mostra não se trata das tensões políticas advindas dos grupos de esquerda ou de direita, ele provoca um debate maior, pensa educação para todos. Assim, enquanto vivemos nestes tempos sombrios entre alienação, despolitização e pandemia, Freire nos dá novo fôlego, nos faz respirar.

Esse oxigênio epistêmico presente em toda sua obra é o real motivo de celebrarmos a sua imortalidade. O centenário de Paulo Freire não deve ser esquecido.

(Anderson Rios e Ivana Sena)

FONTE: JORNAL A TARDE, Salvador-BA, 08.07.2021

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