OS IMPRESCINDÍVEIS

09/10/2021 às 2:46 | Publicado em Artigos e textos, Fotografias e desenhos | 1 Comentário
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Mais um excelente artigo do Professor Carlos Zacarias (História, UFBA). O desenho é meu, inspirado num arquivo que me foi enviado por um amigo via zapzap, e serve para lembrar que não há três vias, apenas duas !

SO_HA_DUAS_VIAS


OS IMPRESCINDÍVEIS

N o dia 2 de outubro milhares de pessoas foram às ruas de todo o Brasil pelo Fora Bolsonaro. Expressando uma alegria que contrasta com um país enlutado pelos 600 mil mortos pela pandemia e um governo que enterra pessoas do mesmo modo que sepulta esperança, vejo uma maioria de jovens com disposição contagiante, mas inúmeras pessoas mais velhas, algumas das quais trajadas com camisas onde se lê “Geração de 1968” ou “Geração de 1979”, neste último caso em alusão ao Congresso de reconstrução da UNE, ocorrido em Salvador no fim da década de 1970.

Não é incomum que as gerações se encontrem nas muitas lutas que se travam neste país. Todavia, se a juventude é contagiante, é no exemplo dos mais velhos que encontro forças para continuar caminhando. Sobre estes, que poderiam estar confinados em casa justamente por serem parte do segmento mais vulnerável à pandemia, é onde se destaca a coragem, o exemplo inspira e as lições deixam marcas. O que a atitude desses lutadores de maior idade sugere é resiliência e altruísmo, especialmente porque abdicam do conforto e da segurança do lar para se juntarem aos jovens para os quais o futuro é incerto. Não surpreende que tenham coragem, já que estamos falando de gente que enfrentou a ditadura e muitas outras batalhas. O que surpreende é que não tenham desistido.

Por entre as gerações de pessoas de cabeça branca que estiveram nas ruas no último sábado, algumas que encontrei e são pra mim um exemplo de persistência e permanente inspiração, cito os casos dos colegas professores da UFBA Joviniano Neto e Celi Taffarel. Com ambos tenho aprendido muito sobre tantas coisas, mas acima de tudo sobre a necessidade de que mesmo marchando separados, é quando batemos juntos que somos mais fortes e mais efetivos, especialmente quando do outro lado o que nos ameaça é o fascismo.

Sobre a qualidade desse material de que é feito Joviniano e Celi, Bertold Brecht um dia escreveu: “Há homens que lutam por um dia e são bons; há outros que lutam por um ano e são melhores; há outros, ainda que lutam por muitos anos e são muito bons; há, porém, os que lutam por toda a vida, estes são os imprescindíveis.”

Nesses anos todos tenho me mobilizado por muitas causas e não posso deixar de dizer da importância do exemplo que recolho de quem nunca desistiu de lutar. Poderia citar muitos outros, a quem estenderia minha homenagem, mas cito Joviniano e Celi como símbolos da persistência e incontornável exemplo que diz que é preciso lutar.

Vou às ruas por mim, pelos meus filhos e pelo futuro de tantos jovens que neste ponto da nossa história não têm como vislumbrar futuro algum. Vou também pelas gerações que lutaram, pelos que tombaram no caminho e por aqueles, que como Joviniano e Celi, não desistem nunca.

(Carlos Zacarias de Sena Júnior)

FONTE: JORNAL A TARDE, SALVADOR-BA, 08.10.2021

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