A Hidra e o fantasma do golpe

04/05/2022 às 3:46 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Excelente artigo de Raul Moreira !

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A Hidra e o fantasma do golpe

Na mitologia grega, a Hidra de Lerna era um monstro com corpo de dragão e sete cabeças. Criada para destruir Hércules, o seu simples hálito era capaz de matar. Ao enfrentá-la, a cada cabeça que o herói cortava, surgiam duas. Então, para derrotá-la, o filho de  Zeus precisou da ajuda do sobrinho Iolau, que se valeu de um tição para cauterizar os pontos dos pescoços aonde as cabeças eram decepadas, impedindo, assim, que elas se regenerassem.

Diferentemente do que aconteceu na Argentina e no Chile, onde a “Hidra” do militarismo foi definitivamente derrotada, por obra dos ideais de justiça e de reparação, enfim, da dignidade humana, no Brasil, ao contrário, a criatura está mais viva do que nunca. E ela só continua a nos assombrar por conta do descaso e da condescendência com as quais as instituições e a própria sociedade civil abordaram o flagelo da ditadura militar (1964-1985).

Diante da ameaça,se faz imperioso o entendimento da natureza do militarismo que emergiu das profundezas das casernas, com um detalhe: a sanha da camarilha constituiu-se em elemento importante no golpe branco contra Dilma Rousseff e na própria prisão de Lula, com a cumplicidade dos poderes constituídos, inclusive o Judiciário.

A fantasia dos guardiões

Sob o ponto de vista de quem são e de como agem, a reação de alguns deles diante dos áudios que confirmaram a prática de tortura contra presos durante a ditadura, fala por si: a avaliação “risonha” do simplório general Hamilton Mourão, não por acaso vice-presidente do Brasil, e, principalmente, o deboche do presidente do Tribunal Superior Militar, Luis Carlos Gomes Mattos, quando maltratou a língua portuguesa com palavras e raciocínio toscos, são provas cabais de que nos tornamos novamente uma republiqueta de perversos, daquelas que caberiam em um romance de Garcia Márquez.

Vê-los novamente em ação, ávidos e se valendo da fantasia de que são guardiões da “pátria amada”, amparados por uma releitura equivocada do artigo 142 da Constituição, nos faz refletir sobre a Comissão da Verdade (2011-2014): é fato que, independentemente da sua importância em afirmar o que muitos negavam, como também de aliviar a dor de tantas famílias de mortos e desaparecidos, infelizmente, ela foi podada e não logrou êxito naquilo que era fundamental: punir ou pelo menos imputar com o criminosos os carniceiros da ditadura militar, o que evitaria futuras aventuras golpistas.

Aliás, diante das evidências, é impossível não reconhecer que repetimos a tradição de jogar embaixo do tapete os nossos acumulados de sujeira, e, paradoxalmente, as ditas instituições contribuem para tal: em 2010, o STF, por exemplo,barrou uma ação proposta pela OAB que objetivava tornar inconstitucional na Lei de Anistia de 1979, o perdão a militares e policiais que torturaram e mataram.

Anos depois, a falta de compromisso da grande imprensa diante da Comissão da Verdade, não aproximou a população do seu conteúdo. O resultado é que, o nosso recente passado repressor não foi devidamente compreendido pelas novas gerações, e aquelas remanescentes, na sua grande maioria, mantiveram-se alienadas ou distantes, comprovando que assuntos espinhosos, como a própria escravidão, são deletados automaticamente da memória de um Brasil que não quer se enxergar.

Capacidade intelectiva?

Tantos panos quentes diante do que foi a ditadura, acabaram por aliviar a barra dos militares, encorajando-os a novas aventuras golpistas. E, diante das evidências, é preciso entender a gênese do militarismo à brasileira e no que ele se transformou: a história nos ensina que a instituição, que se fortaleceu a partir da Guerra do  Paraguai, ainda no Brasil Império, para depois se tornar dona de uma República proclamada por eles mesmos,tornou-se um elemento construtor de aspirações, como se viu no Tenentismo e na Coluna Prestes, nas primeiras décadas do século 20, entre tantos outros. Em um planeta no qual a farda foi elemento importante no século passado, vide a ascensão de militares na política (Franco, Eisenhower, Fulgencio Batista, De Gaulle, Peron, Pinochet e muitos outros), não foram poucos os que se sentiram irresistivelmente tomados pela fantasia de que eles simbolizavam o princípio da retidão, o que os legitimou.

No entanto, com a derrocada das sangrentas ditaduras, principalmente as latino-americanas, a figura do militar caiu em desgraça, e muitos foram punidos, como se deu na Argentina.

Por razões todas nossas, cá, depois de um longo período recolhidos onde deveriam estar, nas casernas, delas saíram novamente, com arroubos autoritários e saudosistas merecedores do divã, no mínimo.

A questão é que,como ficou comprovada na “performance” do general Luis Carlos Gomes Mattos, que lembrou uma materialização ectoplasmática alimentada por fluidos de colegas desencarnados altamente repressores, descobriu-se que a capacidade intelectiva dos tais é risível. Diante da nossa Hidra de Lerna, o Brasil está precisado o quanto antes de um Hércules, de preferência acompanhado pelo seu sobrinho.

(Raul Moreira)

FONTE: JORNAL A TARDE, SALVADOR-BA, 02.05.2022

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