A MORTE DO ESPAÇO PÚBLICO

05/05/2022 às 3:58 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário

Muito bom esse artigo de Luiz Carlos Azenha. Recebi recentemente de um grande amigo, via zapzap, e compartilho agora aqui.

exclamacao


A MORTE DO ESPAÇO PÚBLICO

Há mais de quarenta anos, desde que Ronald Reagan assumiu a Casa Branca, os neoliberais trabalham pela destruição da esfera pública, com o discurso de “tirar o Estado das costas do povo”.

É discurso tornado arma pelos ricos para não pagar impostos.

Reagan aplicou o “trickle down economics”, que é mais ou menos o mesmo discurso que a ditadura militar fez no Brasil: o bolo tem de crescer, para depois distribuir.

No caso do ator de Hollywood, a riqueza ia se acumular de tal forma no topo que eventualmente “escorreria” como mel milagroso a encobrir toda a sociedade.

Papo de estelionatário.

Este discurso foi incorporado pela mídia corporativa global, razão pela qual as redações de jornais e emissoras de rádio e tv tiveram necessariamente de se tornar bastiões da direita (com disseminada caça às bruxas de quem discordava).

O objetivo é demolir a ágora, monetizar todo o espaço público, e é por isso que todos os nossos debates de hoje são travados em plataformas privadas (Facebook, Instagram, Google, Twitter).

Estas redes, ao sintonizar os algoritmos, escolhem qual discurso é o prevalente (o que explica a repentina queda de audiência de blogs brasileiros de esquerda já faz algum tempo, por exemplo).

O Facebook ganhou milhões de dólares com mentiras e meias verdades impulsionadas pela campanha de Trump, enquanto freia outros conteúdos produzidos absolutamente de graça para a plataforma.

Privatizou suas fotos, suas ideias. Cada pensamento seu postado nesta rede, de grátis, enriquece Zuck e os seus acionistas.

Ora, se estes bilionários, como o Elon Musk, são os primeiros beneficiários da chamada “elisão fiscal”, a forma “educada” de sonegar impostos usando advogados caros, por que trabalhariam por Estados que promovem o bem estar social?

Se o dinheiro não fez o que Reagan previa, o “trickle down”, o discurso fez. De tanto ser martelado, tornou-se senso comum.

Não me espanta mais ver gente beneficiária do Bolsa Família atacar a cobrança de impostos da qual se beneficia. Quem aí não conhece uma dúzia de pobres de direita?

Considerando o baixíssimo nível de politização da sociedade brasileira, torna-se um grande desafio para qualquer candidato encarar o senso comum e se eleger.

Para complicar, como observou minha filha Manuela, a cobertura de política da grande mídia brasileira parece um concurso de fofocas, que passa ao largo das questões nacionais relevantes. É disse-me-disse disfarçado de jornalismo.

O domínio dos plutocratas sobre a sociedade permite a eles terceirizar o poder formal aos palhaços da antipolítica, com o compromisso de que não farão absolutamente nada para atacar o modelo injusto e excludente — pelo contrário.

O paradigma mudou de tal forma nos últimos 40 anos que os desafios da esquerda para se comunicar com a sociedade se tornaram enormes. É como se você fosse consultar um guia e descobrisse que as palavras estão repentinamente desaparecendo dele.

A enorme perplexidade da esquerda pode ser explicada em parte por isso. Quem se deu relativamente bem recentemente, como o Mélenchon na França e o Sanders nos Estados Unidos, teve de inovar não só no conteúdo, mas também na forma de entusiasmar os eleitores mais jovens.

Quem se deu bem? Quem conseguiu mobilizar algo que os jovens têm de sobra: a utopia e a energia para mudar.

(Luiz Carlos Azenha)

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