A grande imprensa em busca de um autor

17/05/2022 às 3:52 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Excelente artigo. Serve para a gente refletir sobre o papel da imprensa nisso tudo !

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A grande imprensa em busca de um autor

Vítimas de um estado de suspensão provocado por elas mesmas, as instituições brasileiras arrastam-se pelo chão em busca de um ponto de apoio capaz de ajudá-las a erguerem-se. Entre elas, encontra-se a dita grande imprensa, também conhecida por outras nomenclaturas, dependendo de quem a designe, tanto que, não raro, é chamada de “mídia hegemônica” ou mesmo de “mídia empresarial”.

Apoiadora contumaz das rupturas institucionais no Brasil,como o fez no golpe militar de 1964, para quatro anos depois, com o AI-5, tornar-se vítima do próprio veneno que ajudou a inocular nos dutos da nação, e, mais recentemente, do golpe branco contra a presidente Dilma Rousseff (2016), que acabou se voltando contra ela mesma, na figura de Jair Bolsonaro, a grande imprensa tornou-se uma personagem à caça de um autor.

Como na famosa peça de Luigi Pirandello (1867-1936), Seis Personagens à Procura de um Autor(1921), na qual meia dúzia de personagens descartadas no processo criativo, invadem um palco na busca de alguém que as reconheça enquanto tais – trata-se de uma discussão dos limites do homem enquanto criatura e criador –, a grande imprensa, dessacralizada, tenta resgatar aquilo que imaginava ser, ainda que talvez não fosse.

Para além do que pense em conseguir na sua encenação, a cura, por assim dizer, a julgar pelos sintomas, passa por uma terapia capaz de fazê-la romper com a sua natureza primordial, algo fortemente arraigado: independentemente do tamanho de cada veículo, ela sempre foi e continua sendo um grande negócio, e aquilo que romanticamente se chama de jornalismo, ao pé da letra, mesmo,se dava ou se dá circunstancialmente.

Ao tornar-se um braço da Operação Lava Jato, hoje mundialmente conhecida como um dos mais acintosos casos de delinquência jurídica que se tenha notícia, a grande imprensa acabou dando um tiro no único pé que ainda lhe era saudável, com um agravante: apesar da ONU reconhecer, há poucas semanas, que o ex-juiz Sergio Moro foi parcial no julgamento do ex-presidente Lula,como já havia sentenciado o STF, ela ainda insiste em se fazer de rogada.

Neurótica obsessiva

Ora, quando se discute a cura, na busca da redenção, não é exagero afirmar que a grande imprensa, sob a ótica psicanalítica, é uma neurótica obsessiva. E, como é óbvio, a origem do transtorno reside justamente na sua paranoia de que o ex-presidente Lula é um inimigo, o diabo em forma de gente, sinal de que há algo de muito errado na estrutura do seu “aparelho psíquico”.

Aliás, quando se olha para trás, observa-se que, na perspectiva da grande imprensa, sempre houve o diabo da vez. Já o foram Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, João Goulart, Miguel Arraes, entre outros, perseguidos por supostamente ameaçarem a zona de conforto do andar de cima de um Brasil disposto a se manter aonde estava. À diferença de hoje, àquela época, os donos das rotativas, quase sempre fleumáticas, a exemplo de Carlos Lacerda e Assis Chateaubriand, assumiam explicita mente suas próprias taras nos seus artigos acachapantes. Taras que muitas vezes não respeitavam o próprio princípio do corporativismo. O “Cidadão Kane” brasileiro, o paraibano Assis Chateaubriand, fundador dos Diários Associados, por exemplo,chegou a se valer de insultos raciais para combater seus desafetos, como o fez com Roberto Marinho, a quem chamou de “crioulo alugado”, “cafuzo indígena’, “africano de 300 anos de senzala”, “débil mental sem remédio”, enfim, não havia limite naquela segunda metade de século 20.

Trabalho sujo

Hoje, os métodos são mais suaves. No entanto, talvez se façam mais nocivos na sua dinâmica e alcance. Em vez de uma única pena arrasadora em cada veículo, os ataques, como se viu nos “anosdeouro” da Lava Jato, foram diluídos: repórteres e articulistas, a serviço dos editores-chefes, concatenados com os patrões, assinaram o trabalho sujo, e muitos acreditavam no que escreviam e vociferaram – um deles chegou a lançar um livro enaltecendo Moro,sua fonte –, enquanto outros o fizeram por pura desonestidade intelectual, para não usar uma designação mais pesada.

Agora, quando se fala de um golpe no golpe, a vir, o que tornou os dias atuas mais longos, tensos, cinzentos e também caricatos, por conta do embananamento dos supostos golpistas,risíveis, é curioso observar o comportamento da grande imprensa. Porque, no fundo, ela sabe que em parte é responsável pelo atual estado de coisas e, mesmo aparentemente pregando contra o recrudescimento, os seus esforços em combatê-lo ainda são tímidos.

Em tempos de fake news e de redes socais, que deram voz a uma legião de imbecis,como bem disse Umberto Eco, o bom jornalismo se faz imperioso, e a grande imprensa brasileira, chamuscada e capenga, se vê diante de um desafio que vai além da sua própria sobrevivência, seriamente ameaçada: se transformar em um novo sujeito, um sujeito que não esteja apenas à mercê de certos instintos, sob pena de continuar a vagar indefinidamente à procura de um autor.

O resto é o silêncio das madrugadas profundas.

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(Raul Moreira)]

FONTE: JORNAL A TARDE, SALVADOR-BA, 16.05.2022

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