As Flô de Puxinanã

19/02/2019 às 3:09 | Publicado em Canto da poesia | Deixe um comentário
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Esse cordel é de Zé da Luz, poeta paraibano. Puxinanã é uma cidade perto de Campina Grande – PB. Em tupi puxi-nanã significa ananás ruim (não comestível).

 


As Flô de Puxinanã

 

Três muié ou três irmã,

Três cachorra da molesta,

Eu vi num dia de festa,

No lugar Puxinanã.

 

A mais véia, a mais robusta

Era mesmo uma tentação!

Mimosa flô do sertão

Que o povo chamava Ogusta.

 

A segunda, a Guléimina,

Tinha uns ói que ô! maldição!

Matava qualquer cristão

Os oiá dessa menina.

 

Os ói dela parecia

Duas estrela tremendo,

Se apagando e se acendendo

Em noite de ventania.

 

A terceira, era Maroca.

Com um corpo muito malfeito.

Mas porém, tinha nos peito

Dois cuzcuz de mandioca.

 

Dois cuzcuz que, por capricho,

Quando ela passou por eu,

Minhas venta se acendeu

Com o cheiro vindo dos bicho.

 

Eu inté me atrapaiava,

Sem saber das três irmã

Que eu vi em Puxinanã,

Qual era a que me agradava.

 

Escolhendo a minha cruz

Pra sair desse embaraço,

Desejei morrer nos braços,

Da dona dos dois cuzcuz!”

 

(Zé da Luz)

 


Zé da Luz, poeta que veio ao mundo como Severino de Andrade Silva e recebeu a alcunha de Zé da Luz, das terras nordestinas, nasceu em 29 de março de 1904 em Itabaiana, região agreste da Paraíba e faleceu no Rio de Janeiro em 12 de fevereiro de 1965.. Nome de guerra e poesia, nome dado pela terra aos que nascem Josés e, também, aos Severinos, que se não for Biu é seu Zé.

(As Flô de Puxinanã é uma paródia de As “Flô de Gerematáia” de Napoleão Menezes)

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10 dos mais bonitos poemas de amor da Língua Portuguesa

02/01/2019 às 2:56 | Publicado em Canto da poesia, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Iniciando o ano com poesias, as melhores !


10 dos mais bonitos poemas de amor da Língua Portuguesa

Língua PortuguesaLíngua Portuguesa

Como se ama em português? Como conseguem os poetas da Língua Portuguesa utilizar o nosso idioma de forma tão bela e perfeita para expressar o mais nobre dos sentimentos, o amor? Ninguém consegue explicar de forma científica o que é o amor, como se ama, como nos lembramos da pessoa amada e como nos sentimos quando ela não está presente. Mas os poetas possuem um dom especial para juntar um pequeno conjunto de palavras e transformá-las em algo maravilhoso e que nos toca de uma forma tão especial que parece que foi escrita para nós… ou por nós. A Língua Portuguesa é um idioma dócil, suave e delicado. E com um idioma tão único os poemas de amor em português tornam-se sempre especiais. Estes são alguns dos mais lindos poemas de amor da Língua Portuguesa. Qual é o seu preferido?

1. Amor é fogo que arde sem se ver (Luís Vaz de Camões)

Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se e contente;
É um cuidar que ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

2. Todas as cartas de amor… (Fernando Pessoa)

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

3. Soneto de fidelidade (Vinicius de Moraes)

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

4. Via láctea (Olavo Bilac)

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

5. Amar (Florbela Espanca)

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

6. Amar você é coisa de minutos… (Paulo Leminski)

Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui

7. O tempo passa? Não passa (Carlos Drummond de Andrade)

O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer toda a hora.

E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama
escutou o apelo da eternidade.

8. Do amoroso esquecimento (Mário Quintana)

Eu agora — que desfecho!
Já nem penso mais em ti…
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?

9. Morrer de amor (Maria Teresa Horta)

Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso

10. Canção do amor-perfeito (Cecília Meireles)

Eu vi o raio de sol
beijar o outono.
Eu vi na mão dos adeuses
o anel de ouro.
Não quero dizer o dia.
Não posso dizer o dono.

Eu vi bandeiras abertas
sobre o mar largo
e ouvi cantar as sereias.
Longe, num barco,
deixei meus olhos alegres,
trouxe meu sorriso amargo.

Bem no regaço da lua,
já não padeço.
Ai, seja como quiseres,
Amor-Perfeito,
gostaria que ficasses,
mas, se fores, não te esqueço.

FONTE: https://www.vortexmag.net/10-dos-mais-bonitos-poemas-de-amor-da-lingua-portuguesa/

Quão Breve Tempo é a Mais Longa Vida 

11/12/2018 às 3:42 | Publicado em Canto da poesia | Deixe um comentário
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Pessoa, na pele de Ricardo Reis, engrandecendo este espaço !


Quão Breve Tempo é a Mais Longa Vida  fernando-pessoa

Quão breve tempo é a mais longa vida
E a juventude nela! Ah!, Cloe, Cloe,
Se não amo nem bebo,
Nem sem querer não penso,
Pesa-me a lei inimplorável, dói-me
A hora invicta, o tempo que não cessa,
E aos ouvidos me sobe
Dos juncos o ruído
Na oculta margem onde os lírios frios
Da ínfera leiva crescem, e a corrente
Não sabe onde é o dia,
Sussurro gemebundo.

(Ricardo Reis, in “Odes”, heterónimo de Fernando Pessoa)

Evoé novos cronistas

29/11/2018 às 3:53 | Publicado em Artigos e textos, Canto da poesia | Deixe um comentário
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As crônicas de Jânio Ferreira normalmente são poesias em prosa, essa é mais uma.

Abraco_no_livresco


Evoé. novos cronistas

Professora Carmem é uma dessas educadoras que faz jus ao título que lhe antecede o nome. Sempre dedicada, ela coordena o A TARDE Educação aqui em Paulo Afonso e, em abril deste ano, foi contemplada pelo velho vespertino da Praça Castro Alves como destaque entre os articuladores do projeto na Bahia. Não satisfeita, nossa formiguinha criou o ótimo “Leitura, Chave do Mundo”, onde alunos da rede municipal têm a oportunidade de mostrar seus talentos em forma de contos, fábulas, cordéis, poesias, músicas, tirinhas e afins, fato que, por si só, merece vivas, rapapés e loas. Segue o baile.

Semana passada ela me ligou e logo pensei em mais um convite para a agradável missão de assistir aos cativantes uivos de Bruno Cordeiro, 7 anos, em sua originalíssima interpretação de um lobo preocupado com o meio ambiente e amigo de Chapeuzinho Vermelho, ou ouvir a delicadeza de Jamile Sena, 12 anos, narrando A Carta, um conto de sua autoria inspirado em Ana Terra, de Érico Veríssimo, por sinal muito bem escrito. Mas, para minha surpresa, o que ela queria mesmo era que eu gravasse um vídeo direcionado aos alunos que irão participar do concurso Jovem Jornalista 2018/2019, lhes dando dicas de como escrever uma crônica. Apavorado, exclamei: valei-me, meu São Rubem Braga!

Fugindo das mídias como o diabo da cruz, inventei mil desculpas, pigarreei bem forte sugerindo súbita rouquidão, mas não teve jeito, em poucos minutos lá estava diante de mim uma câmera mais parecendo a garrucha do caçador que vai salvar a vovozinha, só que dessa vez o alvo era o focinho deste velho vira-lata do sertão.

Pois muito bem, por achar que fiquei devendo algo na minha fala, aproveito esta página que em breve deverá se abrir diante dos olhares atentos dos alunos orientados por Tia Carmem, para acrescentar que, diferentemente do bolo que a mãe de Bruno deve fazer pra ele comer enquanto lê suas historinhas, ou da inigualável paçoca que Cecília fazia quando eu tinha a idade de Jamile e vivia cor- rendo pelas calçadas de Glória tomando banho da chuva que escorria pelas bi- queiras das casas, crônicas descarecem de receita.

Seus ingredientes podem ser inúmeras coisas, visíveis ou não. A propósito, agora mesmo a Lua cheia que fecha novembro mostra seu primeiro bago na minha janela e daqui a pouco será uma imensa tangerina solta no horizonte nu. Junto com ela chega o vento da noite, que, além de uivar na fresta da veneziana no tom do lobo bom, derrubará dezenas de mangas que farão a festa de sanhaçus, coleirinhas e sabiás ora cochilando em seus galhos, nem aí para o abdômen trincado da atriz, que pode até bombar nas redes sociais, mas não combina em nada com o final deste parágrafo, As- sim, afrouxe o cinto, aperte o sinto e voe pra onde você quiser.

(Janio Ferreira Soares)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 24.11.2018

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