Aquele reino…

17/01/2018 às 3:45 | Publicado em Canto da poesia | 2 Comentários
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Mais um belo conto-poesia do amigo Fabrício Junqueira. Que reino é esse ? Está claro, claríssimo !

escrita-criativa


Aquele reino…

Em um reino não muito distante, existia uma turma, aquela “panelinha” de sempre… Não eram amigos, na realidade, alguns apenas se aturavam, mas em busca de um mesmo “ideal”, dançavam a mesma música, uma moda arrastada e ruim, que ninguém gostava de ouvir, mas todos batiam palmas.

O Rei sentado em seu trono, saboreava um pedaço de carne podre, a Rainha era bela e vivia um conto de fadas, os ministros gargalhavam descontroladamente como idiotas úteis, os secretários se esbaldavam de restos, existiam também os assistentes que praticamente mendigavam farelos, enquanto os soldados massacravam as pessoas que sustentavam aquele circo de horror.

No canto do salão um insatisfeito gritava, alguns bêbados aplaudiam, as prostitutas contavam notas, o juiz envolto em sua leitura interminável, os estudantes dormiam, a igreja endossava e o único jornal publicava receitas de tortas de maçã.

Aquele reino respirava o passado. Mesmo colorido, mesmo vivo, mas assassinando todos os dias o amanhã. Um reino escancarado, malicioso, explícito na sacanagem. O reino tinha uma enorme tristeza pela frente, mas que ninguém sentia, afinal a modinha ruim ditava o passo, lento e enfadonho.

O reino era tão improvável, que até o bobo da corte vislumbrava o trono.
Ninguém sabe o que aconteceu com aquele reino, ninguém…

(Fabrício Junquieira)

FONTE: http://fabriciojunqueira.blogspot.com.br/2017/12/aquele-reino.html?m=1

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O mundo de Juvenal

28/12/2017 às 3:07 | Publicado em Artigos e textos, Canto da poesia | Deixe um comentário
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Mais um bom conto do amigo Fabrício Junqueira. Confiram !

Rio-1


O mundo de Juvenal

Juvenal quase não tinha amigos, pouco conversava com seus irmãos, esquecido muitas vezes, era apenas um corpo magrelo que pedia bênção e apanhava sem motivos. Tinha apenas um par de sapatos velhos, uma sandália achada na rua e poucas trocas de roupas. Seus óculos eram doados por uma igreja, mas ele não sabia rezar e fugia das missas.

Tinha medo das brincadeiras de rua, não gostava de falar muito, nunca havia tentado andar de bicicleta e também nunca havia chutado uma bola de futebol. Na escola, só pensava na merenda, sentia verdadeiro temor da professora que sempre gritava, tinha vergonha em não entender o que a maioria das pessoas falavam.

Havia apenas um lugar onde sentia-se bem, onde vivia sua felicidade, ouvia, entendia,conversava, era seu momento de alegria maior, as águas do rio que cortava sua pequena cidade… Brincava com os peixes, imaginava grandes e mágicos seres vivendo nas águas, nadava muito bem, conhecia cada parte, era como se ele próprio fosse parte do rio. E mesmo, quando outras pessoas, adultos ou crianças, compartilhavam do seu lugar, ele parecia alheio, não notava ninguém, era seu mundo.

Um dia, Juvenal, aos nove anos completos, desapareceu nas águas. As pessoas demoraram muito para perceber. Nenhum colega, nenhum irmão, até mesmo a mãe, que apenas sentiu falta, pois não tinha recebido o pedido de bênção e já pensava em castigar o menino esquisito.

Juvenal apenas voltou para seu mundo de água, em paz, para trás, deixou apenas o sofrimento.

(Fabrício Junqueira)

FONTE: http://fabriciojunqueira.blogspot.com.br/2017/11/o-mundo-de-juvenal.html

O Andarilho

06/11/2017 às 3:20 | Publicado em Artigos e textos, Canto da poesia | 4 Comentários
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Esse vem do blog “Poesia, Futebol e Rock ‘n’ Roll“, do amigo Fabrício Junqueira que já esteve aqui antes (“Uma goleada do martelo”). Textos assim não consigo bem classificar. Talvez um mini-conto. Poesia em prosa certamente.

2006-andarilho-04


O Andarilho

Um olhar distante e triste, um passo sem pressa, inverno de ventos que cortam a alma, garoa que molha, poça d’agua nas calçadas e um pé molhado, o antigo calçado pouco protegia. Assim caminhava um andarilho sem riso, sem expressão, atônito, perdido em lembranças vazias. Não pede, pouco olha, esqueceu palavras, nem mesmo consegue sentir a agora chuva fina gelada que molha suas roupas.

Um resto de pão no lixo, alimentando-se por instinto, não existe paladar, não recorda dos odores, sabores, apenas mastiga devagar. Esboça ruídos, algumas lágrimas acabam saindo, é quando consegue água, cada gole lento, parece ser á única coisa que ele entende, parece sentir ou gostar.

Muitas vezes está sentado em um dos bancos da praça. Olha em direção ao chão, e acaba dormindo… O susto é quase sempre seu companheiro de despertar. Então, volta a andar sem rumo, sem álcool ou qualquer droga, nenhum cão o segue fielmente, o próprio não se segue e se desconhece, uma existência que não está registrada, sem nome ou documentos.

Algumas vezes o andarilho desaparecia, a figura magra, idosa, ficava dias, até semanas sem aparecer no centro da cidade. Quando isso aconteceria, o povo apostava, quando ou se não voltaria do sumiço . Não foram poucas as vezes que perguntavam por ele.

Depois de um tempo, o andarilho já enraizado na cidade, não voltou. Sua vida não contabilizava, não era nem estatística, não possuía nenhum número.

Ninguém sentiu falta.

(Fabrício Junqueira)

FONTE: http://fabriciojunqueira.blogspot.com.br/2017/10/o-andarilho.html?m=1

Maiakovsky, o coração exposto da Revolução

19/10/2017 às 3:25 | Publicado em Artigos e textos, Canto da poesia | Deixe um comentário
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Maiakovski, um dos maiores poetas de todos os tempos. Minha homenagem !


Maiakovsky, o coração exposto da Revolução

A foto mais conhecida de Maiakowsky, provavelmente tirada em sua excursão aos EUA.

“Nas calçadas pisadas de minha alma, passadas de loucos estalam (…)”[1]

Assim começa o poema “Eu”, composto em 1913 por um certo Vladimir Maiakovsky (1893-1930). Maiakovsky, então com 20 anos, viria a ser chamado de “o poeta da Revolução”.Mas, como todo poeta é, antes de tudo, um leitor profundo de si, Volodja[2] não seria exceção. Nascido na Georgia, Maiakovsky vinha de uma família de fidalgos, em que o salário do pai (como militar) permitia uma vida sem apertos financeiros. A situação mudou drasticamente em 1906 com a morte de seu progenitor.

“Professor,
……….jogue fora
……………..as lentes-bicicleta!
A mim cabe falar
…………….de mim
…………………..de minha era.”

(A Plenos Pulmões, Maiakovsky 1928-1930)

A partir deste momento, Maiakovsky buscou em Moscou a educação que sua região não poderia proporcionar e, ao mesmo tempo, começou a participar ativamente de discussões políticas, sendo preso algumas vezes, chegando a passar seis meses inteiros na cadeia. Maiakovsky fazia aflorar seu talento para a retórica, poesia e artes, ao mesmo tempo que conseguia sobrevivência nos bares e clubes da cidade, através de jogos de cartas ou bilhar.

Maiakovsky com cerca de 20 anos em Moscou.

Entre 1912 e 1916 sua atenção foi voltada para o movimento Futurista na Rússia. Maiakovsky junto com Burlyuk e Kruchonykh formaram a vanguarda do movimento de “estética escrita” na Rússia, que tinha como objetivos declarados a “experimentação dos sons, das palavras e dos símbolos quase como se fôssemos operários da língua”. O Futurismo russo viria rapidamente a se ligar na dialética marxista, que Maiakovsky chamava de “maior ferramenta de entendimento do mundo”.

No túmulo dos livros,
………….. versos como ossos,
se estas estrofes de aço
acaso descobrirdes,
vós as respeitareis,
……………………..como quem vê destroços
de um arsenal antigo,
…………….mas terrível.
Ei-la,
a cavalaria do sarcasmo,
minha arma favorita,
alerta para a luta.
Rimas em riste,
sofrendo o entusiasmo,
eriça
suas lanças agudas.
E todo
este exército aguerrido,
vinte anos de combates,
não batido,
eu vos dôo,
proletários do planeta,
cada folha
até a última letra.
O inimigo
da colossal
classe obreira,
é também
meu inimigo
figadal.
Anos
de servidão e de miséria
comandavam
nossa bandeira vermelha.
Nós abríamos Marx
volume após volume,
janelas
de nossa casa
abertas amplamente,
mas ainda sem ler
saberíamos o rumo!
onde combater,
de que lado,
em que frente.

(A Plenos Pulmões, Maiakovsky 1928-1930)

Foto de Maiakovsky logo após ter tirado a própria vida. O tiro no peito é visível embora alguns defendam que não foi totalmente intencional. Maiakovsky, em depressão, jogava com a vida já tendo feito algumas vezes uma espécie de “roleta russa” e puxando o gatilho. Em 1930 foi o ponto final.

O poeta era, entretanto, mais um revolucionário do que um bolchevique. Politicamente, se aproximava ora dos anarquistas, ora dos mencheviques. Pulsava com a revolução. Não a Revolução Bolchevique, mas “A” revolução. A capacidade dos tempos de se contorcionarem e produzirem novos chistes de sociedade. A isto Maiakovsky dava a sua energia. Disto Maiakovsky tirava a sua.

Esta postura colocou o artista em colisão com Lênin e também com Gorky. Lênin o acusava de produzir devaneios, sem um sentido geral de ação social. Mesmo as odes de Maiakovsky soavam caóticas demais para o líder bolchevique. Gorky criticava Maiakovsky pela falta de um rigor sobre os objetos representados. O mundo de Maiakovsky era o mundo que Maiakovsky queria ter e não a realidade que ele e a Rússia viviam. Ator, produtor, cenógrafo, poeta e um outro sem número de atuações em vários campos das artes, Maiakovsky amou as mulheres de sua vida tanto quanto a ideia de Revolução.

Apesar de ter uma vida bastante atribulada com as mulheres, Maiakovsky teve em Lilya Brik o seu verdadeiro amor. A distância dela foi também um dos motivos para o suicídio.

Homem forte e com feições bonitas (apesar de sérios problemas dentários) Maiakovsky tornou-se a voz da reorganização cultural da Rússia após a revolução. Não aceitava, contudo, a ideia de usar a cultura para conformar. Para Maiakovsky, a cultura e as artes deveriam rasgar a realidade, torturá-la e deste choque prenunciar novos mundos e novas ideias. Quanto mais o sistema soviético se tornava estável e avesso aos “rasgos revolucionários”, mais Maiakovsky ia se tornando desimportante e perigoso.

Boris Pasternak (outro poeta russo) afirmou que enquanto o poeta Maiakovsky anulou o ser humano Vladimir, alimentando-se da euforia das revoluções, Maiakovsky viveu e foi feliz. Quando o mundo revolucionário não mais aceitava o poeta, o ser humano que habitava no poeta não pode resistir à realidade. Em 1930, Maiakovsky, deprimido por estar sendo preterido culturalmente, cerceado politicamente e distante de sua amada, jogava pela terceira vez com a sorte. Colocava uma bala na arma e apontava contra o peito.

(…) Você dormia, rosto preso ao travesseiro,
Dormia, a plenas pernas, a plenos tornozelos,
Penetrando de novo, de um só golpe,
No fabulário das legendas jovens.
E penetrando da maneira mais direta
Porque nele você entrava de um salto.
Teu disparo parecia um Etna
Sobre as encostas de covardes e fracos.

(Boris Pasternak, 1930 “A morte do poeta”)

Em 14 de abril de 1930, a sorte levava Maiakovksi ao suicídio. Muito antes, segundo ele, a Revolução já tinha morrido. O poeta que Maiakovsky foi recebeu de Stalin o título de “maior poeta soviético” e até 1953 a memória de Maiakovskyfoi cultuada na URSS. Após a morte de Stalin, o processo de desestalinização da URSS atingiu em cheio a memória de Maiakovsky. A vida de Volodja seguiu de perto a própria vida da Revolução, viveram um para o outro e parecem também ter morrido juntos. Maiakovsky Revolução.

(…) Vê como tudo agora emudeceu
Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu
em horas como esta eu me ergo e converso
com os séculos, a história do universo

(Fragmentos, Maiakovsky 1928-1930)

[1] Todos os poemas de Maiakovsky aqui foram traduzidos por Haroldo de Campos, incluindo o poema de Boris Pasternak

[2] Apelido russo do nome Vladiimir (Владимир). A grafia russa é Володя

(Fernando Horta)

FONTE: https://www.sul21.com.br/jornal/maiakovsky-o-coracao-exposto-da-revolucao/

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