O jardim secreto de Lennon e os nossos

01/10/2019 às 3:29 | Publicado em Artigos e textos, Canto da poesia, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Iniciando este outubro, Jânio Ferreira e sua poesia em prosa, desvendando jardins nada secretos. Ele com Beatles esse post tinha que ser o primeiro deste mês em que entro nos sessenta, o que para nossa sociedade formalmente se trata da terceira (e derradeira) idade.

“Strawberry Fields, o jardim secreto de Lennon”

 


 

O jardim secreto de Lennon e os nossos 

O sol que finda setembro clareia as primeiras floradas e em meio à saraivada de balas que dilaceram e de discursos que idiotizam, leio uma notícia que me remete ao silêncio da casa paroquial, onde as ondas curtas de um velho rádio Transglobe Philco me levavam para muito além das andorinhas que moravam em suas telhas. A nota dizia que na semana passada foi aberto ao público o portão do Strawberry Fields, jardim imortalizado por John Lennon numa de suas mais geniais canções.

Localizado em torno de um orfanato mantido pelo Exército da Salvação no bairro de Woolton, em Liverpool, conta Allister Versfeld, responsável pelo lugar, que Lennon costumava pular a cerca que ficava atrás da casa de sua tia pra brincar com as crianças e depois, presumo, subia em alguma árvore para observar coisas que só a curiosidade infantil percebe e que mais tarde são processadas em forma de músicas, de textos ou, quando se tem
a chance, em longos papos com descolados terapeutas (tipo Selton Mello).

“Todas as crianças têm o seu jardim secreto, talvez um esconderijo embaixo da escada ou nos galhos de um grande carvalho. Pelo que fala essa música parece que, para John, era aquele o seu lugar”, diz sua meia-irmã de 72 anos, Julia Baird. Bingo! Não sei você, mas este velho escriba ainda rega diariamente os jardins que fertilizaram sua infância e que, graças aos cataventos que continuam bombeando o enferrujado aspersor fincado no topo da
neblinada serra, continuam produzindo a doçura exata que costuma me escudar sempre que a maldade ameaça expandir o fel que nutre as feridas.

Um deles, como disse lá em cima, era a casa paroquial, lugar onde eu passava horas ouvindo o ranger da rede em sintonia com o mundo. O outro ficava nos galhos das goiabeiras do quintal de minha avó, que em dias ameaçando chuva serviam-me como mirantes ao vento, enquanto o escuro sorvete de nuvens se preparava pra se liquefazer sobre o manto turquesa que vestia o rio.

E são nesses jardins exalando viço que até hoje colho frutas com gosto de Bias, Iaiás e Cecílias; de Aldas, Letícias e Fernandinas; de Lindemás, Pedros e Zés das Silvas. Neles também ouço buzinas de uma Rural trazendo brinquedos e apressando saudades; mugidos de vacas ruminando pastagens; e Hey Jude tocando na difusora e nos bailes, cuja letra, na época, soava como uma espécie de: “Ei, Janio, pegue sua peteca e saia por aí, que
os passarinhos lhe esperam lá perto do campo de futebol. Mas vá sem pressa, cara, que a asa do tempo é lenta, e na volta sempre haverá um pão quentinho pra você comer vendo o entardecer”.

Em seguida vinha a Ave Maria, toda plena e cheia de graça, como era a vida nos tempos em que a gente pensava que nossos jardins jamais deixariam de ser Strawberry Fields Forever.

(Jânio Ferreira Soares)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 28.09.2019

 


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Canción por la Unidad de Latino America

29/09/2019 às 11:25 | Publicado em Canto da poesia, Midiateca, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Bela canção. Momento oportuno !


Belchior, ensaio – 1992

01/09/2019 às 3:50 | Publicado em Canto da poesia, Midiateca, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Domingo: música de qualidade !


A MENINA VALÉRIA NÃO APAGOU SUAS VELINHAS

05/08/2019 às 2:12 | Publicado em Artigos e textos, Canto da poesia | Deixe um comentário
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Jânio Ferreira com mais uma bela prosa-poesia, aquecendo peles e chocando sonhos nossos de cada dia, de cada ano.


A MENINA VALÉRIA NÃO APAGOU SUAS VELINHAS

Começo esse texto antes das 5 da manhã de quinta-feira, 18 de julho, e enquanto a descompassada polifonia de pardais não invade a calmaria, aproveito para ouvir uma afinada corujinha-do-mato, cujo canto só cessará quando a claridade revelar suas penas e, por tabela, esquentar meus dedos, coitados, mais uma vez em busca das palavras certas para seguir em frente.

Com o fuso horário de três horas a me- nos, é madrugada em San Salvador (capital de El Salvador), e deduzo que dona Rosa Ramírez deve estar tendo mais uma noite de agonia, ainda mais porque hoje, exatamente hoje, ela acordaria toda feliz, compraria um bolo e o enfeitaria com as duas velinhas que representariam a nova idade de sua netinha Valéria, que as apagaria de um sopro só. Mas, infelizmente, a vela que
dona Rosa sempre acenderá nesta ex-data querida terá uma finalidade oposta à celebração da vida. Explico.

No começo de abril, seu filho Óscar, de 25 anos, resolveu pedir asilo aos Estados Unidos. E aí, com uma carta de autoridades locais colocando-o como um per- seguido pelas gangues do bairro, ele, es- posa e filha pegaram a estrada, levando apenas uma pequena mala, documentos e uns trocados.

Depois de quase um mês de viagem, os três chegaram à fronteira de Tapachula, sul do México, onde receberam um visto que lhes permitiam viver por lá, até que o pedido fosse julgado. Como a decisão não saía, Óscar resolveu prosseguir, e em meados de junho eles chegaram a Matamoros, norte do México, a apenas uma ponte do Texas. Com a fronteira fechada e cansado de esperar, Óscar calculou a largura do rio e achou que acomodando a pequena Valéria dentro de sua camiseta, poderia, enfim, alcançar seu sonho a nado.

O tronco de algaroba que sustentava a base da fogueira acesa na noite de São João ainda fumaçava, quando vi a foto dos dois, afogados nas águas que apartam mundos. Imediatamente recordei Aylan, o menino sírio de 3 anos, morto em 2015 no mar Mediterrâneo. As coincidências das cores das roupas, a posição dos corpos e a semelhança dos sapatinhos são tantas que, fosse dado a crendices, diria tratar-se da segunda mensagem, das três que a humanidade tem direito antes do apocalipse.

A propósito, amanhã Juca faz 23. E como sua mãe também se chama Valéria, toda vez que vejo a foto de sua xarazinha dentro da camiseta do pai, me lembro do tempo em que, ainda adolescentes, sempre que parávamos o jipe nas madrugadas frias, eu a colocava dentro do meu surrado blusão atoalhado e aí ficávamos aquecendo peles e chocando sonhos. A grande diferença é que, apesar dos ventos e redemoinhos, ainda estamos aqui, baleados, é verdade, mas suficientemente vivos, para poder ter a indescritível sensação de ver nossos filhos apagando as velas que enumeram os anos de suas vidas.

(Jânio Ferreira Soares)

FONTE: Jornal  A TARDE, Salvador-BA, em algum dia do mês de julho

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