Um rouxinol carente nas noites do sertão

24/05/2021 às 3:34 | Publicado em Artigos e textos, Canto da poesia, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Jânio Ferreira normalmente escreve poesia em prosa. Confiram mais esse: excelente !

“…sempre achei que poesia é tudo aquilo que seu olho inventa e o dicionário estraga”

“…não é toda madrugada que podemos ouvir versos num rouxinês apaixonado, cuja tradução deve ser promessas à amada de um ninho bem quentinho, onde, enfim, eles poderão voar sem asas.”

“ Viva a poesia!”

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Um rouxinol carente nas noites do sertão

Enquanto nosso psicopata-mor continua desdenhando de quase meio milhão de mortos, tento espairecer lendo poemas e observando outros tantos que diariamente aparecem no meu quintal. Sim, porque se há algo que aprendi depois do Covid foi o fato de prestar mais atenção nos versos que se autodeclamam ao meu redor e que, por costumeiros, achava que teria todo tempo do mundo pra lê-los.

Mas mudei de opinião assim que a vida me mandou um recado, dizendo: “Ei, seu velho vagabundo, tá vendo aqueles paturis mergulhando bem ali no lago em frente? Pois se desligue um pouco das telas que regem seu tempo e observe-os com mais atenção, porque amanhã, como no poema de Manuel Bandeira, você poderá ser só tosse, tosse, tosse e aí, ao perguntar ao doutor se é possível tratar o pneumotórax, ele responderá: amigo, a única coisa que eu posso fazer por você é tocar um tango argentino!”. Depois disso comecei a ouvir Astor Piazzolla tocando Adiós Nonino, não com portas e janelas fechadas pra realçar o som de seu bandoneon.

É que o momento, amigo leitor e amiga leitora, pede a urgência dos ventos das manhãs trazendo o cheiro de lenha queimando um café distante; pede ouvidos afiados pra escutar o som dos foguetes que já anunciam a trezena de Santo Antônio que, novamente, será de rezas longínquas dos fiéis que resistiram à peste; pede, como dizia Olavo Bilac, nunca morrer assim, num dia assim, de um maio assim, com o Sol clareando roseiras após uma semana de chuva fina; pede que façamos igual ao genial Manoel de Barros, que adorava desinventar objetos, como, por exemplo, o pente, dando-lhe a opção de não mais pentear, até que ele pudesse se sentir à vontade para ser uma begônia ou esse jenipapo absoluto que me olha meio Caetano, meio Mabel – e que em breve virará licor num São João de fogueiras tristes.

A propósito, sempre achei que poesia é tudo aquilo que seu olho inventa e o dicionário estraga. O próprio Manoel de Barros conta que durante anos o rio que dava uma volta atrás de sua casa lhe parecia um vidro mole fazendo uma curva, até o dia em que um adulto lhe explicou que aquilo era uma enseada. Ao saber o nome real de sua fantasia, o vidro trincou-se e a imagem empobreceu pra sempre.

Tudo isso pra dizer que desde a semana passada, depois da meia-noite, um solitário rouxinol dana-se a cantar perto da janela do meu quarto. Não me lembro de já tê-lo ouvido assim tão tarde. Valéria também não. O Google diz que ele faz isso para atrair a fêmea. Torço pra que ela continue fazendo bico. Afinal, não é toda madrugada que podemos ouvir versos num rouxinês apaixonado, cuja tradução deve ser promessas à amada de um ninho bem quentinho, onde, enfim, eles poderão voar sem asas. Viva a poesia! Viva Santo Antônio! Viva os idiotas de minha aldeia !

(Jânio Ferreira Soares)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 22.05.2021

19 de maio … de 1988

19/05/2021 às 2:58 | Publicado em Canto da poesia, Fotografias e desenhos | 4 Comentários
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Hoje é um dia muito especial em minha vida porque é o aniversário de minha filha Rosana. Dia de festa, dia de alegria. Dia de saudade. E a melhor tradução do termo saudade para mim vem nessa poesia do avô materno dela, o grande poeta, jornalista e escritor Rogaciano Leite:

“SAUDADE,

pedra de gelo que cai sobre o coração,

para conservar a lembrança

daquilo que a gente quer !”

(Rogaciano Leite)


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Samba da bênção – Vinícius de Moraes

18/04/2021 às 3:53 | Publicado em Canto da poesia, Midiateca, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Domingo é dia de boa música. Música e poesia !


Três em Um e Dois em Um

07/04/2021 às 3:07 | Publicado em Canto da poesia, Fotografias e desenhos | Deixe um comentário
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Publico hoje neste espaço três poesias do amigo Rodrigo Dantas e um desenho (dois em um) que fiz recentemente. As artes se misturam…


ACALENTO (24/3/2021)

Coloco em meu colo o mundo iníquo
que soluça em pranto justo
exausto, acomoda o rosto feio
em meu peito quente, acolhedor
afago sua nuca e o rosto vira
buscando um lugar melhor
canto baixinho em seus ouvidos moucos
uma canção que invento, um lamento
acalento, acaricio, conforto, consolo
e agora manhãzinha que ele dorme
no lusco-fusco eu choro.

GRANULADO DE UM BRIGADEIRO EMBAÇADO (5/4/2021)

Eu não poderia ir embora sem antes desejar boa-sorte
aos alimentados de bocas inábeis, para que não sejam devorados pelos esfomeados
Eu não poderia me descolar sem antes desejar boa-sorte
aos que fecham os olhos para excluir, para que não sejam excluídos por fecharem seus olhos desastrados
Eu não poderia desplugar sem antes desejar boa-sorte
aos que condenam mas fingem viver dignamente – puídos – enquanto transgridem, para que percebam enquanto patinam na lama seus pés desairados
Eu não poderia ir embora sobretudo antes de desejar-me boa-sorte
eu, partícula, granulado que pende desse nosso brigadeiro sem liga e embaçado.

ABAT-JOUR (31/3/2021)

Lua, não és um abajur de luxo
sou tão teu filho quanto és minha
filha do meu viver efêmero
efeméride do meu zênite
teu marulho me toca, evoca
o que mais belo em mim há
sem gênero, pequeno, sereno
como a noite que roda
em elipses tranquilas
e tão longe e me toca
como a filha que vejo crescer
– e sou o que preciso for –
como o tempo que vejo penar
– e ofereço plácido a dor –
como inspira-me ver-te luzir!
– fulgurar, esplender, fulgir –
tu, abat-jour de luxo.


DoisEmUm

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