A vida e a morte dos burocratas

07/01/2014 às 3:31 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 1 Comentário
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Ao lado desses abaixo há um outro ditado Espanhol que diz “Se quiseres saber quem é Juanito, dê-lhe um carguito“. Faço apenas dois destaques no artigo de Emir Sader que posto hoje aqui neste espaço, e recomendo fortemente a leitura do texto:

Lenin gostava de repetir que “O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Corrompe material e espiritualmente.

São personagens que terminam como o canalha do Nelson Rodrigues: solitários, sem ninguém, agarrados ao único que lhe resta: a caneta e escrivaninha.

Apenas complementando: ou modernamente agarrados ao mouse e ao teclado !

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O poder e o caráter (Emir Sader)  Emir

(Fenomenologia de um burocrata)

“Dá-lhe o bastão e vê-se o vilão”. ‘Se quiseres conhecer o vilão, dá-lhe o bastão de comando’. (provérbio português)

A afirmação:  “Quer conhecer uma pessoa? Dá-lhe poder, para ver a força do seu caráter” vale para entender comportamentos na esfera da política nacional, mas também em outros marcos institucionais.
Gente que pregou sempre a socialização do poder, as direções coletivas, a construção de consensos mediante a discussão democrática e a persuasão, criticou sempre a violência verbal, a ofensa, o maltrato às pessoas – de repente vê um cargo de poder cair no seu colo,  revela falta de caráter, renega tudo o que aparentemente defendia, se encanta pelo poder e se torna um déspota.
O poder lhes sobe à cabeça e lhes invade a alma. Todas as frustrações e os complexos de inferioridade acumulados por não ter méritos para um protagonismo de primeiro plano, de repente irrompem sob a forma da prepotência, da arbitrariedade, da concentração brutal do poder, de mal trato das pessoas, do  uso do poder das formas mais arbitrarias possíveis.
Tem gente que se humaniza ainda mais quando assume funções públicas, aumenta sua modéstia, suas formas humanas de relação com as pessoas. Tem outras em quem o poder bota pra fora o que de pior estavam acumulando. Se transtornam, tornam-se monstros, que acreditam que o poder é um porrete, de que fazem uso a torto e a direito, contra todos.
Não conseguem conviver com pessoas que acreditam que lhes fazem sombra. Tem complexo de inferioridade, então acreditam que os outros o desprezam, não o levam a sério, não lhe reconhecem os méritos que acreditam ter.
Tem uma visão instrumental do poder, tanto assim que se desesperam quando se defrontam com pessoas que tem seu poder na moral, na legitimidade política, na capacidade intelectual – de que eles não dispõem – que não se vergam diante de ameaças, diante do poder do decreto, da arbitrariedade. Diante dessas pessoas, perdem o equilíbrio, se sentem pequenos, impotentes, desprezados.
Não conseguem conviver com a diferença. Diante de divergências, buscam fazer com que desemboquem na ruptura, valendo-se do poder formal dos decretos, das punições, da exigência de retratações formais. Não tem estrutura psicológica para conviver com as diferenças, para buscar coesão entre diferentes. Logo descambam para a violência, verbal e dos decretos.
Usam os espaços institucionais que detêm como se fossem propriedade sua, dispõem das pessoas, das coisas, dos recursos, como se fossem patrimônio pessoal. Fazem do cargo que tem, uma propriedade pessoal, desqualificando completamente o caráter publico que a instituição deveria ter.
Como sabem que tem um poder ocasional, pequeno, vivem depressivos, buscam esconder-se através de falsas euforias, mas que lhes tiram o sono, a calma.
Tratam mal  a todos a seu redor, fazem deles submissos, em lugar de ajudá-los a desabrochar, como outros lhe permitiram sair do anonimato e galgar posições.
Vivem cercados de subalternos, cinzentos, temerosos. Todos acumulando rancor e ódio contra ele, sonhando todo dia com a sua morte, a sua desaparição mágica e súbita. Sonham que ele desapareça, tanto o rancor e a humilhação que acumulam e sofrem. Ninguém gosta desse tipo de gente, o temem, o odeiam, o desprezam caladamente.
É uma gente medíocre, mas que tem uma ânsia profunda do poder. Como é profundamente inseguro, precisa da adulação, por isso vive e nomeia incondicionais para cercá-lo. De quem cobra palavras de adulação a cada tanto.
Como compensação do complexo de inferioridade que tem.
Alimentam o acesso ao poder durante 10, 20 anos. Quando chegam, se afogam com o poder, o transformam em poder absoluto. Quando deviam se realizar, se frustram, ficam menores, deprimidos, precocemente decadentes. O que deveria ser o ápice, é o fim.
Fazem o teatro de um suposto desapego ao poder, de dedicação não sei quantas horas ao dia às tarefas mais duras – e cinzentas -, mas se apegam ao poder como sua alma. Já não podem viver sem ele e suas prebendas.
Quando vai terminando o tempo desse poder, ficam desesperados, porque não conseguem mais viver sem esse poder, sem se dar conta que esse poderzinho é uma porcaria, um nada. E porque todos fora dali, que não dependem dele, lhe tem um imensa e generalizada rejeição, que é o que o espera quando não possa mais se proteger com as prebendas do poderzinho que tem hoje. Vão ser reduzidos às suas devidas proporções, de mediocridade e anonimato.
Porque o poder forte é o poder legítimo, fundado no convencimento, na ética, no reconhecimento livre dos outros, que ele não conhece. Porque esse tipo  de burocrata tem uma visão pré-gramsciana, acha que o poder é a violência, a força, a prepotência. Que pode levá-lo pra casa no bolso ou debaixo do braço.
Pobres diabos, devorados irreversivelmente pela mediocridade, pelas mentiras com que tentam sobreviver – mentem, mentem, mentem, desesperadamente -, em guerra contra os outros e em guerra consigo mesmos.
Lenin gostava de repetir que “O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Corrompe material e espiritualmente.
Esses burocratas, corrompidos pelo poder, são discricionários, prepotentes, cobram dos outros, mas não permitem que cobrem dele. Cobram economia alheia, contanto que ninguém cobre seus desperdícios. Não agem com transparência, escondem seus passos e suas intenções.
Não amam, não sabem amar, nunca amaram. Gostam de si, tentam sobreviver, mal e mal, sem amor.
Reduzem tudo ao administrativo, porque não sabem pensar, tem terror a ter que se enfrentar a uma realidade que tivessem que decifrar, a argumentos que desnudassem sua falta de razões, suas arbitrariedades. Não sabem argumentar, não conseguem justificar as decisões absurdas que tomam, então vivem no isolamento, e no pequeno circulo cinzento dos que dependem dele. Fogem da discussão, da confrontação de argumentos, que é o que mais temem. Tentam reduzir tudo a prazos, normas, estatutos, punições, ameaças, promoções, expulsões. São burocratas perfeitos, idiotizados pela ativismo, que não podem parar, senão teriam que pensar e isso é fatal para eles.
Eles não entendem onde se meteram, deglutidos pela atividade meio – seu habitat, como burocratas que são, por natureza – não compreendem o que fazem, até mesmo porque é incompreensível, reduzidos às cascas formais de um conteúdo que lhes escapa, porque sua cabeça obtusa não lhes permite captar o que os rodeia, que eles pretendem aprisionar mediante decretos.
Se desumanizam totalmente pelo exercício frio da administração, que  creem  que é poder. São solitários, vivem fechados, os amigos se distanciam, perdem a confiança neles primeiro, o respeito depois.
Pensam que dominam tudo, com seus cronogramas e convênios, mas não controlam nada. Tudo acontece a seu redor, sem que eles saibam. Vivem num mundo vazio, que não podem parar, para não se dar conta que é vazio. Pulam no abismo para seu fim.
Não conseguem pensar-se a si mesmo sem esse poderzinho. Tentam perpetuar-se, pela inércia, porque fora desse lugar não são nada. Ali também não são nada, mas se enganam, se iludem, que são. Apodrecem no exercício das funções burocráticas e ai morrem.
São personagens que terminam como o canalha do Nelson Rodrigues: solitários, sem ninguém, agarrados ao único que lhe resta: a caneta e escrivaninha.
Os burocratas morrem em vida, afogados pela sua mediocridade. Passam pelo cargos sem pena, nem glória, esquecidos e desprezados por todos. Saem menores do que entraram. Se dão conta aí que já não serão nada na vida.
Essa a vida e a morte dos burocratas. A vida segue, feliz, sem eles.

Chefe é chefe – uma reflexão fabulosa!

30/06/2013 às 3:51 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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A estrutura atual de nossas organizações não prescinde da figura do Chefe. Com a grande rede e os avanços das novas TIC isso tem mudado. O ‘home-office’, por exemplo, permite ao empregado trabalhar bem distante do chefe… O texto abaixo retirei do site HypeScience, vale a pena a leitura pois ainda traz uma bela fábula do Millôr.


Chefe é chefe – uma reflexão fabulosa!

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Um dos fundadores da sociologia, o economista alemão Max Weber, conceitua o poder como sendo toda a probabilidade de impor a própria vontade numa relação social, obstante qualquer resistência e independentemente do fundamento dessa probabilidade.

Um dos exemplos mais simplórios e também um dos mais anacrônicos do exercício do poder está manifestado no membro administrativo de algumas corporações, com grau hierárquico executivo identificado simplesmente como “o chefe”.

“O chefe” é o personagem muitas vezes caricato que, encarnando o detentor de alguma forma de poder, tem muitas vezes seu grau de hierarquia oficializado por títulos sugestivos, tais como coordenador, gerente, diretor, supervisor, etc.

Independentemente do título, ser chefe é ter acesso privilegiado às informações e às decisões, e também a outros instrumentos administrativos que viabilizam o exercício desse poder, tais como a promoção e a demissão de seus subordinados, por exemplo.

No Brasil das corporações anacrônicas é comum se ouvir nos bastidores:

– O chefe tem sempre razão!

– Manda quem pode – e obedece quem tem juízo!

E por aí vai.

A infelicidade de tal prática, onde chefe é chefe e subordinado é subordinado (sendo a diferença muito nítida também no montante dos salários) geralmente está acompanhada pelo autoritarismo de uma parte e a subserviência da outra.

Talvez uma herança atávica do feudalismo, o exercício do micro poder diário das chefias nos convida a um questionamento filosófico também sobre o exercício diário da ética, que se traduz, na interpretação de muitos filósofos modernos, como sendo simplesmente o exercício da moral.

Muitos chefes possuem um poder circunstancial. Mandam mas não lideram.

E talvez por falta dessa mesma liderança ameacem, intimidem e se transmigrem amiúde na versão tragicômica de pequenos tiranos.

Em síntese: um rato que ruge.

E o que é pior, é que muitos desses chefes tiranos brotaram do plano comum de seus subordinados.

Quando então promovidos simplesmente “mudam de lado”.

Talvez porque na maioria das corporações onde exista um chefe tirano, também existam subordinados que trabalhem direito apenas quando contam com uma “severa” supervisão.

Flagra-se, portanto, a carência de moral, tanto de uma parte como de outra.

Qual é a solução?

Melhorando-se o subordinado, transformando-o em colaborador se melhoraria também a chefia?

Ou trocando-se um chefe por um verdadeiro líder, a coisa toda mudaria de figura?

Será?

Ou é do indivíduo que temos de falar – antes de mais nada?

Para concluir este artigo e suscitar essa fabulosa reflexão – quero apresentar aqui minha releitura recorrente de uma das “Fábulas Fabulosas” de Millôr Fernandes:

“O rato que tem medo”

A história é bem simples. Um rato que depois de muito sofrer pede para um grande mágico transformá-lo em um gato. Não suportava mais ser perseguido e intimidado.

Nem bem foi transformado, ironicamente, passou a perseguir todos os ratos que encontrou. Porém, com inédita crueldade e efetiva precisão. Afinal conhecia com propriedade o modus operandi destrutivo dos ratos.

Viveu satisfeito até encontrar um cão – que então o persegue.

Implora mais uma vez para que mágico o transforme, dessa vez em um cão, e assim, por efeito da magia vai subindo sucessivamente a escala zoológica até chegar na iminência de ser transformado em ser humano.

Nessa passagem, o mágico, numa peripécia o transforma novamente num rato.

– Mas por que voltei a ser rato?  – pergunta o animal, transbordando frustração.

É com a sabedoria típica das fábulas que o Grande Mágico responde:

– De que adiantaria para o mundo mais um Homem com “coração de rato”!

-o-

[Mustafá Ali Kanso]

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Em homenagem aos verdadeiros líderes

27/04/2013 às 8:12 | Publicado em Fotografias e desenhos | 1 Comentário
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Lider

Shadow IT

29/06/2012 às 3:56 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Mais uma mudança de paradigma na área de TI. Só não sei se principalmente as grandes corporações estão preparadas para isso. Nosso Direito com certeza não.


HÁ VANGTAGENS NA CHAMADA SHADOW IT

Em vez de criar empecilhos, alguns dos CIOs mais esclarecidos já aceitam e até encorajam a uso clandestino de TI. Tiram proveito dela para redefinir a função da equipe de TI.

(Julia King, Computerworld/EUA)

Antes de mais nada, uma estatística assustadora: O Gartner prevê que em menos de três anos, 35% das despesas empresariais com TI ocorrerão além do orçamento da área de TI. Os funcionários assinarão regularmente serviços de colaboração, serviços analíticos e outros serviços na nuvem, com um único clique. Outros simplesmente construirão os seus próprios aplicativos usando ferramentas e plataformas de desenvolvimento prontamente disponíveis na nuvem.

Em ambos os casos, o departamento de TI será ignorado. Como um especialista do setor declarou: “será como se os presidiários estivessem tomando conta do presídio”.

A realidade

Há décadas, os funcionários vêm se esquivando da TI corporativa e utilizando sistemas de “Shadow IT” _ sistemas construídos e usados nas empresas sem aprovação organizacional. Basta observar as montanhas de dados de clientes e empresas armazenados em arquivos do Excel espalhados por toda parte. De fato, os resultados da Pesquisa de QI Digital da PricewaterhouseCoopers indicam que em 100 das empresas classificadas como “de alto desempenho”, o TI controla menos de 50% dos gastos tecnológicos corporativos.

Esse número “não é nenhuma surpresa, pois em muitos casos, quem sabe o que comprar não são os funcionários de TI”, diz John Murray, CIO da Genworth Wealth Management, de Pleasant Hill (Califórnia). “A Shadow IT clássica existe, e se é algo que atende a uma necessidade puramente funcional e que não é voltado ao cliente, também não é o fim do mundo”.

Então, o que há de especial na estatística da Gartner, e por que ela assusta tantos profissionais de TI atuais?

A perda do controle é um fator, logicamente. Mas ainda mais alarmante é o crescimento exponencial no número de tecnologias de consumo, serviços na nuvem e aplicativos “roll-your-own” que começam a ser usados sem o conhecimento da equipe de TI. É uma questão de volume e intensidade. Em contrapartida, há dez anos, meros 10% das despesas tecnológicas ocorriam externamente ao TI, segundo Dion Hinchcliffe, um estrategista empresarial e de TI veterano e vice-presidente executivo do Dachis Group, uma empresa de consultoria empresarial de Austin. “Hoje em dia, a tecnologia da informação é barata ou até gratuita. Isso permite que as pessoas avaliem e obtenham diretamente as soluções que necessitam”, ele observa.

E cada vez mais a força de trabalho faz exatamente isso. “De modo geral, as pessoas estão muito mais familiarizadas com a tecnologia. Elas sabem o que é possível. Todos foram ensinados que ‘existe um aplicativo para tudo'”, diz Hinchcliffe.

Em vez de criar empecilhos, alguns dos CIOs mais esclarecidos aceitam e até encorajam a TI clandestina.

Como explica Mark Dajani, CIO da Kraft Foods: “Qual é o sentido de criar um ambiente tecnológico que leve apenas a um desempenho [empresarial] medíocre? Permitir que os funcionários façam as coisas do seu jeito é importantíssimo. É uma realidade inevitável. No meu ponto de vista, o risco maior seria não adotar essa postura”.

Veja como você pode (e deve) liderar durante a transição do “TI de comando e controle” para o que Hinchcliffe chama de “TI cooperativa”.

Aceite o inevitável

Na Genworth, a equipe de negociação utiliza um desenvolvedor de aplicativos externo para determinados serviços. “A TI está ciente disso, mas não está no comando”, diz Murray, observando que o TI não funciona com a velocidade exigida pelas equipes das áreas de negócios.

Hoje em dia, “os aplicativos não são exclusivamente de autoria da TI, e os lançamentos não são de responsabilidade da TI. Em vez disso, [a empresa] opera de forma diferente, requer uma equipe diferente e um ciclo diferente”, diz ele. Em vez de reivindicar a propriedade e o controle de serviços e aplicativos específicos, Murray afirma que a TI dve manter o foco nos dados utilizados pelos aplicativos, sejam eles críticos ou não, e em ser aquela que está mais qualificada para determinar se o aplicativo funciona corretamente.

“O mundo está mudando, e é preciso ser sincero o bastante para admitir que o seu cliente empresarial pode ser o proprietário de um determinado aplicativo”, diz ele.

Em vez de lutar para manter o controle, a liderança do TI deve focar no gerenciamento dos riscos e em aprender a identificar onde os funcionários estão agregando valor com suas ferramentas e serviços autofornecidos, segundo Brian Lillie, CIO da Equinix, uma empresa de Redwood City (Califórnia) que administra grandes data centers em 13 países.

Os funcionários do grupo de marketing vertical da Equinix usaram a nuvem da Amazon para construir o que Lillie descreve como “uma ferramenta de vendas muito ágil” que avalia a latência de rede em todo o mundo, dependendo da localização dos seus ativos de TI.

“A solução não foi desenvolvida pela minha equipe, mas mesmo assim gosto de me gabar dela. É uma ferramenta essencial”, afirma Lillie. Agora a TI explora meios de integrar a ferramenta a outros sistemas da empresa.

“Em vez de colocar empecilhos, nós dissemos: ‘vamos permitir que isso aconteça, e dar a esses caras uma forma de explorar a solução”, diz ele. “Isso definitivamente exige uma mudança de mentalidade [da área de TI]. Mas as pessoas são criativas e querem inovar, e às vezes as maiores descobertas podem vir de qualquer lugar”.

Esteja à frente da demanda

A Sesame Workshop, produtora da “Vila Sésamo” com sede em Nova York, tem mais de 100 funcionários trabalhando como fornecedores externos para produzir brinquedos e jogos interativos licenciados pela organização sem fins lucrativos. Eles usam tecnologias da nuvem e de consumo como o YouSendIt, um serviço de entrega de arquivos digitais, para trocar arquivos grandes de design e vídeo. O CTO, Noah Broadwater, notou isso, e entrou em contato com o YouSendIt para garantir uma versão empresarial do serviço tão popular.

O resultado: “A TI se tornou um parceiro de negócios confiável. Ela agora ajuda os usuários com contratos”, diz Broadwater.

O grupo de TI também formou um grupo de P&D dedicado, especificamente focado em tecnologias de consumo, dedicado a projetos que lidam com formas de tirar proveito do Facebook, Google, Twitter e de dispositivos móveis. Broadwater lembra, orgulhosamente, que o personagem de “Vila Sésamo” Garibaldo tem uma conta no Twitter há dois anos e meio.

“Com uma TI cheia de ‘primeiros adeptos’, e mantendo a dianteira entre as novas tecnologias, os usuários agora nos procuram quando querem usar algo como o Basecamp [um aplicativo da web para armazenar, coordenar e gerenciar projetos]”, explica Broadwater. “Quando eles o fazem, nós sugerimos o Central Desktop”, que ele descreve como um serviço de gerenciamento de projetos similar, “mas com uma melhor integração com a empresa”.

Atualmente, coprodutores de “Vila Sésamo” baseados em escritórios longínquos, como os do Afeganistão e Paquistão, podem enviar tomadas inacabadas de vídeo para a nuvem, e produtores baseados em Nova York podem editá-las e comentá-las, afirma Noah, observando que 30% das despesas do orçamento de TI oficial da Sesame Workshop são dedicados a serviços na nuvem, serviços ao consumidor e habilitação de dispositivos móveis. “Antes, o TI era ditatorial, impondo regras e martelando a importância da segurança, segurança, segurança”, diz Broadwater. “Agora somos uma organização de serviços”.

Broadwater também observa que o que antes era considerado “Shadow IT” também representou uma economia para a empresa. O serviço empresarial do YouSendIt, por exemplo, que custa US$ 50 mil por dois anos, substitui serviços de FTP que custavam US$ 140 mil para o mesmo período. Antes de usar o Central Desktop, a equipe enviava fisicamente os discos rígidos. O serviço baseado na nuvem reduziu esses custos em US$ 20 mil, segundo Broadwater.

Na Equinix, Lillie configurou uma “sandbox da Amazon” para os desenvolvedores que adquiriam os serviços na nuvem da Amazon por conta própria para desenvolver aplicativos.

Na opinião dele, desenvolver aplicativos na Amazon é ótimo, “pois não sobrecarrega os recursos de TI. Mas em vez de fazer com que os funcionários saquem seus próprios cartões de crédito, por que não levar tudo até eles? Você se torna parte da Shadow IT e as linhas começam a se confundir”, diz ele. “O TI expande sua influência, e o mais importante: você começa a trabalhar como uma equipe”.

Mas há uma desvantagem.

“O desafio é que às vezes, quando algo é autorizado, deixa de ser ‘cool'”, diz Lillie. “É ‘cool’ estar nas sombras, fazer uso clandestino de determinada ferramenta, e isso me deixa louco”.

Redefina a função do TI como educador e criador de políticas

“A consumerização do TI é uma realidade inevitável”, diz Dajani, da Kraft. Uma das funções em expansão do TI neste novo cenário é a de desenvolver e implementar a segurança e outras políticas que ajudam e não atrasam os funcionários, independentemente do dispositivo que usam para fazer o seu trabalho.

A Kraft, por exemplo, está em fase de virtualização do seu ambiente de aplicativos, para que os funcionários móveis possam utilizar o dispositivo de sua preferência. “Mas os usuários precisam manter suas versões do software em dia, e nós monitoramos isso”, diz Dajani. “Se alguém executa um software para Android que não é atualizado após 30 dias, nós o bloqueamos”.

“Devemos capacitar os funcionários, mas também devemos educá-los”, acrescenta.

Todd Coombes, CIO da seguradora CNO, de Indianápolis, trabalha ao lado de seus parceiros empresariais para desenvolver políticas que sejam tão úteis para o TI quanto para os usuários que queiram inovar usando aplicativos baseados na web e tecnologia de consumo.

“Se eu assumisse uma postura rígida e não tolerasse o uso clandestino de TI, não estaria agregando valor algum para os meus parceiros de negócios, e sim criando ressentimentos e arruinando relacionamentos”, explica Coombes. Além disso, muitas das ideias mais inovadoras para aplicativos de produtividade de alto valor vêm de quem trabalha na área, diz ele.

Inovação periférica da TI

Segundo os especialistas, por mais que os usuários empresariais com conhecimentos técnicos utilizem cada vez mais aplicativos de consumo e outros sistemas “nas sombras” para o seu trabalho diário, ainda existe muito espaço (e necessidade) para a inovação no TI.

Ainda assim, para fornecer inovações realmente úteis, capazes de agregar valor, a maioria dos departamentos de TI devem se entrincheirar muito mais profundamente nos negócios.

“As inovações ainda ocorrem no TI, sejam lideradas ou facilitadas pelo departamento, mas somente nas organizações onde existe um consenso explícito quanto à função do TI na inovação direcionada ao mercado”, observa Chris Curran, diretor da PwC. Na maioria dos casos, diz Curran, “há uma desconexão” entre o TI e o impacto no mercado.

Parte do problema se deve ao fato de que os líderes de TI “são insulares em termos de como e onde obtêm suas ideias”, diz Curran. “As pessoas não dedicam tempo suficiente a compreender o que se passa ao seu redor”.

Para isso, “é preciso estar de olho na periferia da organização”, aconselha Dion Hinchcliffe, vice-presidente sênior do Dachis Group. “As iniciativas de TI estão direcionadas para a periferia e as trincheiras, onde as pessoas têm problemas precisam solucioná-los em questão de horas, e não semanas ou meses. Elas avaliam 5 ou 10 coisas em uma hora e solucionam os seus problemas”, diz ele.

Curran conta uma história que, segundo ele, é bastante comum, sobre uma empresa global de alta tecnologia para a qual ele ofereceu consultoria recentemente.

“Um dos membros do conselho perguntou o que a empresa fazia em termos de mídias sociais. Ao investigar, encontramos uma função de gerenciamento de conhecimento subordinada ao COO responsável pelo lado colaborativo interno da empresa em relação às mídias sociais. Também encontramos cinco outras equipes significativas com alguma iniciativa colaborativa voltada ao cliente, ao mercado ou a ambos através da TI”, lembra Curran.

“Mas quando perguntamos ao pessoal de TI, eles disseram que não tinham ninguém trabalhando nisso. Não havia qualquer função de coordenação na TI que estivesse sequer remotamente tentando juntar as peças”, diz ele.

Para Curran, a TI também precisa reformular suas técnicas de desenvolvimento de aplicativos, agora desatualizadas, para se tornar verdadeiramente inovador, e para fornecer inovações úteis.

“O que eu vejo é uma metodologia de cascata obsoleta, listas de verificação e requisitos de documentos grandes e documentos de business cases e documentos de escopo, todos muito pesados”, observa. “Essas coisas se destinam a grandes projetos de ERP ou enormes projetos de Cobol e não levam em consideração métodos ágeis ou rápidos, ou as lições aprendidas na área do desenvolvimento interativo e criação de protótipos. Os métodos do TI são antigos e devem ser atualizados. As abordagens ao desenvolvimento de software são antiquadas”.

Jim DiMarzio, CIO da Mazda North American Operations de, Irvine (Califórnia), encontrou uma solução para esse problema específico sob a forma de projetos de “validação de conceito”.

“O pessoal de TI gosta de se envolver com novas tecnologias, mas compreende que existe um risco, e não quer ser associado a uma tecnologia fracassada”, diz DiMarzio.

O aplicativo T64 da CNO (uma abreviação de “turning 64”, ou “completando 64 anos”), por exemplo, foi desenvolvido pelos agentes independentes da empresa que vendem seguros de porta em porta a aposentados. O aplicativo T64 permite que os agentes vejam em seus dispositivos móveis uma lista dos clientes potenciais que estão prestes a completar 64 anos de idade, além de direções para chegar às casas dos clientes.

“‘Estamos juntos nisso’ agora é muito mais do que um slogan”, diz Rick Bauer, ex-CIO e atual diretor de gerenciamento de produtos da CompTIA, fornecedora de certificações neutras para profissionais de TI. “Ninguém mais irá educar a empresa sobre a utilização de dispositivos de formas seguras e que impulsionem a produtividade. A TI deve liderar ajudando as pessoas a pensarem nessas coisas”.

Encontre seus aliados

Para identificar a Shadow IT, um dos primeiros lugares onde se deve procurar é no departamento de vendas e marketing, segundo os especialistas. Esses funcionários da linha de frente têm pouca paciência para ciclos de desenvolvimento de aplicativos vagarosos e cheios de listas de verificação, que é o que aprenderam a esperar da TI. Eles querem o que querem, e querem para já. Por isso muitas vezes acabam se virando por conta própria.

“Há uma desconexão entre a mentalidade da TI tradicional e a tentativa de lançar um novo aplicativo em um intervalo de tempo adequado”, observa Chris Curran, diretor da PwC. “Quando alguém das vendas procura a TI e diz: ‘queremos lançar algo imediatamente’, pode levar até um ano”.

Curran aconselha os clientes da PwC a fazer amizade com os usuários empresariais, e aprender com eles. É muito provável que muitos deles já estejam experimentando, principalmente com aplicativos baseados na nuvem para análise e processamento de grandes volumes de dados, diz ele.

Na Genworth, Murray remodelou a estrutura de pagamento da TI de modo a refletir o valor da construção de relacionamentos com pessoas de fora do departamento. Para ele, conhecer os seus parceiros de negócios é parte da transformação da TI em um departamento mais ágil.

“O princípio fundamental do desenvolvimento ágil é o de que todas as pessoas com voz ativa em um projeto estejam reunidas, interagindo umas com as outras”, diz ele. A equipe de TI não pode fazer isso quando não conhece as suas contrapartes empresariais.

“O comportamento tende a seguir a estrutura de compensação, para que todos no departamento de TI tenham a meta da construção de relacionamentos com os parceiros empresariais”, diz Murray. “É preciso tirar proveito da equidade social. Todo projeto passa por turbulências, e quando isso acontece, você precisa da equidade social [com seus parceiros de negócios] para amortecer os solavancos”, explica.

Na verdade, a equidade social é uma métrica essencial durante as avaliações dos funcionários de TI da Genworth. “Se um dos seus funcionários é tecnicamente excelente, mas nunca almoçou com um cliente nem sabe quais esportes os filhos dele praticam, você fracassou”, diz Murray. “Você não se integrou à organização [mais ampla]”.

O ponto principal, segundo esses CIOs, é que o cenário da tecnologia corporativa sofreu uma mudança irreversível, e a organização do TI deve mudar com ele. O TI deve focar nas áreas às quais pode agregar mais valor, fornecendo aos funcionários das áreas periféricas da corporação acesso seguro a dados e ferramentas de inovação, mesmo que isso signifique ferramentas de desenvolvimento de aplicativos.

“A função do TI é permitir que as pessoas solucionem problemas”, diz Bauer, da CompTIA. “Os vencedores entre os CIOs e departamentos de TI serão aqueles que compreenderem que o jogo mudou de tal forma que a TI jamais voltará a ser o que era antes. Seguindo a linha do existencialismo, não sabemos muito bem para onde vamos, mas estamos chegando lá”.

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