Livro em papel, autoria, biblioteca universal

21/04/2011 às 3:16 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 2 Comentários
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Confesso uma falha nestes mais de três anos de ZEducando: nunca havia postado um texto de Dimenstein, jornalista que tanto admirei no passado. Corrijo agora com este artigo publicado na Folha de São Paulo, dia 10 deste. Como podem constatar com a leitura, o título bem que poderia ser algo como : “O destino do livro em papel, a questão da autoria e a biblioteca universal”. A reflexão é sobre o ‘fim do livro’ como o conhecemos hoje, mas vai além, colocando questões como a autoria num paralelo interessante com o que ocorreu com a música e o Napster, além da notícia sobre a grande biblioteca universal. Todos estes três temas básicos já foram postados aqui, mas é sempre bom ler sobre eles na pena de um grande jornalista que se dedica a Educação há vários anos.


O LIVRO DE PAPEL JÁ MORREU ? (Gilberto Dimenstein) Dimenstein

Com a proliferação dos e-books, surgiu um mercado paralelo legal e clandestino de distribuição de arquivos
USANDO AS NOVAS ferramentas de comunicação, um grupo de professores da África do Sul está inovando o jeito como se produzem livros didáticos e acabaram se transformando numa experiência acompanhada por diversos centros de tecnologia do mundo.
Espalhados em diversas partes do país, eles escrevem coletivamente, numa página da internet, livros sobre todas as matérias ensinadas nas escolas. Mas cada professor adapta o conteúdo para sua realidade local, a começar do seu bairro. Um mesmo livro, portanto, pode ter centenas de diferentes versões.
Como nem todas as escolas têm acesso à internet (onde os conteúdos estão disponíveis gratuitamente), encontraram uma saída.
Sem cobrar direitos autorais, eles organizam o material e entregam textos para editoras tradicionais. O livro chega às escolas com um preço mais barato. “Em pouco tempo, o papel será dispensável”, disse o físico Mark Horner, um dos coordenadores do projeto batizado de Siyavula.
Essa foi uma das experiências que chamaram a atenção num encontro na semana passada que reuniu, nos EUA, alguns especialistas em inovações tecnológicas e educação. Serve como mais uma provocação sobre o futuro da produção e distribuição do conhecimento no geral e dos livros e dos escritores em particular.

O fim do livro de papel é tido como uma questão de tempo. Isso significa que as livrarias vão desaparecer? Para quem, como eu, tem prazer de andar por livrarias e sentir o papel, essa é uma pergunta incômoda.
Andando aqui no metrô, vemos quanta gente aderiu ao livro eletrônico. Algumas escolas resolveram aposentar os livros didáticos de papel, usando até o argumento de que, assim, deixam as mochilas mais leves e preservam a saúde dos estudantes. Comemora-se até o fato de que, com os novos aparelhos, cresce a venda entre os mais jovens.
Com o aumento do consumo dos e-books, surgiu um mercado paralelo legal e clandestino de distribuição de arquivos.

Está acontecendo com os escritores o que, no passado, ocorreu com os músicos, quando surgiu o Napster. Depois de muita briga por causa da troca clandestina de arquivos, começaram a reinventar um novo modelo de negócios. Mas cada vez se ganha menos dinheiro vendendo CDs aliás, quase ninguém mais vende CDs. Assim como os mais jovens já não usam mais relógios de pulso. Nem e-mail. A onda de aplicativos está tornando até obsoleta a internet do www.
Os músicos podem compensar a queda da renda fazendo shows. O que os escritores deveriam fazer? Palestras remuneradas?
Podemos não gostar quando uma mudança tecnológica nos afeta, mas adoramos poder falar pelo Skype sem pagar a ligação telefônica.
Não é tão diferente assim dos desafios do jornal que se estruturam para cobrar os conteúdos digitais.
É um desafio que atinge as escolas. Os conteúdos das matérias já podem ser encontrados na internet, algumas vezes com recursos mais interessantes e provocativos do que os dados em sala de aula. O Media Lab, do MIT, desenvolveu uma plataforma (Scratch) em que as próprias crianças fazem seus jogos e trocam suas criações pelo mundo aliás, o MIT desenvolveu conteúdos gratuitos só para o ensino médio.

Como a transmissão do conhecimento não para de crescer, os modelos de negócio, depois do baque, vão se reinventando, gerando perdedores e ganhadores. Alguém poderia imaginar que jornais pagariam parte dos salários dos jornalistas com base no número de clicks em suas páginas ou matérias na internet?
Estudos têm mostrado que, depois da onda provocada pelo Napster, não diminuiu a produção musical pelo mundo e a produção de aplicativos foi estimulada.
Os desafios da sustentabilidade são enormes, mas as oportunidades são maiores ainda.
Um caso está correndo aqui em Harvard, onde ganha força um ambicioso projeto para criar a maior biblioteca digital do mundo, que é acessível a todos. A pretensão é nada menos do que selecionar todo o conhecimento já produzido pela humanidade. Uma das inspirações é a Europeana, na qual se encontra 15 milhões de versões digitais de livros e obras de arte.
Além de Harvard, estão aderindo ao projeto as maiores universidades americanas com seus monumentais acervos de livros, além da biblioteca do Congresso americano. Representantes da Apple, Microsoft e Google estão participando dos encontros.

Os livros de papel, os CDs e até as escolas tradicionais podem morrer. Mas o conhecimento está cada vez acessível.
PS- Coloquei na internet (www.catracalivre.com.br) mais detalhes dos projetos citados nesta coluna.

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Cinco artigos (3 – Nerds refinados)

09/03/2011 às 11:59 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Essa é a primeira vez, se não me falha a memória, que Caetano ‘visita’ este espaço. Claro que ele é também genial na prosa, não só na poesia de sua belas canções. Mas um dos motivos para este post, no rol dos ‘cinco artigos’ desta semana, é a questão da autoria que ele coloca no texto e que eu me bato desde antes de me iniciar nesta lide de blogueiro. Fiz um post em outubro de 2009 sob o título “A REVOLUÇÃO DAS TIC E A QUESTÃO DA AUTORIA”, quem dera se Caetano um dia pudesse ver isso e refletir, afinal como disse no post “A questão da autoria, num mundo cada vez mais hipertextual, tem que ser necessariamente revista.“

caetanoQuando escrevi que a internet e seu exército de internautas e blogueiros que se virem para introjetar as nossas leis, as leis que vigem off-line, me alegrei por fazer tão simplista exortação: os amantes da web, os jovens que querem divulgar suas criações sem pensar em organizações intermediárias, os neo-rousseauístas cibernéticos que veem essas hordas como bons selvagens, os que se fascinam com a criação coletiva e a “morte do autor” devem se esforçar para acolher os direitos humanos (sim, os direitos dos indivíduos humanos e dos grupos humanos) nos seus planos. Haverá quem me diga que iniciativas como o Creative Commons são justamente isso.

 


 

NERDS REFINADOS (Caetano Veloso)

Quando eu escrevia posts para o blog Obra em Progresso (essa tradução-piada para “trabalho em andamento” ou simplesmente “homens trabalhando”), sentia a intensidade da reação dos internautas que o visitavam e as repercussões de ira ou interesse em outros blogs e sites, mas pouca ou nenhuma reação das pessoas nas ruas. Muitos dos que enviavam comments para o blog se tornaram meus amigos aqui fora. Troco e-mails com eles e eventualmente os encontro em carne e osso. Muito bom. Mas é diferente escrever no GLOBO. Vou estacionar no Leblon para ir ao analista e uma senhora comenta que não imaginava que eu fosse capaz de escrever prosa com tanta desenvoltura. A avaliação me parece otimista demais e, se por um lado me faz pensar em quão alheia essa senhora esteve à existência do blog, por outro me impõe a evidência de que ela nem sabe que escrevi o livro “Verdade tropical”.
Parece que a leitura de jornais é hábito de uma tribo que conversa nas ruas — e não necessariamente lê livros que alguém como eu porventura escreva. Já a tribo que acompanha blogs não parece estar nas ruas dando sopa para conversar. O exemplo da senhora no Leblon é um entre mil. Nos aeroportos, nas salas de espera de consultórios médicos, na fila do cinema, sempre há alguém para comentar comigo, seja o artigo do último domingo, seja a série de artigos que venho publicando aqui. Como tenho tentado mediar a discussão sobre a questão dos direitos na era da internet, abordamme para falar do assunto. O gozado é que quando eu escrevia na internet ninguém aparecia para dizer que tinha lido, ou ao menos para demonstrar que sabia que eu mantinha um blog. Os que me leem no jornal falam até de suas relações com a web. Os que me liam na web nunca estavam nesses estaciona -mentos, salas ou filas. Isso me leva a considerar o fato de que Julian Assange passou a ser assunto de discussão em ônibus, esquinas e mesas de bar só depois que a imprensa divulgou os vazamentos que seu WikiLeaks vinha derramando na rede.
Sou um velho que tem dificuldade de reter o que lê na tela do computador. E uma muito menor propensão a crer no que lê ali do que no que lê impresso em papel. Talvez essas pessoas que comentam meus textos do GLOBO sejam, como eu, membros de uma espécie em extinção. Mas também é possível que os fatos que se passam na internet tenham uma vida restrita ao mundo de nossa relação com essa ferramenta. As interações entre os cidadãos que, na rua, trocam comentários sobre notícias de jornal e aqueles que vivem no mundo virtual a maior parte do tempo (ou os mais intensos dos seus momentos) talvez estejam mais bem traduzidas na Praça Tahrir. Mas o hábito de promover encontros socialmente relevantes através dos twitters e facebooks não se restringe aos últimos acontecimentos no mundo muçulmano. Da eleição de Barack Obama às promoções do grupo Queremos, que trouxe o Vampire Weekend para o Circo Voador, o papel da internet na organização de movimentações off-line tem se mostrado notável. Ainda assim, as relações do mundo aqui de fora com o de lá de dentro da rede estão por ser entendidas de modo satisfatório. Na verdade, parecem longe de sê-lo.
Já tivemos várias mortes do livro, do disco, do cinema. Este ia matar o teatro e ser assassinado pela TV. A internet criou a “nova economia” que se provou, depois do primeiro surto de euforia, uma bolha dessas que, quando explodem, levam alguns para perto do suicídio. Mas essa malha aparentemente incontrolável de comunicação entre computadores individuais que nasceu no Pentágono (não deveríamos manter tão tenazmente no esquecimento o fato de que a internet nasceu no Pentágono) não poderia simplesmente ter sua importância abalada por um primeiro erro de cálculo. Na sua segunda onda, a internet (que em inglês sempre se escreve com a inicial maiúscula) diz como veio para ficar e sugere admiráveis mundos novos. São mundos que fascinam e assombram.
Em meio a essas desorganizadas reflexões é que procuro pensar a questão dos direitos autorais no mundo virtual, c o m a i l u s ã o (também no sentido espanhol de desejo, anelo) de mediar a discussão que envolve tantos colegas e amigos. Quando escrevi que a internet e seu exército de internautas e blogueiros que se virem para introjetar as nossas leis, as leis que vigem off-line, me alegrei por fazer tão simplista exortação: os amantes da web, os jovens que querem divulgar suas criações sem pensar em organizações intermediárias, os neo-rousseauístas cibernéticos que veem essas hordas como bons selvagens, os que se fascinam com a criação coletiva e a “morte do autor” devem se esforçar para acolher os direitos humanos (sim, os direitos dos indivíduos humanos e dos grupos humanos) nos seus planos. Haverá quem me diga que iniciativas como o Creative Commons são justamente isso. Vamos ver. Até aqui, elas têm se esforçado mais para insinuar aos membros das espécies em extinção, aqueles que leem jornal de papel e falam sobre isso nas ruas, que seus direitos são suspeitos. Bem, talvez sejam (e quem comenta artigos de jornal nas ruas muitas vezes os lê na tela do laptop: para muitos já não faz falta o papel, o importante é o status do jornal e a assinatura do articulista). Cada um de nós deve encarar as dificuldades dessa transição com realismo. Espero que pessoas qualificadas — e não apenas ignorantes como eu — se disponham a enfrentar o desafio. Nerds refinados contribuirão.

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