Camarotização: por que o brasileiro gosta tanto de segregar o espaço?

27/04/2017 às 3:47 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 2 Comentários
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Do ELPAÍS. Excelente artigo. Confiram !


Camarotização: por que o brasileiro gosta tanto de segregar o espaço?

 

Lojas em Trancoso (BA).

Lojas em Trancoso (BA). Luciano Andrade Ag. Estado

Camarotização. A gourmetização do espaço. A palavra ganhou força na última semana depois de aparecer no tema da redação do vestibular da USP, o mais concorrido do país, mas já faz tempo que o camarote faz sucesso ao prometer fazer do cidadão um ser diferenciado – para usar uma palavra cara ao público adepto.

De comícios políticos à farra do Carnaval, quem está no camarote não quer ser qualquer um. Em Salvador, no maior carnaval do mundo, participa quem paga – e caro- para ter direito a uma camiseta estampada com diversos logos dos patrocinadores. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, para ter acesso ao espaços exclusivos no Carnaval é preciso desembolsar até mais de 1.000 reais.  A promessa é viver a festa rodeado de celebridades rodeadas de jornalistas. Os famosos mais trendy, porém, ficam em um cercadinho ao qual quase ninguém tem acesso. É a camarotização do camarote.

O Carnaval foi um start, mas não está sozinho no movimento de camarotização do país. Um dos lugares que lideram o ranking dos mais camarotizados do Brasil também está na Bahia: Trancoso. Há  20 anos era uma praia de pescadores, semideserta, só alcançada por aventureiros (inclusive os endinheirados tradicionais) e hippies. Agora, nas palavras da jornalista e consultora de moda Gloria Kalil, no Réveillon, virou uma espécie de “Cannes tropical”.

“Daqui a pouco, os moradores e antigos frequentadores só vão poder entrar no pedaço se estiverem com um vestido de marca, uma maquiagem de palco e um crachá que os autoriza a circular como no melhor estilo Festival de Cannes em dia de premiação final”, disse Kalil, em sua coluna.

O Brasil sempre foi avesso e segregado. Apesar de ter a ideologia da mistura, na verdade sempre foi o pior dos apartheids

A camarotização, neste caso na política – com seus cercadinhos em cerimônias oficiais e comemorações -, também horroriza Andrea Matarazzo (PSDB), vereador que carrega o sobrenome de uma família da alta sociedade paulistana. “Getúlio Vargas fazia sucesso porque andava no meio do povo”, conta ele. “O Lula, idem”, diz. “E eu adoraria ser o Lula”.

Acesso e renda

Mas, afinal, de festas a eventos públicos, por que o Brasil gosta tanto de segregar o espaço? Para Rosana Pinheiro-Machado, antropóloga e professora da Universidade de Oxford, a aversão à mistura é o resultado de anos de desigualdade social no país. “O que está por trás [da camarotização] é o desejo de distinção em uma sociedade colonizada como a nossa e marcada por uma grande estratificação social”, diz.

“O Brasil sempre foi avesso e segregado. Apesar de ter a ideologia da mistura, na verdade sempre foi o pior dos apartheids”, diz a antropóloga brasileira. Para ela, o acesso das camadas mais pobres da população ao que antes era exclusivo dos mais ricos potencializou a camarotização. “No Brasil pós-Lula, as pessoas das camadas mais populares estão acessando o que antes era exclusivo aos brancos de elite”, conta. “Isso faz com que o racismo e a discriminação saiam do armário.” Por outro lado, “é também um fenômeno de todas as classes. O cara mais rico de uma comunidade quer camarote também. Afinal, o modelo hegemônico de distinção é pervasivo, se espalha.”

É nos aeroportos que esse desconforto com o acesso fica explícito, diz Pinheiro-Machado. Antes, andava de avião quem tinha muito dinheiro. Com a ascensão da classe média, os aeroportos estão mais cheios, e os mais ricos tiveram que se misturar aos mais pobres. As companhias aéreas logo correram para tentar reverter isso: “As companhias aéreas brasileiras, que nos últimos anos só tinham a classe econômica, agora voltam a ter assentos ‘diferenciados’, mais caros e com mais espaço”, diz a professora. “O conforto, na verdade, é apenas uma desculpa apara agradar o passageiro rico que não quer ter o desprazer de sentar ao lado de sua empregada doméstica“, explica. “É uma forma sutil de segregação.”

A fuga dessa segregação no avião se reflete em um dado econômico do país: o Brasil está em segundo no ranking das maiores frotas de jatinhos e helicópteros particulares do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

Para usar um termo popular nos camarotes – se é que podemos usar as palavras popular e camarote na mesma frase -, o que “agrega valor”, além de camarotizar, é exibir o ato, com ou sem pau de selfie. Cesar Giobbi, colunista social há décadas, culpa as redes sociais pelo exibicionismo adotado pela elite.  “A indiscrição surgiu com a comunicação exacerbada”, diz.

Para Giobbi, a camarotização é o primeiro indício de que o lugar está decadente. Primeiro, um lugar como Trancoso se populariza, então é preciso camarotizá-lo para não perder o elã diferenciador, mas aí ele já perdeu a graça para a primeira elite que o frequentava como exclusivo.

“Quando chega nesse auge, em que o absurdo passa a ser incorporado, o lugar perde a graça”, diz. “Sapato de salto Louboutin no Quadrado não precisa. Tudo tem lugar e hora”, conta. Em tempo: “Quadrado” é o apelido usado pelos habitués de Trancoso, os de antes da camarotização, porque o local foi habitado inicialmente em torno de um gramado quadrado.

Mas se há um movimento que camarotiza os lugares, também há o contrário a ele: a pipocação. No Carnaval, quando você está fora do cordão ou do camarote, você está ‘na pipoca’.

E no embate camarotização x pipocação, às vezes os da pipoca parecem se divertir mais. Na corrida de São Silvestre, que ocorre há mais três décadas no último dia do ano em São Paulo, pode-se pagar pela inscrição – 135 reais – ou correr na pipoca. Os pró-segregação reclamam da “bagunça” e dizem: “paguei 135 reais e é essa zona”, irritados. Enquanto isso, a maioria – inscrita ou não – se diverte. Fantasiados, eles vão ao longo trajeto de 15 quilômetros desfrutando da sensação de correr na Avenida Paulista – e não é fugindo da polícia em alguma manifestação – e de se sentir parte da cidade.

(Marina Rossi)

FONTE: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/01/17/politica/1421520137_687513.html?id_externo_rsoc=FB_BR_CM

CRÍA CUERVOS, Benjamín Carrión

11/04/2017 às 3:55 | Publicado em Midiateca, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Para reflexão !


OS ÍNDIOS AINDA SÃO INVISÍVEIS

03/04/2017 às 3:49 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Nesse mês de abril se comemora o Dia do Índio (19/04). Inicio aqui as minhas homenagens com essa entrevista com Sônia Guajajara, guerreira na melhor acepção da palavra e uma das maiores lideranças indígenas do país.

Sonia1


OS ÍNDIOS AINDA SÃO INVISÍVEIS

Aquela vida de trabalhar na roça e casar cedo não era para ela. Sônia ainda era adolescente quando decidiu que ia deixar sua aldeia no Maranhão para estudar. Seus pais não queriam deixar, mas acabaram cedendo ao desejo da menina. Fez o ensino médio, tornou-se técnica de enfermagem e depois resolveu cursar faculdade de letras. Foi a primeira a ter ensino superior entre os guajajaras. Não satisfeita, fez ainda pós-graduação em educação especial pela Universidade Estadual do Maranhão. O percurso acadêmico não a afastou das suas origens. Soube, desde sempre, que sua missão era trabalhar pelo coletivo.Ainda estava na universidade quando começou a atuar como secretária numa organização indígena do seu estado. Os líderes eram sempre homens e a procuravam para que ajudasse como secretária, relatando encontros e reuniões. “Era a boazinha ali para fazer as coisas para eles…”. Mas Sônia queria mesmo era ser protagonista. Foi vencendo resistências até tornar-se coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib)e uma das principais lideranças indígenas do Brasil. À frente da Apib, ela viaja o mundo para falar do desrespeito aos direitos dos “povos originários”. Em meados de março, a ativista esteve em Salvador participando de um evento da Coordenadora Ecumênica de Serviço (Cese) cujo tema era bem direto: “Democracia e direitos sob ataque – um olhar dos movimentos sociais”. Como já se pode imaginar, Sônia Bone Guajajara, 43, acredita que o governo Temer agudizou os problemas enfrentados pelos indígenas e atua para barrar os processos de demarcação de terras.

 

O novo ministro da Justiça, Osmar Serraglio, declarou recentemente que terra“ não enche a barriga de ninguém” e que o importante é que indígenas tenham “boas condições de vida”. Como a senhora analisa essa fala?

Essa declaração mostra a ignorância dele sobre a questão indígena. Deveria saber que os indígenas têm um modo de vida que depende da garantia territorial, como prevê a Constituição. Sem a terra, é impossível. Isso mostra o tamanho do desrespeito dele para com a cultura, a tradição dos povos originários.

Em novembro passado, a Casa Civil da Presidência devolveu à Funai 13 processos de demarcação de terras indígenas que aguardavam homologação presidencial. No governo Dilma, poucas áreas foram demarcadas. Nesse sentido, o cenário de garantias dos direitos indígenas piorou no governoTemer ou manteve-se igualmente desfavorável?

O cenário se complicou mais ainda. Antes já estava difícil, já estava tudo paralisado, mas agora há uma decisão política do governo e uma aliança forte entre o Executivo, o Legislativo e até o Judiciário. No Legislativo há mais de 180 medidas anti-indígenas que visam retroceder ou suprimir direitos. Dessas, 19 dizem respeito diretamente à flexibilização do licenciamento ambiental, para facilitar a implantação de hidrelétricas, para expansão do agronegócio, da pecuária… Ou seja, facilitar o acesso deles aos territórios indígenas. E no Executivo eles tentam viabilizar essas intenções por meio de portarias e decretos. No início deste ano, houve uma portaria do Ministério da Justiça, a 68, que nós conseguimos derrubar, mas logo em seguida foi editada outra portaria, a 80, que tem praticamente o mesmo teor. Essa portaria cria um grupodetrabalho(GT)para identificar as terras indígenas, papel que hoje é da Funai. Esse GT está vigente, está valendo. Com isso, eles tentam de certa forma concretizar a PEC 215, que está parada no Congresso por pressão nossa, por pressão internacional [a PEC previa transferir ao Congresso a decisão final sobre a demarcação de terras indígenas e territórios quilombolas]. Esse GT desconsidera todo o parecer antropológico da Funai. Então a intenção é mesmo suspender todo e qualquer tipo de demarcaçãodeterra.EnoJudiciário,queagentesempre viu como aliado, há hoje essa interpretação de que só pode ser considerada terra indígena aquela em que se comprovar a presença indígena até o dia 5 de outubro de 1988 [data de promulgação da Constituição]. Com isso, o STF está desconsiderando o território tradicionalmente ocupado. Muitos foram expulsos por conflitos com os invasores.

Mesmo com todas essas dificuldades, as demarcações na Amazônia aconteceram com mais celeridade que em outras regiões do país, como o Nordeste. Por que isso acontece?
Hoje, 13% do território nacional já é terra indígena, regularizada. Desses, a maioria – tem
gente que fala em mais de 90% – está na Amazônia, de fato. As demais regiões têm ainda um passivo muito grande. Aqui na Bahia, os indígenas vivem em constante luta pela retomada dos seus territórios tradicionais. No Centro-Oeste, no Sudeste, é a mesma coisa. Os fazendeiros jogam a responsabilidade para o estado, que não quer assumir as indenizações, até porque há aí os interesses da bancada ruralista, que é forte, então essa situação não consegue ser resolvida. Esses políticos gostam de dizer que nessas regiões só há ‘índios genéricos’… Constroem todo tipo de argumento para inviabilizar as demarcações. Na Amazônia, a gente teve esse avanço muito por conta da pressão mundial pela preservação da floresta, que é a mais diversa do mundo. Não foi só por interesse do governo brasileiro… E mesmo essas terras regularizadas sofrem muita pressão e invasão de madeireiros, mineradoras, o que acaba gerando muitos conflitos.

As pessoas fazem pouco essa ligação de que as demarcações de territórios indígenas acabam contribuindo para a preservação dessas áreas.

Sim, é verdade. Poucos têm essa consciência. Esses territórios não só proporcionam a manutenção do modo de vida indígena como também proporcionam o equilíbrio ambiental, climático, o regime de chuvas, preservam as nascentes, a qualidade do ar… Tudo isso é protegido com nosso próprio modo natural de viver. E o benefício não fica só para nós, fica para todo mundo. Isso garante a vida no planeta. Se não fossem os territórios indígenas, o Brasil já seria um verdadeiro deserto.

A senhora está sempre em Brasília dialogando com os parlamentares no Congresso. Quão sensíveis eles são à causa indígena?

É um cenário muito hostil. Dos 513 deputados, não somam 20 com a gente. Desses, tem oito
ou 10 que estão ali mais diretamente, são os que a gente pode contar com a ajuda. Temos
quatro frentes de atuação: 1. fazemos articulação com as entidades de apoio, nacionais e
internacionais; 2. temos articulação com os assessores dos parlamentares, para que eles
mandem para a gente o que está rolando; 3. quando vemos que é algo grave, fazemos mobilizações; 4. fazemos nossos rituais de pajelança, cantos, dança, que têm dado uma força grande para a gente continuar nessa frente de resistência. E acho que, mesmo com esse pouquinho de parlamentar que tem lá com a gente e com esse tanto contra nós, acho que estamos conseguindo travar muitas medidas, como a PEC 215, que já era para estar em vigor se não fossem nossas mobilizações. E aí também viajo para fora, são muitas atividades internacionais. Já fui fazer denúncias na sede da ONU, em
Nova York, na sede do Conselho de Direitos Humanos, em Genebra… É uma agenda intensa.

Ia te perguntar onde a senhora mora, mas parece que é no avião…

Essa é a pergunta mais difícil de te responder. Tenho minha casa lá em Imperatriz, no Maranhão, onde meus filhos ficam com minha família. No começo foi complicado, porque eles não entendiam o que eu fazia. Não era nem uma questão de aceitar, mas de entender. Meu pai dizia: ‘Que trabalho é esse, Soninha, que não para em casa?’. E minha filha falava: ‘Mãe, o que é mesmo que a senhora sabe fazer? Só vejo a senhora conversando, fazendo reunião, sentada no computador…’ (risos).

A senhora é a coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). Acredito que a mulher não ocupe um lugar de liderança nas aldeias, não é ? Que tipo de resistências a senhora enfrentou nesse processo?

Nas culturas indígenas, não é muito comum mesmo as mulheres assumirem esse   protagonismo para fora. Assumem muito internamente. Aí elas têm um papel fundamental, sabe, de dizer, de dar comando. Mas muitos povos não permitem que elas estejam publicamente à frente das decisões. Uma ou outra mulher consegue se sobressair e dar um passo à frente. Para mim, no início, enfrentei não resistência, mas os caciques, as lideranças masculinas, sempre viam as mulheres num papel mais secundário, como secretárias. Quando eu comecei era muito isso. Eles me levavam para fazer os relatórios, para escrever. Ao longo do tempo, fui ganhando confiança e credibilidade junto às lideranças. E aí fui assumindo cada vez mais esse papel de protagonista. Da associação do meu estado, fui para uma associação de toda a Amazônia brasileira, a Coiab, e lá fui convidada para ir para a coordenação, mas ainda como secretária. Era a boazinha ali para faze ras coisas para eles… Mas aí a gente se juntou, as mulheres, e elas me falaram que eu tinha toda condição de concorrer para coordenadora-geral e que primeiro, para não afrontar os meninos, eu devia sair como vice. E aí eu fui para cima. Eles relutaram, resistiram, porque já tinha outros candidatos a vice, e eu disse ‘então vamos fazer a votação na assembleia’. Concorri com duas lideranças, dois homens, e foi uma votação esmagadora. Os votos dos dois[somados] não deu nem a metade dos meus. Daí já fui pra o mundo. Em 2009 assumi a coordenação geral da Coiab e em 2013 fui eleita para a coordenação executiva da Apib. Hoje sinto que há uma confiança no meu trabalho. Sempre tive como missão trabalhar pelo coletivo. É algo que escutei de todas as lideranças, dos mais velhos, que nós, povos indígenas, temos que viver em coletividade. É um dos princípios fundamentais da nossa identidade. Não consigo ser sozinha em nenhum lugar, nem em casa.

Como a Apib enfrenta problemas mais cotidianos da vida nas aldeias, como o crescente alcoolismo entre os indígenas e a ausência de escolas bilíngues para as crianças?

Hoje, pela aproximação das cidades com as aldeias,váriascoisasvêminterferindonocotidiano dos indígenas. Como é uma coisa que vem de fora para dentro, essa coisa do alcoolismo,
os indígenas não sabem lidar com isso e acabam sofrendo muito. Parece que eles têm menos resistência ao álcool, e isso faz com que fiquem muito vulneráveis. Cada povo lida com a
questão de um jeito, mas é uma preocupação grande buscar uma forma de minimizar essa situação. Sobre as escolas, a educação ainda é muito fragilizada também. Embora haja a lei
que garanta o professor bilíngue, que trabalhe a língua materna, isso ainda é algo muito incipiente. No Maranhão, faltam professores, não há oferta regular de merenda… É uma situação muito instável em relação a tudo.

Porque, na sua opinião, o movimento indígena não se fortaleceu no Brasil, a exemplo do que ocorreu com os movimentos negro e feminista?

De fato, embora sejamos povos originários, a gente ainda é muito invisível e ignorado não só pelo poder público como pela própria população. A população é muito desinformada em relação à presença e à cultura dos povos indígenas. A gente ainda ouve muitas perguntas assim: ‘Ah, ainda tem índio aqui no Brasil?’. E nos últimos anos, além do desconhecimento, houve um aumento muito grande do racismo, do preconceito. Vários indígenas estão enfrentando racismo dentro da universidade, nas redes sociais. A gente atribui isso também aos próprios discursos de pessoas públicas, principalmente políticos, que a todo momento dizem que os indígenas estão tomando terras, são preguiçosos, bêbados. Exemplo disso é Roraima, que eles tentam a qualquer custo dizer que depois da demarcação da Reserva Raposa do Sol a situação dos indígenas piorou. No Mato Grosso do Sul dizem que os indígenas são invasores das terras, sendo que na verdade eles que estão sendo assassinado pelos invasores. Há essa inversão de entendimento.

Sonia2
A senhora foi vítima desse tipo de preconceito quando frequentou a universidade?

Não. Nessa época as pessoas viam a gente como o diferente, o exótico. Todo mundo queria
agradar, conhecer, pegar… Fui a primeira da minha aldeia a fazer universidade, hoje tem
muitos… Meus pais não queriam deixar eu sair para estudar. Aliás, para eu sair para fazer o ensino médio já foi sem eles deixarem. Eu ia fazer 15 anos… Até que meu pai disse: ‘Então vá, e quando quiser, volte’. Fui agarrada nessa palavrinha dele. Sempre tive a certeza de que não queria permanecer ali como todo mundo estava, indo para a roça, casando cedo… Eu via as meninas casando e dizia: não quero, eu vou-me embora estudar, viajar, ir a outros cantos…

Li que em meio às suas atividades a senhora conheceu a modelo Gisele Bündchen. Como aconteceu esse encontro?

Ela me convidou para gravar um programa da NationalGeographic para falar sobre os impactos da pecuária na Amazônia. E aí conversou com várias pessoas, comigo, com José Serra [ex-ministro das Relações Exteriores]. Ela contou que quando terminou a entrevista com Serra, saiu chorando, porque sentiu uma energia muito ruim. E que quando terminou de fala rcomigo, chorou também, mas de felicidade, porque viu uma esperança. Ela foi muito gentil, atenciosa. E eu falei que ela precisava se envolve rmais, apoiar mais, porque a gente está aqui precisando muito de pessoas para dar visibilidade a essa causa.

O escritor Daniel Munduruku disse certa vez, em entrevista à Muito, que as escolas tinham que abolir as comemorações pelo Dia do Índio, porque se limitavam ao folclore. A senhora concorda?

Não sou contra, sabe? Acho que tem que ser uma data melhor aproveitada. É a mesma coisa
do Dia das Mulheres. Não é um dia para dar parabéns e florzinha, não é isso que a gente
quer. É um dia de luta, de mobilização. E o Dia do Índio acho que é a mesma coisa. A gente
precisa adentrar as escolas e mostrar os indígenas de hoje, mostrar como a gente luta, resiste. Os livros didáticos continuam mostrando os índios do passado. Tanto que os textos dizem: ‘Os índios eram assim, viviam assim…’. É tudo no passado. E a gente está aqui, presente, vivendo essa guerra constante.

(Texto TATIANA MENDONÇA tatianam@gmail.com
Foto LUCIANO DA MATTA lumasdamatta@gmail.com)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 26.03.2016

Carnaval 2017: Por João Baptista Herkenhoff

28/03/2017 às 3:29 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Passado um mês do Carnaval, segue artigo do Professor João Baptista Herkenhoff sobre o tema para nossa reflexão. Mesmo aqueles que não são muito chegados a Carnaval, como eu, se rendem aos argumentos desse grande mestre.


Carnaval 2017  herkenhoff_thumb

O primeiro jorro de petróleo no Brasil ocorreu num dia de Carnaval. O pesquisador que comandava o projeto foi ao Rio de Janeiro, então capital da República, para comunicar o fato às autoridades e à opinião pública.

Alguns dos pretendidos ouvintes dirigiram-lhe impropérios: “você é maluco? vem falar de petróleo em pleno Carnaval?”

Outros foram mais gentis: “o momento não é próprio para esta comunicação, amigo; hoje só caberia comunicar que está jorrando cachaça em algum ponto do território brasileiro; deixe este assunto de petróleo para uma oportunidade adequada”.

O Brasil está em clima de Carnaval. Não quero destoar, como aconteceu com o pesquisador citado, e tratar de outro tema no artigo de hoje.

O Carnaval não é, de forma algum, um assunto fútil. Muito pelo contrário, é coisa muito séria.

A busca de identidade é muito forte na alma humana. Alguns afirmam sua identidade praticando crimes. À margem da sociedade, sem qualquer tipo de reconhecimento, só a prática de atos criminosos lhes conferem presença no mundo. No submundo do crime têm nome e são ouvidos. A autoafirmação pela rota do crime é prejudicial à coletividade e frustrante para a pessoa que tenta fugir do anonimato através desta enganosa solução.

Muito mais sábio é buscar ser pessoa através da participação numa escola de samba ou bloco de Carnaval. Quem pertence a uma escola ou bloco tem endereço, raiz, deixa de ser alguém sem lenço e sem documento. As escolas de samba permitem que os mais pobres, dentre os pobres, pelo menos por um dia sejam aplaudidos nas avenidas e reconhecidos como gente com alma e coração. Na biografia de alguns cidadãos, que prestaram grandes serviços à comunidade, registra-se que passaram por uma escola de samba. Vibro com as escolas sim, mas vibro ainda mais com o rosto feliz dos sambistas. Esses rostos me emocionam.

Aquele gari que nunca ouviu um “muito obrigado” pelo seu importante trabalho de limpeza das vias públicas, é aplaudido com entusiasmo quando desfila fantasiado de príncipe, marinheiro ou aviador.

O desfile de uma escola de samba é o teatro do povo, e o teatro, por uma longa tradição, construiu consciências. Não é por acaso que temas de escolas de samba foram vetados nas ditaduras brasileiras. Hoje vivemos um clima democrático. As escolas de samba podem satirizar a presidente da República, governantes em geral, legisladores, magistrados. Apesar de todas as dificuldades enfrentadas pelo povo, que tesouro sem preço é a Liberdade.

Se houvesse menos preocupação em punir e lotar as prisões e mais preocupação com ações educativas e de valorização humana, a criminalidade teria uma imensa redução.

João Baptista Herkenhoff é magistrado aposentado (ES), professor e escritor. Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e livre docência na UFES.

FONTE: http://emporiododireito.com.br/carnaval-2017/

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