SENHOR CIDADÃO

25/03/2018 às 3:10 | Publicado em Midiateca, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Em março do ano passado postei aqui essa música do genial baiano Tom Zé. Parece que de lá pra cá a situação geral do país piorou. Retorno hoje com a mesma música, mesma poesia: “Eu quero saber / eu quero saber / com quantos quilos de medo / com quantos quilos de medo/ se faz uma tradição. / Eu quero saber / eu quero saber / com quantas mortes no peito / com quantas mortes no peito / se faz a seriedade”.



Senhor Cidadão

Senhor cidadão
Senhor cidadão
Me diga, por quê
Me diga por quê
Você anda tão triste?
Tão triste
Não pode ter nenhum amigo
Senhor cidadão
Na briga eterna do teu mundo
Senhor cidadão
Tem que ferir ou ser ferido
Senhor cidadão
O cidadão, que vida amarga
Que vida amarga

Oh senhor cidadão,
Eu quero saber, eu quero saber
Com quantos quilos de medo,
Com quantos quilos de medo
Se faz uma tradição?

Oh senhor cidadão,
Eu quero saber, eu quero saber
Com quantas mortes no peito,
Com quantas mortes no peito
Se faz a seriedade?

Senhor cidadão
Senhor cidadão
Eu e você
Eu e você
Temos coisas até parecidas
Parecidas
Por exemplo, nossos dentes
Senhor cidadão
Da mesma cor, do mesmo barro
Senhor cidadão
Enquanto os meus guardam sorrisos
Senhor cidadão
Os teus não sabem senão morder
Que vida…

(Tom Zé)

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Millor: duas entrevistas

20/03/2018 às 3:59 | Publicado em Midiateca, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Millor e sua genialidade em duas entrevistas. A primeira, mais curta. A segunda, no Programa Roda Viva, mais longa e mais rica.



O sonho dos dois capitães de longo curso…

15/03/2018 às 3:22 | Publicado em Artigos e textos, Baú de livros | Deixe um comentário
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Lendo esse artigo a gente fica com vontade de ler as duas obras citadas no texto, o de Aleixo Belov e o de Jorge Amado. Com certeza já li esse livro de Jorge, mas vou procurá-lo novamente para reler.

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      OsVelhosMarinheiros                                                  LivroBelov

 


O sonho dos dois capitães de longo curso…

Grandes opostos. O primeiro, personagem fictício do nosso universal Jorge Amado, Vasco Moscoso de Aragão, grandessíssimo mentiroso para uns, herói para outros. O segundo, Aleixo Belov, verdadeiro senhor dos mares e oceanos, que já percorreu todos, sozinho no seu Três Marias ( 2 filhas Marias e a exmulher, Maria Belov) ou com um grupo de jovens no moderno veleiro ‘Fraternidade’, no qual pretende promover o nautismo neste estado de pouquíssima aptidão marítima, apesar dos seus mil quilômetros de litoral e apesar da Baía de Todos-os-Santos de batismo português, a Kirimurê dos índios tupinambás, uma das maiores do mundo. Ambos têm em comum o sonho: a busca de um amor e… o mar.

Num dos seus sete livros , “ A caminho de casa, segunda volta ao mundo”, Belov escreveu: “Navegar, conduzir o barco pelo mar Egeu, por entre as ilhas gregas, atravessar o Mediterrâneo, cruzar o Estreito de Gibraltar e descer costeando a África em busca do Sul. Depois atravessar o Atlântico e chegar ao Brasil. Essa é a meta. Este é o último sonho. Rever as filhas, minha mãe, os amigos. Sentar na poltrona e dormir. Dormir, dormir, até cansar. Depois preparar os livros para que o coletado, o visto ou o sentido, não fique só pra mim, nem caia no esquecimento. Divulgar as ideias para que elas cheguem aos ouvidos, aos olhos e ao coração dos jovens. Para que os sonhos se transformem em realidade, no combustível que vai impulsionar uma vez mais a grande roda da vida. Como é preciso chegar!”.

Em Amado, o sonho se defende no trecho onde ele nomeia e conclama os ventos do mundo para arrancar os barcos ancorados no porto de Belém e afundá-los a todos, deixando apenas o Ita, absurdamente atracado com todas as amarras, todos os ferros, todas as manilhas, todas as espias, todos os strings, o ancorete ligado pela amarra e pelo cabo de aço, tudo isso ordenado pelo ‘comandante’, na cruel armadilha que lhe armaram, leiam o romance (“Os velhos marinheiros ou A completa verdade sobre as discutidas aventuras do comandante Vasco Moscoso de Aragão, Capitão de Longo Curso”): “…contrariando as previsões do tempo, assombrando os velhos e rudes marinheiros, desencadeou-se sobre o porto e a cidade de Belém temporal nunca visto, furacão sem exemplo, a maior tempestade de todos os tempos na história daqueles mares do equador… Vieram os ventos furiosos, desatados. Vinham com raiva, zunindo de ódio, apressados e inclementes. Dos quadrantes do mundo vinham num tufão de vingança, dispostos a tudo destruir para salvar o sonho. ”

Não há um ‘último sonho’, Comandante Belov. Você, que está indo agora reencontrar seu veleiro em Bali para voltar com ele para cá e depois zarpar de novo quem sabe pra onde, já sabe disso. E que os ventos sejam bons.

(Lourenço Mueller)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 11.03.2018

A literatura é o único instrumento realmente capaz de mudar o homem

03/03/2018 às 3:04 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Interessante reflexão sobre o que é e para que serve a Literatura, além de um breve histórico. Esse post é em homenagem ao meu irmão mais novo, Luiz Arthur, que também aprecia um bom livro, como eu. Parabéns mano !


A literatura é o único instrumento realmente capaz de mudar o homem

A literatura não é um fenômeno recente. Antes mesmo das inscrições rupestres, ela já existia em sua forma oral. É fácil imaginar o Homo sapiens, ainda na era das cavernas, no fim do dia, ao redor do fogo, narrando suas façanhas de caçador. Certamente aquele que tivesse a melhor estratégia narrativa acabava por angariar vantagens competitivas naquela civilização incipiente. Poderia exercer algum posto de liderança e comando, reivindicar as melhores glebas de caça, reservar para si as mulheres mais saudáveis e gerar as proles mais bem-sucedidas. É razoável supor que, pela prevalência do mais apto, somos descendentes de uma linhagem de trogloditas contadores de histórias. As linhagens sem aptidões narrativas certamente pereceram ao longo do tempo. Mas o registro literário desde a escrita rupestre, passando pela escrita cuneiforme, pelo papiro, pelo pergaminho, pelos incunábulos dos escribas dos mosteiros medievais, sempre permeou a vida da humanidade. Mas só o suporte de papel, em um chumaço impresso e encadernado, numa técnica desenvolvida por Gutenberg, no século 15, vulgarmente conhecido como livro, permitiu a disseminação massiva dos conteúdos literários. A propósito, quem milita com Literatura neste mundo de coisas utilitárias de hoje em dia, às vezes se vê instigado a responder de pronto: para que serve mesmo a Literatura? A resposta parece óbvia, mas na hora de responder assim de chofre e de forma objetiva, acaba-se caindo em apuros. Em primeiro lugar, para se dar uma resposta que convença minimamente, será preciso admitir que há, ainda hoje, certos fatores que entram na composição das forças do mundo que são, digamos, sutis. Como a força do Papa, que não tem nenhuma divisão de brigada, mas conseguiu interferir em muitas guerras e questões relevantes ao longo da História. Inclusive agora, recentemente, com o papa Francisco protagonizando sutilmente o reatamento diplomático entre os Estados Unidos e Cuba, que viviam um embargo por mais de cinco décadas. São forças não passíveis de avaliação imediatamente em números, peso, medida ou valor monetário. São coisas que não entram no cálculo do PIB, nem no superávit primário, mas são primordiais. Como o ar que respiramos, que ninguém calcula o seu preço, mas sem ele não existiríamos para dar preço às outras coisas. Com uma diferença significativa: o ar é natural; a Literatura é invenção humana, no desenrolar de sua cultura.

Seja como for, valendo-me inclusive de um ensaio de Umberto Eco, aí vão alguns exemplos de utilidade da Literatura que consegui elencar:

1º — A Literatura contribui para a formação, estabilização e desenvolvimento de uma língua, como patrimônio coletivo. O que seria da língua portuguesa sem Luís de Camões? O que seria do italiano sem Dante Alighieri? O que seria do espanhol sem Cervantes? O que seria do inglês sem Shakespeare? O que seria da civilização e da língua grega sem Homero? O que seria da língua russa sem Púchkin? É bom lembrar que impérios que não tiveram uma Literatura que sobressaísse entraram em decadência sem alcançar o apogeu, como o vasto império mongol de Genghis Khan, o maior em extensão territorial da história.

2º — A Literatura mantém o exercício, o arejamento, o frescor da língua, que é o principal fator de criação de identidade, de noção de comunidade, do sentimento de pátria e pertencimento a uma placenta cultural que nos acolhe e nos dá sentido à vida tanto individual quanto coletivamente.

3º — A Literatura proporciona o aprendizado, de uma forma lúdica e segura, ao mesmo tempo em que permite o acesso das novas gerações aos valores acumulados pelo processo civilizatório e universalmente aceitos como válidos, como a honestidade, o respeito ao próximo, a importância da cultura, enfim a transmissão de valores morais, bons ou ruins e o senso crítico de escolha dentre eles ou até de rejeitá-los por inteiro.

4º — A Literatura expande a rede neural do leitor, possibilitando a diversidade das ideias, a capacidade de reflexão, a noção de flexibilidade e a tolerância para com o diferente, proporciona a empatia (capacidade de se colocar no lugar do outro — pré-condição para a existência da ética na sociedade), prevenindo as pessoas contra o sectarismo político, o fanatismo, a submissão cega a líderes maliciosos, a ideologias e a religiões.

5º — A Literatura enseja o surgimento e a disseminação de valores estéticos, aguça a sensibilidade, introduzindo na vida das pessoas o verdadeiro sentido do belo, distinguindo-nos da fauna geral, onde gosto não se discute.

6º — A confabulação da literatura nem sempre segue o caminho retilíneo desejado pelo leitor, possibilitando a ele entrar em contado com a frustração ficcional, como exercício de amadurecimento para o enfrentamento das frustrações reais impostas pela vida de fato, às quais é bom que resista e supere.

7º — A Literatura, como toda arte, estimula o cruzamento de informações, possibilita a sinergia do pensamento, amplia a visão da realidade e até cria realidade nova.

8º — A Literatura faz a aproximação entre a ciência e a vida. No dizer de Roland Barthes: “A ciência é grosseira, a vida é sutil, e é para corrigir essa distância que a literatura nos importa”.

9° — A Literatura cria as pré-condições para que os atos e os fatos ganhem dimensão simbólica. E é na dimensão simbólica das coisas que a vida ganha sentido. Afinal, como diz o axioma histórico: “Os atos e os fatos não existem por si, mas nascem do sentido que lhes é atribuído”.

10° — Pelo que foi listado, a Literatura não é uma panaceia — remédio para todos os males —, mas a base, a plataforma de lançamento de cidadãos melhores, numa sociedade portadora de um clima onde pessoas de boa vontade possam ver implantados seus ideais de paz, respeito, leveza, cordialidade, lisura, honestidade, preservação e desenvolvimento sustentado. Certamente o leitor verá na Literatura “utilidades” diferentes ou mesmo complementares a estas aqui apresentadas.

FONTE: https://newsstand.google.com/articles/CAIiEANoc5aXD7m7MCOmTpHu_wEqGQgEKhAIACoHCAowufGACzD37PoCMO3V7AU

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