Lelé Filgueiras. Comunista, sim. Ateu, também.

21/06/2014 às 3:24 | Publicado em Artigos e textos, Baú de livros, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Esse eu recebi de um amigo por email. Mês passado faleceu o arquiteto Lelé Filgueiras, amigo de Oscar Niemeyer e Darcy Ribeiro. Só podia ser o que foi, ser o que é: um grande brasileiro, um grande ser humano. Minha homenagem.


Comunista, sim. Ateu, também. Por Lelé Filgueiras (1932-2014)

 

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(Lelé e Oscar Niemeyer. Foto: Arquivo pessoal)

Tive a enorme honra de conhecer o arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, há dez anos, para juntos escrevermos o livro O Que É Ser Arquiteto pela editora Record. Durante uma semana, conversamos durante horas. Eu gravava tudo e depois transpus para o papel quase exatamente do jeito que ele falou sobre a vida, a carreira, sua maneira socialista de ver o mundo.

Discípulo e amigo de Oscar Niemeyer, com quem trabalhou na construção de Brasília, Lelé era considerado um craque da argamassa armada: enormes estruturas de concreto, levíssimas, que barateiam o custo das obras, e por isso mesmo de enorme utilidade na arquitetura pública, que Lelé optou por seguir, até por questões ideológicas. Sua obra mais conhecida são os hospitais da Rede Sarah, onde pôde aplicar as ideias inovadoras de utilização da luz e ventilação naturais inspiradas na arquitetura nórdica, que ele adorava.

Um dos seus últimos trabalhos foi a concretização de um desejo antigo de outro grande amigo, Darcy Ribeiro, para quem projetou o Memorial que o antropólogo queria que se tornasse conhecido como “Beijódromo”, na UnB. E assim foi.

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(desenho de Lelé para o Beijódromo)

Carioca do subúrbio do Encantado radicado em Salvador, Lelé ganhou o apelido por conta das peladas na escola. Como jogava na mesma posição que um artilheiro do Vasco da Gama chamado Lelé (Manuel Pessanha), alguém sapecou o nome e pegou. O pai de Lelé era pianista e o gosto pela música passou para o filho, que enchia as noites do acampamento, durante a construção de Brasília, com o seu acordeão. Uma das frases inesquecíveis de Lelé para mim, aliás, foi quando eu perguntei qual era sua maior frustração na vida, achando que ele iria responder algo como “não ter podido levar adiante a reforma do Centro Histórico de Salvador que planejei com Lina Bo Bardi” que eu adoraria que tivesse acontecido.

Mas Lelé, que continuava a tocar teclado, disse:

O que me causa frustração é não ler partitura.

Lelé morreu hoje e fiquei muito triste com a partida de mais um  mestre. Em sua homenagem, publico um capítulo do livro que fizemos e que trata justamente destes temas tão caros a ele, a mim e a este blog. Beijo, Lelé querido.

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(Lelé tocando acordeão no acampamento na construção de Brasília)


Comunista, sim. Ateu, também

Por Lelé Filgueiras

Estive na China quando ela se encontrava num estágio ainda mais atrasado do que a União Soviética na época em que a visitei, na década de 1960. Fui no mesmo período em que o cartunista Henfil (1944-1988) escreveu o livro Henfil na China (antes da Coca-Cola), em 1984. Claro que quando ele escreveu era um pouco caricatura, afinal Henfil era humorista. Eu gostei de muitas coisas que vi.

Quase não havia automóveis, só bicicletas. Mesmo diante dessas circunstâncias tão peculiares, aquele barulho infernal de campainha de bicicleta, achei agradável, todo mundo vestido de azul e cinza. Isso para mim era confortável. Para não ficar diferente, comprei uma roupa igual à deles. Antes, as crianças vinham me cutucar para ver se eu era um bicho, alguém que tinha caído do planeta Marte. Lembro de ver um carrinho de bebê comunitário, com uma mãe só levando os bebês da vizinhança toda para passear. Pareceu-me solidário.

Quando cheguei em Cantão, umas pessoas do Ministério da Cultura de lá iriam me receber, mas era tanta gente na estação de trem eu vinha de Hong Kong que fiquei absolutamente perdido, não vi o cartaz que eles fizeram. Minha situação era péssima: milhares de pessoas, todas vestidas de cinza e azul, olhando para mim e rindo, ninguém falava inglês. Depois, por muita sorte, com mala e tudo, andando a pé, vi uma coisa escrita em inglês, e era um prédio de turismo. Lá eles conseguiram me identificar, mas já tinha perdido o dia inteiro nessa confusão.

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(Um dos hospitais da Rede Sarah)

Sinto-me comunista até hoje, acho que com o capitalismo a gente não vai se desenvolver mais. Posso ter revisto algumas posições, mas continuo achando que o homem só pode ser feliz através do socialismo. Tenho absoluta convicção de que com o capitalismo só vai haver guerras e mais guerras. Claro que do totalitarismo a gente não gosta. Naquela época, como havia duas tendências tão antagônicas e o capitalismo era maioria, houve essa tentativa de se fechar, a chamada Cortina de Ferro. Cuba só pode subsistir até hoje rodeada pelos EUA, nessa crueldade do bloqueio econômico, com um regime de força. O poder do capitalismo é tão grande que, quando abre, corrompe tudo.

É difícil estabelecer o socialismo enquanto houver esse capitalismo selvagem que está aí, com um poder de fogo muito maior. O capitalismo se alimenta da miséria dos países pobres, e a globalização não foi feita para resolver nossos problemas; estamos mais miseráveis do que antes, não resolveu nada. Acho que a humanidade foi mais feliz enquanto havia os dois, capitalismo e socialismo. De certa maneira, equilibrava.

Quando havia essas duas forças, é lógico que a arrogância dos EUA não era tão grande, porque sabiam que do outro lado existia uma bomba igualzinha à deles. Não era como hoje, que os EUA dizem que vão desarmar algum país e começam uma guerra. Isso é ridículo, tem que desarmá-los primeiro, porque têm todas as armas. É uma coisa tão contraditõria, essa forma de encarar a igualdade do mundo, é um absurdo que se vê no capitalismo. O lado competitivo, ter de ser um winner(vencedor), não um loser (perdedor). Não posso aceitar, é uma coisa forte dentro de mim. Vou morrer socialista, comunista, o que for, não tem condição.

Se não atuo na iniciativa privada é porque não sei, tenho horror aos valores que são colocados. Foi uma opção bastante ideológica também, feita num período em que estava sedimentando essas informações. Não era militante, mas participava das reuniões do PCB com Oscar (Niemeyer), na época da UnB. Como estudante, na faculdade, não tinha me envolvido, mas o que aconteceu é que ficamos, eu e o arquiteto Ítalo Campofiorito, sendo uma espécie de representantes de Oscar na Universidade, quando ele estava ausente, nas discussões que havia. E fiquei um pouco como representante do PCB na UnB, embora não-filiado. Desde pequeno tinha isso em mim, um primo comunista, essas coisas vão chegando… A convicção ideológica não foi forçada, era natural.

(Uma aula de Lelé)

Minha família era espírita, e havia todo aquele sincretismo com a religião católica, umbanda, valia tudo essa coisa brasileira, uma mistura danada. A Bahia, então, é formidável. O baiano pensa com a mente e com o coração. Como tudo isso é carregado de emocional, propicia o sincretismo, fundir no caldeirão crenças muitas vezes antagônicas, misturar religião católica com candomblé. Acho essa geléia fantástica. No meu caso, havia toda uma pressão da família pela religião, mas não conseguia acreditar. Não posso me influenciar por uma coisa que não estou sentindo por dentro.

Sou ateu. Envolvo-me com o candomblé na Bahia mais como objeto de estudo, acho interessante. Toda sexta-feira visto uma camisa branca, e é porque de certa maneira respeito a cultura baiana de se vestir de branco na sexta. Não sei exatamente por quê, mas uso. Um dos maiores amigos que tive foi frei Mateus Rocha, da ordem dos dominicanos. Passamos muitas noites conversando. Essa diferença que havia entre nós, de eu não acreditar em Deus, não impedia que tivéssemos os mesmos valores éticos, uma visão socialista idêntica do mundo.

Não sei por que essas coisas podem de repente afastar as pessoas. É fundamental procurar os pontos de identidade, eles sempre existem. Se a gente faz isso, consegue viver coletivamente; se radicaliza, não dá.

 

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Darcy de bolso (2)

15/02/2011 às 3:03 | Publicado em Baú de livros | 2 Comentários
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Colecao_Darcy_de_Bolso Não tem jeito. Acho que ninguém que lê, ouve ou vê Darcy Ribeiro, e pensa, passa ‘impune’. Um visionário, talvez o maior de todos os que aqui nasceram. Volto à sua coleção recente, o ‘Darcy de bolso’ que já foi objeto de post neste espaço. Desta vez, como comecei a ler os 10 volumes pequeninos, o primeiro uma delícia (“Vida, minha vida”), tenho a obrigação moral de mostrar pelo menos uns trechos dele, seguem abaixo:


ÉTICA Darcy

Não sou bom no sentido cristão, de bon­dade caridosa. Essa de contentar-se em dar uma escolinha boa ou uma sopa para os fa­mintos. Odeio essa postura dadivosa, que só serve para consolar os culpados da ignorância e da pobreza generalizadas. Quero é fartura para comerem, para crescerem sadios e manterem seus corpos. Quero é boas escolas, para a crian­çada toda, custe o que custar, porque não há nada mais caro que o suceder de gerações marginalizadas pela ignorância. Quero é lotear essa metade do Brasil possuída pelos fazen­deirões que nunca plantaram, nem preten­dem plantar, para entregá-Ia em milhões de fazendinhas familiares à gente que se estiola desempregada e decaída na pobreza e na criminalidade

ALEGRIAS (ESSA EU ESTAVA LÁ, A MELHOR AULA QUE EU TIVE EM TODA A MINHA VIDA, DE TODAS AS MINHAS CINCO GRADUAÇÕES E QUATRO PÓS !!!)

Glória maior da minha vida foi ser recebido na minha casa, a Universidade de Brasilia, para batizar a bela área que eu consegui para ela com o nome de Campus Universitário Darcy Ribeiro e para receber o título de doutor honoris causa. Lá me saudou o governador do Distrito Federal, Cristóvam Buarque, ex-reitor, dizendo que seu maior desejo era ser Darcy Ribeiro quando crescesse. Demagogia bela mas comovente para meu coração, tão ferido dos anos de desgosto com o que sucedera na UnB pela boçalidade da ditadura.

MULHERES

O amor é a mais funda, mais sentida e mais gozosa e mais sofrida das vivências humanas, e suspeito muito de que o seja também para todo ser vivente. Cada pessoa devia amar todos os amores de que fosse capaz. Sucessiva­mente, em amores apaixonados, cada um deles vivido e fruído como se fosse eterno. Podem-se amar Até simultaneamente amores apaixo­nados. Mas é um perigo. Faça isso não, arre­benta o coração. Haverá quem diga, ,imprudente, que não falo de amor, mas de carnalidade. É certo. Amor, uma doida já disse: é carne feita espírito. Todo amor, amor mesmo de homem a mulher e vice­versa, de homem a homem, de mulher a mulher, tem sua base carnal ou é um mero encanta­mento. Há uns pobres amores chamados pa­ternais, filiais, fraternais, amigais – embora se diga que são contaminados, eles também, de carnalidade, mas este é outro departamento. Amor sem desejo e confluência é fervor, bem-querer, ou o que se queira. Mas amor não é. Somos seres irremediavelmente solitários. Ao nascer, rompemos, sangrando nossa mãe, o vínculo carnal com ela, que se recupera em nostalgia, mamando, sonhando. A única comu­nicação possível, desde então, é a carnal, do amor. Nele é que, comungando nossos corpos engolfados um no outro, rompemos por ins­tantes a solidão para, sendo dois, nos fazermos um naquele sagrado instante.

Sobre o óbvio

24/12/2010 às 5:09 | Publicado em Zuniversitas | 3 Comentários
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Achava que já tinha feito um post com este texto, ando já me perdendo sobre o que tem e o que ainda não tem neste ZEducando. De qualquer forma, vai um ‘presente de Natal’ aos meus parcos mas sinceros leitores. Trata-se de um capótulo de um excelente livro de mesmo nome do Darcy Ribeiro que um grande amigo me presenteou faz muito tempo. Como o livro estava esgotado, ele o encontrou num sebo no Rio e me deu, uma delícia. Quebrei o texto em algumas páginas para facilitar a leitura. Mesmo assim ficou grande, mas em épocas de iPODs e outros pods já é mais natural a leitura de textos dessa natureza em meio eletrônico.


Sobre o óbvio DarcyRibeiro

 

(Darcy Ribeiro)

Nosso tema é o óbvio. Acho mesmo que os cientistas trabalham é com o óbvio. O negócio deles – nosso negócio – é lidar com o óbvio. Aparentemente, Deus é muito treteiro, faz as coisas de forma tão recôndita e disfarçada que se precisa desta categoria de gente – os cientistas – para ir tirando os véus, desvendando, a fim de revelar a obviedade do óbvio. O ruim deste procedimento é que parece um jogo sem fim. De fato, só conseguimos desmascarar uma obviedade para descobrir outras, mais óbvias ainda.

Para começar, antes de entrar na obviedade educacional – que é nosso tema – vejamos algumas outras obviedades. É óbvio, por exemplo, que todo santo dia o sol nasce, se levanta, dá sua volta pelo céu, e se põe. Sabemos hoje muito bem que isto não é verdade. Mas foi preciso muita astúcia e gana para mostrar que a aurora e o crepúsculo são tretas de Deus. Não é assim? Gerações de sábios passaram por sacrifícios, recordados por todos, porque disseram que Deus estava nos enganando com aquele espetáculo diário. Demonstrar que a coisa não era como parecia, além de muito difícil, foi penoso, todos sabemos.

Outra obviedade, tão óbvia quanto esta ou mais óbvia ainda, é que os pobres vivem dos ricos. Está na cara? Sem os ricos o que é que seria dos pobres? Quem é que poderia fazer uma caridade? Me dá um empreguinho aí! Seria impossível arranjar qualquer ajuda. Me dá um dinheirinho aí! Sem rico o mundo estaria incompleto, os pobres estariam perdidos. Mas vieram uns Barbados dizendo que não, e atrapalharam tudo. Tiraram aquela obviedade e puseram outra oposta no lugar. Aliás, uma obviedade subversiva.

Uma terceira obviedade que vocês conhecem bem, por ser patente, é que os negros são inferiores aos brancos. Basta olhar! Eles fazem um esforço danado para ganhar a vida, mas não ascendem como a gente. Sua situação é de uma inferioridade social e cultural tão visível, tão evidente, que é óbvia. Pois não é assim, dizem os cientistas. Não é assim, não. É diferente! Os negros foram inferiorizados. Foram e continuam sendo postos nessa posição de inferioridade por tais e quais razões históricas. Razões que nada têm a ver com suas capacidades e aptidões inatas mas, sim, tendo que ver com certos interesses muito concretos.

A quarta obviedade, mais difícil de admitir – e eu falei das anteriores para vocês se acostumarem com a idéia – a quarta obviedade, é a obviedade doída de que nós, brasileiros, somos um povo de segunda classe, um povo inferior, chinfrin, vagabundo. Mas tá na cara! Basta olhar! Somos 100 anos mais velhos que os estadunidenses, e estamos com meio século de atraso com relação a eles. A verdade, todos sabemos, é que a colonização da América no Norte começou 100 anos depois da nossa, mas eles hoje estão muito adiante. Nós, atrás, trotando na história, trotando na vida. Um negócio horrível, não é? Durante anos, essa obviedade que foi e continua sendo óbvia para muita gente nos amargurou. Mas não conseguíamos fugir dela, ainda não.

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