Leonardo Boff, entrevista

23/01/2017 às 3:59 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 1 Comentário
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Leonardo Boff dá mais uma aula nessa entrevista.


LEONARDO BOFF, ENTREVISTA

LeonardoBoff

Um dos fundadores do PT, o teólogo Leonardo Boff diz que o partido cometeu erros e que deve fazer uma autocrítica para resgatar a credibilidade. Precursor da Teologia da Libertação na América Latina e punido pela igreja com o “silêncio obsequioso”, o ex-padre, hoje ligado ao pensamento ecológico, afirma que o papa Francisco, ao fazer a opção pelos pobres, transformou a doutrina num bem comum da Igreja.

O senhor tem cobrado uma autocrítica por parte do PT. Porque o partido é tão resistente em reconhecer que se perdeu no caminho a ponto de se corromper como mostrou o mensalão e agora a Petrolão?

Toda autocrítica é dolorosa, porque implica humildade da pessoa em reconhecer seus erros. Não é fácil não só às pessoas, mas instituições reconhecerem que houve desvios e que, como instituição, carregam responsabilidades e irresponsabilidades. Outro dado que é considerado pelo PT, e eu não aprovo, é que eles não querem dar armas ao inimigo para serem usadas contra o PT. Dizer que o PT confessa que cometeu erros e portanto, que isso reforça a crítica do outro lado. Eu acho que não, acho que em política devemos trabalhar com transparência, no pressuposto de que o povo é muito compreensivo, ele entende que pode haver erros quando há sinceridade em reconhecer os erros, ele não é vingativo. Ele tem a predisposição de perdoar, de compreender, e esse caminho deveria ser percorrido pelo PT e não foi até hoje. Eu vivo cobrando e acho que é um dever cívico nosso cobrarmos isso. É um dever deles como políticos prestarem contas aos seus eleitores dos seus benfeitos e os seus malfeitos.

O impeachment da ex-presidente Dilma foi um golpe da direita, dos chamados partidos neoliberais, ou resultou de erros do PT nos 13 anos que esteve no comando do País?

Houve erros de administração que não configuravam crime a ponto de destituir uma presidente. As oligarquias, os donos do dinheiro nunca aceitaram que alguém do andar de baixo chegasse à presidência da República. Que um sobrevivente da grande tribulação, como Lula, chegasse a ser a pessoa que transformou as relações sociais no Brasil. Então eles armaram um motivo de narrativa, de argumentação que foi rebatida pelos melhores juristas do país e do estrangeiro, mostrando a falsidade e o mesmo equívoco, o mesmo sofisma dessa argumentação. Mas para eles não interessava a argumentação, interessava tirar a presidente de qualquer maneira. Encontraram um álibi para isso, inventaram aquelas famosas pedaladas, que foram feitas por quase todos os governadores, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, pelo Lula, porque é uma questão administrativa, compreensiva. Mas eles transformaram aquilo num crime, montaram um processo injusto. A gente precisa entender que se trata de um golpe de classe que utiliza o parlamento para novamente voltar ao poder e garantir o nível de acumulação que eles temiam perder e, por isso, esse impeachment tem que ser denunciado como um golpe armado pela oligarquia do dinheiro, pelos 77.440 super ricos que controlam mais da metade do PIB brasileiro. E atrás disso há interesses mais globais, geopolíticos, dos Estados Unidos, de manter sob controle a sétima economia do mundo (o Brasil).

Sem essa autocrítica a que o senhor se refere, será possível o PT convencer a sociedade de que o impeachment foi de fato danoso à Nação?

Acho que aqueles que propiciaram o golpe e diziam que com a saída da Dilma vai ser uma nova primavera no Brasil, um surto de desenvolvimento, estes hoje estão profundamente decepcionados, vendo que a situação piorou e o crítico mais feroz, mais superficial, que era o Paulinho da Força (deputado federal Paulo Pereira da Silva (SD-SP)), que vivia gritando em atos solenes ‘fora Dilma’ agora está dizendo Temer é muito pior que Dilma. Se esse está dizendo isso, significa, efetivamente, que tanto a situação econômica, política quanto a cultural (…), a atmosfera do nosso país piorou enormemente.

As eleições municipais de outubro representaram uma grande derrota para o Partido dos Trabalhadores. O senhor acha que, a partir de encontros como o promovido pelo MST com a presença de Lula, na semana passada em Salvador, o PT tem como se refundar, voltar às origens?

Creio que o PT tem uma dificuldade objetiva que é a de resgatar a credibilidade, porque ele não só sofreu ataque político, o ataque mais forte foi midiático, pela imprensa das três grandes famílias que controlam, os grandes jornais, as grandes televisões e criaram uma narrativa extremamente pessimista, extremamente apocalíptica e, no caso de Lula, difamatória. E ao mesmo tempo considerando o PT igual aos demais partidos e a origem da grande corrupção, o que é um erro histórico. A corrupção é endêmica, está encravada nas nossas instituições e o PT se deixou levar por essa lógica. Então o PT não é a origem dessa corrupção. O PT tem uma dificuldade objetiva de novamente resgatar a confiança do povo e só conseguirá por dois caminhos: 1º- voltando às suas origens, o diálogo com suas cidades, com a base, o povo, com os sindicatos, os camponeses. 2º – Onde o partido governar, fazer administrações exemplares. Eu mesmo viajando por este País visitei muitas prefeituras do PT. Uma que admirei aqui na Bahia foi Vitória da Conquista, com o prefeito Guilherme Menezes (foi derrotado em outubro por Herzem Gusmão (PMDB), que tirou o PT do município depois de 20 anos no poder).

Pois é, Conquista era o reduto mais antigo do PT no País, governou o município por 20 anos e perdeu em outubro para o PMDB, com 70% dos votos. Se tinha gestão, como o senhor diz, como explica o povo ter dito não ao projeto do PT?

Se criou uma narrativa da mídia de que ‘se é PT é corrupto’ e ‘não podemos eleger e reeleger alguém que é corrupto’. Sem saber que outros partidos, e isso está sendo revelado pela Lava Jato, são a mesma linha do PT e até pior, e fizeram muito mais das propinas, do assalto aos bens públicos. E está sendo poupado o PSDB porque, na verdade, a Lava Jato é iniciativa do PSDB para chegar ao poder sem passar pelas eleições, por uma via canhestra, indireta e possivelmente eles vão conseguir isso. Porque por mais que eles sejam delatados nunca são levados a juízo, porque eles armaram isso junto com Moro (juiz Sergio Moro), junto com Janot, junto com o Pentágno nos Estados Unidos. O Brasil não é pequeno, temos que pensar o Brasil dentro da correlação de forças mundiais, onde eles jogam um papel importantíssimo dentro do Atlântico Sul e lá eu também acompanho, ajudo grupos de ONGs que se infiltraram, como a dos irmão milhonários Cock e George Soros (banqueiro) que financiam estes movimentos e manifestações públicas, principalmente o dessa juventude, e esses estão presentes aí. Isso foi denunciado, provado por nosso maior analista de política internacional Moniz Bandeira, que escreveu livro enorme recentemente, A desordem mundial , que diz que a questão do Brasil não é só do Brasil, é uma questão geopolítica dentro da segunda guerra fria. E são Estados Unidos e China, e a China já penetrando fortemente em toda a América Latina… Como o Brasil pertence aos Brics e é hoje hegemômico na América Latina, estão atacando o Brasil, estão atacando a China e aí levam avante este enfrentamento desta segunda guerra fria.

Pelo o que o senhor está colocando, a democracia no Brasil está sob risco. A Lava Jato seria uma espécie de acordão envolvendo o PSDB, o Judiciário, o Ministértio, Público, Legislativo, Executivo. Mas as instituições não estão funcionando?

Olha, se nós compararmos igualdade social que é fundamental para a democracia, respeito aos direitos , participação popular com a nossa democracia, ela é antes uma farsa do que uma realidade. É uma democracia de baixíssima intensidade, a maioria das instituições não funciona, é mentira. Basta ver as prisões, a violência no campo, invadindo casas de agricultores, estuprando, matando, a violência generalizada, no Rio, São Paulo, nas grandes cidades. É uma sociedade montada para 80 milhões de brasileiros. Cento e vinte milhões que se lixem. Toda a planificação política, econômica do governo (Temer) é sobre um Brasil pequeno, menor, é o que a classe dominante quer. Dizem que a grande maioria está acostumada à forme à miséria, à pobreza, eles se viram de qualquer maneira. Estamos diante de uma nova farsa, que ela se repete há quase 15 anos. Quando a classe dominante se dá conta que o do andar de baixo sobe, começa a ganhar mais e mais poder nos seus espaços, eles vêem que a natureza da sua acumulação está sendo afetada, dão um golpe de estado.

Mas as esquerdas, não digo só o PT, não estiveram no poder por mais de 13 anos e não conseguiram mudar esse cenário que o senhor coloca?

Acho que um dos defeitos que devem ser reconhecidos dessa dupla admistração Lula-Dilma foi de não ter feito nenhuma das reformas fundamentais que eram necessárias: a política, os meios de comunicação, a tributária, a agrária. Sem isso o Brasil não funciona como democracia. Será sempre uma democracia de baixíssima intensidade, mais formal e não substancial. Isto é: os aparelhos estão aí, mas o conteúdo das coisas que foram feitas elas não são democráticas, são altamente elitistas.

Como o senhor explica o movimento pela volta de Lula no PT e no movimento sociais, sendo que o maior líder do partido é reú em cinco processos penais, três na Lava Jato. Lula terá mesmo condições de retornar ao poder?

Ele não sendo condenado, porque eles estão buscando mil motivos objetivos para condená-los e prendê-los e não estão encontrando. Há indícios, apenas, e acho que não vão encontrar. E como líder político é o único político grande, político de carisma no Brasil, que não encontra nenhum contraponto, não se encontra ninguém no Brasil que possa se contrapor a Lula. Então se ele for candidato seguramente vai ganhar estrondosamente. O povo vai dizer: ‘ele fez aqueles benefícios todos’. Quem da nossa história incluiu 32 milhões de pessoas? Deu Luz para todos, Minha Casa Minha Vida, todos os benefícios sociais. Lógico, ele fez isso sem tocar na natureza da acumulação da oligarquia brasileira e ele permitiu fazer isso. Mas abriu-se uma brecha que beneficiou milhões de pessoas. Isso o povo não esquece. Então aqueles que da pobreza estão caindo para a miséria, vendo seus filhos passando fome, aí eles se rebelam. O que acho é que ainda não caiu a ficha, não se configurou crise ao nível das bases, e quando se configurar a pressão de baixo, penso que haverá imensas manifestações que vão alijar do poder Temer e toda a sua camarilha.

A crise política e econômica que o Brasil vive se assemelha a crise em outros países do Continente, como Argentina, Venezuela, Colômbia e mesmo Cuba. A esquerda, a democracia, na América Latina está sendo passada à limpo?

Há uma ascensão da direita no mundo todo. Em toda a Europa, nos Estados Unidos com Donald Trump, na França, exceção talvez na Alemanha, embora a Merkel (Ângela) seja de direita, mas não é uma direita furiosa. Mas na itália, e na Grécia há uma onda na Europa de direita e com certos traços de fascismo, porque é excludente, não aceita os refugiados, é racista, fundamentalista, etc. E o Brasil está mesma onda mundial, com a ascensão da direita, assim como na Argentina e em todos os países da América Latina. salva o Equador e Bolívia, que se mantêm ainda numa linha progressista, todos os demais países estão se alinhado à lógica do império. Os Estados Unidos de uma forma muito rígida têm dois modos: primeiro, o mundo, o império. Segundo, full-spectrum dominance, dominar todo o especto do planeta. Só faltava dominar o Atlântico Sul e agora eles querem dominar isso. Estão está dentro da estratégia mundial de homogeneização de todos se alinharem ao neoliberalismo mais feroz, dentro de um estilo norte americano. Eles estão alinhando a Europa, alinhado a nós todos, então temos que ver esse componente geopolítico que transcende nós todos para entendermos o Brasil, que está dentro dessa teia de relações mundiais. E por outro lado, todo mundo se dá conta que o próximo futuro da economia será baseado na ecologia. Quem tem água, commodities, bens e serviços naturais e o Brasil é G Zero. Tem o G2, G20. O Brasil é o G Zero, o país que tem a maior riqueza ecológica do mundo, que pode fundar um outro tipo de economia. e qual a pegunta deles: ‘Quem vai controlar este pode imenso?’. Os Estados Unidos se antecipam e China está entrando pesadamente aqui. Então esta luta está para além de nós, se dá por cima das nossas cabeças. Os grandes cachorros grandes os Estados Unidos e China que intervêm aqui e querem manter o controle e realizar a política deles.

O novo presidente americano, Donald Trump, seria um ameaça ainda maior à América Latina?

Eu tenho a leitura de alguns analistas norteamericanos sérios que dizem que o pior para os Estados Unidos teria sido a eleição de Hillary Clinton. Porque ela estava ligada a Wall Street, à industria militar e como secretária de estado provocou fracasso em toda a Áfríca do Norte, onde ocorreu a Primavera Árabe,no apoiou fortemente a intervenção no Oriente Mèdio e ia bombear atomicamente o Irã. Obama foi que segurou. Então era uma pessoa que usava a violência como forma de criar ordem na política mundial. E se ela fosse eleita presidente seria um desastre, um risco para humanidade.

E Trump aliado com Putin (presidente da Rússia), não é uma ameaça?

Não, porque Putin tem a mesma visão de Trump: fazer uma política interna, uma política para dentro, o nacionalismo, que pode terminar em facismo. Então Putin é um grande nacionalista, ele quer a Rússia histórica, que implica a Criméia, parte da Ucrânia. Ele nesse sentido é um grande estadista.

Então não há o que temer?

Foi como Krugman (Paul, ganhador do Nobel de Economia e ícone da esquerda americana) disse:  ‘foi a escolha entre o ruim e o péssimo. A vantagem do Trump é que ele é um bobão, ninguém sabe o que ele faz´. É o pior que a cultura americana pode produzir. Ele não tem nenhuma experiência política, agora ele rompeu com a globalização. ele deu um xeque mate na globalização em função do nacionalismo. Está chamando todas as empresas americanas que estão na China, no México, para voltarem para os Estados Unidos, para geraram empregos, riqueza lá dentro. é uma outra visão que é novamente resgatar o poder enorme político e econômico dos Estados Unidos, e por aí eles influenciarem todos os países, e por outro lado, ele enfraquece a grandes corporações mundiais que dominam o mundo, que são 737 empresas que controlam 80% de todos fluxos econômicos, e agora elas foram rompidas. O eixo de análise de realização da política não é mais a globalização.

E o Brasil ganha com isso?

O Brasil, a América Latina, nunca foram importantes (para os EUA). Começará a ser importante desde que geopoliticamente pode ser a emergência de um poder alternativo a eles, um país que tenha autonomia na sua política, voltado para a África, para controlar toda a parte ocidental da África. Pode hegemonizar toda a resistência aos Estados Unidos, os países da América Latina. Então, Trump vai ter um cuidado em relação a isso, dentro da lógica do Pentágno de dominação global. Então a América Latina pode ganhar algum significado por causa da sua posição política e ecológica. Aí nós não sabemos, porque ele é muito impulsivo, mas mostra a decadência do império, crise sistêmica, que não é regional, de um país da Europa ou da Ásia. É o sistema terra, o sistema vida que está em risco. Então podemos conhecer um apocalípse. Se se criar um conflito armado, utilizando armas nucleares, poderemos colocar em risco a própria sobrevivência da espécie.

O mundo assiste talvez ao maior conflito da sua história, com guerras, ataques terroristas, intolerância religiosa . A humanidade tem salvação?

Aqui cabe uma argumentação menos analítica e mais filosófica, mais religiosa, de acreditar que o sentido vale mais que o absurdo, que a vida tem mais direitos do que a morte, que a luz é mais importante que as trevas. Acho que há uma grande crise, não é como uma grande tragédia que termina mal, mas é uma crise de purificação, de acrisolamento, que purifica. Então vai trocar o modo de habitarmos o planeta. E o papa escreveu uma encíclica exatamente sobre esse impacto: ‘Não dirijo essa encíclica aos cristãos, dirijo à humanidade. Ha á um risco que coloquemos a infraestrutura física ou química que sustenta a vida e aí liquide a vida. A terra pode continuar coberta de cadáveres, ela não precisa de nós, nós é que precisamos dela, mas a vida humana pode desaparecer’. E esse risco é objetivo. Um dos últimos atos de Obama, que poucos comentaram mas é extremamente perigoso e vergonhoso, destinou US$ 526 bilhões para refazer, renovar o arsenal nuclear dos Estados Unidos, como resposta ao Putin, que descobriram que ele tem armas mais avançadas e ojivas mais avançadas que as americanas. Isto alarmou o Pentágno. E Putin está investindo bilhões de dólares para se impor como potência mundial de novo, face à China e aos Estados Unidos de novo. Esse cenário é perigoso, porque pode destruir efetivamente. Grandes nomes da biologia, da cosmologia, ecologia de cientistas [eu pertenço ao grupo que elaborou a Carta da Terra, com Mikhail Gorbachev], que diz que se houver um aquecimento abrupto, a Terra está com dois graus próxima a pular para quatro, cinco graus nos próximos 15 anos, grande parte da humanidade não vai conseguir se adaptar e vai desaparecer. Então estamos numa eminência dramática, como são temas antisistêmicos, que dificulta a acumulação, relativisa, o sistema do capital, quase não se fala disso.

O senhor citou o Papa Francisco como um dos precursores da Teologia da Libertação na América Latina. A igreja está mais próxima daqueles valores que o senhor preconizou, junto com Frei Beto e tantos outros?

Acho que esse papa tem um mérito de ter transformado a Teologia da Libertação num bem comum da Igreja. A marca registrada da Teologia da Libertação é a opção pelos pobres, contra a pobreza a favor da liberdade e da justiça social. Esse papa colocou isso como centro da sua prática: justiça social, combate ao sistema da acumulação absurda e do consumo ilimitado, que é o capitalismo. Ele chegou a dizer que o grande terrorista da humanidade não são os terroristas islâmicos. É esse sistema da acumulação e do consumo que não olha aquele que passa fome, esse é o grande terrorismo. É o sistema anti vida. Ele não usa o capitalismo para não conflitar com os Estados Unidos. Mas todo o conteúdo é contra o sistema do capital. Então isso ficou um discurso oficial da igreja. Inclusive saiu um livro do presidente da antiga Santa Inquisição (atual Congregação para a Doutrina da Fé) e o Gustavo Guriérrez o pai da Teologia da Libertação, com o título “Teologia da Libertação como teologia católica”. Antes diziam teologia marxista. E isso é inaceitável por muitos bispos teóricos europeus que vivem com aquele sonho do cristianismo ser a grande aura da Europa, quando na verdade só 24% dos católicos vivem na Europa, 62% na América Latina e o resto no terceiro mundo. Então hoje o cristianismo é uma religião do terceiro mundo e, para mim, esse papa é o primeiro de uma série de uma genealogia de papas que vem do terceiro mundo. E não mais da Europa.

Dentro do cenário mundial turbulento, o discurso do papa Francisco seria, então, uma luz, uma saída para o risco de um apocalípse como a que o senhor se referiu?

É uma retórica profética, de chamar a atenção pelo risco, e simultaneamente é uma retórica de muita esperança. Ele diz ‘temos espírito, temos tecnologia, podemos evitar isso, nós precisamos querer sobreviver, superar o antropocentrismo, que só o ser humano vale, e valorizar todos os seres vivos, que têm valor intrínseco. e o segundo, um elemento mais místico, mais religioso, quando diz que o nosso Deus é um Deus apaixonado, amante da vida. Ele cita quatro vezes este texto da sabedoria ‘Deus é um apaixonado amante da vida e não vai deixar esta vida, que foi eternizada pelo filho, que essa vida se acabe miseravelmente’. O último tópico dele é ‘para além do sol’ e diz que os problemas e dificuldades com respeito à nossa mãe terra não nos tire a alegria da esperança. Temos oportunidade, temos capacidade, mas pesa sobre nós uma ameaça imensa se nós continuarmos nesta rota.

Qual a sua avaliação do governo Michel Temer?

É um grande engodo e, todo o discurso. Ele está fazendo as reformas, mas são todas anti populares, que drenam grande parte da riqueza para a classe dominante, prejudica os salários, prejudica os direitos sociais, as aposentadorias, as políticas de inclusão mais globais, afeta gravemente a cultura. O pensamento brasileiro é colocado à margem, com praticamente abolido do ensino a filosofia e a sociologia que levam o cidadão a pensar o mundo. Este governo só pensa em produzir, consumir, é uma forma mais materialista, rasa de pensar o ser humano. então é um desastre antropológico, culturalmente um atraso de 30 a 40 anos, totalmente fora do ritmo da história e profundamente desumano. É uma democracia de privilégios e Temer se presta a esse serviço de legitimação dessa estratégia perversa.

(Patrícia França)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, ontem – http://atarde.uol.com.br/politica/noticias/1832835-e-dever-civico-cobrar-do-pt-que-errou-diz-leonardo-boff-premium

CIDADANIZE-SE

01/12/2016 às 3:26 | Publicado em Zuniversitas | 1 Comentário
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Bela iniciativa, confiram o site e o blog ! É simplesmente impensável hoje não se fazer coleta seletiva de lixo onde quer que for !

CidadanizeSE

BLOG: http://cidadanizese.com.br/blog/

A geladeira de minha sogra e a logística reversa

01/11/2016 às 3:01 | Publicado em Midiateca, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Rio de janeiro e de Francisco

20/08/2016 às 16:23 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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E as Olimíadas chegam ao fim… Jânio Ferrreira, em sua crônica de hoje, mais poesia que prosa, nos faz lembrar outro Rio: Chico, velho e sábio como o papa homônimo. Morto um rio como o São Francisco, morre boa parte de uma grande nação. E não há ouro olímpico que limpe as caudalosas lágrimas do seu povo ribeirinho.

Pescadores_jogam_a_rede_num_lindo_final_de_tarde_acompanhado_com_um_belissimo_por_do_Sol_no_Vale_do_Sao_Francisco


Rio de janeiro e de Francisco

Estava pensando em escrever algo sobre as Olimpíadas do Rio, mas o rio que me interessa agora é esse margeando mansamente meu condado, que vai muito além de janeiro, de fevereiro, de março e do “olha o biscoito Globo e o mate gelado!” gritado por bocas cheias de ginga em praias lotadas de bundinhas e de caos.

O rio que me interessa agora não é o de Michael Phelps e suas orelhas de Dumbo voando nas águas da Guanabara, tampouco é o da judoca Rafaela e seu admirável cabelo de fuá, antítese perfeita do narcisismo dos nossos jogadores de futebol, especialmente Gabigol, cuja barba parece ter sido projetada com o firme objetivo de ele vir a ser o noivo de um casamento matuto numa festa de São João.

O rio que me interessa agora não é esse cheio de cores filtradas que passa na novela, nem é o das empulhações marqueteiras que desembocam em revitalizações de araque, que só servem para irrigar lavouras de euros em terras onde Cunha é rei.

O rio que me interessa agora não é o de Eike Batista e seus dólares furados, nem o do paparazzi combinando flagrante de alguma mulher fruta pagando peitinho nas esquinas do Leblon.

O rio que me interessa agora não é o do funk glorificando favelas e querendo me convencer de que morros e comunidades dominados por tráfico, porrada e bomba são lugares maneiros para se viver.

O rio que me interessa agora não é o de um prefeito boquirroto com sotaque de malandro da Cinelândia, que a qualquer momento parece que vai aplicar um wazari ou um ippon no coitado do desavisado eleitor que dá pipocas aos macacos.

O rio que me interessa agora não é esse que forasteiros insistem em chamar de Chico, como se fossem íntimos de suas barrancas, negos d’água e redemoinhos.

O rio que me interessa agora, meu caro Galvão e minha cara Glenda Buena, é este enclausurado por barragens de concreto que ora brilha em minha frente e que há anos e anos pena à espera de um milagre dos céus – ou dos homens – que o faça voltar a lamber as veredas desse velho e extraordinário sertão.

(Jânio Ferreira Soares)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, hoje


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