“Eu queria ter um banheiro”

07/01/2019 às 3:56 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 2 Comentários
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O ano é novo, mas os problemas são os mesmos.


“Eu queria ter um banheiro”

Estranho o titulo deste texto, mas bizarramente é um fragmento da fala de uma idosa brasileira ao discorrer sobre como viveu toda sua vida em um barraco sem nenhuma infraestrutura mínima. Ainda segundo ela, suas necessidades fisiológicas, bem como de sua família, eram feitas em áreas baldias ou em sacolas.
O pior é que esta situação, que se soma a tantas outras, não é uma mera e simples exceção, ela representa, segundo as mais recentes informações do IBGE, cerca de 55 milhões de brasileiros, isto mesmo que você leu, cerca de 55 milhões de brasileiros vivem na pobreza extrema. Para piorar a situação, deste montante, aproximadamente 13 milhões vivem na linha inferior à pobreza,resumindo, absurdamente ainda não podem ser considerados pobres.
Os dados apresentados pelo IBGE, infelizmente, não apresentam nenhuma novidade, pelo contrário, só reforçam nossa índole excludente, refletem como nossas políticas públicas são fracassadas, como os nos- sos políticos são mesquinhos e maus gestores, como nossas instituições fingem cumprir seus papéis, enfim, como continuamos a ser uma das nações mais ricas do mundo, que não consegue transformar esta riqueza em qualidade de vida para os seus convivas. Uma sociedade de corruptos e corruptores.
E não nos iludamos com os desumanizados 55 milhões de brasileiros, pois se somarmos a eles os demais que ganham até um salário mínimo, que é um salário abaixo de qualquer possibilidade de dignidade, a que retrato social do Brasil chegaremos?
Dizem que as mudanças nascem da base, do povo. Às vezes me pego pensando até que ponto é verdade tal afirmativa Um povo faminto, moribundo, sem sonhos, sem expectativa, sem estima, sem tudo aquilo que possibilite enxergar a própria existência e a partir dela tecer uma análise social, conseguirá ter “forças para lutar”?
A fome e demais mazelas dela provenientes abrem portas para o explorador, para o lacaio, para o usurpador, para o mal- feitor travestido de bonzinho; abrem portas infinitas para a ciranda da miséria que se perpetua para o bel-prazer daqueles que simplesmente se aproveitam e que são indiferentes ao sofrimento alheio.
Percebo que no Brasil não se quer mudar a cultura da pobreza, mas, pelo contrário, querem alimentá-la, transformando-a em orgulho, como se viver assim fosse a melhor coisa do mundo. Basta observar as maquiagens sociais que insistem em tapear e vangloriar a miséria. Como diria o trecho de uma música: “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela em que eu nasci”.
Combater a injustiça, a fome, a miséria, transformar os locais inóspitos em locais onde seja possível viver dignamente, entre tantas outras coisas, isto, sim, deveria ser nossa maior bandeira. Um país rico é um país em que o povo vive com dignidade, vive realmente como um ser humano e que se reconhece como tal. O contrário não passa de um engodo cruel, uma mentira selvagem e um pesadelo sem fim.

(Walber Gonçalves de Souza)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 13.12.2018

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Por um Brasil de todos, com mais emprego e inclusão

30/07/2018 às 3:21 | Publicado em Artigos e textos | 1 Comentário
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Esse discurso não é comunista, não é proletário, talvez nem mesmo socialista seja. É apenas algo lógico, colocado por alguém que conhece o Brasil como poucos e que, possuindo um projeto para o país, mostra o quanto é inteligente. Para mim a palavra chave aqui não é economia, não é desenvolvimento, nem reforma, salário ou qualquer outra do gênero. A palavra chave aqui é e continuará sendo INCLUSÃO, até que consigamos atingir novamente o mesmo patamar do término do segundo governo Lula.

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Por um Brasil de todos, com mais emprego e inclusão  15182184315a7e2cbfb52eb_1518218431_3x2_md

Toda pessoa que tem um diploma da vida, como eu tenho, sabe que trabalhar, poder cuidar da família, é uma coisa sagrada que nos dá muito orgulho. Para podermos ter emprego e isso acontecer é preciso que a economia cresça, e o resultado desse crescimento seja distribuído de forma justa.

Para a economia crescer, o empresário tem que investir. Para o empresário investir, é preciso que o governo ofereça infraestrutura, um ambiente estável e políticas que favoreçam o crédito tanto para o investimento quanto o consumo.

O investimento vai gerar emprego na indústria, que vai pagar um salário que gera um consumidor, que faz o comércio vender e gerar outro trabalhador, na loja, que vai consumir também. É como se fosse uma roda-gigante.

Quanto mais emprego e inclusão social, mais salário, mais consumo, mais arrecadação que permite mais investimento, com mais empregos. É o óbvio: dinheiro na mão de rico vira uma conta parada no banco. Dinheiro na mão de pobre, ele vai no mercado e movimenta a economia.

Por isso é fundamental o País recuperar sua capacidade de investir para ter um novo ciclo de crescimento. O Brasil foi um dos países mais promissores e otimistas do mundo, quando seguiu esse caminho que combina combate à pobreza com desenvolvimento da economia. Hoje o País vive um ciclo diferente. O governo atual reduz investimentos, gerando pobreza, desemprego e aumento nos custos da energia. A indústria e o comércio demitem. Dizem que a inflação está baixa, mas os pobres sofrem com o aumento do gás de cozinha e a classe média, com o aumento na gasolina e nos planos de saúde. E é claro que a relação dívida/PIB piora, porque o PIB não cresce.

A reforma trabalhista conduz a empregos de pior qualidade, reduz a segurança do trabalhador, corta direitos. A reforma também vai dificultar a qualificação da mão de obra em um momento em que há cada vez mais tecnologia em qualquer setor da sociedade.

As próximas eleições são fundamentais para definir o caminho do País. Precisamos retomar os investimentos no futuro do Brasil, e esse futuro são os brasileiros que precisam voltar a ter emprego, oportunidades e sonhos. No meu governo, o povo parcelava a compra do carro e da casa própria. Agora, com Temer e o PSDB, parcela para encher o tanque de gasolina ou comprar um botijão de gás.

Retomada de economia de verdade será quando as pessoas voltarem a ter bons empregos com carteira assinada, a ter a chance de fazerem uma faculdade e comprarem uma casinha. Para isso acontecer, precisamos de governantes que acreditem no nosso povo. Eu tenho certeza que é possível vencer a crise, porque eu já resolvi uma grave crise no Brasil uma vez e tenho certeza que posso, mais experiente, fazer isso de novo.

(Luiz Inácio Lula da Silva)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 29.07.2018

O programa secreto do capitalismo totalitário

10/05/2018 às 3:49 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Sei que alguns, na minha suspeita os de sempre, vão dizer que se trata de mais uma teoria da conspiração. Mas o relato é impressionante. E tem até um Nobel envolvido diretamente !


O programa secreto do capitalismo totalitário

 

Como Charles Koch e outros bilionários financiaram, nas sombras, um projeto político que implica devastar o serviço público e o bem comum, para estabelecer a “liberdade total” do 1% mais rico.
É o capítulo que faltava, uma chave para entender a política dos últimos cinquenta anos. Ler o novo livro de Nancy MacLean, Democracy in Chains: the deep history of the radical right’s stealth plan for America [Democracia Aprisionada: a história profunda do plano oculto da direita para a América] é enxergar o que antes permanecia invisível.

O trabalho da professora de História começou por acidente. Em 2013, ela deparou-se com uma casa de madeira abandonada no campus da Universidade George Mason, em Virgínia (EUA). O lugar estava repleto com os arquivos desorganizados de um homem que havia morrido naquele ano, e cujo nome é provavelmente pouco familiar a você: James McGill Buchanan. Ela conta que a primeira coisa que despertou sua atenção foi uma pilha de cartas confidenciais relativas a milhões de dólares transferidos para a universidade pelo bilionário Charles Koch[1].

Suas descobertas naquela casa de horrores revelam como Buchanan desenvolveu, em colaboração com magnatas e os institutos fundados por eles, um programa oculto para suprimir a democracia em favor dos muito ricos. Tal programa está agora redefinindo a política, e não apenas nos Estados Unidos.

Buchanan foi fortemente influenciado pelo neoliberalismo de Friedrich Hayek e Ludwig von Mises e pelo supremacismo de proprietários de John C. Carlhoun. Este último argumentava, na primeira metade do século XIX, que a liberdade consiste no direito absoluto de usar a propriedade – inclusive os escravos – segundo o desejo de cada um. Qualquer instituição que limitasse este direito era, para ele, um agente de opressão, que oprime homens proprietários em nome das massas desqualificadas.

James Buchanan reuniu estas influências para criar o que chamou de “teoria da escolha pública. Argumentou que uma sociedade não poderia ser considerada livre exceto se cada cidadão tivesse o direito de vetar suas decisões. Queria dizer que ninguém deveria ser tributado contra sua vontade. Mas os ricos, dizia ele, estavam sendo explorados por gente que usa o voto para reivindicar o dinheiro que outros ganharam, por meio de impostos involuntários usados para assegurar o gasto e o bem-estar social. Permitir que os trabalhadores formassem sindicatos e estabelecer tributos progressivos eram, sempre segundo sua teoria, formas de “legislação diferencial e discriminatória” sobre os proprietários do capital.

Qualquer conflito entre o que ele chamava de “liberdade” (permitir aos ricos fazer o que quiserem) e a democracia deveria ser resolvido em favor da “liberdade”. Em seu livro The Limits of Liberty [Os limites da liberdade], ele frisou que “o despotismo pode ser ser a única alternativa para a estrutura política que temos”. O despotismo em defesa da liberdade…

Ele prescrevia o que chamou de uma “revolução constitucional”: criar barreiras irrevogáveis para reduzir a escolha democrática. Patrocinado durante toda sua vida por fundações riquíssimas, bilionários e corporações, ele desenvolveu uma noção teórica sobre o que esta revolução constitucional seria e uma estratégia para implementá-la.

Ele descreveu como as tentativas de superar a segregação racial no sistema escolar do sul dos Estados Unidos poderiam ser frustradas com o estabelecimento de uma rede de escolas privadas, patrocinadas pelo Estado. Foi ele quem primeiro propôs a privatização das universidades e cobrança de mensalidades sem nenhum subsídio estatal: seu propósito original era esmagar o ativismo estudantil. Ele recomendou a privatização da Seguridade Social e de muitas outras ações do Estado. Queria romper os laços entre os cidadãos e o governo e demolir a confiança nas instituições públicas. Ele queria, em síntese, salvar o capitalismo da democracia.

Em 1980, pôde colocar este programa em prática. Foi chamado ao Chile, onde ajudou a ditadura Pinochet a escrever uma nova Constituição – a qual, em parte devido aos dispositivos que Buchanan propôs, tornou-se quase impossível de revogar. Em meio às torturas e assassinados, ele aconselhou o governo a ampliar seus programas de privatazação, austeridade, restrição monetária, desregulamentação e destruição dos sindicatos: um pacote que ajudou a produzir o colapso econômico de 1982.

Nada disso perturbou a Academia Sueca que, por meio de Assar Lindbeck, um devoto na Universidade de Estocolomo, conferiu a James Buchanan o Nobel de Economia de 1986. Foi uma das diversas decisões que tornaram duvidosa a honraria.

Mas seu poder realmente intensificou-se quando Charles Koch, hoje o sétimo homem mais rico nos EUA, dicidiu que Buchanan tinha a chave para a transformação que desejava. Para Koch, mesmo ideólogos neoliberais como Milton Friedman e Alan Greenspan eram vendidos, já que tentavam aperfeiçoar a eficiência dos governos, ao invés de destruí-los de uma vez. Buchanan era o realmente radical.

Nancy MacLean afirma que Charles Koch despejou milhões de dólares no trabalho de Buchanan na Universidade George Mason, cujos departamentos de Direito e Economia parecem muito mais thinktanks corporativos que instituições acadêmicas. Ele encarregou o economista de selecionar o “quadro” revolucionário que implementaria seu programa (Murray Rothbard, do Cato Institute, fundado por Koch, havia sugerido ao bilionário estudar as técnicas de Lenin e aplicá-las em favor da causa ultraliberal). Juntos, começaram a desenvolver um programa para mudar as regras.

Os documentos que Nancy Maclean descobriu mostram que Buchanan via o sigilo como crucial. Ele afirmava a seus colaboradores que “o sigilo conspirativo é essencial em todos os momentos”. Ao invés de revelar seu objetivo último, eles deveriam agir por meio de etapas sucessivas. Por exemplo, ao tentar destruir o sistema de Seguridade Social, sustentariam que estavam salvando-o e argumentariam que ele quebraria sem uma série de “reformas” radicais. Aos poucos, construiriam uma “contra-inteligência”, articulada como uma “vasta rede de poder político” para, ao final, constituir um novo establishment.

Por meio da rede de thinktanks financiada por Koch e outros bilionários; da transformação do Partido Republicano; de centenas de milhões de dólares que destinaram a disputas legislativas e judiciais; da colonização maciça do governo Trump por membros de sua rede e de campanhas muito efetivas contra tudo – da Saúde pública às ações para enfrentar a mudança climática, seria justo dizer que a visão de mundo de Buchanan está aflorando nos EUA.

Mas não apenas lá. Ler seu livro desvendou, para mim, muito da política britânica atual. O ataque às regulamentações evidenciado pelo incêndio da Torre Grenfell, a destruição dos serviços públicos por meio da “austeridade”, a regras de restrição do orçamento, as taxas universitárias e o controle das escolas: todas estas medidas seguem à risca o programa de Buchanan.

Em um aspecto, ele estava certo: há um conflito inerente entre o que ele chamava de “liberdade econômica” e a liberdade política. Deixar os bilionários de mãos livres significa, para todos os demais, pobreza, insegurança, contaminação das águas e do ar, colapso dos serviços públicos. Como ninguém votará em favor deste programa, ele só pode ser imposto por meio de decepção e controle autoritário. A escolha é entre o capitalismo irrestrito e a democracia. Não se pode ter os dois.

O programa de Buchanan equivale à prescrição de capitalismo totalitário. E seus discípulos apenas começaram a implementá-lo. Mas ao menos, graças às descobertas de Nancy Maclean, agora podemos compreender a agenda. Uma das primeiras regras da política é conhecer seu inimigo. Estamos a caminho.

[1] Nos últimos anos, reportagens e vídeos têm começado a jogar luz sobre a atividade política dos irmãos Charles e David Koch, e seus vínculos com a ultra-direita nos EUA e em outras parte do mundo. Vale assistir, por exemplo, a Koch Brothers exposed, documentário de Robert Greenwald; ou ler “Por dentro do império tóxico dos irmãos Koch”, publicado pela revista Rolling Stone (em inglês).

(Por George Monbiot, originalmente em The Guardian, de Londres)

FONTE: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/O-programa-secreto-do-capitalismo-totalitario/4/39236

Energias alternativas

07/05/2018 às 3:28 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Sempre insisto nesse assunto porque para mim a questão é mais política e econômica do que técnica. A entrevista que publico agora é de um dos maiores especialistas brasileiros em energia eólica.


O estado que tem mais vento no Brasil é a Bahia

É duro quando nem sua própria mãe acredita muito no que você anda fazendo. Osvaldo Soliano começou a estudar energia solar logo depois que se graduou em engenharia elétrica na Universidade Federal da Bahia (Ufba). Foi para a França fazer mestrado e depois emendou um doutorado na Inglaterra, sempre metido com aquele negócio que era quase coisa de hippie. Mas aí aconteceu que a mãe viajou para Israel e viu que lá um monte de casas tinham placas solares. Na volta, anunciou empolgada ao filho que talvez aquilo tivesse mesmo futuro. Osvaldo, que se tornou um dos maiores especialistas em energia renovável do país, gosta de contar a piada a seus alunos do bacharelado interdisciplinar de ciência e tecnologia da Ufba, ainda mais que hoje pode ilustrar o caso mostrando a profusão de usinas solares e eólicas que se espalharam pelo Brasil na última década. Até 2030, 30% da matriz energética brasileira deve ser representada pelo vento, pelo sol e outras fontes alternativas. A Bahia vem ganhando destaque neste cenário, com um mundo de terras áridas de onde agora brota energia. Curiosamente, o que não cresceu muito nesse período foi a microgeração de energia, aquela residencial avistada no início da década de 1990 pela mãe do pesquisador, popularizada na Europa. Em entrevista à Muito, Osvaldo explica por que isso não aconteceu e mostra figuras poéticas, como a do garimpador de vento, para você ver o tanto de beleza que pode morar no universo dos cálculos e estruturas.

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Em 10 anos, a produção de energia renovável no Brasil cresceu 30%, segundo dados do Ministério de Minas e Energia. O que foi determinante para esse crescimento?

O ponto de partida foi um programa chamado Proinfa (Programa de Incentivo às Fontes Alternativas), de 2002. Antes, tinha  apenas projetos experimentais na academia. Não se pensava em energia solar ou eólica conectada à rede. Era só para o meio rural, com bateria, isso lá em 1992, 1993. Quando trabalhei na Coelba, consegui convencer a diretoria e compramos os três primeiros aerogeradores para medir o vento no estado. Cheguei a instalar um em Ilha Grande de Camamu. Depois fui trabalhar no Rio, onde criei o  Centro de Referência para Energia Solar e Eólica, o Cresesb. Era tudo coisa pequena, sempre com a universidade envolvida. E aí veio o Proinfa, que foi uma lei criada na gestão de Fernando Henrique Cardoso. O relator da lei é até baiano, deputado [José Carlos] Aleluia. Foi a situação do apagão que criou os incentivos para três fontes: eólica, biomassa e pequenas centrais hidrelétricas, que a gente chama de PCH. Não tinha ainda a solar, que na época era muito cara. O programa foi implementado no governo Lula. E agora a gente tem o desafio de conectar energia solar e eólica com as centrais hidrelétricas, para tornar mais firme a energia. Esse é o grande desafio em nível nacional. Porque você tem três fontes que são intermitentes, água, sol e vento, para garantir o sistema elétrico. Como é que vamos juntar isso de tal forma que dê uma garantia? O Brasil tem um backup fabuloso que são as hidrelétricas, desde que tenham reservatório.

E nesse período os investimentos conseguiram se manter estáveis?

Dilma [Rousseff] era muito refratária à solar e à eólica, porque a lógica era baratear a tarifa. E botando algo que é mais caro, você onera a tarifa. Claro, tudo tem prós e contras. Dilma atrasou o programa eólico, realmente. E aí tivemos o primeiro leilão em 2005 e depois, até 2009, não se fez leilão. Parou completamente. O Proinfa foi se enrolando. Mas aí houve uma conjuntura muito favorável. O preço foi caindo no mercado internacional e o Brasil começou a perceber que tinha uma vantagem competitiva de ventos fabulosos. Quando Dilma saiu para ir para a Casa Civil e deixou o Ministério de Minas e Energia, quem assumiu foi um nordestino, maranhense [Edison Lobão]. Os governadores do Nordeste começaram a fazer aquele lobby. Mas o fator preponderante foi a queda dos preços. Então, em 2009, se decidiu fazer o leilão. Lembro que eu era presidente da  Sociedade Brasileira de Planejamento Energé- tico e estava na Conferência do Clima, em Copenhague, quando saiu a notícia. Foi uma festa. A partir daí, os leilões passaram a ser regulares, todo ano um específico. Hoje nem precisa mais de leilão específico para eólica, porque no último leilão, de 2017, já foi a fonte mais barata. Compete com gás natural, biomassa, tudo.

Apesar do crescimento, a energia solar e a eólica ainda representam um percentual pequeno da matriz energética brasileira. Não passam dos 10%.

O vento está crescendo num ritmo aceleradíssimo. Se você pensar que em alguns dias do ano passado a eólica chegou a atender 60% do Nordeste, é um número brutal. Claro que foram alguns dias. A solar é muito mais recente. O primeiro leilão específico foi de 2014, e aí voltou a ter em 2017. Ainda está na faixa de 0,5%. Mas nós voltamos a entrar num caminho que a gente pode perseguir tranquilamente e bater em 2030 na faixa de beirar os 30%, somando todas as fontes. Repare que no Brasil já é lei o Acordo de Paris. Por força desse acordo, o Brasil se comprometeu a reduzir em 43% as emissões até 2030. Como o país vai conseguir isso? Dentre as ações estão reflorestar 12  milhões de hectares e chegar a quase 30% de renováveis, que não a hídrica. É esse o desafio que está posto, e acho tranquilamente factível de cumprir. O desafio global é desenvolver tecnologia para o armazenamento. Energia solar com armazenamento ia resolver o problema energético global.

Como está a Bahia neste cenário? Que lugar o estado ocupa?

A energia eólica começou pelo Rio Grande do Norte e Ceará, e agora a Bahia está colando neles. No que já está funcionando, é o terceiro, ainda; mas quando se considera o volume já comprado… Porque, repare, são três estágios: tem o que o cara que ganhou o leilão e ainda nem começou a obra, está atrás dos financiamentos; tem os que estão em construção e os que já estão em operação. Quando você soma isso, a Bahia passa para o primeiro lugar. O estado que tem mais vento no Brasil é a Bahia. E é um vento de interior. O litoral da Bahia não tem vento, ao contrário do Rio Grande do Norte e Ceará. Claro, tem essa brisa maravilhosa, mas não é vento comercial. Para ser comercial, tem que ter 6 m/s. Eu velejo, e isso é uma tempestade para um barco a vela desses pequenos que a gente tem na Bahia. Ia virar tudo! (risos). Tem um termo belíssimo dos especialistas na área que é: garimpar o vento. Porque o vento você tem que achar, diferente do sol, que está mais ou menos do mesmo jeito em todo lugar. Aqui, a gente tem o vento que vai encontrar a barreira, que é a Chapada [Diamantina], então ele canaliza, e aí você cria um canal de vento. Então, como nosso vento é de interior, exige mais logística, e aí outros estados saíram na frente. Mas quando você vê hoje o Atlas de Energia Eólica da Bahia, é um potencial de 190 GW. É um número maior do que tudo que o Brasil tem instalado hoje, em todas as fontes. Hipoteticamente, só com energia eólica você atenderia a toda a necessidade de energia elétrica do Brasil. Mas claro que não pode, porque os ventos param. Tem que ter o backup. Quanto à energia solar, a Bahia também disparou. Nos leilões de solar, certamente está em primeiro lugar, e [capacidade] instalada deve estar também em primeiro. Tem a segunda maior usina do Brasil, lá em Tabocas do Brejo Velho, no oeste. É da Enel, originalmente italiana, que é a empresa que mais tem expandido no Brasil. Faz parques no Peru, Chile, México… Compra as placas solares numa escala dos chineses, que é brutal. Os grandes conseguem preços porque compram para o mundo inteiro.

Ia perguntar para o senhor por que a maioria das empresas em operação são estrangeiras, mas acho que já está aí a resposta.

É, é isso. A Enel quer ser a maior do mundo. Tem a Gamesa, a Iberdrola, a AES. No último leilão, os jornalistas perguntaram aos executivos da AES como eles estavam conseguindo aquele preço, porque as contas não fechavam. ‘Que milagre você está fazendo para oferecer energia tão barata?’.E eles responderam que era estratégico para a empresa, nacionalmente e globalmente, atingir níveis de penetração altos. Essas empresas querem atingir um volume de renováveis no seu portfólio, é estratégico ter energias solar e eólica. Um pouco de estratégia, um pouco de escala justificam esses preços. O Brasil não faz reserva de mercado, e para subsidiar nesse momento implicaria fazer aportes do Tesouro. O país está quebrado… Dá para entender a pressão pela tecnologia nacional, que no longo prazo seria bom, mas tem que entender também a conjuntura atual.

Você falava desse lugarzinho árido, Tabocas do Brejo Velho, que hoje abriga a segunda maior usina de energia solar do Brasil. Esta situação está se repetindo em outros povoados e cidades pequenas, que de repente estão recebendo esses megaempreendimentos. Em que medida a população do entorno se beneficia disso?

Repare, nesses locais você não tem mão de obra qualificada, não é? Num primeiro momento da construção, vai ter toda a parte de hotel, apoio, refeição. A usina solar é construída muito rapidamente, com um nível altíssimo de automação. Depois, esse povo vai embora, e aí entra na rotina. A rotina de opera- ção não exige um volume grande de pessoas, e as pessoas que são exigidas não são as que vivem lá originalmente, a não ser um servente, um vigilante… O impacto na economia é pequeno. O segundo tipo de impacto é o dono da terra que passou a alugar a terra. Existe uma possibilidade não remota de haver concentra- ção de renda. Porque quem já detém a terra já é o mais rico. Tem essa fantasia de ‘ah, são pequenos empreendedores que detêm a terra’. Certamente, não. Então, sim, de certo modo todos são puxados um pouco para cima, porque a arrecadação de impostos aumenta, mas quem está no topo da pirâmide é puxado mais ainda.

Quando se começou a falar das usinas eólicas aqui na Bahia, um ponto crítico era a falta de linhas de transmissão. As empresas recebiam pela energia gerada, mas ela não chegava ao consumidor, que ainda tinha que pagar a conta. Em que medida essa situação foi equacionada?

As linhas de transmissão são um gargalo de curto prazo e de fácil resolução, mas que ainda não foi resolvido completamente. Num primeiro momento, o governo fazia o leilão e aí só depois se fazia um outro leilão para a linha de transmissão, que quem ganhava geralmente eram as empresas estatais, como a Chesf [Companhia Hidrelétrica do São Francisco], que estão submetidas às leis que restringem o setor público. Aí, pronto, atrasava a obra e a gente tinha que pagar ao cara porque ele fez a usina, e se não tinha linha de transmissão o problema não era dele. Depois mudou a legislação, e agora a empresa quando vai concorrer num leilão já tem que oferecer o preço da geração mais a linha que ele vai construir. Isso já está no preço. Claro que são linhas de 40, 50 km. Se forem 300 km, quem faz é o governo federal. Outra questão logística é como as pás da energia eólica são levadas para essas cidades pequenas, passando pelas estradas que nós temos, por dentro das cidades. Aí tem empresa que precisa reforçar pontes para poder passar aquelas carretas gigantescas, aumentar estrada… Quando a pá está passando, tem que parar o trânsito da cidade toda, mudar placa de sinalização.. Aí tem uma esquina ali, vai dando a volta na pá, que está quase no limite de subir na calçada… É um problema. O que conta na eólica é a velocidade do vento e o tamanho da pá. Se dobrar o tamanho da pá, a energia produzida cresce por quatro. E a velocidade do vento cresce pelo cubo. Então a tendência no mundo é crescer o tamanho da pá, e aí você vai para o mar. Como aqui nosso vento é muito bom, intenso, constante, unidirecional, nossas pás ainda podem ser menores, com 60, 70 metros. Na Europa já tem de 80 m. Imagine que 80 m é um Elevador Lacerda. Imagine transportar um Elevador Lacerda deitado para passar por nossas estradas, fazer curva?

Esse crescimento dos grandes parques solares não foi acompanhado pela microgeração de energia na casa das pessoas, não é? A gente não viu de fato um aumento das placas solares residenciais. Que fatores explicam essa estagnação da microgera- ção de energia?

Os países desenvolvidos criaram um incentivo chamado tarifa-prêmio. Você gera energia e o sistema elétrico paga mais quando você exporta do que quando você compra. Isso foi que viabilizou na Europa e também na Califórnia aquele boom. No Brasil, se criou outra polí- tica, a compensação de energia elétrica, com o mesmo valor para o que é produzido e o que se compra. É um incentivo na medida em que nós já compramos a R$ 600, quase R$ 700 o MW/h e se consegue produzir a R$ 300 o MW/h. Mas não tem incentivo nenhum além desse. O problema da geração é o investimento, e nós sabemos que no Brasil os juros são caríssimos. E não tem nenhum cenário de melhora nessa direção. Há um incentivo para pessoa jurídica, mas não para pessoa física. E aí quem consegue instalar é quem tem alto poder aquisitivo. Com o aumento da escala, a previsão é que vá barateando para os demais. É como qualquer inovação tecnológica, começa caro e vai barateando. O painel solar está nessa pirâmide natural. O porteiro daqui do prédio, como sabe que eu mexo com energia solar, outro dia me perguntou se dava para botar na casa dele. ‘Eu quero ficar livre da Coelba’. As pessoas têm uma expectativa. Todo mundo faz orçamento e, quando vê o preço, desiste.

E quanto seria o preço para a casa do porteiro?

Desgraçadamente, ele teria que investir R$ 5 mil, R$ 8 mil. É caro. Numa casa de classe média-mé- dia, a gente está falando de R$ 20 mil, R$ 30 mil. No Brasil todo, existem 24 mil sistemas. Na Bahia, são 500. Imagine, 500 num universo de três milhões de domicílios. Então, ainda é desprezível. A CBIC [Câmara Brasileira da Indústria da Construção] está interessada no tema. A indústria só cresce se tiver um ganha-ganha, se ela perceber que tem ali uma oportunidade de negócio. A  construtora MRV já está utilizando painéis solares nos empreendimentos novos. Tem algo que impacta na imagem, de contribuir para o meio ambiente, mas ela também vende isso dizendo que as pessoas vão poder economizar na conta de luz. Como professor, eu não posso deixar de falar da necessidade de mais pesquisas, e também de continuidade. Nós instalamos o primeiro sistema de geração distribuída da Bahia dentro do estacionamento da Coelba, há seis, sete anos. Você vai lá e não funciona, porque um componente eletrônico quebrou. Imagine, dentro da Coelba. Era um projeto de pesquisa, o dinheiro acabou, e aí não tem mais quem assuma a responsabilidade. Isso é frustrante. Nós instalamos um sistema híbrido isolado numa ilha de Nova Viçosa, com energia solar, eólico e bateria. Foi o primeiro da Bahia numa ilha. Não existe mais, está lá abandonado. Tiraram as placas, a maré deve ter derrubado uma parte,  levaram as  baterias… Acabou. E funcionou lindo, lindo, lindo. Claro que depois também é capaz de ter chegado um cabo submarino que levou energia para a ilha, mas ainda assim… Virava geração distribuída, está certo? Mas de todo modo é gratificante ver aquilo que você apostou lá atrás virar uma realidade. Conto muito essa piada para os meus alunos. Logo que terminei a graduação, fui fazer mestrado na França e já comecei a estudar energia solar, isso na década de 1980. Depois, fui fazer doutorado, também sobre esse tema. E aí minha mãe fez uma viagem para Israel e voltou dizendo: ‘Meu filho, lá em Israel toda casa tem energia solar. Esse negócio que você faz pode ser que tenha futuro’ (risos). Ou seja, nem minha mãe acreditava no que eu fazia. É aquele maluco lá que mexe com energia solar.

(TATIANA MENDONÇA e MARGARIDA NEIDE)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 18.03.2018

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