O programa secreto do capitalismo totalitário

10/05/2018 às 3:49 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
Tags: ,

Sei que alguns, na minha suspeita os de sempre, vão dizer que se trata de mais uma teoria da conspiração. Mas o relato é impressionante. E tem até um Nobel envolvido diretamente !


O programa secreto do capitalismo totalitário

 

Como Charles Koch e outros bilionários financiaram, nas sombras, um projeto político que implica devastar o serviço público e o bem comum, para estabelecer a “liberdade total” do 1% mais rico.
É o capítulo que faltava, uma chave para entender a política dos últimos cinquenta anos. Ler o novo livro de Nancy MacLean, Democracy in Chains: the deep history of the radical right’s stealth plan for America [Democracia Aprisionada: a história profunda do plano oculto da direita para a América] é enxergar o que antes permanecia invisível.

O trabalho da professora de História começou por acidente. Em 2013, ela deparou-se com uma casa de madeira abandonada no campus da Universidade George Mason, em Virgínia (EUA). O lugar estava repleto com os arquivos desorganizados de um homem que havia morrido naquele ano, e cujo nome é provavelmente pouco familiar a você: James McGill Buchanan. Ela conta que a primeira coisa que despertou sua atenção foi uma pilha de cartas confidenciais relativas a milhões de dólares transferidos para a universidade pelo bilionário Charles Koch[1].

Suas descobertas naquela casa de horrores revelam como Buchanan desenvolveu, em colaboração com magnatas e os institutos fundados por eles, um programa oculto para suprimir a democracia em favor dos muito ricos. Tal programa está agora redefinindo a política, e não apenas nos Estados Unidos.

Buchanan foi fortemente influenciado pelo neoliberalismo de Friedrich Hayek e Ludwig von Mises e pelo supremacismo de proprietários de John C. Carlhoun. Este último argumentava, na primeira metade do século XIX, que a liberdade consiste no direito absoluto de usar a propriedade – inclusive os escravos – segundo o desejo de cada um. Qualquer instituição que limitasse este direito era, para ele, um agente de opressão, que oprime homens proprietários em nome das massas desqualificadas.

James Buchanan reuniu estas influências para criar o que chamou de “teoria da escolha pública. Argumentou que uma sociedade não poderia ser considerada livre exceto se cada cidadão tivesse o direito de vetar suas decisões. Queria dizer que ninguém deveria ser tributado contra sua vontade. Mas os ricos, dizia ele, estavam sendo explorados por gente que usa o voto para reivindicar o dinheiro que outros ganharam, por meio de impostos involuntários usados para assegurar o gasto e o bem-estar social. Permitir que os trabalhadores formassem sindicatos e estabelecer tributos progressivos eram, sempre segundo sua teoria, formas de “legislação diferencial e discriminatória” sobre os proprietários do capital.

Qualquer conflito entre o que ele chamava de “liberdade” (permitir aos ricos fazer o que quiserem) e a democracia deveria ser resolvido em favor da “liberdade”. Em seu livro The Limits of Liberty [Os limites da liberdade], ele frisou que “o despotismo pode ser ser a única alternativa para a estrutura política que temos”. O despotismo em defesa da liberdade…

Ele prescrevia o que chamou de uma “revolução constitucional”: criar barreiras irrevogáveis para reduzir a escolha democrática. Patrocinado durante toda sua vida por fundações riquíssimas, bilionários e corporações, ele desenvolveu uma noção teórica sobre o que esta revolução constitucional seria e uma estratégia para implementá-la.

Ele descreveu como as tentativas de superar a segregação racial no sistema escolar do sul dos Estados Unidos poderiam ser frustradas com o estabelecimento de uma rede de escolas privadas, patrocinadas pelo Estado. Foi ele quem primeiro propôs a privatização das universidades e cobrança de mensalidades sem nenhum subsídio estatal: seu propósito original era esmagar o ativismo estudantil. Ele recomendou a privatização da Seguridade Social e de muitas outras ações do Estado. Queria romper os laços entre os cidadãos e o governo e demolir a confiança nas instituições públicas. Ele queria, em síntese, salvar o capitalismo da democracia.

Em 1980, pôde colocar este programa em prática. Foi chamado ao Chile, onde ajudou a ditadura Pinochet a escrever uma nova Constituição – a qual, em parte devido aos dispositivos que Buchanan propôs, tornou-se quase impossível de revogar. Em meio às torturas e assassinados, ele aconselhou o governo a ampliar seus programas de privatazação, austeridade, restrição monetária, desregulamentação e destruição dos sindicatos: um pacote que ajudou a produzir o colapso econômico de 1982.

Nada disso perturbou a Academia Sueca que, por meio de Assar Lindbeck, um devoto na Universidade de Estocolomo, conferiu a James Buchanan o Nobel de Economia de 1986. Foi uma das diversas decisões que tornaram duvidosa a honraria.

Mas seu poder realmente intensificou-se quando Charles Koch, hoje o sétimo homem mais rico nos EUA, dicidiu que Buchanan tinha a chave para a transformação que desejava. Para Koch, mesmo ideólogos neoliberais como Milton Friedman e Alan Greenspan eram vendidos, já que tentavam aperfeiçoar a eficiência dos governos, ao invés de destruí-los de uma vez. Buchanan era o realmente radical.

Nancy MacLean afirma que Charles Koch despejou milhões de dólares no trabalho de Buchanan na Universidade George Mason, cujos departamentos de Direito e Economia parecem muito mais thinktanks corporativos que instituições acadêmicas. Ele encarregou o economista de selecionar o “quadro” revolucionário que implementaria seu programa (Murray Rothbard, do Cato Institute, fundado por Koch, havia sugerido ao bilionário estudar as técnicas de Lenin e aplicá-las em favor da causa ultraliberal). Juntos, começaram a desenvolver um programa para mudar as regras.

Os documentos que Nancy Maclean descobriu mostram que Buchanan via o sigilo como crucial. Ele afirmava a seus colaboradores que “o sigilo conspirativo é essencial em todos os momentos”. Ao invés de revelar seu objetivo último, eles deveriam agir por meio de etapas sucessivas. Por exemplo, ao tentar destruir o sistema de Seguridade Social, sustentariam que estavam salvando-o e argumentariam que ele quebraria sem uma série de “reformas” radicais. Aos poucos, construiriam uma “contra-inteligência”, articulada como uma “vasta rede de poder político” para, ao final, constituir um novo establishment.

Por meio da rede de thinktanks financiada por Koch e outros bilionários; da transformação do Partido Republicano; de centenas de milhões de dólares que destinaram a disputas legislativas e judiciais; da colonização maciça do governo Trump por membros de sua rede e de campanhas muito efetivas contra tudo – da Saúde pública às ações para enfrentar a mudança climática, seria justo dizer que a visão de mundo de Buchanan está aflorando nos EUA.

Mas não apenas lá. Ler seu livro desvendou, para mim, muito da política britânica atual. O ataque às regulamentações evidenciado pelo incêndio da Torre Grenfell, a destruição dos serviços públicos por meio da “austeridade”, a regras de restrição do orçamento, as taxas universitárias e o controle das escolas: todas estas medidas seguem à risca o programa de Buchanan.

Em um aspecto, ele estava certo: há um conflito inerente entre o que ele chamava de “liberdade econômica” e a liberdade política. Deixar os bilionários de mãos livres significa, para todos os demais, pobreza, insegurança, contaminação das águas e do ar, colapso dos serviços públicos. Como ninguém votará em favor deste programa, ele só pode ser imposto por meio de decepção e controle autoritário. A escolha é entre o capitalismo irrestrito e a democracia. Não se pode ter os dois.

O programa de Buchanan equivale à prescrição de capitalismo totalitário. E seus discípulos apenas começaram a implementá-lo. Mas ao menos, graças às descobertas de Nancy Maclean, agora podemos compreender a agenda. Uma das primeiras regras da política é conhecer seu inimigo. Estamos a caminho.

[1] Nos últimos anos, reportagens e vídeos têm começado a jogar luz sobre a atividade política dos irmãos Charles e David Koch, e seus vínculos com a ultra-direita nos EUA e em outras parte do mundo. Vale assistir, por exemplo, a Koch Brothers exposed, documentário de Robert Greenwald; ou ler “Por dentro do império tóxico dos irmãos Koch”, publicado pela revista Rolling Stone (em inglês).

(Por George Monbiot, originalmente em The Guardian, de Londres)

FONTE: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/O-programa-secreto-do-capitalismo-totalitario/4/39236

Anúncios

Energias alternativas

07/05/2018 às 3:28 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
Tags: , ,

Sempre insisto nesse assunto porque para mim a questão é mais política e econômica do que técnica. A entrevista que publico agora é de um dos maiores especialistas brasileiros em energia eólica.


O estado que tem mais vento no Brasil é a Bahia

É duro quando nem sua própria mãe acredita muito no que você anda fazendo. Osvaldo Soliano começou a estudar energia solar logo depois que se graduou em engenharia elétrica na Universidade Federal da Bahia (Ufba). Foi para a França fazer mestrado e depois emendou um doutorado na Inglaterra, sempre metido com aquele negócio que era quase coisa de hippie. Mas aí aconteceu que a mãe viajou para Israel e viu que lá um monte de casas tinham placas solares. Na volta, anunciou empolgada ao filho que talvez aquilo tivesse mesmo futuro. Osvaldo, que se tornou um dos maiores especialistas em energia renovável do país, gosta de contar a piada a seus alunos do bacharelado interdisciplinar de ciência e tecnologia da Ufba, ainda mais que hoje pode ilustrar o caso mostrando a profusão de usinas solares e eólicas que se espalharam pelo Brasil na última década. Até 2030, 30% da matriz energética brasileira deve ser representada pelo vento, pelo sol e outras fontes alternativas. A Bahia vem ganhando destaque neste cenário, com um mundo de terras áridas de onde agora brota energia. Curiosamente, o que não cresceu muito nesse período foi a microgeração de energia, aquela residencial avistada no início da década de 1990 pela mãe do pesquisador, popularizada na Europa. Em entrevista à Muito, Osvaldo explica por que isso não aconteceu e mostra figuras poéticas, como a do garimpador de vento, para você ver o tanto de beleza que pode morar no universo dos cálculos e estruturas.

image

Em 10 anos, a produção de energia renovável no Brasil cresceu 30%, segundo dados do Ministério de Minas e Energia. O que foi determinante para esse crescimento?

O ponto de partida foi um programa chamado Proinfa (Programa de Incentivo às Fontes Alternativas), de 2002. Antes, tinha  apenas projetos experimentais na academia. Não se pensava em energia solar ou eólica conectada à rede. Era só para o meio rural, com bateria, isso lá em 1992, 1993. Quando trabalhei na Coelba, consegui convencer a diretoria e compramos os três primeiros aerogeradores para medir o vento no estado. Cheguei a instalar um em Ilha Grande de Camamu. Depois fui trabalhar no Rio, onde criei o  Centro de Referência para Energia Solar e Eólica, o Cresesb. Era tudo coisa pequena, sempre com a universidade envolvida. E aí veio o Proinfa, que foi uma lei criada na gestão de Fernando Henrique Cardoso. O relator da lei é até baiano, deputado [José Carlos] Aleluia. Foi a situação do apagão que criou os incentivos para três fontes: eólica, biomassa e pequenas centrais hidrelétricas, que a gente chama de PCH. Não tinha ainda a solar, que na época era muito cara. O programa foi implementado no governo Lula. E agora a gente tem o desafio de conectar energia solar e eólica com as centrais hidrelétricas, para tornar mais firme a energia. Esse é o grande desafio em nível nacional. Porque você tem três fontes que são intermitentes, água, sol e vento, para garantir o sistema elétrico. Como é que vamos juntar isso de tal forma que dê uma garantia? O Brasil tem um backup fabuloso que são as hidrelétricas, desde que tenham reservatório.

E nesse período os investimentos conseguiram se manter estáveis?

Dilma [Rousseff] era muito refratária à solar e à eólica, porque a lógica era baratear a tarifa. E botando algo que é mais caro, você onera a tarifa. Claro, tudo tem prós e contras. Dilma atrasou o programa eólico, realmente. E aí tivemos o primeiro leilão em 2005 e depois, até 2009, não se fez leilão. Parou completamente. O Proinfa foi se enrolando. Mas aí houve uma conjuntura muito favorável. O preço foi caindo no mercado internacional e o Brasil começou a perceber que tinha uma vantagem competitiva de ventos fabulosos. Quando Dilma saiu para ir para a Casa Civil e deixou o Ministério de Minas e Energia, quem assumiu foi um nordestino, maranhense [Edison Lobão]. Os governadores do Nordeste começaram a fazer aquele lobby. Mas o fator preponderante foi a queda dos preços. Então, em 2009, se decidiu fazer o leilão. Lembro que eu era presidente da  Sociedade Brasileira de Planejamento Energé- tico e estava na Conferência do Clima, em Copenhague, quando saiu a notícia. Foi uma festa. A partir daí, os leilões passaram a ser regulares, todo ano um específico. Hoje nem precisa mais de leilão específico para eólica, porque no último leilão, de 2017, já foi a fonte mais barata. Compete com gás natural, biomassa, tudo.

Apesar do crescimento, a energia solar e a eólica ainda representam um percentual pequeno da matriz energética brasileira. Não passam dos 10%.

O vento está crescendo num ritmo aceleradíssimo. Se você pensar que em alguns dias do ano passado a eólica chegou a atender 60% do Nordeste, é um número brutal. Claro que foram alguns dias. A solar é muito mais recente. O primeiro leilão específico foi de 2014, e aí voltou a ter em 2017. Ainda está na faixa de 0,5%. Mas nós voltamos a entrar num caminho que a gente pode perseguir tranquilamente e bater em 2030 na faixa de beirar os 30%, somando todas as fontes. Repare que no Brasil já é lei o Acordo de Paris. Por força desse acordo, o Brasil se comprometeu a reduzir em 43% as emissões até 2030. Como o país vai conseguir isso? Dentre as ações estão reflorestar 12  milhões de hectares e chegar a quase 30% de renováveis, que não a hídrica. É esse o desafio que está posto, e acho tranquilamente factível de cumprir. O desafio global é desenvolver tecnologia para o armazenamento. Energia solar com armazenamento ia resolver o problema energético global.

Como está a Bahia neste cenário? Que lugar o estado ocupa?

A energia eólica começou pelo Rio Grande do Norte e Ceará, e agora a Bahia está colando neles. No que já está funcionando, é o terceiro, ainda; mas quando se considera o volume já comprado… Porque, repare, são três estágios: tem o que o cara que ganhou o leilão e ainda nem começou a obra, está atrás dos financiamentos; tem os que estão em construção e os que já estão em operação. Quando você soma isso, a Bahia passa para o primeiro lugar. O estado que tem mais vento no Brasil é a Bahia. E é um vento de interior. O litoral da Bahia não tem vento, ao contrário do Rio Grande do Norte e Ceará. Claro, tem essa brisa maravilhosa, mas não é vento comercial. Para ser comercial, tem que ter 6 m/s. Eu velejo, e isso é uma tempestade para um barco a vela desses pequenos que a gente tem na Bahia. Ia virar tudo! (risos). Tem um termo belíssimo dos especialistas na área que é: garimpar o vento. Porque o vento você tem que achar, diferente do sol, que está mais ou menos do mesmo jeito em todo lugar. Aqui, a gente tem o vento que vai encontrar a barreira, que é a Chapada [Diamantina], então ele canaliza, e aí você cria um canal de vento. Então, como nosso vento é de interior, exige mais logística, e aí outros estados saíram na frente. Mas quando você vê hoje o Atlas de Energia Eólica da Bahia, é um potencial de 190 GW. É um número maior do que tudo que o Brasil tem instalado hoje, em todas as fontes. Hipoteticamente, só com energia eólica você atenderia a toda a necessidade de energia elétrica do Brasil. Mas claro que não pode, porque os ventos param. Tem que ter o backup. Quanto à energia solar, a Bahia também disparou. Nos leilões de solar, certamente está em primeiro lugar, e [capacidade] instalada deve estar também em primeiro. Tem a segunda maior usina do Brasil, lá em Tabocas do Brejo Velho, no oeste. É da Enel, originalmente italiana, que é a empresa que mais tem expandido no Brasil. Faz parques no Peru, Chile, México… Compra as placas solares numa escala dos chineses, que é brutal. Os grandes conseguem preços porque compram para o mundo inteiro.

Ia perguntar para o senhor por que a maioria das empresas em operação são estrangeiras, mas acho que já está aí a resposta.

É, é isso. A Enel quer ser a maior do mundo. Tem a Gamesa, a Iberdrola, a AES. No último leilão, os jornalistas perguntaram aos executivos da AES como eles estavam conseguindo aquele preço, porque as contas não fechavam. ‘Que milagre você está fazendo para oferecer energia tão barata?’.E eles responderam que era estratégico para a empresa, nacionalmente e globalmente, atingir níveis de penetração altos. Essas empresas querem atingir um volume de renováveis no seu portfólio, é estratégico ter energias solar e eólica. Um pouco de estratégia, um pouco de escala justificam esses preços. O Brasil não faz reserva de mercado, e para subsidiar nesse momento implicaria fazer aportes do Tesouro. O país está quebrado… Dá para entender a pressão pela tecnologia nacional, que no longo prazo seria bom, mas tem que entender também a conjuntura atual.

Você falava desse lugarzinho árido, Tabocas do Brejo Velho, que hoje abriga a segunda maior usina de energia solar do Brasil. Esta situação está se repetindo em outros povoados e cidades pequenas, que de repente estão recebendo esses megaempreendimentos. Em que medida a população do entorno se beneficia disso?

Repare, nesses locais você não tem mão de obra qualificada, não é? Num primeiro momento da construção, vai ter toda a parte de hotel, apoio, refeição. A usina solar é construída muito rapidamente, com um nível altíssimo de automação. Depois, esse povo vai embora, e aí entra na rotina. A rotina de opera- ção não exige um volume grande de pessoas, e as pessoas que são exigidas não são as que vivem lá originalmente, a não ser um servente, um vigilante… O impacto na economia é pequeno. O segundo tipo de impacto é o dono da terra que passou a alugar a terra. Existe uma possibilidade não remota de haver concentra- ção de renda. Porque quem já detém a terra já é o mais rico. Tem essa fantasia de ‘ah, são pequenos empreendedores que detêm a terra’. Certamente, não. Então, sim, de certo modo todos são puxados um pouco para cima, porque a arrecadação de impostos aumenta, mas quem está no topo da pirâmide é puxado mais ainda.

Quando se começou a falar das usinas eólicas aqui na Bahia, um ponto crítico era a falta de linhas de transmissão. As empresas recebiam pela energia gerada, mas ela não chegava ao consumidor, que ainda tinha que pagar a conta. Em que medida essa situação foi equacionada?

As linhas de transmissão são um gargalo de curto prazo e de fácil resolução, mas que ainda não foi resolvido completamente. Num primeiro momento, o governo fazia o leilão e aí só depois se fazia um outro leilão para a linha de transmissão, que quem ganhava geralmente eram as empresas estatais, como a Chesf [Companhia Hidrelétrica do São Francisco], que estão submetidas às leis que restringem o setor público. Aí, pronto, atrasava a obra e a gente tinha que pagar ao cara porque ele fez a usina, e se não tinha linha de transmissão o problema não era dele. Depois mudou a legislação, e agora a empresa quando vai concorrer num leilão já tem que oferecer o preço da geração mais a linha que ele vai construir. Isso já está no preço. Claro que são linhas de 40, 50 km. Se forem 300 km, quem faz é o governo federal. Outra questão logística é como as pás da energia eólica são levadas para essas cidades pequenas, passando pelas estradas que nós temos, por dentro das cidades. Aí tem empresa que precisa reforçar pontes para poder passar aquelas carretas gigantescas, aumentar estrada… Quando a pá está passando, tem que parar o trânsito da cidade toda, mudar placa de sinalização.. Aí tem uma esquina ali, vai dando a volta na pá, que está quase no limite de subir na calçada… É um problema. O que conta na eólica é a velocidade do vento e o tamanho da pá. Se dobrar o tamanho da pá, a energia produzida cresce por quatro. E a velocidade do vento cresce pelo cubo. Então a tendência no mundo é crescer o tamanho da pá, e aí você vai para o mar. Como aqui nosso vento é muito bom, intenso, constante, unidirecional, nossas pás ainda podem ser menores, com 60, 70 metros. Na Europa já tem de 80 m. Imagine que 80 m é um Elevador Lacerda. Imagine transportar um Elevador Lacerda deitado para passar por nossas estradas, fazer curva?

Esse crescimento dos grandes parques solares não foi acompanhado pela microgeração de energia na casa das pessoas, não é? A gente não viu de fato um aumento das placas solares residenciais. Que fatores explicam essa estagnação da microgera- ção de energia?

Os países desenvolvidos criaram um incentivo chamado tarifa-prêmio. Você gera energia e o sistema elétrico paga mais quando você exporta do que quando você compra. Isso foi que viabilizou na Europa e também na Califórnia aquele boom. No Brasil, se criou outra polí- tica, a compensação de energia elétrica, com o mesmo valor para o que é produzido e o que se compra. É um incentivo na medida em que nós já compramos a R$ 600, quase R$ 700 o MW/h e se consegue produzir a R$ 300 o MW/h. Mas não tem incentivo nenhum além desse. O problema da geração é o investimento, e nós sabemos que no Brasil os juros são caríssimos. E não tem nenhum cenário de melhora nessa direção. Há um incentivo para pessoa jurídica, mas não para pessoa física. E aí quem consegue instalar é quem tem alto poder aquisitivo. Com o aumento da escala, a previsão é que vá barateando para os demais. É como qualquer inovação tecnológica, começa caro e vai barateando. O painel solar está nessa pirâmide natural. O porteiro daqui do prédio, como sabe que eu mexo com energia solar, outro dia me perguntou se dava para botar na casa dele. ‘Eu quero ficar livre da Coelba’. As pessoas têm uma expectativa. Todo mundo faz orçamento e, quando vê o preço, desiste.

E quanto seria o preço para a casa do porteiro?

Desgraçadamente, ele teria que investir R$ 5 mil, R$ 8 mil. É caro. Numa casa de classe média-mé- dia, a gente está falando de R$ 20 mil, R$ 30 mil. No Brasil todo, existem 24 mil sistemas. Na Bahia, são 500. Imagine, 500 num universo de três milhões de domicílios. Então, ainda é desprezível. A CBIC [Câmara Brasileira da Indústria da Construção] está interessada no tema. A indústria só cresce se tiver um ganha-ganha, se ela perceber que tem ali uma oportunidade de negócio. A  construtora MRV já está utilizando painéis solares nos empreendimentos novos. Tem algo que impacta na imagem, de contribuir para o meio ambiente, mas ela também vende isso dizendo que as pessoas vão poder economizar na conta de luz. Como professor, eu não posso deixar de falar da necessidade de mais pesquisas, e também de continuidade. Nós instalamos o primeiro sistema de geração distribuída da Bahia dentro do estacionamento da Coelba, há seis, sete anos. Você vai lá e não funciona, porque um componente eletrônico quebrou. Imagine, dentro da Coelba. Era um projeto de pesquisa, o dinheiro acabou, e aí não tem mais quem assuma a responsabilidade. Isso é frustrante. Nós instalamos um sistema híbrido isolado numa ilha de Nova Viçosa, com energia solar, eólico e bateria. Foi o primeiro da Bahia numa ilha. Não existe mais, está lá abandonado. Tiraram as placas, a maré deve ter derrubado uma parte,  levaram as  baterias… Acabou. E funcionou lindo, lindo, lindo. Claro que depois também é capaz de ter chegado um cabo submarino que levou energia para a ilha, mas ainda assim… Virava geração distribuída, está certo? Mas de todo modo é gratificante ver aquilo que você apostou lá atrás virar uma realidade. Conto muito essa piada para os meus alunos. Logo que terminei a graduação, fui fazer mestrado na França e já comecei a estudar energia solar, isso na década de 1980. Depois, fui fazer doutorado, também sobre esse tema. E aí minha mãe fez uma viagem para Israel e voltou dizendo: ‘Meu filho, lá em Israel toda casa tem energia solar. Esse negócio que você faz pode ser que tenha futuro’ (risos). Ou seja, nem minha mãe acreditava no que eu fazia. É aquele maluco lá que mexe com energia solar.

(TATIANA MENDONÇA e MARGARIDA NEIDE)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 18.03.2018

A Economia Solidária e os Direitos Humanos

04/05/2018 às 3:32 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
Tags: , ,

Esse artigo nos mostra a relação entre Economia Solidária e Direitos Humanos, com vários exemplos, inclusive aqui no Brasil. O texto é longo e denso, mas quem tiver coragem de ler não se arrependerá.

economia-solidaria


A Economia Solidária e os Direitos Humanos

As presentes notas respondem a um convite para dissertar sobre as experiências e as práticas
dos grupos de economia solidária, em especial mediante a atuação dos Bancos Comunitários
de Desenvolvimento, em sua correlação com as iniciativas de defesa e promoção dos direitos
humanos.

1. A primeira afirmação necessária refere-se à ênfase de que as sociedades contemporâneas
estão constituídas, em seus referenciais e proclamações políticas oficiais, como sociedades
em que os direitos humanos são a sua razão de ser. Observe-se a tônica de que trata-se de
razão de ser dos Estados, não uma mera característica circunstancial nem muito menos uma
adoção supletiva e benfazeja. Os Estados não adotam os direitos humanos, mas, recriam-se,
reconstituem-se, para concretizarem as condições de sua efetivação e subordinarem aos
direitos humanos todas as suas estruturas operacionais.
Assim, desde o final da Segunda Guerra Mundial, com a criação da Organização das Nações
Unidas e a proclamação da carta denominada Declaração Universal dos Direitos Humanos,
em 10 de dezembro de 1948, consentiram todos os Estados nacionais que aderiram à ONU,
desde o início ou posteriormente, que o fator de unidade e de convívio pacífico das nações no âmbito das relações internacionais finca suas raízes na vigência dos direitos humanos no
interior de cada Estado nacional.
A fronteira política situa-se, desde então, na obediência dos Estados aos ditames dos direitos
humanos, tornando relativas às potências derivadas das divisões territoriais, das
determinações econômicas ou do poderio militar de cada governo, de tal modo que, ainda que seja importante a preservação da autodeterminação política de cada nação, e a ONU,
corretamente, defenda este princípio, ela não pode ser reclamada por um governo que, em
seu nome, mantenha um regime político opressivo, em que os valores humanitários essenciais sejam sistematicamente desprovidos de garantia ou em que aos cidadãos não sejam
assegurados os direitos de preservação de sua vida e de suas liberdades de pensamento, de
expressão, de prática religiosa e de organização.

Os Estados nacionais que aderiram à ONU e ao seu principal documento, a Declaração
Universal dos Direitos Humanos, devem migrar suas formas políticas e práticas administrativas governamentais para converter-se, crescentemente, em Estados não apenas “de direito”, no sentido de que vigem relações jurídicas formais para o processamento dos conflitos, mas “de direitos humanos”, no sentido de que as garantias de cidadania plena moldem as práticas, as mudanças políticas e as decisões políticas das instituições sociais, vigindo a busca pela formatação de uma democracia crescentemente substantiva no âmbito social, econômico e político.

Desde então, na perspectiva crescente já afirmada acima, observou-se um incremento da
consciência dos direitos humanos, no que comumente habituou-se denominar de nova
geração de direitos humanos, de tal modo que, se inicialmente os direitos restringiam-se
apenas ao âmbito das relações políticas e jurídicas, ampliaram-se posteriormente,
incorporando dimensões relativas às condições sociais e econômicas, as práticas culturais e,
mais recentemente, aos chamados direitos difusos, envolvendo temas relacionados aos
direitos ambientais e intergeracionais, dentre outros.

O que tornou ainda mais exigente a necessidade de adaptação dos Estados nacionais no que
diz respeito à cobertura em toda a sua extensão do conjunto de direitos humanos,
demandando forte expansão, ao menos:

a) do universo temático de alçada das políticas públicas;
b) da produção de instrumentos jurídico-normativos coerentes e consequentes;
c) da capacidade de aprimoramentos e de inovações no que diz respeito aos instrumentos de
financiamento das políticas públicas.

2. Se a afirmação anterior evidencia uma espécie de “imperativo categórico” de
reconhecimento jurídico da exigência dos direitos humanos como ápice do sistema jurídico
vigente em cada Estado nacional, a segunda afirmação denuncia as contradições
historicamente vivenciadas entre tal sistema de direitos e as formas particulares dos agentes
políticos em cada Estado ou das relações internacionais, mormente comerciais ou de
financiamento, limitarem a sua execução, ante a resistência de segmentos sociais e econômicos contrários à universalização dos direitos, dados os custos redistributivos do poder
e da riqueza que lograram concentrar, ao longo da história.

Com efeito, nestas sete décadas da Declaração Universal dos Direitos Humanos, observou-se
a resistência de muitos regimes de governo de grande parte, senão de todos os Estados
signatários, em agir de forma coerente com as consequências emanadas da adesão a este
instrumento. Muitas foram as guerras; as formas de repressão políticas e ideológicas
proliferaram e sofisticaram-se; disseminaram-se governos ditatoriais; implementaram-se, para além das antes já existentes, novos regimes de segregação racial ou políticas de genocídio por razões religiosas ou étnicas; etc..

Muitos Estados nacionais, por força de hegemonia de segmentos políticos mais
conservadores, resistiram ou retardaram tanto quanto puderam adotar, por exemplo, modelos universais de prestação de assistência à saúde das suas populações e, inversamente, com a expansão da ideologia neoliberal, desenharam políticas para transformar serviços públicos em produtos comerciais, em graus diversos de incidência das consequências negativas sobre as suas populações respectivas.

O que distingue os agrupamentos políticos, desde então, é que alguns, progressistas,
acentuam a imposição dos ditames dos direitos humanos e pretendem construir modelos
políticos e políticas públicas que faça do Estado o guardião da sua universalidade, ou seja, de
sua oferta a todos os cidadãos, reforçando a democracia e incrementando seu conteúdo,
enquanto outros, conservadores, acentuam a limitação das condições de financiamento e de
operacionalização para aderir à mercantilização do acesso a tais direitos, ou seja, de que seu
usufruto dependerá da capacidade que o interessado tenha em pagar pelo direito, em geral,
para empresas privadas e, muitas vezes, para grupos “rentistas”. Na linguagem coloquial, os
primeiros situam-se no campo da “esquerda política” e os segundos no campo da “direita
política”.

Ao longo das décadas, observou-se muita oscilação nos movimentos da política internacional,
ora vigorando a predominância de agrupamentos mais progressistas, ora mais conservadores.
Estes, conservadores, especialmente mediantes agências de financiamento interestatais ou
privadas, tenderam, majoritariamente, a propagar imposições políticas que, por vezes,
produziram grandes tensões sociais e desordens econômicas, comumente e curiosamente
denominadas de “ajustes”, em que, quase sem exceção, os ajustes denotavam tanto a
restrição de acesso aos direitos quanto a garantia da vigência das desigualdades econômicas ou sua acentuação e a submissão dos governos às exigências de grandes grupos econômicos
transnacionais.

Obedientes aos “ajustes”, muitos foram os países conduzidos a crises econômicas e sociais
de grandes proporções, com enorme erosão da capacidade de atuação dos governos
nacionais na prestação dos serviços públicos, erodindo, em consequência, os direitos
humanos e sua universalidade. Cresceram os números dos moradores de rua, dos refugiados,
dos despejos por conta de endividamento bancário, dos desempregados. Por vezes, o meio
ambiente também sofreu violentas ações devastadoras.

A grande crise mais recente, iniciada em 2008, teve como epicentro o sistema bancário dos
Estados Unidos e dos países mais ricos e supostamente mais desenvolvidos do planeta, de
onde irradiou-se por todos os segmentos daquelas economias, ocasionando enormes
impactos derivados na economia internacional, recrudescendo os valores e os volumes de
comercialização de bens e serviços, mas afetando de forma mais virulenta os bens mais
essenciais, as chamadas ​commodities​, em que classificam-se os alimentos in natura e os
minérios, dentre quais aqueles mais essenciais para a oferta de energia às sociedades.
Sabe-se bem que as commodities são produzidas pelos países mais pobres, em sua maioria,
e que tem maior peso relativo em suas economias do que nas economias dos países mais
desenvolvidos, de onde resulta que as crises recentes, de natureza financeira e econômica,
acentuaram as desigualdades internacionais.

3. A terceira afirmação não terá o condão de manifestar uma síntese, como seria de se
esperar se pudéssemos obedecer à sistematização da dialética de Hegel. Diversamente, a
realidade política e econômica contemporânea não permite vislumbrar uma síntese entre a
afirmação dos direitos humanos e as modelagens da ordem econômica e social que estão
predominando na ordem internacional. Ao contrário, as ocorrências evidenciam a
intensificação da tensão entre os dois campos: fortalecimento dos extremismos políticos e da
xenofobia; ênfase nas políticas anti-migratórias em escala internacional; expulsão dos
trabalhadores considerados “ilegais” dos países centrais; rompimento dos sistemas de
integração nacionais construídos depois da Segunda Guerra Mundial (p.ex.: Brexit);
acentuação das políticas de guerra comercial em detrimento dos países mais pobres; reversão
dos modelos políticos de inclusão social em diversos países da América Latina, inclusive o
Brasil.

Neste contexto, a construção de uma “economia solidária” representa menos o quadro de uma concertação internacional de solidariedade capaz de disseminar os benefícios da grande capacidade produtiva da economia internacional a todos os habitantes do planeta, por ação
dos Estados nacionais atuando de forma sinérgica, porque não é nesta direção que estão
caminhando, e mais a formação de uma rede de movimentos alternativos de resistência social, visando a construção de uma “outra economia possível”, conforme a formulação dos Fóruns Sociais Mundiais, dedicados a desenvolver espaços de trabalho, produção, financiamento, comercialização e consumo com modelos de apropriação coletiva dos resultados econômicos, de administração autogestionária ou cooperativa do trabalho e dos empreendimentos, desenvolvendo tecnologias adequadas aos pequenos empreendimentos e aos resultados “sociais” almejados e atentos à preservação ambiental dos ecossistemas e das espécimes vegetais nativas.

Bons exemplos dessa rede de movimentos de economia solidária podem ser encontrados em
organizações de “Comércio Solidário”, relativamente frequentes na Europa, que ocupam-se da oferta de partes da produção agrícola dos pequenos produtores dos países latino-americanos e africanos, especialmente, ou da indústria têxtil de países como Bangladesh, Sri Lanka, Índia ou Malásia, por exemplo. Outra experiência interessante nesta direção está presente em cooperativas e associações de produtores liderados por integrantes do Movimento Sem Terra, em que, inclusive, desenvolvem-se “bancos de sementes”, para preservação de espécimes não transgênicas, contra a apropriação dos recursos necessários à segurança alimentar exclusivamente pelas empresas transnacionais.

O que caracteriza os grupos e movimentos participantes dessas redes de economia solidária é
que, de forma muito predominante, constituem-se nas periferias das economias dos países,
em suas regiões mais pobres e, obviamente, nas periferias das cidades. Podem ser grupos de
mutirão, de “catadores” de resíduos (plásticos, papéis, vidro e metais), pequenas oficinas
coletivas de produção artesanal ou semi-artesanal, funcionando em espaços cedidos por
associações de moradores, organizações religiosas ou alguns entes governamentais, de
maneira mais episódica ou temporária. Há grupos de compras comunitárias, que funcionam de modo similar às cooperativas de consumo, sem necessariamente haver integralizações
prévias de capital; há grupos de industrialização de produtos poucos intensivos em tecnologia, como produtos alimentícios; há grupos de compartilhamento de trabalho técnico e científico; há grupos mais complexos, que assumem, em regime de cooperativismo autogestionário, empreendimentos falimentares de médio ou grande porte, como fábricas, por exemplo: no Brasil, dentre diversos empreendimentos menores, há pelo menos um empreendimento com mais de dois mil trabalhadores envolvidos em uma associação autogestionária.

O que une os movimentos de economia solidária aos movimentos que lutam pelos direitos
humanos é o fato de que um dos direitos humanos fundamentais é o direito ao trabalho. E, o
fato de que o trabalho livre é condição de preservação de autonomia econômica e política. O
trabalhador, assalariado ou autônomo, ao extrair do seu trabalho parte do resultado econômico produzido, mantém, de forma livre, os seus interesses, responsabilizando-se por sua família, por sua saúde, por seu lazer, por suas decisões religiosas, políticas e ideológicas. Pode dispor por sua própria escolha dos caminhos que pretende seguir. Pode decidir os percursos dos quais pretende afastar-se. E, suas decisões, de unir-se ou de afastar-se, com suas consequências, resultam-lhe responsável, no sentido de que pode responder por cada opção, sendo, nestas condições, desalienado e sujeito ético.

Nas condições impostas por padrões econômicos restritivos, grandes quantidades de
trabalhadores são mantidos em condições que lhes impedem de exercer sua capacidade
econômica, ou por rebaixamento dos níveis salariais, por retirada dos direitos sociais, por
desemprego, ou por restrições à atuação no mercado, em função de legislações que operam
como barreiras à livre mobilidade dos trabalhadores ou ao desenvolvimento de atividades
econômicas.

Em sociedades com mercados regidos por legislações muito restritivas, crescem as atividades
informais, algumas delas por constituírem-se em atividades nitidamente ilegais; outras delas,
pela mera incapacidade dos trabalhadores de atenderem aos dispositivos legais para a
formalização de suas atividades. No Brasil, recentemente, durante os governos Lula e Dilma,
com participação do SEBRAE e consultoria da OIT – Organização Internacional do Trabalho,
desenvolveram-se mecanismos de simplificação das condições de formalização econômica e
de redução dos custos tributários e processuais dos empreendimentos individuais e das micro
e pequenas empresas.

Por sua vez, os empreendimentos econômicos solidários enfrentam grandes dificuldades
legais para sua operação. A legislação comercial e empresarial brasileira foi construída sem a
previsão da hipótese de modelos de empreendimentos em que os resultados econômicos
fossem distribuídos mediante uma lógica distinta daquela que prevê a distribuição dos
resultados e do lucro em função correspondente à quantidade do investimento de capital
precedente. Resultados compartilhados, deliberações coletivas, retornos equitativos, não são
premissas das práticas econômicas consideradas atualmente no âmbito normativo e na
legislação.

Assim, empreendimentos econômicos solidários além das habituais e comuns dificuldades
derivadas da própria gestão do trabalho, da produção e da comercialização em mercados
concorrenciais, ainda encontram-se desassistidos dos adequados referenciais de
enquadramento jurídico, visto que os empreendimentos não dispõem das características
predefinidas no modelo regulatório, desenhadas sob a lógica do domínio do capital e a seu
serviço, forçando a adoção de modelagens que tendem a produzir tensões internas à medida
em que os negócios vão se desenvolvendo.

Maior proximidade conceitual possuem as cooperativas, em que o direito de voto, em tese,
distingue-se do capital integralizado, mas, no Brasil, mesmo o cooperativismo sofreu
regulamentações limitadoras da sua atividade, dentre quais elevadas exigências de
participantes para sua criação. Apenas muito recentemente, uma legislação reduziu o número de associados para as cooperativas “de trabalho”, de vinte fundadores anteriormente exigidos, para sete integrantes. Mas, há fracionamento dos campos de atuação, por ramos de atividade, por exemplo, que cria óbices jurídicos e burocráticos desnecessários ou ainda poucas garantias dos poderes dos associados em contraponto àquele das direções.

4. No âmbito de quase vinte mil empreendimentos econômicos solidários identificados no
esforço de mapeamento da SENAES – Secretaria Nacional de Economia Solidária, do
Ministério do Trabalho, apenas pouco mais de trezentos atuam nas atividades de
financiamento e crédito dos trabalhadores ou dos próprios empreendimentos solidários.
Destes, os modelos mais consolidados e mais conhecidos são aqueles das associações de
microcrédito produtivo orientado, muitas das quais originárias no final da década de 1990,
atuantes sob guarida de legislação federal específica, editada em 2005, no Ano Internacional
do Microcrédito. Estas instituições são objeto de muitos estudos científicos e tem sua
experiência comparada com o desenvolvimento de outras organizações de microcrédito
atuantes internacionalmente.

O segundo grupo de experiências, também muito conhecido, refere-se àquele dos “Bancos
Comunitários de Desenvolvimento”, originários da replicação, na medida do possível, da
experiência original do “Banco Palmas”, constituído em Fortaleza (Ceará), a partir de 1997. A
originalidade do modelo do Banco Palmas pode ser afirmada por três características
principais:

a) o nascimento no interior de um conjunto de movimentos impulsionados na favela das
Palmeiras, pela Associação de Moradores local, em que as operações “financeiras” e
econômicas mantinham estreitos vínculos estratégicos e operacionais com as demais ações políticas da associação de moradores, inclusive reivindicatórias ou de afirmação de autonomia política;

b) a idealização, desde o princípio, de uma “moeda social” própria, o “Palma”, em que o
valor monetário lastreava-se ao “real”, a moeda oficial do país, mas cuja emissão era
controlada pela Associação de Moradores e a circulação reservada aos limites
definidos também por ela. A conversão de reais em palmas ou a emissão de palmas
circulando apenas internamente aos limites territoriais definidos atuava como um fator
de retenção dos valores no âmbito geográfico pretendido e no empoderamente político
da Associação de Moradores local, como a única instituição capaz de produzir os
câmbios monetários quando necessários.

c) o impulso à produção, sob coordenação da Associação de Moradores, de produtos
alimentícios, têxteis e de higiene, por trabalhadores do bairro das Palmeiras, com
marca comum, e remuneração parcial dos trabalhadores na moeda própria palmas,
circulantes nos empreendimentos comerciais parceiros da Associação de Moradores,
no próprio bairro.

Ainda que tendo um início em condições bastante difíceis, os ganhos políticos (para a
Associação de Moradores), econômicos (através da moeda social, na forma de poupança em
reais, crédito em moeda social e estímulo à atividades comerciais e produtivas no próprio
bairro) e sociais (postos de trabalho gerados ou mantidos no próprio bairro e valorização e
resultante da ampla e crescente divulgação da iniciativa), retroalimentavam-se mutuamente e, em pouco tempo, surgia o Instituto Palmas, na forma de uma OSCIP, para aumentar a
identidade do projeto e sua continuidade. isolando os desafios derivados pela origem na
Associação de Moradores do bairro.

Com a vitória eleitoral de Luis Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais de 2002 e a
constituição, sob pressão dos movimentos de economia solidária agregados desde o Fórum
Social Mundial de 2002, o novo governo Lula, empossado em 2003, deu início às articulações
que resultaram na constituição da Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES), para
qual nomeou-se um condutor ao mesmo tempo forjado nas lutas sociais e na trajetória
acadêmica e intelectual, o Professor Paul Singer.

Sob sua orientação, a SENAES patrocinou a realização de conferências nacionais de
economia solidária, de onde emanou uma diretriz de fortalecimento de algumas linhas de
atuação, uma das quais, a das finanças solidárias, o que propiciou sistematizar uma forma de estímulo governamental ao desenvolvimento dos Bancos Comunitários de Desenvolvimento,
tendo a experiência do Banco Palmas como referência metodológica.

Como consequência, desencadearam-se ações que resultaram na constituição de novos
Bancos Comunitários de Desenvolvimento em diversas regiões do país, com a criação de
correspondentes moedas sociais em cada um deles, reforçando, onde aplicou-se essa
modelagem, os vínculos entre grupos e movimentos sociais, experiências comunitárias de
trabalho, produção e comercialização de bens e serviços e estimulando a constituição de
novos empreendimentos de economia solidária, onde, segundo os números obtidos nos
mapeamentos da economia solidária, a cifra de trabalhadores envolvidos supera a casa de
milhão.

Referências Bibliográficas

BOBBIO, Norberto. ​A Era dos Direitos ​. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.

FRANÇA FILHO, Genauto Carvalho de; SILVA JUNIOR, Jeová Torres; RIGO, Ariádne
Scaldon. ​Solidarity finance through community development banks as a strategy for
reshaping local economies: lessons from Banco Palmas ​. Revista de Administração
(FEA-USP) , v. 47, p. 500-515, 2012.

MARIA GOMEZ, José. ​Política e Democracia em Tempos de Globalização ​. Petrópolis:
Vozes e Buenos Aires: CLACSO, 2000.

SCHERER-WARREN, Ilse. ​Cidadania sem fronteiras: ações coletivas na era da
globalização ​. São Paulo: Hucitec, 1999.

(Edmar Roberto Prandini1, edmarrp@yahoo.com.br , edmarprandini@seplan.mt.gov.br ,
Março de 2018)

FONTE: https://pt.scribd.com/document/374989844/A-Economia-Solidaria-e-os-Direitos-Humanos

PRIMEIRA USINA FLUTUANTE DE ENERGIA SOLAR COMEÇA A SER CONSTRUÍDA NA HOLANDA

18/04/2018 às 3:41 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
Tags: , , ,

Duas observações importantes sobre este post. Primeiro notem que na Holanda eles precisam fazer isso no mar. Suponho que seja porque o território deles é muito pequeno. Agora imaginem isso massificado aqui no Brasil ! Segundo, e não menos importante, observem o que coloco no final do post (não é propaganda !!!) e verifiquem os preços das soluções de uso de paineis solares. Para mim ainda estão muito altos. Sei que há outras empresas, essa é apenas uma amostragem. E a velha pergunta: por que, num “país solar” como o nosso, não desenvolvemos o uso desse tipo de energia alternativa maciçamente, inclusive com incentivos fiscais do governo brasileiro ?


PRIMEIRA USINA FLUTUANTE DE ENERGIA SOLAR COMEÇA A SER CONSTRUÍDA NA HOLANDA

Um consórcio de seis empresas holandesas começou a construir a primeira usina flutuante localizada em mar aberto para a produção de energia solar. De acordo com informações dadas por Ariane van Hoeken, à Agência Efe. As instalações ficarão a cerca de 15 quilômetros do litoral de Scheveningen, em Haia.

Primeira usina flutuante de energia solar começa a ser construída na Holanda.

Allard van Hoeken, fundador do grupo Oceans of Energy, premiado como engenheiro do ano em 2015, afirmou que o projeto é desafiador, pois terão alguns desafios pela frente, como por exemplo, enfrentar ondas enormes e outras forças destrutivas da natureza. O projeto é inédito e especial, algo parecido nunca foi apresentado antes. A usina tem o apoio e financiamento do governo holandês e a expectativa é que a inauguração da mesma seja em, no máximo, três anos.
A ideia do projeto da usina flutuante surgiu pela falta de terra na Holanda, que não permitia que grandes projetos saíssem do papel no território nacional. Instalar os painéis solares para gerar energia limpa em uma plataforma no meio do mar foi uma solução inovadora! Se o projeto atingir um bom desempenho, é estimado que a produção de energia no mar seja 15% mais alta que a produzida por painéis instalados em terra.
O Relatório Nacional de Tendências Solares em 2018 mostra que a energia solar pode cobrir até 75% do fornecimento total de energia na Holanda. O governo do país espera que até 2050 todas as residências tenham adotado algum tipo de energia limpa. Isso serve de incentivo para muitos países!
Uma grande vantagem é que há muito sol no mar, além disso, outro benefício para o projeto é o sistema de resfriamento para os painéis, que aumenta a produção em até 15%. A Universidade de Utrecht também está contribuindo com o projeto, irão analisar a produção de energia no protótipo em alto-mar. Os painéis serão ancorados entre turbinas eólicas já existentes e conectados aos mesmos cabos, transportando energia eficientemente para os consumidores finais.
Além desse projeto Allard van Hoeken, fundador da Oceans of Energy, contou que um consórcio composto por produtores de energia, cientistas e pesquisadores planejam operar 2.500 metros quadrados de painéis solares flutuantes em 2021. Outros projetos de usinas flutuantes já ocorrem em outras regiões do mundo, como por exemplo, em nosso próprio país, na região do Amazonas, onde outra usina solar fotovoltaica começou a ser produzida.

Primeira usina flutuante de energia solar começa a ser construída na Holanda.

Ainda existe muito mais para ser aproveitado no que diz respeito a energia solar, e você pode conferir mais notícias e informações sobre a energia solar aqui no Blog do Portal Solar, como curiosidades sobre os países que mais consomem energia no mundo.
O Portal Solar é um site que auxilia os interessados em energia solar fotovoltaica, painel solar, painel solar fotovoltaico e gerador de energia solar a encontrar a melhor empresa para instalação em sua casa ou residência. Somos o maior portal de energia solar do Brasil e apoiamos todas as ações que promovem o uso da energia solar.  Entre em contato conosco e solicite um orçamento, contamos com o maior banco de dados de empresas qualificadas no país para instalar sistemas solares.

FONTE: https://www.portalsolar.com.br/blog-solar/energia-solar/primeira-usina-flutuante-de-energia-solar-comeca-a-ser-construida-na-holanda.html

PREÇOS: https://www.portalsolar.com.br/painel-solar-fotovoltaico.html

PAINEL SOLAR

Próxima Página »

Blog no WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d blogueiros gostam disto: