Doutor é quem tem doutorado

08/07/2020 às 3:05 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Diante deste excelente artigo do Professor Carlos Zacarias (História/UFBA), peço permissão e me atrevo de antemão a fazer alguns comentários de minha experiência acadêmica. No artigo o Professor nos explica o atual estágio dessa questão no mundo acadêmico e, óbvio, contextualiza destrinchando o que ocorre com o curriculum de alguns ministros (com eme minúsculo mesmo) do atual DESgoverno do Brasil. Com todo o respeito, eu considero Doutor aquele que tem um Doutorado e também aquele que se formou em Medicina e fez a obrigatória residência. Antigamente, me lembro bem, para ser fazer um Doutorado, a tese proposta tinha que ser algo inédito no campo do conhecimento humano ou da ciência. Pelo que constatamos hoje, esse requisito não se aplica mais, sem nenhum demérito aos que conseguiram, com muito esforço, obter o título atualmente. Apenas como curiosidade, ainda quando estudei Direito na UnB fui informado que há uma lei, de 1827 portanto da época do Império de D. Pedro I, que determina que os possuidores de diploma de Direito devem ser chamados de Doutores. Deve ser por isso que alguns advogados são assim tratados até hoje…

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Doutor é quem tem doutorado

A condição para adquirir um título de doutorado, de onde se emite um diploma, é escrever e defender uma tese frente a uma banca de arguição, composta, normalmente, por cinco membros, com a obrigatoriedade de haver membros externos ao programa de pós-graduação em que a tese é apresentada. Defesas de tese não são apenas ritos de passagem, mas momentos fundamentais, em que o doutorando apresenta o resultado de anos de pesquisa e avaliadores apontam erros, inconsistências e eventuais fragilidades do trabalho, ao que o doutorando deve demonstrar que suas hipóteses, transformadas em tese, se sustentam pelas evidências que foram arroladas e passam a se constituir em provas de efetividade científica.

Um doutorado dura no mínimo quatro anos e vem depois do mestrado, que tem duração de dois anos ou um pouco mais, e coroa a carreira acadêmica de um pesquisador, dizendo que ele está pronto para seguir produzindo ciência. Com doutorado, um pesquisador pode pleitear o ingresso numa instituição pública através de concorridos concursos (algumas áreas ainda aceitam mestres, mas isso é cada vez mais raro). Numa instituição pública, um professor-doutor, que é, sobretudo, um investigador, um cientista, pode pleitear um período de licença de um ano para cursar um pós-doutorado e desenvolver uma pesquisa específica, mas não há outro título depois do doutorado. Pessoas com doutorado não são necessariamente geniais, mas são pesquisadores que cumpriram uma trajetória árdua que exige denodo e abnegação, o que se percebe nas seções de agradecimentos das teses, onde se fala de renúncias, noites mal dormidas e das dificuldades enfrentadas.

Há no Brasil de hoje milhares de pessoas que concluíram o doutorado, o que demonstra todo esforço do país que por anos a fio se empenhou em oferecer alta qualificação a um pessoal que devia estar trabalhando, principalmente, nas universidades. Muitos desses doutores, que demandaram investimentos de toda a sociedade, estão sem ocupação devido ao desinvestimento em educação ocorrido nos últimos anos, que o governo Bolsonaro tem aprofundado.

A celeuma em torno do falso doutorado do ex-futuro ministro Carlos Alberto Decotelli, que sucedeu a polêmicas semelhantes quanto às titulações de Ricardo Salles, Damares e Weintraub, se não nos serve para confirmar que este governo tem desprezo pela ciência, mesmo dando imenso valor a títulos pompas que sequer existem, nos sugere que parte do ódio obscurantista e anti-intelectual do bolsonarismo também é fruto de recalque e ressentimento.

Das lições que extraímos, além da confirmação que extremistas de direita são mitômanos, a noção de que ter doutorado ou títulos é algo importante, mesmo sem ser essencial para quem pleiteia um cargo de ministro. Neste caso, não são os títulos, mas o compromisso com a ciência, o conhecimento e a educação aquilo que efetivamente importa.

(Carlos Zacarias de Sena Júnior)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 03.07.2020

Indígenas, Povos Originários

26/06/2020 às 3:04 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Esse vem do blog do amigo Diego Rbor. Os que aqui já passaram e tiveram curiosidade de saber “Quem é o cabra”, certamente já viram naquela seção deste blog que se eu pudesse um dia mudar meu nome seria para: Cunhambebe Xangô da Rosa. Esse nome segue a ordem de etnias brasileiras que mais me identifico: índios, negros e brancos. Reconheço em Cunhambebe, o grande guerreiro e chefe tupinambá, o verdadeiro herói do Brasil.

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Diego Rbor fotografado por Eri Sá


Indígenas, Povos Originários

O que você sabe sobre os ‘Índios’?

“Índio é OUTRA SOCIEDADE, não apenas uma Cultura.
Índio NÃO VIVE no patético sistema capitalista.

O Brasil é Indígena. Saiba o que o indígena NÃO PRODUZ:

– Indígena não produz lixo, principalmente não produz ilhas e montanhas de lixo.
Em especial, Indígena não produz lixo tóxico nem lixo incapaz de se deteriorar;

– Indígena não produz exploração do trabalho alheio, não faz de seu povo servo de ninguém;

-Indígena não produz pessoas egoístas e individualistas;

– Indígena não produz pessoas ignorantes de achar que recursos finitos podem ser explorados indefinidamente;

– Indígena não produz incels, serial killers, terroristas, mass shootings, sequestradores, assaltantes em sua sociedade;

– Indígena não produz desperdício de alimentos só porque não comeu;

– Indígena não produz cadeias, prisões e solitárias. Nem produz prisões compulsórias;

– Indígena não produz moradia vazia, nem especulação imobiliária;

– Indígena não produz miséria de muitos pra alguns poucos enriquecerem;

– Indígena não produz regimes totalitários, colonialismo, coronelismo e escravagistas;

– Indígena não produz visando lucro, pois tudo que produz é visando o coletivo e o bem da aldeia;

– Indígena não é escravo do dinheiro;

– Indígena não produz idiocracia, não elege ignorantes como líderes nm chama de imbecis filósofo e intelectual;

– Indígena não produz superpopulação, nem poluição sonora;

Parem de achar que o Indígena é imprestável por não ter o nosso estilo de vida.
Parem de achar que o Indígena precisa ou deva se render ao nosso tipo de sociedade e abandonar o dele.”
(Via @nanabarrio)

Quero finalizar dizendo que:
Todo indígena é bom. O que pode estragar algum é o contato com o homem branco, hétero e de má fé.

(Diego Ribor)

FONTE: https://diegorbor.com/2020/06/21/indigenas-povos-originarios/

Mediação tecnológica e o enfrentamento à Covid-19

24/06/2020 às 3:36 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Todos que aqui já passaram, ou os que estão passando agora, sabem que o “mote” deste espaço é Educação. Assim, este artigo das Professoras Tânia Moura e Lídia Boaventura, principalmente nesses tempos de pandemia, é muito oportuno. Elas não falam explicitamente do termo “Ensino Remoto de Emergência”, mas é exatamente o contraponto que fazem em relação à EAD (Educação Á Distância) tradicional. Quando a gente termina de ler este artigo, ficamos com aquele gosto de “quero mais”.

EAD


Mediação tecnológica e o enfrentamento à Covid-19

Buscamos aqui analisar um fenômeno recente no Brasil, o da utilização de mediação tecnológica digital na educação superior em tempos de pandemia, tendo por objetivo refletir sobre as polarizações que envolvem o tema.

A modalidade de Educação a Distância (EaD), colocada como solução para o momento de pandemia pelo Ministério da Educação (MEC), é apontada como uma oferta que descaracteriza as atividades acadêmicas, o que se constitui numa visão equivocada sobre a referida modalidade ou sobre a mediação tecnológica digital. Aqui se estabelece um limite – EaD difere-se de mediação tecnológica. A Educação a distância é uma modalidade de educação que possui modo próprio, base legal, interação entre docentes e discentes e que se configura no seu tempo histórico. No Brasil, é atividade regulamentada pelo MEC que requer: inserção da Tecnologia Digital da Informação e Comunicação (TDIC), pessoal qualificado, avaliações compatíveis, projeto pedagógico próprio e superação espaço-temporal. Já a mediação tecnológica, no contexto da educação, é uma aproximação ao processo de reflexão, seleção e apropriação de tecnologias para práticas de mediação pedagógica.

No atual contexto de crise sanitária, não há como se pensar numa simples transposição de modalidade de educação presencial para educação a distância. A EaD exige mais do que simplesmente mover métodos da modalidade presencial para uma oferta on-line. Entretanto, o uso da mediação tecnológica digital traz uma oportunidade para repensar o processo de educação. Docentes com conhecimento no assunto podem encontrar formas originais para educar. As restrições são muitas (internet, equipamentos e competências digitais), mas os professores com imaginação serão capazes construir conhecimento de forma antes impensável na educação.

Nesse momento crítico, não cabem polarizações. É preciso abandonar o conflito entre escolhas de modalidades e usar a imaginação e as tecnologias disponíveis para defender a ideia de que o ato de educar deve permanecer ativo na única instância onde é possível integrar, qualitativamente, atividades de ensino, de pesquisa e de extensão – nas Universidades Públicas.

As Universidades que aprenderam com a política pública da Universidade Aberta do Brasil (UAB), têm agora um acervo de competências que subsidiam a modalidade de educação presencial na utilização da mediação tecnológica digital, assegurando que todos tenham a possibilidade de manter os seus vínculos com as suas instituições. Os vínculos, no momento de pandemia, asseguram proteção a riscos sociais. É assim que a Universidade Pública cumpre o seu papel.

(Tânia Moura Benevides e Lídia Boaventura Pimenta)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 23.06.2020

As marcas de um país racista

19/06/2020 às 3:36 | Publicado em Artigos e textos, Baú de livros, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Esse bom artigo me fez lembrar o livro ESCRAVIDÃO, de Laurentino Gomes, que eu li faz pouco tempo. Confiram, vele a pena.


As marcas de um país racista

O racismo é um jeito de organizar a sociedade. As relações sociais. Um jeito imposto, pois cria facilidades para uns enquanto nega a outros. Nos EUA, o racismo foi institucionalizado. Virou lei. Era, abertamente, o motivo de conflito entre Sul e Norte. Uma disputa econômica, na verdade, com a escravatura no centro. Fez parte do acordo para criação do país, quase o fez quebrar durante a Guerra de Secessão, institucionalizou-se século 20 adentro num conjunto de leis de segregação apelidadas Jim Crow. Teve, e continua tendo, seu pior rosto nos homens encapuzados de branco da Ku Klux Klan. Ocorre que, em cada país, o processo de racismo se dá de forma diferente. Se nos EUA esteve sempre assumidamente no centro do debate político, no Brasil ele sempre foi negado. Evitamos o conflito — é um de nossos tr aç ;os culturais. Não porque o conflito não exista, mas porque nosso jeito de lidar é escamoteando. Por evitar o conflito aberto, deixa-lo só nas entrelinhas, é como se a sociedade fizesse um pacto de fingir que não há racismo. Nos EUA, o movimento negro jamais precisou provar qualquer coisa. Ele era declarado. No Brasil, precisa. Todos os dias. Cá nesta edição contaremos algumas histórias que mostram como se construiu o racismo brasileiro. Mas, antes, não custa apresentar alguns números. Porque eles dizem muito.

Entre os séculos 16 e 19, 12 milhões de africanos deixaram seu continente na direção das Américas pela Rota Atlântica da Escravatura. Foram sequestrados, comprados em portos dedicados ao tráfico humano, embarcados de maneira forçada. Porque as condições de viagem eram terríveis, aproximadamente 10 milhões chegaram ao Novo Mundo. Esta é, na história da humanidade, a maior migração marítima que jamais ocorreu. 4% destes homens e mulheres foram para a América do Norte. 11%, para a América Espanhola. 37% para as ilhas caribenhas — e não é à toa que de Jamaica a Cuba, do Haiti às Bahamas, a pele negra é onipresente. 45% dos africanos que vieram como escravos foram trazidos para o Brasil. Quase metade.

Há outro ponto importante de se ter em mente: sempre houve escravidão. O que a colonização das Américas pelos europeus trouxe de novidade foi o critério. Até ali, quem virava escravo em geral caía vítima de conflito político. Tribos inimigas, derrotas em guerras. Para colonizar as terras descobertas do outro lado do Atlântico, para justificar a escravidão de uma quantidade nunca antes vista de pessoas, os europeus precisaram construir um novo discurso, estabelecer um argumento. Primeiro dos ameríndios, depois, com mais intensidade, dos africanos. Para este processo ocorrer, desenhou-se uma explicação baseada na superioridade étnica. Começou com os portugueses. E esta história pode perfeitamente partir de Manuel de Borba Gato.

1.

Manuel de Borba Gato nasceu na cidade de São Paulo, provavelmente em 1649. Seu pai, João, era um português natural dos Açores e a mãe, Sebastiana, uma paulistana neta de gente que havia chegado ao Brasil já para viver naquelas cidadezinhas fundadas no entorno de São Vicente para início do projeto de colonização. O Brasil dos séculos 16 e 17 era dividido entre norte e sul. No norte, onde havia os grandes engenhos de açúcar, estava a riqueza. O sul sobrevivia, principalmente, do tráfico irregular de escravos para a América Espanhola. Borba Gato, viveria mais de 80 anos, se casou bem moço com uma das filhas de Fernão Dias Paes, o caçador de esmeraldas. Eram, todos eles, sertanistas — ou seja, naquele país ainda de mata atlântica fechada, lançavam-se pelo inter ior em g randes expedições, na busca de riquezas. Pedras, escravos. Sertanistas era o termo que usavam. Nós os chamamos bandeirantes.

O longo tempo da vida de Borba Gato foi marcado por conflitos. A geopolítica era complexa — ele nasceu no período em que Portugal havia se tornado independente da Espanha fazia pouco tempo e o dinheiro do jovem império era muito pouco. O negócio do açúcar estava em decadência porque as Antilhas começaram a competir no mercado internacional e as ofensivas holandesas contra Bahia e Pernambuco custaram muito à margem de lucro. Havia pressão para descoberta de ouro, de prata, de esmeraldas, qualquer coisa que pudesse criar uma nova fonte de riquezas. Mas não havia muito para investir nas grandes expedições. Por muito tempo houve embate entre os colonos do sudeste do Brasil e os jesuítas a respeito da escravidão de índios. Uma briga que Dias Paes viveu intensamente, mas que já havia ficad o no pas sado quando Borba Gato se casou com sua filha mais velha. Eram expedições incertas, de muitos anos. A possibilidade de capturar escravos é o que as financiava.

A primeira grande expedição da qual Borba Gato participou foi a grande bandeira chefiada por seu sogro em 1674. Tinha 25 anos, já era pai de três filhas — ficaram sete anos no mato. Não era raro que fossem assim as explorações. Para Paes Leme, era a quarta grande bandeira de sua vida. A primeira, muitos anos antes, havia sido liderada por Antônio Raposo Tavares na direção do sul do país. Esta, a de 74, era diferente. Autorizada pelo governador-geral, cruzou a Serra da Mantiqueira e chegou a Minas Gerais. Um grupo destacado sob comando de Borba Gato se deteve de vale em vale na rota do rios das Velhas e da Morte, e os acampamentos que foi criando dariam origem futura a cidades, caso de Sabará.

Não sabemos em que momento exato se descobriu ouro em Minas Gerais. Mas o anúncio ocorreu na década de 1690, quando o rei português mudou as regras do jogo. Até lá, ouro descoberto no Brasil pertencia à Coroa. Aí mudou. Quem descobrisse poderia explorar, desde que repassasse um quinto ao rei. Um século depois, o quinto iria dar na Inconfidência Mineira. Mas, naquele momento, a coisa foi diferente. É muito provável que os bandeirantes já soubessem onde estavam os veios de metal precioso. Só não tinham motivo para declarar. Borba Gato liderou o estabelecimento das primeiras comunidades mineiras. Quando a grande descoberta passou a atrair portugueses em busca de riqueza, ele esteve no centro da Guerra dos Emboabas, o conflito sangrento entre os novos migrantes do reino e os paulistas. Era um homem brutaliza do. Ning uém era diferente — viviam todos eles por anos na mata fechada, caçavam gente, flechas e tiros podiam vir a qualquer hora. Num destes conflitos, Borba Gato comandou a emboscada para o assassinato de um governador, Rodrigo de Castelo Branco. Aí passou anos escondido no interior selvagem até outro governador decidir perdoá-lo. As informações que tinha sobre a localização de minas valiam demais para a Coroa querer puni-lo.

Aquela virada de século 17 para o 18 marca o fim do tempo dos bandeirantes. Borba Gato foi o principal líder da última geração. Porque o ouro era muito, cidades foram nascendo Minas afora, e aos poucos o Brasil foi se transformando.

Importa mais a segunda história de Borba Gato — aquela após sua vida. Na década de 1920, a Primeira República estava em decadência e, São Paulo, numa crise. O problema era político e era econômico. Político porque o equilíbrio mantido pela alternância na presidência entre paulistas e mineiros começava a ser questionado por outros estados. Econômico porque, conforme a capital paulista se industrializava, operários se organizavam em sindicatos e faziam greves, enquanto uma nova elite, de migrantes principalmente italianos, se formava. E é aí que começam a aparecer livros. Vida e Morte do Bandeirante, de Alcântara Machado. História Geral das Bandeiras Paulistas, de Afonso de Taunay. O romance A Bandeira de Fernão Dias, de Paulo Setúbal. Quadros são p intados, esculturas encomendadas. Com Fernão Dias Paes no centro, mas Raposo Tavares e Borba Gato de satélites, uma visão sobre os bandeirantes é construída. Uma visão que os celebra como desbravadores do Brasil — o que é verdade —, mas também que os torna heróis. Foi uma forma de restabelecer a antiga elite, de nobilizá-la. “Paulista sou há quatrocentos anos”, afirmou Alcântara Machado em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras.

O Estado Novo, que deu forma à maneira heroica de narrar a história brasileira, encampou a leitura dos quatrocentões. Foi uma das maneiras de apaziguar outro conflito — aquele de 1932, no qual São Paulo viveu o último suspiro da Primeira República. Encomendada nos anos 1950 mas inaugurada apenas em 1963, é esta a história que a escultura de Júlio Guerra eterniza no bairro de Santo Amaro, em São Paulo. Era lá que ficavam boa parte das terras de Borba Gato. Artisticamente, a obra não tem nem de perto o valor das esculturas de Fernão Dias e Raposo Tavares, que estão no Museu Paulista, ou da de Anhanguera, em frente ao Parque Trianon, as três datadas da década de 1920 e erguidas pelo genovês Luigi Brizzolara. Muito menos tem o valor do Monumento às Bandeiras de Victor Brecheret, em frente ao Parque Ibirapuera. Mas é ela, a estátua de Borba Gato, que inicia a polêmica a respeito de monumentos racistas no Brasil. A visão de história que ela foi erguida para contar não é mais uma que a academia reconhece. Até porque história enquanto propaganda pátria, tão comum na primeira metade do século 20, é apenas vista mesmo como propaganda na primeira metade do século 21.

O que não simplifica o debate. Afinal, o monumento perde cada vez mais o sentido de representar a maneira como se viu um dia os bandeirantes. Mas continua representando a ideia que o Brasil fazia de si mesmo num tempo bem mais recente.

2.

Quando Joseph Arthur de Gobineau chegou ao Brasil, em 1869, estava tomado por um profundo mau humor. Não queria ser embaixador naquele país de uma gente tão mestiça, tão longe da Europa. Mas ao conhecer dom Pedro II, mudou rapidamente de ideia. O conde de Gobineau tinha 53, o imperador, 44. E aquele príncipe de uma terra tão remota havia lido vários de seus escritos. Era um homem interessadíssimo em conhecimento, tinha muitas perguntas. Gobineau se tornou visitante cotidiano do palácio imperial aos domingos, ficaram amigos ligados por toda a vida. E frequente em suas conversas estava o Essai, o texto que já fazia do francês um homem célebre em inúmeros círculos intelectuais europeus. O Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas.

Seu argumento central, conforme analisava a história da humanidade, é que todas as grandes civilizações haviam tido seus destinos traçados por pessoas brancas. E que na raiz da decadência de todas as civilizações que foram grandes e perderam espaço estava a mistura étnica. O Brasil, ele tinha convicção, não tinha futuro. Desapareceria em dois séculos.

As teses de Gobineau, no século 19, não eram unânimes. Ele havia rompido com seu principal professor, Alexis de Tocqueville, justamente porque o filósofo refutou de cara e pelo valor de face a ideia de que cor de pele e o destino de civilizações pudessem ter qualquer conexão. Mas a publicação de A Origem das Espécies de Charles Darwin, e suas teorias a respeito da Evolução por Seleção Natural — para horror do próprio Darwin —, também seriam usadas para a defesa de uma visão científica do racismo, o Darwinismo Social. Gobineau seria um nome frequentemente lembrado nos círculos nazistas tantas décadas depois.

Não há indícios de que Pedro II fosse racista ou que concordasse com Gobineau. No Império do Brasil havia uma pequena classe média negra, em geral formada por filhos e netos de escravos mas, aqui e ali, também por ex-escravos. Algumas dessas pessoas, caso do engenheiro André Rebouças, eram também próximas do imperador — André chegou a se exilar com a família após a queda da Monarquia. O engenheiro não estava sozinho. Faziam parte deste conjunto na sociedade o escritor Machado de Assis, o poeta Cruz e Souza e os jornalistas José do Patrocínio e Luiz Gama.

Nos dois principais países escravocratas das Américas, o Brasil em primeiro, os EUA em segundo, a abolição foi imediatamente seguida de um rompimento que bloqueou transformações. No caso americano, o assassinato de Abraham Lincoln seguido da ascensão de um político do sul escravocrata à presidência não pode reverter a liberdade, mas bloqueou o avanço da integração. No Brasil, foi a República. A Lei Áurea foi assinada em 1888 e, a República, proclamada em 1889, num movimento que contava com o apoio de um bom naco daqueles que perderam mão de obra escrava.

Nos conflitos políticos do tempo, abolicionistas não eram necessariamente monarquistas. Alguns dos principais líderes, como Rebouças ou Joaquim Nabuco, eram leais ao imperador. Outros, como Luiz Gama, defendiam com ardor a ideia de uma república democrática. Mas a instauração de um novo regime imediatamente após a abolição, a necessidade de lidar com uma dívida imensa, de estabilizar uma forma de governo, de construir uma Constituição, foi um projeto de uma década e meia. A Primeira República começou a se organizar de fato no governo de Campos Salles, o quarto presidente.

O censo de 1872 foi o único a registrar a população escrava: 15% dos brasileiros eram cativos. Se o percentual de africanos que vieram para o Brasil como escravos assusta, afinal são quase metade, no século 19 já era muito pior. Mais de 80% do tráfico de seres humanos do mundo veio para cá. Quando a Lei Áurea foi aprovada, a festa tomou conta das ruas. Àquela altura, havia aproximadamente 700 mil pessoas que ainda viviam sem liberdade, condenadas pela vida ao trabalho forçado. Mas uma carta escrita por ex-escravos um deputado na Corte dá conta do problema. “Nossos filhos jazem imersos em profundas trevas. É preciso esclarecê-los e guia-los por meio da instrução.” Não aconteceu.

O Brasil não teve leis de segregação como os EUA. Porém não se mexeu para fazer qualquer coisa em relação aos homens e mulheres que, repentinamente, estavam livres —analfabetos, desempregados e sem rumo.

3.

Não são poucas as diferenças entre as maneiras como EUA e Brasil lidaram com a escravidão. Casos como o descrito por este Meio na última Edição de Sábado, do presidente Thomas Jefferson que teve vários filhos com uma de suas escravas, não são típicos por lá. Mas no Brasil, são. Portugal era um país pequeno. Os bandeirantes falavam tupi. Embora os líderes celebrados fossem filhos e netos de europeus, boa parte deles eram mamelucos ou mesmo índios. Andavam pela mata de pés descalços e suas principais armas eram os arcos longos. Sua cultura não era europeia, mas uma mestiça como sua etnia. Estava na língua, nas redes em que dormiam, no peixe com farinha de mandioca queimada que comiam. Nas Minas Gerais do ciclo do ouro, mulheres brancas eram rar&ia cute;ssi mas e, portanto, boa parte dos casamentos ocorriam com mulheres escravizadas que raramente tinham escolha. Mas o Brasil é mestiço. Todo brasileiro que descende de brasileiros da primeira metade do século 18 para trás tem, certamente, DNA subsaariano e, se do sudeste, ameríndio. Mesmo que seja branco.

Após a Primeira República, houve uma explosão de conhecimento a respeito do Brasil cujo marco é a publicação de Casa-Grande e Senzala, de Gilberto Freyre. O sociólogo pernambucano fazia ali um corte, porque o discurso a respeito de etnia no Brasil, embora não fosse escancarado como o do conde de Gobineau, se baseava em ideias de racismo que se disfarçavam em ciência. Mas Freyre, um escritor excepcional dado a particular sensibilidade na forma como descrevia costumes, sugeria outra tese. E em cada descrição que fez de meninos escravos e meninos filhos de senhores brincando, consolidou, sem nunca citar a expressão, a ideia de que, no Brasil, haveria uma democracia racial. Um país cego para cor de pele. Foi lançado nos anos 1930. Começou a ser desafiado por Florestan Fernandes, nos anos 19 50. “Não existe democracia racial efetiva”, escreveu Fernandes, “onde o intercâmbio entre indivíduos pertencentes a ‘raças’ distintas começa e termina no plano da tolerância convencionalizada. Esta pode satisfazer às exigências do bom-tom, contudo não aproxima realmente os homens senão na base da mera coexistência no mesmo espaço social.”

A tese de Freyre foi um avanço ao mesmo tempo em que criou uma barreira difícil de transpor. Exatamente no momento em que os EUA mergulhavam mais fundo na segregação legal, em que o fascismo racista ascendia na Europa, o Brasil se apresentava como o país no qual racismo não existia. Assim, não precisou enfrentar a questão. Ainda hoje, nega o problema. Um problema difícil de negar num tempo de estatísticas abundantes.

Os dados são do IBGE. Cargos gerenciais, no Brasil, são ocupados 68,6% por brancos e, 29,9%, por pretos ou pardos. Num país desigual, 15,4% dos brasileiros brancos recebiam menos de US$ 5,50 ao dia — valores de 2018. E 32,9% de pretos ou pardos. 34 brancos em cada cem mil jovens são assassinados. 98,5 pretos ou pardos. Três vezes mais. A Câmara dos Deputados é formada por 75,6% de brancos ou outros. Com exceção dos 24,4% que são pretos ou pardos. 3,9% da população é analfabeta e branca. 9,1% da população é analfabeta, preta ou parda. O relatório dá só números e descreve com clareza um país racista.

Para se ter em perspectiva: mais de metade da população é preta ou parda. O Brasil é racista.

O racismo é um jeito de organizar a sociedade. As relações sociais. Um jeito imposto, pois cria facilidades para uns enquanto nega a outros.

Serge Katz e Silvio Almeida: “Na comparação, muitas pessoas afirmaram que, ao contrário dos negros brasileiros, estadunidenses, franceses e sul-africanos não hesitam em tomar iniciativas defensivas ao adotarem a ação direta e violenta contra o racismo. Em texto publicado na Folha, um colunista chegou a afirmar que o negro brasileiro, ao contrário do negro na França, na África do Sul ou nos Estados Unidos, não se enxerga como povo. Esse pensamento carrega vários equívocos, dentre os quais erros de análise e, paradoxalmente, uma absorção, muitas vezes involuntária, de um discurso gerado pela d inâ ;mica do racismo no Brasil. É preciso deixar claro que não adotar a ação direta como modo privilegiado de ação contestatória não significa que outros repertórios de ação não serão adotados ou que não foram adotados. O racismo é estrutural, mas a resistência ao racismo também pode ser feita no âmbito das lutas institucionais. Como, por exemplo, analisar a política de cotas raciais e sociais senão como resultado de lutas do movimento negro? Como não considerar a adoção da autodeclaração racial como modo de definição da identidade individual, usada até mesmo para concursos públicos e estatísticas do IBGE, senão como uma conquista das lutas raciais promovidas pelo movimento negro brasileiro? O fato é que a absorção das demandas do movimento negro pelas in stituições absorve também a violência com que o movimento negro teve que se deparar ao fazer reivindicações.” (Folha)

FONTE: https://premium.canalmeio.com.br/arquivo/edicoes/


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