Maiakovsky, o coração exposto da Revolução

19/10/2017 às 3:25 | Publicado em Artigos e textos, Canto da poesia | Deixe um comentário
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Maiakovski, um dos maiores poetas de todos os tempos. Minha homenagem !


Maiakovsky, o coração exposto da Revolução

A foto mais conhecida de Maiakowsky, provavelmente tirada em sua excursão aos EUA.

“Nas calçadas pisadas de minha alma, passadas de loucos estalam (…)”[1]

Assim começa o poema “Eu”, composto em 1913 por um certo Vladimir Maiakovsky (1893-1930). Maiakovsky, então com 20 anos, viria a ser chamado de “o poeta da Revolução”.Mas, como todo poeta é, antes de tudo, um leitor profundo de si, Volodja[2] não seria exceção. Nascido na Georgia, Maiakovsky vinha de uma família de fidalgos, em que o salário do pai (como militar) permitia uma vida sem apertos financeiros. A situação mudou drasticamente em 1906 com a morte de seu progenitor.

“Professor,
……….jogue fora
……………..as lentes-bicicleta!
A mim cabe falar
…………….de mim
…………………..de minha era.”

(A Plenos Pulmões, Maiakovsky 1928-1930)

A partir deste momento, Maiakovsky buscou em Moscou a educação que sua região não poderia proporcionar e, ao mesmo tempo, começou a participar ativamente de discussões políticas, sendo preso algumas vezes, chegando a passar seis meses inteiros na cadeia. Maiakovsky fazia aflorar seu talento para a retórica, poesia e artes, ao mesmo tempo que conseguia sobrevivência nos bares e clubes da cidade, através de jogos de cartas ou bilhar.

Maiakovsky com cerca de 20 anos em Moscou.

Entre 1912 e 1916 sua atenção foi voltada para o movimento Futurista na Rússia. Maiakovsky junto com Burlyuk e Kruchonykh formaram a vanguarda do movimento de “estética escrita” na Rússia, que tinha como objetivos declarados a “experimentação dos sons, das palavras e dos símbolos quase como se fôssemos operários da língua”. O Futurismo russo viria rapidamente a se ligar na dialética marxista, que Maiakovsky chamava de “maior ferramenta de entendimento do mundo”.

No túmulo dos livros,
………….. versos como ossos,
se estas estrofes de aço
acaso descobrirdes,
vós as respeitareis,
……………………..como quem vê destroços
de um arsenal antigo,
…………….mas terrível.
Ei-la,
a cavalaria do sarcasmo,
minha arma favorita,
alerta para a luta.
Rimas em riste,
sofrendo o entusiasmo,
eriça
suas lanças agudas.
E todo
este exército aguerrido,
vinte anos de combates,
não batido,
eu vos dôo,
proletários do planeta,
cada folha
até a última letra.
O inimigo
da colossal
classe obreira,
é também
meu inimigo
figadal.
Anos
de servidão e de miséria
comandavam
nossa bandeira vermelha.
Nós abríamos Marx
volume após volume,
janelas
de nossa casa
abertas amplamente,
mas ainda sem ler
saberíamos o rumo!
onde combater,
de que lado,
em que frente.

(A Plenos Pulmões, Maiakovsky 1928-1930)

Foto de Maiakovsky logo após ter tirado a própria vida. O tiro no peito é visível embora alguns defendam que não foi totalmente intencional. Maiakovsky, em depressão, jogava com a vida já tendo feito algumas vezes uma espécie de “roleta russa” e puxando o gatilho. Em 1930 foi o ponto final.

O poeta era, entretanto, mais um revolucionário do que um bolchevique. Politicamente, se aproximava ora dos anarquistas, ora dos mencheviques. Pulsava com a revolução. Não a Revolução Bolchevique, mas “A” revolução. A capacidade dos tempos de se contorcionarem e produzirem novos chistes de sociedade. A isto Maiakovsky dava a sua energia. Disto Maiakovsky tirava a sua.

Esta postura colocou o artista em colisão com Lênin e também com Gorky. Lênin o acusava de produzir devaneios, sem um sentido geral de ação social. Mesmo as odes de Maiakovsky soavam caóticas demais para o líder bolchevique. Gorky criticava Maiakovsky pela falta de um rigor sobre os objetos representados. O mundo de Maiakovsky era o mundo que Maiakovsky queria ter e não a realidade que ele e a Rússia viviam. Ator, produtor, cenógrafo, poeta e um outro sem número de atuações em vários campos das artes, Maiakovsky amou as mulheres de sua vida tanto quanto a ideia de Revolução.

Apesar de ter uma vida bastante atribulada com as mulheres, Maiakovsky teve em Lilya Brik o seu verdadeiro amor. A distância dela foi também um dos motivos para o suicídio.

Homem forte e com feições bonitas (apesar de sérios problemas dentários) Maiakovsky tornou-se a voz da reorganização cultural da Rússia após a revolução. Não aceitava, contudo, a ideia de usar a cultura para conformar. Para Maiakovsky, a cultura e as artes deveriam rasgar a realidade, torturá-la e deste choque prenunciar novos mundos e novas ideias. Quanto mais o sistema soviético se tornava estável e avesso aos “rasgos revolucionários”, mais Maiakovsky ia se tornando desimportante e perigoso.

Boris Pasternak (outro poeta russo) afirmou que enquanto o poeta Maiakovsky anulou o ser humano Vladimir, alimentando-se da euforia das revoluções, Maiakovsky viveu e foi feliz. Quando o mundo revolucionário não mais aceitava o poeta, o ser humano que habitava no poeta não pode resistir à realidade. Em 1930, Maiakovsky, deprimido por estar sendo preterido culturalmente, cerceado politicamente e distante de sua amada, jogava pela terceira vez com a sorte. Colocava uma bala na arma e apontava contra o peito.

(…) Você dormia, rosto preso ao travesseiro,
Dormia, a plenas pernas, a plenos tornozelos,
Penetrando de novo, de um só golpe,
No fabulário das legendas jovens.
E penetrando da maneira mais direta
Porque nele você entrava de um salto.
Teu disparo parecia um Etna
Sobre as encostas de covardes e fracos.

(Boris Pasternak, 1930 “A morte do poeta”)

Em 14 de abril de 1930, a sorte levava Maiakovksi ao suicídio. Muito antes, segundo ele, a Revolução já tinha morrido. O poeta que Maiakovsky foi recebeu de Stalin o título de “maior poeta soviético” e até 1953 a memória de Maiakovskyfoi cultuada na URSS. Após a morte de Stalin, o processo de desestalinização da URSS atingiu em cheio a memória de Maiakovsky. A vida de Volodja seguiu de perto a própria vida da Revolução, viveram um para o outro e parecem também ter morrido juntos. Maiakovsky Revolução.

(…) Vê como tudo agora emudeceu
Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu
em horas como esta eu me ergo e converso
com os séculos, a história do universo

(Fragmentos, Maiakovsky 1928-1930)

[1] Todos os poemas de Maiakovsky aqui foram traduzidos por Haroldo de Campos, incluindo o poema de Boris Pasternak

[2] Apelido russo do nome Vladiimir (Владимир). A grafia russa é Володя

(Fernando Horta)

FONTE: https://www.sul21.com.br/jornal/maiakovsky-o-coracao-exposto-da-revolucao/

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Preciosidades de Pessoa

09/10/2017 às 3:16 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Pessoa nos ensinando por intermédio do Professor Pasquale Cipro Neto.

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Preciosidades de Pessoa

O texto de Pessoa é mais uma demonstração de que é possível inverter o velho ditado (“A arte imita a vida”)

EM SEU RECÉM-CONCLUÍDO vestibular, a Unesp incluiu a profunda e intemporal “Crônica da Vida que Passa” (de Fernando Pessoa), que assim começa:
“Às vezes, quando penso nos homens célebres, sinto por eles toda a tristeza da celebridade. A celebridade é um plebeísmo.
Por isso deve ferir uma alma delicada. É um plebeísmo porque estar em evidência, ser olhado por todos inflige a uma criatura delicada uma sensação de parentesco exterior com as criaturas que armam escândalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas praças. O homem que se torna célebre fica sem vida íntima: tornam-se de vidro as paredes da sua vida doméstica; é sempre como se fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas mínimas ações -ridiculamente humanas às vezes- que ele quereria invisíveis, côa-as a lente da celebridade para espetaculosas pequenezes, com cuja evidência a sua alma se estraga ou se enfastia. É preciso ser muito grosseiro para se poder ser célebre à vontade”.
Pessoa escreveu isso num tempo em que não havia a grande “média”, como dizem os portugueses (nós dizemos “mídia”, forma baseada na pronúncia inglesa -é bom lembrar que a palavra vem do latim). Quando fala das “criaturas que armam escândalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas praças”, Pessoa parece antever o que hoje ocorre com os pobres de espírito que falam alto ao celular em qualquer canto (“tornam-se de vidro as paredes de sua vida doméstica”, diz o grande Pessoa). Imagine se ele vivesse sob os zurros dos “big brothers” da vida…
O texto de Pessoa é mais uma demonstração de que é possível inverter o ditado (“A arte imita a vida”). Às vezes é a vida que imita a arte.
Posto isso, assentemo-nos ao rés-do-chão, ou seja, falemos de alguns dos interessantes tópicos lingüísticos presentes no excerto de Pessoa. Um deles diz respeito à palavra “pequenezes” (“espetaculosas pequenezes”). “Pequenezes” é o plural de… De “pequenez” (“qualidade de pequeno”). Se nos valermos do próprio Pessoa (“Tudo vale a pena se a alma não é pequena”), poderemos, numa livre adaptação, dizer que tudo vale a pena, quando a pequenez da alma não prevalece. É claro que não se pode confundir “pequenez” com “pequinês”, que se refere à cidade de Pequim (os cães pequineses são pequineses porque vêm de Pequim).
Pois o plural de “pequenez” remete-nos ao de “gravidez”, que os leitores sempre perguntam. O plural de “gravidez” é como o de qualquer palavra terminada em “z”, como “luz”, “raiz”, “juiz”, “meretriz”, “giz” etc., isto é, é feito com o acréscimo de “es” (luzes, raízes, juízes, meretrizes, gizes). Moral da história: “Suas três gravidezes foram bem difíceis”.
Outra passagem que merece destaque é “quereria” (“que ele quereria invisíveis”). Trata-se da terceira do singular do futuro do pretérito de “querer”. Na linguagem oral, essa forma apresenta baixa incidência (costuma ser substituída por “queria”, do pretérito imperfeito -esse processo é mais do que legítimo nas variedades não-formais da língua).
Na escrita formal e na literária, o uso de “quereria” não é raro (“Assim eu quereria o meu último poema / Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais…”, escreveu Bandeira). É isso.

(Pasquale Cipro Neto)

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2012200704.htm

NÃO HÁ TEMPO A PERDER – AMYR KLINK

05/10/2017 às 3:53 | Publicado em Baú de livros | Deixe um comentário
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Já li quase todos os livros dele. Este é o último. Recomendo fortemente.


AmyrKlink

Poesias que moram no meu quintal

01/10/2017 às 11:02 | Publicado em Artigos e textos, Canto da poesia, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Saúdo a chegada deste outubro com essa poesia em forma de prosa de Jânio Ferreira: bucólica, telúrica, nordestina como deve ser.


Poesias que mora no meu quintal  janio_thumb_thumb

Os sábados começavam com uma leve ressaca, consequência dos muitos vinhos brindando às sextas, o arroz de pato ou simplesmente a perfeição do solo de Ovelha Negra executado por Carlini na sua guitarra Les Paul. Vagalumes e outros seres noturnos também eram festejados, assim como a lua refletida n’água, parceira ideal para o lento ranger da rede ninando um corpo cansado na paz da varanda oeste.

Não sei se por causa das primeiras matizes transpassando janelas ou se para encontrar minha salvação num Deus estrangeiro, deixava meu ceticismo de lado e começava o dia colocando My Sweet Lord num volume alto o suficiente para que o doce Senhor pudesse ouvir o clamor de George Harrison querendo encontrá-lo – e, de quebra, também me perdoar, por duvidá-lo.

Crianças com faíscas nas pernas e biscoitos nas mãos subiam em árvores de variados frutos, enquanto os primeiros cheiros saíam das panelas de Finha num provocante passeio pela casa, anunciando aos olfatos que, em breve, o invisível se materializaria em concretas delícias.

O sol chegando na cumeeira era a deixa para arriar a capota do jipe 65 de cor semelhante ao oitizeiro que o sombreava, pronto para lançar-se porteira afora em busca dos lugares mais remotos que, dependendo do charme, tornavam-se estações de uma via-crúcis inversa, onde as paradas eram celebradas com folias, bebidas e canções.

Assim, para cada pau d’arco arroxeando o chão com suas flores, um stop e a voz de Milton cantando tios, sabiás e laranjeiras. Um riachinho correndo pós-chuva da madrugada? Vem cá, Luiza, clarear o mato como um brilhante partindo a luz em sete cores, revelando os sete mil amores do nosso maestro soberano. Vento norte, um zum de besouro no ar? Lá vinha Djavan com suas onomatopeias e deliciosas dissonâncias, por sinal em claro risco de extinção nesse momento em que patrulhas cibernéticas ditam regras, e os padrões sonoros e estéticos se traduzem em Giselle Bündchen, aos prantos, achando que vai salvar o mundo cantando Imagine. A propósito, este é meu segundo texto neste setembro que hoje finda, onde falo mais de mim do que dos fatos que rolam por aí. Para quem prefere atualidades, minhas desculpas. É que por esses dias voltei a andar no sítio onde morei por quase 30 anos – e que há uns 10 estava fechado – e, por conta disso, um filme bom não para de passar em minha cabeça. Mas como outubro está começando, pode ser que as coisas mudem. O problema é que umas caraibeiras já amarelam na beira do rio e um casal de vin-vin faz seu ninho bem num pé de um jambo-branco florido. Desse jeito, a cura gay e as arengas de Trump e Jong vão ter que esperar um pouco até eu me habituar, de novo, com os poemas soltos que a vida, há anos, escreve nas bordas do meu quintal.

(Jânio Ferreira Soares)

FONTE: Jornal A TARDE, 30.09.2017

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