Flávia, Pedro e a bala de hortelã

21/04/2018 às 3:58 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Esse não é apenas mais um conto do amigo Fabrício Junqueira. Esse é o melhor deles, pelo menos dos que tive o prazer e a honra de ler e publicar aqui. Literatura da boa, com o fundo histórico propício para um dia como hoje: DIA DE TIRADENTES.

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Flávia, Pedro e a bala de hortelã

Um amor sem tamanho e juízo, nasceu sem planos e motivos, bastou um sorriso em uma tarde de domingo na praça.
Pedro jogava conversa fora com amigos, lembrava de passagens divertidas, dos dias de calor no ribeirão, as peladas no campinho, pipas, jogo de taco e até dos primeiros porres em um carnaval qualquer no clube. Apenas de bermuda, sandálias e peito aberto… Um dos sujeitos mais queridos e divertidos da cidade. Um coração do tamanho da alegria daqueles que o cercavam na mesa do boteco da praça.
Flávia era moça de cidade grande, mas tinha sangue dali, estudada, falava diferentes idiomas e conhecia tantos mundos… Uma voz encantadora, uma artista nata, com paixão por artes plásticas e poesia. Naquele domingo, ao passar pelo boteco, sentir-se flutuar e sorriu instantaneamente. Um calor, uma aperto no peito, e a uma música ao fundo que jamais sairia de seu coração.
Demorou mais alguns dias até um reencontro. Pedro também vivia em cidade grande, já era quase doutor advogado. Flávia estudava para ser professora, cantava no coral, ajudava em projetos sociais dentro da pastoral de sua igreja. Era fã enlouquecida dos “Rolling Stones”. Pedro praticava basquetebol e fazia discursos onde pedia além de justiça, igualdade, liberdade e mais humanidade das pessoas do poder. Era fã do Belchior e da Alcione, e torcia para o Botafogo. O reencontro foi sem querer, no ônibus para a “terrinha”, ela sentou em uma poltrona ao lado da dele, entre eles um corredor e a ressaca de Pedro. Quando despertou quase chegando, ela ofereceu uma bala de hortelã, ele aceitou e conversaram…

Finais de semanas mágicos

Flávia aceitou a companhia até o portão da casa dos avós. Ele caminhou até sua casa, do outro lado da cidade. Até chegar em casa, fumou um “careta” e no caminho estava em outro mundo, com apenas a voz e o sorriso dela. No fim da tarde, foram ver um show de um conjunto de samba no mesmo boteco de sempre. Não dançaram, mas parecia que sim, de mãos dadas saíram para dar uma volta e trocaram o primeiro beijo…
E foram tantos beijos e abraços, muitos finais de semana, dias de sol, novos amigos, conversas longas, experiências, diferenças, queijo e goiabada, risadas soltas, café na avó da Flávia, causos do tio do Pedro, macarronada, banho no ribeirão, cervejas, “Cuba Libre”, e nos finais da tarde daqueles domingos, antes de voltar para cidade grande, ele quase sempre festeja uma vitória do seu Alvinegro. E quando Flávia disse que não ligava muito para futebol, mas gostava do Fluminense, ele achou divertido.

Foram dias de desafios

A vida era distante e fria na cidade grande. Não podiam se ver, estavam em momentos decisivos, compromissos não só estudantis, eram cidadãos na acepção da palavra. E nesses momentos não existiam domingos de sol, mas de cobranças e censura. De coragem e medo, que andavam lado a lado, de certezas que eram diluídas em perseguições e prisões. Não eram apenas dias de chumbo, eram nomes trocados, receita de bolo em jornal, de torturas, e vozes que mesmo no sufoco não se calaram.
Pedro escrevia, sua arma era uma velha máquina de escrever, os fatos apurados com cuidado
e certeza que faria o registro de sua época. Não deitava seu olhos. Era o coração imenso do interior, mas rasgava em palavras, verbos e alguns adjetivos aqueles que inventaram e bancaram a tristeza. Flávia multiplicava o conhecimento, fazia de sua voz uma canção libertária de luz, baseada em fé e educação. Contestava com conteúdo, incomodava com ternura, suas aulas eram marcantes e reais.
Os finais de semana na “terrinha” ficaram raros. A vida e os dias passam rápidos demais. E mesmo vivendo a mesma realidade, diante do inimigo comum, acabaram distanciando. A luta fez sua parte, enquanto Pedro buscava um utópico diálogo, tentava ser legalista, dando murro em ponta de faca, Flávia era a ponta da lança, o dedo no gatilho, o olhar acuado do oprimido, a reação da ação desproporcional dos opressores, sua arte agora era não morrer.

E tudo ficou ainda mais difícil

Pedro perdia suas batalhas e espaços, não existia mais trabalho, tentou mergulhar na “terrinha” por alguns dias, mas não tinha sentido sem Flávia. O mundo estava estranho, até mesmo sua Estrela Solitária não brilhava. Pouco ficou por lá, já não recebia tantos sorrisos, o garoto que foi criado naquelas ruas, o coroinha mais desastrado da Matriz, era visto com desconfiança e até temor em seu próprio quintal. Em um canto qualquer, Flávia sofria em dor. Alvejada em uma ação, lágrimas silenciosas, faltava Pedro ao seu lado, faltavam sonhos e até mesmo as lembranças eram escassas. Sua única ideia era permanecer viva.
Em uma tarde de muito frio, com pouco dinheiro, um microfone mudou a vida de Pedro. Com palavras incisivas e diretas, foi cirúrgico em suas críticas, em seu coração buscou inspiração em seu amor, em suas crenças, em seu caráter, naquela tarde a voz de Pedro foi a canção de Flávia, foi coração e lança, sentiu uma emoção semelhante ao olhar trocado na praça, sentiu Flávia ao seu lado, sua energia, seu amor.

E veio a distância…

No rabo de um foguete deixou a pátria amada. Pedro não tinha mais o macarrão na casa dois pais, não podia usar sandália e ficar sem camisa no banco da praça. Agora a realidade era fria, outro idioma, uma dor constante no peito, perdido de razão, odiando cada detalhe, vivendo um dia de cada vez, um exilado que só havia escancarado amargas verdades. E fez disso sua sobrevivência, fez a única coisa que poderia fazer, além de sentir saudades de Flávia, escrever.
Flávia foi vivendo como podia, clandestina, perdeu a identidade, família, amigos, menos sua fé e amor. Ainda tinha a música, mas não conseguia sorrir, assim um dia acabou caindo. Não tinha energia para resistir, seguiu toda cartilha odiosa da tortura, dor e humilhação. Conviveu diariamente, com longas conversas com a morte. Aliás, flertou com o fim, quase perdeu sua vida.

Palavras e canções que salvam

As verdades antes amargas, ajudaram a libertar vidas. Eram muitos “Pedros” nas feridas abertas, o sangue de tantas “Flávias” era uma nódoa do horror, a vida precisava florescer e o sol voltou a brilhar. Voltaram muitos irmãos e irmãs do Henfil. O verde-oliva das fardas precisava se livrar da podridão e apesar de tantos “vocês” o amanhã já era um novo dia.
Pedro voltou sem alardes, ninguém o esperava na cidade grande. Quando chegou, respirou o máximo que podia. Sentiu o calor que tanto lhe fez falta, tomou sozinho um copo de garapa, pisou em um jardim e foi direto para a rodoviária, precisava de sua “terrinha”. Flávia já estava nas ruas há algum tempo, não cantava e perderá parte da visão, não tinha mais familiares vivos na “terrinha”, abdicou da fé, pois fora obrigada a perder um fruto dos seus dias de horror.

E o tempo fez sua parte

Cicatrizou algumas feridas, outras eram impossíveis. Apresentou terríveis vilões, a realidade ainda era difícil, a dor recente e a liberdade engatinhava. Na “terrinha” o ribeirão continuava límpido, o boteco estava um pouco mais “chique”, a missa das crianças ainda eram aos domingos pela manhã e o Botafogo de Pedro nunca mais havia conquistado um campeonato. Pedro não refez totalmente sua vida, tinha um pequeno jornal, advogava, reencontrou amigos, não gostava da cidade grande e convivia com a ausência do amor. Flávia sumiu no ar, ninguém sabia por onde andava ou vivia. Ela escolheu a solidão, suas dores eram muito mais profundas, sentira a guerra na pele, nos ossos e na alma.
Um dia Flávia comprou balas de hortelã, viajou até a “terrinha”, era uma mulher muito diferente, discretamente assistiu de longe Pedro proseando no boteco, sozinha caminhou até o ribeirão, passou pela porta da casa que vivera seus avós, andou por outros pedaços da cidade, e antes de partir no fim da tarde, sentou em dos bancos da praça, que estava quase vazia e sentiu uma emoção muito forte… Pedro estava lá, ele sentiu o mesmo. Olharam-se, não trocaram palavras, ela ofereceu uma bala de hortelã, ele aceitou…

(Fabrício Junqueira)

FONTE: http://fabriciojunqueira.blogspot.com.br/2018/04/flavia-pedro-e-bala-de-hortela.html?m=1

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Quem ?

08/04/2018 às 8:42 | Publicado em Artigos e textos | 1 Comentário
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Comungando com Veríssimo: Brasil, várias fantasias de um carnaval que dura o ano todo – mas quem é mesmo o atual Ministro da Defesa ?

E o valho e já cansado 2 + 2 em forma de perguntas:

1 – quid iuris foi aplicado no recente “julgamento” do STF ?

+

2 – qual o papel da mensagem do General ?

=

Meus pêsames à nossa pobre democracia tupiniquim: poderia ir para a cadeia qualquer cidadão brasileiro, inclusive quem lê esse post !

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Quem ?   verissimo

Viva o Fernando Henrique Cardoso, que criou o ministério da Defesa do Brasil em 1999. Até então o superior hierárquico do comandante das forças armadas era o próprio comandante, com lugar nas reuniões ministeriais. Depois do Fernando Henrique, como nos estados modernos do mundo, o cargo passou a ser ocupado, obrigatoriamente, por um civil, com autoridade pelo menos teórica sobre a tropa. Funcionou durante quase 20 anos porque não houve nenhuma crise militar de nota no período e a teoria nunca foi posta a prova. Seria interessante saber, por exemplo, como se comportariam as partes no caso de uma crise militar entre outubro de 2015 e maio de 2016, quando o ministro da Defesa era Aldo Rebelo, na época do PCdoB. As forças armadas brasileiras subordinadas a um ministro comunista era surreal demais para contemplar, mesmo teoricamente.

Agora,um dia antes da nação acompanhar a votação no Supremo sobre o que fazer com o corpus do Lula, cantando“Rosa, ó Rosa, para onde vais morena Rosa?”, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, postou uma nota que se resumia num aviso, “olhem lá o que vão fazer, hein?”, aos membros da corte. A nota do general, na véspera da votação, foi mais importante do que a votação. Marcou a volta da ameaça de intervenção militar à nossa prática política, feita não por algum cabeça quente do “jovem oficialato” mas pelo militar mais graduado do país, como explícito apoio de outros oficiais com comandos.

Dizem que quando perguntaram ao general Villas Boas se não seria melhor mostrar sua nota ao ministro da Defesa antes de publicá-la, o general teria dito:

– Quem?

Pois é. Eu também não sei quem é o atual ministro da Defesa. Espero que ele se identifique.

O Mário Quintana dizia que não há nada como as guerras para se aprender geografia. Ficava-se sabendo o nome de lugares remotos,tornados célebres por alguma batalha. Nada como acompanhar debates jurídicos para aprender a linguagem esotérica com que os juristas se comunicam. Imaginei que se poderia usar legendas em português para saber o que eles estão dizendo. Mas desconfio que, reduzidos a uma língua inteligível, os textos perderiam sua principal função, que é a de nos engambelar.

(Luis Fernando Veríssimo)

FONTE: Principais jornais do país, hoje.

O FILHO DO BOTO

06/04/2018 às 3:01 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Publico hoje mais um bom conto de Davi Romboli. A criatividade é uma constante nos escritos deste jovem escritor. Confiram !

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O FILHO DO BOTO

Dizem que um dia a cada sete anos surge uma ala sobrenatural no zoológico de São Paulo. Nela há apenas um animal: o boto-cor-de-rosa. Nesse dia o boto escolhe uma jovem donzela que visite o zoológico e a leva para a ala oculta, com malemolência e palavras macias a seduz e a engravida. Foi o que aconteceu com a graciosa Aninha no ano de 1988.

Outros dizem que, naquele ano, Ana foi excursionar na Floresta Amazônica, e ao nadar com os botos no Rio Negro engravidou sem nem perceber. Outros ainda, mais céticos e sem compaixão, dizem que seu Gervásio era muito ingênuo por acreditar que sua filha havia engravidado do boto em pleno século XX. O pai era o Paulinho da rua de cima, sujeito que não presta, sedutor barato, ou então outro alguém da viagem à Manaus, talvez um índio ou local – daí veio o tom de pele moreno e o cabelo escorrido do pequeno Betinho.

Beto cresceu e teve uma juventude que muitos diriam bem sucedida: muitos amigos, facilidade de lidar com os professores e principalmente com as garotas de sua turma. Era um sedutor nato. Para ele as coisas simplesmente aconteciam, sem esforço consciente. Aos dezoito anos lhe foi dada a revelação. Já não era mais possível lhe esconder a verdade sobre a sua origem. Era sim filho do boto e estava cada vez mais evidente que havia puxado ao pai.

Desde então Beto nunca mais foi o mesmo rapaz alegre dos seus dias de mocidade. Percebeu que embora pudesse ter qualquer mulher que quisesse, nunca as teria de verdade – pois lhe era impossível se apegar a qualquer uma delas. O mesmo podia ser dito delas – tão logo o dia seguinte amanheça, elas sempre se vão sem lembrar quem é o boto. Beto sem saber se era ele ou elas quem desapareciam já estava a ponto de desistir quando conheceu aquele rapaz misterioso que era conhecido por ninguém como o Mágico da Taberna.

Antes de tudo fiquem cientes que o Mágico da Taberna é provavelmente o melhor e pior ilusionista que este mundo já teve ou terá. Seu poder é inigualável a qualquer mágico, seja o famoso da televisão, seja o que passa a noite fazendo truques em locais públicos. Basta quinze minutos de conversa com o Mágico da Taberna para que a pessoa acredite em tudo e qualquer coisa que seja dita ou imaginada por ele. O jovem é capaz de criar mundos com suas palavras e aprisionar qualquer pessoa neles. Não há truques, nem objetos, nem ilusões de ótica – tudo é sentido como real apenas ao ouvir suas palavras. Todavia ele é completamente incapaz de manter uma conversa com alguém por mais de quinze minutos – cinco minutos provavelmente é seu recorde. Sua timidez e inaptidão social o relegam a ser um mágico com poderes somente conhecidos por si mesmo. Ao menos até aquele dia…

Sentado no mesmo bar, na mesma mesa de sempre, o Mágico da Taberna toma sozinho o mesmo drink de sempre – ou seria somente água com gás imaginada como outra coisa? – vestido com o velho sobretudo mais quente do que o clima exige.

Beto também está nesse bar.

Algo que provavelmente você não sabe, ao menos que seja algum parente distante da Mula-sem-cabeça, do Saci Pererê ou do vampiro do Jaburu, é que pessoas sobrenaturais reconhecem outros iguais a si. Bastou um rápido encontro de olhares para que o boto e o mágico se percebessem. E encontros assim não ocorrem todos os dias. Resolveram, pois, tomar um porre daqueles!

Cansados de chorar as mágoas, o Mágico e Beto resolvem unir forças. Eis o pacto: o boto usaria seus poderes para que o Mágico vencesse os quinze minutos que nunca conseguira e o Mágico criaria um mundo que neutralizasse os poderes do boto.

O Mágico aponta a jovem sentada no balcão do bar.

Qual mundo criar?

— Que tal um mundo onde você seja o filho do boto e eu alguém capaz de criar mundos e imergir as mulheres nessa fantasia?

Aproximam-se da pequena e perguntam:

— Você acredita em boto-cor-de-rosa?

No dia seguinte a jovem, meio lânguida, acorda nua sobre a cama com o lençol a cobrir suas pernas e ventre. Memórias de prazeres e fantasias. Ao seu lado está um homem: é o boto? ou é o mágico? O corpo adormecido revela o sorriso do boto e os olhos do mágico. São os dois transmutados em uma só pessoa. Súbito percebe que os dois sempre foram a mesma pessoa. Quem? Seria um boto que a seduziu por uma noite com uma estória de um mágico. Ou seria um mágico que a prendeu nas terras imaginárias do boto-cor-de-rosa?

(Davi Romboli)

SOZINHO

05/04/2018 às 3:46 | Publicado em Baú de livros | 1 Comentário
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Esse foi um amigo do trabalho, baiano, jovem velejador, quem me emprestou. Imaginem um capitão, nos idos de 1895, fazer uma viagem de circumnavegação ao redor do mundo sozinho num veleiro. Ele foi o primeiro, num tempo em que não existia GPS, muito menos Internet. Essa epopéia é digna de se ler. Ficamos maravilhados com a coragem deste marinheiro ao enfrentar os desafios da jornada e com a solidariedade que ele encontrou nos locais mais remotos do planeta. Ao mesmo tempo que ficamos um pouco tristes quando, numa passagem após a metade da viagem, em ilhas ao redor da Austrália, ele é recebido por uma autoridade eclesiástica que insistia em dizer e pregar que a Terra era plana…

Recomendo fortemente este livro !


LIVRO_SOZINHO

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