Atrás do Queiroz

17/09/2019 às 3:35 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Veríssimo, atual e genial como sempre.


Atrás do Queiroz 

Mort. Ed Mort. Detetive particular. É o que se lê na porta do meu escri (o “tório” eu subloco) numa galeria de Copacabana. Divido meu espaço com dezessete baratas e um ratão albino. O ratão às vezes desaparece, mas sempre volta, por isso eu o chamo de Voltaire. Minhas frases são curtas como o cano do meu 38. O 38 está empenhado, mas ninguém saca um ticket de casa de penhores do bolso com a minha rapidez. Mort. Ed Mort.

A Patricia Pillar e eu estávamos tendo uma conversa agradável, sobre a lua e os ministros, como diria o Machado de Assis, quando o ruído de alguém abrindo a porta me acordou. Entrou um homem. Odeio quando isso acontece, Pelo penteado, alguém do governo. Terceiro escalão, mas com vista para o mar. Perguntou:

– Mort? Ed Mort?

– Não — respondi. – Gianecchini. Reynaldo Gianecchini.

–  Mas na porta está es- crito…

– É parte do meu disfarce. O que você quer, já que interrompeu minha sesta?

– Você ouviu falar no Queiroz?

– Queiroz, o desapareci- do? Sim.

– Queremos que você o procure. Estamos dispostos a lhe pagar o que for preciso para procurar o Queiroz. Contrate quem você quiser. Busquem em toda parte. Armários, bueiros, canos, porões, matagais, o Brasil de ponta a ponta. Subam todos os morros. Queremos mostrar para a Nação que estamos empenhados em encontrar o Queiroz, e não em escondê-lo para que não conte tudo o que sabe, como dizem.

– E o que fazemos com o Queiroz quando o encontrarmos? – perguntei, caprichando no pronome, dada a solenidade do momento.

– Quem falou em encontrar? Queremos que procurem o Queiroz, e façam isto com bastante barulho, não que o encontrem. Pela sua reputação, ninguém é mais indicado para não encontrar o Queiroz do que você, Mort. A pátria precisa das suas trapalhadas.

Olhei em volta para ver se o Voltaire estava registrando aquilo. Trapalhadas, ahn? Decidi não só não aceitar o que me ofereciam em dólares para não encontrar o Queiroz como começar uma investigação séria sobre quem mandou matar Marielle, para saberem com quem estavam lidando. Assim que terminasse a sesta,

(Luis Fernando Veríssimo)

FONTE: Principais jornais do país, 12.09.2019

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A MENINA VALÉRIA NÃO APAGOU SUAS VELINHAS

05/08/2019 às 2:12 | Publicado em Artigos e textos, Canto da poesia | Deixe um comentário
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Jânio Ferreira com mais uma bela prosa-poesia, aquecendo peles e chocando sonhos nossos de cada dia, de cada ano.


A MENINA VALÉRIA NÃO APAGOU SUAS VELINHAS

Começo esse texto antes das 5 da manhã de quinta-feira, 18 de julho, e enquanto a descompassada polifonia de pardais não invade a calmaria, aproveito para ouvir uma afinada corujinha-do-mato, cujo canto só cessará quando a claridade revelar suas penas e, por tabela, esquentar meus dedos, coitados, mais uma vez em busca das palavras certas para seguir em frente.

Com o fuso horário de três horas a me- nos, é madrugada em San Salvador (capital de El Salvador), e deduzo que dona Rosa Ramírez deve estar tendo mais uma noite de agonia, ainda mais porque hoje, exatamente hoje, ela acordaria toda feliz, compraria um bolo e o enfeitaria com as duas velinhas que representariam a nova idade de sua netinha Valéria, que as apagaria de um sopro só. Mas, infelizmente, a vela que
dona Rosa sempre acenderá nesta ex-data querida terá uma finalidade oposta à celebração da vida. Explico.

No começo de abril, seu filho Óscar, de 25 anos, resolveu pedir asilo aos Estados Unidos. E aí, com uma carta de autoridades locais colocando-o como um per- seguido pelas gangues do bairro, ele, es- posa e filha pegaram a estrada, levando apenas uma pequena mala, documentos e uns trocados.

Depois de quase um mês de viagem, os três chegaram à fronteira de Tapachula, sul do México, onde receberam um visto que lhes permitiam viver por lá, até que o pedido fosse julgado. Como a decisão não saía, Óscar resolveu prosseguir, e em meados de junho eles chegaram a Matamoros, norte do México, a apenas uma ponte do Texas. Com a fronteira fechada e cansado de esperar, Óscar calculou a largura do rio e achou que acomodando a pequena Valéria dentro de sua camiseta, poderia, enfim, alcançar seu sonho a nado.

O tronco de algaroba que sustentava a base da fogueira acesa na noite de São João ainda fumaçava, quando vi a foto dos dois, afogados nas águas que apartam mundos. Imediatamente recordei Aylan, o menino sírio de 3 anos, morto em 2015 no mar Mediterrâneo. As coincidências das cores das roupas, a posição dos corpos e a semelhança dos sapatinhos são tantas que, fosse dado a crendices, diria tratar-se da segunda mensagem, das três que a humanidade tem direito antes do apocalipse.

A propósito, amanhã Juca faz 23. E como sua mãe também se chama Valéria, toda vez que vejo a foto de sua xarazinha dentro da camiseta do pai, me lembro do tempo em que, ainda adolescentes, sempre que parávamos o jipe nas madrugadas frias, eu a colocava dentro do meu surrado blusão atoalhado e aí ficávamos aquecendo peles e chocando sonhos. A grande diferença é que, apesar dos ventos e redemoinhos, ainda estamos aqui, baleados, é verdade, mas suficientemente vivos, para poder ter a indescritível sensação de ver nossos filhos apagando as velas que enumeram os anos de suas vidas.

(Jânio Ferreira Soares)

FONTE: Jornal  A TARDE, Salvador-BA, em algum dia do mês de julho

O BURACO DA AGULHA

23/07/2019 às 3:53 | Publicado em Baú de livros, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Recomendo mais essa excelente obra de Ken Follett. Esse foi o primeiro romance dele. Emoção do começo ao fim !


BURACO_AGULHA

CANÇÃO DO VENTO E DA MINHA VIDA

15/07/2019 às 3:36 | Publicado em Canto da poesia, Zuniversitas | Deixe um comentário
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CANÇÃO DO VENTO E DA MINHA VIDA

O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores…
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos,de flores,de folhas.

O vento varria as luzes
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas…
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De aromas,de estrelas, de cânticos.

O vento varria os sonhos
E varria as amizades…
O vento varria as mulheres
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres.

O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos…
O vento varria tudo !
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.

(Manuel Bandeira)

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