O MUNDO VISTO EM QUADRINHOS

13/04/2022 às 2:04 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 2 Comentários
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O post de hoje é especial. Trata-se de uma entrevista fornecida ao jornal O POVO, Fortaleza-CE, dia 28 de março deste ano, por meu sobrinho Daniel Brandão. Daniel é artista, desenhista e Professor dos melhores. Nessa bela entrevista ele conta toda a sua trajetória profissional e pessoal ao longo de sua brilhante carreira.

Daniel


O MUNDO VISTO EM QUADRINHOS

Os mundos de Daniel Brandão

Com quase 30 anos de experiência, Daniel é referência na ilustração e formação de novos profissionais da área. Da política nacional à vida em família, tudo pra ele pode render boas histórias

Há algumas décadas, ser leitor de quadrinhos não era algo simples, nem muito menos sinal de sucesso social. Pelo contrário, era melhor esconder suas histórias de super-herói em algum lugar da bolsa da escola. Filmes milionários, feiras e desfiles de cosplay eram impensáveis. Daniel Brandão sabe bem como era isso. “Eu ia pra banca, comprava uma ‘Superinteressante’, comprava uma ‘Superaventuras Marvel’. Botava a ‘Superaventuras Marvel’ dentro da ‘Superinteressante’ pras pessoas verem a capa da ‘Superinteressante’ e não saberem o que eu estava lendo”, conta, hoje, entre risadas.

Ilustrador há 27 anos, dono de um estúdio e de uma escola de ilustração com 20 anos de mercado, Daniel nasceu em Fortaleza, tem 46 anos, e quase esse tempo todo foi dedicado a quadrinhos. Ler, desenhar, colecionar, amar quadrinhos, ele fez de tudo por essa linguagem que vem atraindo novos olhares e despertando a ira de censores. Mas, seja para denunciar malfeitos ou para celebrar sua família, ela não vai parar de desenhar. “Eu tenho um texto, com minha mãe viva ainda, que eu escrevi dizendo que o quadrinho me salvou e esse texto é atualíssimo porque ele continua me salvando”. Confiram mais dessa conversa.

O POVO – Como foram teus primeiros traços, teus primeiros contatos com ilustração?

Daniel Brandão – Eu desenho desde criança, como eu acho que a maioria das crianças desenha, né? Eu tive sempre muito incentivo da minha avó, que pintava quadros. Desenho também sempre foi um refúgio pra mim, um momento em que tudo se acalmava, tudo dava certo. Junto com os quadrinhos, que eu comecei a ler muito cedo. Cinco, seis anos eu já estava lendo “Trapalhões”, “Turma da Mônica”. E gostava daquele visual também, queria já desenhar aqueles personagens. Mas eu acho que a coisa começou a se transformar mesmo mais tarde, porque na adolescência eu dei um tempo especialmente nos quadrinhos e desenho, porque isso não era bem visto. Não era uma coisa que ajudava na socialização.

O POVO – E quando retomou?

Daniel Brandão – Quando eu tinha 18 pra 19 anos, já tinha passado no vestibular, fui fazer Direito na UFC, eu conheci a oficina de quadrinhos da UFC através de uma matéria de TV. E aí eu fui bater lá e estava muito infeliz na faculdade, na verdade. Passei numa seleção, virei aluno, fiz o curso completo, depois virei monitor e lá dentro eu comecei a vislumbrar possibilidade de trabalhar com aquilo.

O POVO – Viu que existia um mercado, é isso?

Daniel Brandão – Que existia, exatamente. Porque eu era completamente ignorante. Eu lia quadrinhos, mas não imaginava como é que ele funcionava. Se aquelas pessoas eram pagas pra fazer algo tão legal. E aí eu fui descobrindo como tudo funcionava, as dificuldades e eu tive a sorte de ter apoio em casa. Eu já namorava a minha atual esposa – a gente está junto há 30 anos. Então, eu tive apoio dela, do meu pai, da minha mãe. Conversei com eles e disse: “olha, eu quero fazer isso. Não quero parar de estudar, então vou mudar de faculdade”. Fui fazer jornalismo na UFC por isso, porque a oficina de quadrinhos da UFC é um projeto de extensão do curso de comunicação social.

O POVO – Largou o direito?

Daniel Brandão – Larguei o direito, fiz vestibular novamente. E dei a sorte de, quando eu entrei na faculdade, mais ou menos um ano, um ano e pouco depois que eu tinha entrado na oficina, eu fui apresentado ao Mino pelos meus sogros. Armaram um jantar pra gente se conhecer e o Mino, muito generoso, muito gentil, me ofereceu um teste pra fazer o “Capitão Rapadura”. E aí, um mês depois, eu estava trabalhando com o Mino. Passei no teste, o ajudei a montar uma equipe e a gente trabalhou praticamente dez anos. Isso a gente tá falando entre 1995 e 1996.

O POVO – Eu vejo muito nas suas tirinhas que existe, existe o lado do humor, mas também tem informação. Em que ponto o quadrinista tem aproximação com o jornalista?

Daniel Brandão – Não! Tem muita coisa diferente, com certeza. Porque, inclusive, o meu gosto pra quadrinhos e ficção em geral, como séries, filmes, eu sempre gosto mais de histórias que tratam da vida real. Não sou tão fã de ficção científica, de viagens intergalácticas.

Eu gosto de histórias que tratam de pessoas, de gente. E eu me interesso por informação, tento me manter bem informado com que tá acontecendo. Eu acho que existe uma responsabilidade na comunicação de quem está publicando seja lá o que for, no meu caso tiras para o jornal. E me interesso por outros assuntos também. Psicologia, filosofia… As relações humanas, as notícias, informações, aquilo que mais me toca, que mais me incomoda, esses questionamentos que normalmente a filosofia e a própria psicologia me trazem também, acho que me movem pra escrever as minhas histórias. O que eu escrevo, os personagens que eu crio, alguns são baseados em pessoas que existem, outros não. E, às vezes, eu fico me perguntando se todos não são facetas de mim mesmo. Mas eu acho que sim, talvez.

O POVO – Já que você entrou nessas facetas, eu quero saber quem é o Damasceno?

Daniel Brandão – Eu gosto demais do Damasceno, sabe? O que mais me influenciou, na verdade, foi uma lembrança de infância de um personagem do Didi Mocó (Renato Aragão), que era o Aparício. Você lembra do Aparício? E aí eu misturei isso com o tal do “cidadão de bem”, que é criado agora por essa por essa era bolsonarista. A ideia de “cidadão de bem” foi totalmente desvirtuada para um estereótipo. E eu resolvi criticar a partir da criação do Damasceno. E pra não me não me tirar da crítica, apesar dele ser careca e mais velho, mas eu me uso como fotos pro Damasceno. Eu sou o modelo, digamos assim. Porque eu acho também que seria muita presunção me colocar numa posição assim (de distância). O Damasceno talvez tenha um pouco de mim também, apesar de ideologicamente eu ser o oposto dele.

O POVO – E era uma época completamente diferente de hoje, não é?

Daniel Brandão – Em 1998, eu tive a oportunidade de viajar pra lá, e a gente está falando de uma época que não tinha facilidade na internet. Porque eu precisava passar por uma seleção. Então, precisava ir pra escola, levar meu portfólio, passar por uma entrevista e, quando eu fui aprovado, eu lembro claramente que o entrevistador, o coordenador disse assim: “olha, a sua entrevista, sua aprovação tem uma um prazo de dois anos. Você tem dois anos pra se matricular aqui, se não você tem que passar por isso de novo”. Então, eu tinha que me matricular no máximo até 2000, né? Fiz o possível pra terminar a faculdade, coisa que eu não consegui. Me casei em 2000, fiz tudo pra ir pra essa escola.E consegui ir, eu e minha esposa já, na época. Nos mudamos pra lá e essa aventura, inclusive, tá sendo contada com tons de ficção no projeto “Madalena”, que é publicado aos domingos no Jornal O POVO. E o que está lá é verdade.

O POVO – E como foi esse período?

Daniel Brandão – A gente chegou lá meio que sem saber nem onde a gente ia se hospedar. Ficamos na casa de uma prima terceira da avó da minha esposa, que a gente nunca tinha visto na vida. A gente só tinha feito uma ligação pra essa pessoa. E foi dando tudo certo assim. Foi muito perrengue, mas foi dando tudo certo, foi uma experiência que transformou minha carreira, minha vida, minha vida conjugal também. A gente fortaleceu muito como casal ali. E eu, oito meses depois que entrei lá, comecei a trabalhar pro mercado americano. Porque foram muitas sortes.

O POVO – Como foi isso?

Daniel Brandão – Dentre os professores da escola, descobri que tinha um brasileiro que era o Sérgio Cariello, pernambucano, que morava lá há 25 anos. Consegui fazer uma amizade com ele, ganhar a confiança dele, ele gostar do meu trabalho a ponto de me chamar pra ser desenhista assistente dele. E ele já era quadrinista da DC Comics, na época. Fazia a Azrael, que faz parte do universo Batman.

As minhas primeiras publicações internacionais da vida não têm meu nome. Era eu ajudando ele, desenhando cenários, carros e tal, sem ninguém saber. Ninguém podia saber. Mas eu sabia e aquilo foi incrível. E ele também sabia e sempre foi um segundo pai pra mim lá. E tudo isso transformando muito a minha vida. A o projeto era passar três anos lá, que era o tempo que a escola duraria. Mas, em setembro de 2001, veio o atentado às Torres Gêmeas e aquilo também afetou a minha vida. Eu passei um ano e três meses lá, quase metade do tempo que eu gostaria. Ficou inviável conseguir trabalho lá. Criou-se uma espécie de xenofobia que eu acho… Nenhuma xenofobia é justificada, mas é compreensível pra momento específico do que aconteceu.

O dólar disparou da noite pro dia. Então, ter auxílio aqui do Brasil ficou inviável. O que eu ganhava como desenhista assistente pagava a gasolina, sabe? Era uma coisa que não dava, de fato, pra me sustentar. E aí eu decidi voltar no final de 2001. E logo em janeiro (2002) montei esse estúdio aqui. E, pensando em retrospecto, eu acho que foi a melhor coisa que me aconteceu, na verdade. Porque a vida só melhorou a partir de então.

O POVO – Você está falando da sua esposa, quem é ela e como é essa parceria de vocês?

Daniel Brandão – É a Juliana Bezerra, que é a atual diretora aqui do estúdio. Ela é professora de inglês, ainda é. Depois que a minha filha saiu do ensino médio, ela parou de ter que dar aula pra escola e entrou pra administração aqui do estúdio, e só melhorou também. Ela é filha do Ricardo Bezerra (arquiteto e compositor), amigo do Mino. Tudo conectado. Você vê como eu dei sorte. São pessoas que sempre me alavancaram.

O POVO – E Liz é a tua única filha?

Daniel Brandão – Minha única filha, exatamente. Dezoito anos, nasceu em 2003. E ela inclusive foi a principal razão pra minha mudança de vida dentro da minha profissão. Porque trabalhar pro mercado americano significa não ter feriado, não ter domingo, não ter férias, não ter nada. São 15 horas por dia desenhando e domingo é domingo. Isso, no meu ritmo de desenho que não é, talvez, o mais rápido do mundo. Eu a via crescendo e, mesmo trabalhando muito em casa, eu não estava aproveitando a infância dela como achava que deveria. Então, tomei essa decisão, conversei em casa, tive apoio e disse “vou parar de trabalhar pro mercado americano. Vou concluir os trabalhos, encerrar meus contratos com agências e me dedicar ao estúdio”. Porque dar aula tem fim, né? A aula tem um momento que acaba, posso voltar pra casa e ser pai integralmente.

O POVO – E daí nasceu a tirinha sobre ela?

Daniel Brandão – Isso foi o que me deu a ideia de criar a personagem pra ela. Foi uma ideia completamente interna e hermética, pra família mesmo. Foi algo que eu pensei assim: “cara, preciso usar o meu trabalho pra me aproximar ainda mais da minha filha”. As primeiras tiras eu desenhava com ela no colo, ela pegava caneta e cobria essas tiras, me dava ideias. Então, ela se sentia mesmo co-autora. Tanto é que, quando registrei a personagem, eu registrei com ela como co-autora. Foi algo muito importante pra minha vida e não imaginava que a personagem iria interessar a mais ninguém, achava que só ia interessar a mim, a ela, minha esposa, os avós. Mas não! Eu tive coragem de colocar no Facebook na época e os comentários de pessoas desconhecidas me surpreenderam. E aí eu criei coragem de começar a publicizar mais, a fazer livrinhos e editoras se interessaram. De 2009 a 2018, eu consegui nessa primeira fase lançar seis livros dela. Foi muito maior do que eu imaginava e passou a ser o meu principal trabalho. Superou qualquer coisa que eu fiz pra Estados Unidos, Europa. O principal trabalho da minha vida passou a ser a Liz. Isso pra mim não tem preço.

O POVO – Você falou dessa experiência como desenhista assistente, mas você também chegou a assinar trabalhos pra Marvel e DC.

Daniel Brandão – Sim, eu fiz coleções de cards pra eles. Não fiz quadrinhos pra Marvel e DCD. Eu fiz quadrinhos pra Dark Horse, que é outra editora. Digamos assim, a terceira maior lá na época. Mas Marvel e DC, eu fiz coleções de cards. Foi muito bacana porque era uma coleção de cards, por exemplo, pra DC Comics era com a Liga da Justiça. Então só desenhei personagem famosos deles. Pra Marvel, eu fiz X-Men, Wolverine, Quarteto Fantástico… É muito gostoso fazer. Cheguei a fazer coleção de cards pra Lucas Filmes também. Eu fiz Star Wars! Esse foi até legal porque a venda desses cards era revertida pra um hospital de câncer. Foi um trabalho bem bacana. É um trabalho grande, mas adorava fazer.

O POVO – Eu queria entender como é que funciona esse mercado. Você tem espaço para autoralidade no traço?

Daniel Brandão – Não tem um caminho só. Eu vou te dizer o caminho mais comum pra mim. O mais fácil é você ser agenciado, ou seja, ao invés de mandar testes diretamente pra Marvel, DC, Dark Horse e tal. Existem empresas espalhadas pelo mundo, o Brasil tem algumas delas, que cuidam de carreira de quadrinistas lá. Eles cuidam de conseguir trabalho pra vocês e pegam uma porcentagem no final desses trabalhos. Então, sempre pra mim foi mais fácil através de agências. Se você faz parte de uma agência, você precisa estar alimentando essa agência de portfólio novo todo mês. E aí, quando chega um trabalho, a agência te avisa: “ó, chegou um trabalho, tem alguém aqui interessado pra te contratar”. Eles mandam o roteiro. Dependendo do seu inglês, a agência traduz ou não esse roteiro. No meu caso, recebia em inglês mesmo.

O POVO – E isso tudo vai contando ponto pra você, né?

Daniel Brandão – Vai contando ponto, exato. Fica mais fácil, tudo, né? “Vai naquele cara ali que fala inglês”. E é um processo que tem o roteirista, que normalmente é americano; tem quem faz o desenho; tem quem faz a arte final; tem quem faz as cores; tem quem faça as letras. Se você é o desenhista, você tem que fazer o layout de páginas, rascunhos dessas páginas, e mandar pra eles aprovarem. Caso aprovem, você já está mais livre, digamos assim, pra fazer o acabamento. E o acabamento, normalmente, não tem mais retorno, a não ser que você cometa um erro grosseiro ali de anatomia, perspectiva e tal. Mas, se eles se contrataram, é por que eles confiam em você.

O POVO – E o volume de trabalho é imenso, não é?

Daniel Brandão – Você tem que tentar fazer uma média de cinco páginas a seis páginas por semana. Uma página por dia. Esse é o ritmo normal do mercado americano. Você fazendo 20 páginas por mês, ao todo. Eu comecei ainda usando o Fedex (serviço americano de remessa), mas hoje em dia você escaneia e manda por email. Na época que eu trabalhei como desenhista assistente, ainda nos Estados Unidos, o Fedex passava lá na casa toda terça-feira às seis da tarde. Então, às vezes, cinco e meia da tarde, a gente está terminando as últimas páginas. “Mais rápido, o cara tá chegando”. E tinha que estar pronto, aquelas seis páginas, pra mandar pra DC Comics. A gente manda por email, aí o editor é que distribui pro arte finalista, pro colorista, enfim. Hoje, eu trabalho digital, muita gente trabalha digital e não tem mais o processo de escanear. Quem trabalha digital, muitas vezes faz lápis e arte final. E o curioso é que, depois de 15 anos, agora em janeiro, eu voltei a ser agenciado. Surgiu uma oportunidade pra mim de trabalho fora, eu tenho um amigo que é agente e a fechamos esse contrato.

O POVO – Mas é o mesmo ritmo de antes? Vai trabalhar 15 horas por dia?

Daniel Brandão – Não! Quando eu falei com esse amigo, que é o Geraldo Borges, amigo ainda de longa data, ele mora no Chile e tem uma agência. Eu disse: “hoje eu faço tudo que eu já faço pra jornal, estúdio, e consigo fazer duas páginas por semana”. Ele disse: “não, existem projetos especiais que a gente consegue te enquadrar”. Aí eu não vou ficar fazendo teste todo mês, não vou pegar título mensal, isso não vai acontecer. Mas, projetos especiais eu espero que sim. Espero que aconteça. O primeiro trabalho que me procuraram era uma adaptação de um roteiro cinematográfico pra quadrinhos, e o cara tinha um prazo muito esticado. Então dava pra fazer duas páginas por semana. Eu voltei, mas num prazo em que eu deixei claro o que dá pra eu fazer.

O POVO – Você é hoje é um dos nomes mais atuantes e acho que uma referência tanto porque desenha como por que trabalha com formação. Muita gente que trabalha com você, hoje está nesse mercado. Eu queria saber qual é o mercado que existe para um fortalezense que trabalha na área de ilustração.

Daniel Brandão – Mudou muito nesses 27 anos de carreira. Quando eu comecei, cara, era tudo muito mais difícil. A sensação que dava em termos de mercado, pra usar uma metáfora, era um cenário de “Mad Max”. Especialmente, por causa do Collor. O Plano Collor fechou tudo quanto é editora. A exceção era o Maurício Souza e a editora Abril. A Abril só publicava Disney. Pra entrar no Maurício de Souza era tão difícil quanto, sei lá, entrar na Marvel, DC e tal. Então, o que era possível eram os quadrinhos independentes, o fanzines, aquela coisa underground. Coisa que o Guabiras, inclusive, faz até hoje muito bem e era o que a gente tentava fazer. A gente tinha o “Capitão Rapadura”, o quadrinho underground e tentava bater em porta de empresa, de mercadinho pra fazer cartilha, ilustração. A gente tentava sobreviver assim. Cara, hoje, com a revolução da internet, redes sociais, existem muitas alternativas de mercado. Se a gente pensar em quadrinhos especificamente, você consegue publicar através de editais governamentais, através de crowdfunding (financiamento coletivo), vaquinhas. O preço da autopublicação não está absurdo como era nos anos 1990. Nos anos 1990 era inviável. Hoje é viável, se você se planejar direitinho. A quantidade de editoras publicando quadrinhos hoje é estupidamente maior do que era há 20 anos. Então dá pra você tentar negociar e publicar através de editoras também. E tem como você publicar totalmente online, ou seja, você publicar no seu blog, nas suas redes sociais e, a partir daí, você pode criar uma fanbase (base de fãs), ficar famoso e ser até chamado por editoras pra publicar. Acontece com algumas pessoas, né? Posso pegar, por exemplo, o exemplo da nossa ex-professora de ilustração de aquarela aqui, que é a Juliana Rabelo. Ela se tornou um fenômeno das redes sociais, tinha 60 mil seguidores no Instagram. Isso começou a trazer um trabalho atrás do outro, as empresas começam a procurar o trabalho dela, querem ter estampas dela. Querem porque o produto que a gente faz como desenhista, ilustrador, começa a ficar atrelado também à sua figura, o que você pensa, o que representa. Isso é uma mudança muito grande.

O POVO – E isso é bem diferente de décadas atrás.

Daniel Brandão – Quando eu comecei, o portfólio falava por mim. Ninguém precisava conhecer minha cara. Teve vários artistas nacionais e internacionais que eu não conhecia o rosto. Só conhecia o trabalho. Chegava em eventos e “caramba, aquele é o fulano, aquele é o beltrano”. Hoje é meio que o contrário. Se não o contrário, está tudo interligado. As pessoas precisam te conhecer, conhecer o que você pensa, o que você faz, qual é a sua postura perante o mundo. A partir daí é criada uma narrativa em cima da sua pessoa e, se o seu trabalho também for bom, claro que tem que ser bom, não tô tirando essa qualidade, as pessoas vão querer consumir aquele trabalho atrelado àquela artista, aquele artista. Isso é uma mudança significativa, e acho que pluraliza, dá mais oportunidades a mais pessoas que estão fora do grande eixo de editoras.

Eu sou de uma época que, se você não estava no Rio e São Paulo, dificilmente conseguiria bons trabalhos. Pra conseguir trabalhar pra editora Abril, por exemplo – que hoje eu acho que não rola mais – cheguei a ouvir deles assim: “cara, teu trabalho é bom, o que a gente está precisando de ilustração é justamente o que você faz, mas você não mora aqui. E se você não mora aqui e tu atrasar uma hora, eu não posso mandar um motoboy na tua casa pegar. Então não tem como eu pegar de ti”. Aí eu acabava perdendo uma ou outra oportunidade, apesar de ter trabalhado algumas vezes. Mas trabalhei muito menos do que trabalharia se eu morasse lá, entende? Hoje já está democratizado, globalizado.

O POVO – Então essa relação com as redes sociais mudou tudo?

Daniel Brandão – Agora, eu tenho um pouco de pé atrás e de crítica nessa ligação que acontece direta entre o número de seguidores e qualidade de trabalho. Você vê que não só nos quadrinhos, não só na ilustração, mas também se vê no cinema, TV, teatro, grandes artistas, grandes autores, grandes figuras não tendo boas oportunidades de trabalho por não ter tantos seguidores, não ser tão midiático. Isso acaba sendo injusto também. É bom ter esse senso crítico também.

Mas não dá pra negar que, comparado aos anos 1990, hoje o mercado está bem mais amplo. Só pra concluir a tua pergunta, quando tu falou de fortalezenses, eu sempre repito isso. A gente é daqui, somos do Ceará, de Fortaleza, falamos com esse sotaque maravilhoso, mas a gente tem que mirar o mundo. O nosso mercado não pode ficar restrito ao nosso bairro, nem à nossa cidade. A gente tem que pensar no Brasil, a gente tem que pensar na América Latina, a gente tem que pensar no mundo, porque às vezes não vai ter cliente em Fortaleza. Às vezes o cliente está no Acre. E você tem que aproveitar essa praticidade das redes sociais, se puder falar outra língua melhor, se puder ter conhecimentos pelo menos básicos de empreendedorismo, de se ver como uma empresa, cuja assinatura é sua logo, o seu produto é seu desenho, isso vai ajudar bastante.

Ter esse jogo de cintura, de tentar ser midiático, ter canal no YouTube, tentar fazer vídeos, tentar mostrar a sua profissão. Existem muitos caminhos pra você correr atrás e você precisa estar aberto a tudo isso e não fechado no seu quintal, apenas esperando ser descoberto, isso aí não vai rolar.

O POVO – A explosão dos filmes de super-herói também mudou esse cenário?

Daniel Brandão – Cara, eu acho mudou muito mais numa questão social, talvez, do que numa questão econômica. Porque eu não vejo, sinceramente, os quadrinhos, como um mercado, terem crescido tanto com o cinema. Posso estar falando bobagem aqui, eu precisaria de números, mas eu não vejo mudanças de mercado mesmo. Mas, como as pessoas enxergam quem trabalha com quadrinhos, ajudou muito na mudança. Eu dei um depoimento pra ti que na minha adolescência, nos anos 1980, eu meio que desenhava escondido, parei de fazer quadrinho. Juro pela minha filha.

Eu ia pra banca, comprava uma “Superinteressante”, comprava uma “Superaventuras Marvel”. Botava a “Superaventuras Marvel” dentro da “Superinteressante” pras pessoas verem a capa da “Superinteressante” e não saberem o que eu estava lendo. E hoje mudou. As pessoas, até quem não entende do mercado, têm pelo menos curiosidade, têm simpatia. E isso eu acho que tem a ver com extrapolar o nicho – que é um nicho muito fechadinho esse de quadrinho – pra cinemas, séries, que acaba atingindo um público muito mais amplo. Inclusive, uma das coisas que mais me fascina de publicar no jornal é fugir da bolha. É tentar, e eu vejo que consigo desde 2018, leitores que não são comuns de quadrinhos. Nada contra, adoro, sou leitor comum de quadrinhos. Não é uma questão de hierarquia, mas eu queria muito atingir pessoas que não tinham o hábito de ler quadrinhos e tive experiências fascinantes. Já peguei um táxi e no táxi tinha um jornal O POVO. Comecei a papear com o cara, que não sabia quem eu era. E ele disse “a primeira coisa que eu leio são as tiras”. Olha que legal!

O POVO – E você já ficou animado.

Daniel Brandão – Ele até disse assim: “uma tira que eu gosto muito é de uma mulher chamada Liz. Essa Liz aí faz uma tira muito legal”. Foi muito bacana, cara. E eu fiquei pensando quando é que eu ia conseguir atingir esse leitor. Escolas, professores, psicólogos que já me procuraram, tudo graças à abrangência que o jornal dá, à visibilidade para além desse nicho. Então, eu acho fundamental quem é autor de quadrinhos pensar nesse público. Eu já recebi uma crítica de crítico de quadrinhos dizendo assim: “olha, às vezes você é muito redundante na sua mensagem”. Cara, talvez pra você que tá acostumado com a linguagem do quadrinho, tá acostumado com a sintaxe do quadrinho. Mas eu quero ser claro pra quem nunca leu o quadrinho, pra quem vai ler pela primeira vez. Porque eu sei que você vai entender também. Se ele entender, você também vai entender. Então eu tenho essa preocupação e o jornal me ajuda muito nisso. Por isso que eu acho que não tem preço esse ganho. Além de, historicamente pra mim, ser um ato de resistência do jornal ainda ter esse espaço, que foi o espaço onde os quadrinhos, como meio de comunicação de massa nasceram. Eu acho fascinante.

O POVO – Eu quero saber, tanto quando você começou como hoje, quem são os nomes da ilustração que te influenciaram aqui no Ceará?

Daniel Brandão – É legal tu ter dado essas duas perspectivas, que mudam muito com o tempo. Ainda mais eu que tenho essa esse afã e essa curiosidade de estar sempre conhecendo novos autores, estudando coisas novas, técnicas novas, tentando furar a bolha, como falei. Mas, no começo da minha carreira, quando eu comecei a fazer quadrinhos adolescentes, meus ídolos eram aqueles que publicavam os super-heróis nos anos 1980. Frank Miller, John Byrne, John Romitta, esses clássicos. Depois o Will Eisner, Art Spiegelman, essas pessoas fizeram a minha cabeça.

Aí, nos anos 1990, eu fui conhecendo pessoas aqui que faziam a mesma coisa que eu e fui mudando meus ídolos. Então, meu maior de todos é o Mino, cara. Porque eu sempre olhei pra ele, até hoje olho pra ele com um olhar encantado de um menino que tá ali pra aprender. Eu aprendo até com as piadas dele, com os trocadilhos. Eu vejo o Mino como um sábio, saca? E ele sempre foi tão simples e tão generoso que eu percebi, pela primeira vez com o Mino, que os verdadeiros gênios são as pessoas mais simples, que tratam os outros como igual, abrem portas. Eu estou longe desse patamar, nunca atingirei esse patamar, mas isso serve pra minha vida também. Essa questão da humildade, tratar todo mundo bem. Isso mudou muito minha vida. Depois o Al Rio (Álvaro Rio, quadrinista e artista plástico fortalezense. 1962-2012) , que eu tive a alegria de ser aluno dele, de ter tido uma ajuda, né?

O POVO – Que ajuda?

Daniel Brandão – Cara, o Al Rio fez uma coisa que pouca gente faz pra alguém. Três meninos, eu, JJ Marreiro e Geraldo Borges, com 18, 19 anos ali, o trio que foi fazer os primeiros testes pra desenhar o “Capitão Rapadura”. A gente não sabia nada, nada de quadrinhos, nada. E aí o Mino chegou e disse: “cara, será que vocês conseguem fazer, cada um, 40 páginas em um mês?”. A gente, não fazia ideia, “sim, claro”. Rapaz, quando a gente começou a fazer, que viu o trabalho que dava, começou a dizer “será que vai dar? Será que não vai dar?” E a gente deu algumas sortes. Primeira, UFC entrou em greve. Opa, mini férias aqui dá pra me dedicar 100% a isso. Mas a gente ficava tentando desenhar um na casa do outro e aí a mãe estava mandando você comprar pão, porque achava que você não estava trabalhando. Não, a gente precisa de um lugar pra trabalhar.

O Álvaro estava montando um curso, alugou uma sala, a gente aluno dele, ele conhecia a gente há uma semana, contamos essa história pra ele. O Álvaro pegou a chave dele: “cara, se vocês deixarem limpo, nos horários que não tiver dando aula, podem usar”. A gente trabalhou um mês no estúdio do Álvaro de graça, sem o cara ter nenhuma garantia de quem a gente era. Uma generosidade assim sem tamanho, só os gigantes têm, né? Então o Álvaro foi também é um grande ídolo pra mim e depois passei a nutrir essa admiração profunda também por pelo Geraldo, pelo JJ, por estar ali do lado. Eles sempre foram melhores do que eu e sempre me incentivavam a correr atrás. Preciso trabalhar o dobro desses caras pra poder me manter ali do lado deles. E, com esse tempo todo, nesses 25 anos, eu tive a alegria de conhecer muita gente, mundo afora, pessoalmente.

Tive com o Neil Adams, com o John Gilbert, por exemplo. Com grandes lendas que não deixam de ser ídolos e influências pra mim. Mas, eu aprendi uma grande lição, que é valorizar quem tá do meu lado. Porque existe uma questão da gente mitificar o que vem de fora. E eu comecei a perceber que aqui, aqui em Fortaleza, aqui no estúdio, no Jornal O POVO tem pessoas tão incríveis, tão tecnicamente geniais, às vezes professores melhores até do que muitos do que a gente endeusa. Já que eu citei o Jornal O POVO, pra mim o Carlão, Guabiras e Clayton são três gênios, cara. Se fossem americanos, eles seriam conhecidos no mundo inteiro. Aqui no estúdio mesmo, eu admiro profundamente a Blenda (Furtado). O Luiz Carlos Sousa, pra mim, é um dos melhores roteiristas que tem de quadrinhos.

A gente já fez parcerias juntos, ele tem vários outros trabalhos independentes, quadrinhos publicados por aí, escreve muito bem. Eu tenho essa sensibilidade de olhar pro lado e dizer: “cara, eu não posso ficar parado, por que essa galera é boa demais e me inspiram pra todo dia trabalhar mais”. A pior coisa da pandemia foi o home office, por causa de eu não ficar olhando o que esses caras, que eu acho geniais, faziam pra me motivar. E eu preciso desse combustível do Miguel (Felício), da Blenda, do Luis e de ver trabalhos do Clayton, do Carlão, ver o que o Geraldo tá fazendo, ver o que o JJ tá fazendo, ver o que a nova geração está fazendo também, né?

O POVO – E tem os alunos, né?

Daniel Brandão – O fato de eu dar aula é muito bom porque eu não me sinto envelhecendo nesse sentido. Eu estou sempre em contato com essa nova geração, eles tão sempre ensinando e aprendendo, e vendo que eles estão vindo com tudo aí. Não está brincadeira não. Eu tenho um lado competitivo que eu acho saudável nesse sentido. Eu tenho vontade de não ficar pra trás, eu tento me renovar por conta deles.

O POVO – De que forma outras linguagem, como cinema, literatura, música, influenciam teu trabalho no desenho?

Daniel Brandão – Rapaz, demais. Mais do que no desenho, no quadrinho. O quadrinho eu preciso escrever. Um quadrinista completo – modéstia parte, eu me considero completo – não é só um desenhista. Ele escreve, ele é diretor, diretor de fotografia, ele atua, por que os personagens precisam atuar. Você precisa saber escrever diálogos e precisa ter conteúdo. Você é um contador de histórias, precisa entender de narrativa, de tempo. É uma linguagem que tem muito a ver com música, porque tem muito a ver com ritmo.

Eu tive uma experiência ano passado muito interessante. Um aluno chamado Caio, que também era músico, falei pra ele sobre essa história do ritmo da página, onde cada quadro é uma espécie de acorde, que tem um tamanho específico, uma intensidade específica, tem um espaço específico entre os quadros e a leitura tem um ritmo. E aí eu passei umas páginas pra ele, ele pegou um violão e foi tocando. Musicando as páginas e me mandou isso em áudio no WhatsApp. Foi só uma comprovação prática de uma teoria que eu sempre acreditei, dessa ligação que existe entre essas duas linguagens. A gente precisa entender de vestimentas, de história com H maiúsculo. A gente precisa entender um pouco de tudo. De física, biologia, anatomia… Então, é muita coisa que um quadrinista precisa estar ligado pra ser completo, conseguir contar boas histórias.

Eu sou muito curioso e muito interessado naquilo que a vida me apresenta. Claro que eu não gosto de tudo, mas uma coisa que eu gosto muito é de estudar e de cultura. Eu adoro música. Meu pai tem uma formação musical muito rica, que me influenciou profundamente. Meu sogro também. Eu sou muito fã de Beatles, de cinema. Eu costumo dizer uma coisa curiosa, que em termos nerds, eu me considero nerd geek de quadrinhos. Então, quando eu falo de cinema, eu nem curto tanto o cinemão nerd geek, sabe? Tipo “Matrix”, “Senhor dos anéis”, eu nem sou tão fã. Mas eu adoro, por exemplo, (o cineasta Pedro) Almodóvar, entende? Gosto também do cinema pop também. Chorei no “Eduardo e Mônica”, recentemente. Ele bota a gente nos anos 1980, com aquelas músicas.

O POVO – E leitura?

Daniel Brandão – Eu leio todos os dias. Claro, não vou negar que 80% da minha leitura é quadrinhos, que eu sou mais apaixonado. Mas eu leio três, quatro livros ao mesmo tempo, normalmente. E aí, dentre esses livros, pelo menos um ou dois não são quadrinhos. São informações pra eu conseguir criar histórias. E eu digo também pros meus alunos que eu tento ter uma vida ativa. Então, à medida que pandemias deixam, à medida que é seguro, sou uma pessoa que sai, gosto de conviver com rodas de amigos que não são da área de quadrinhos, conversar sobre outros assuntos que não são dessa área e me interesso por tatuagem, fotografia, fora outros assuntos. Tem um costume que eu não sei se é muito simpático, mas se estou num restaurante, num bar e a gente está conversando, estou ligado em outras conversas também. Pra mim, todo mundo é personagem em potencial. Podem falar alguma coisa que pode virar tira. Eu procuro ter uma vida rica e atenta culturalmente, porque sem isso acho que eu não seria o quadrinista que eu sou. Que eu não sei se bom ou ruim, mas com certeza seria pior, entende? Eu não teria tanta coisa pra contar e aí, quando você não tem muita coisa pra contar, não faz muito sentido fazer quadrinho, ser contador de história.

O POVO – 2022 está começando agora, é ano de eleição, ano de Copa do Mundo. Quais são as suas expectativas pra esse ano?

Daniel Brandão – Ah, cara. Eu não sou conhecido na minha casa como uma pessoa mais otimista do mundo não, tá? Então, o que eu vou te responder talvez as pessoas mais próximas de mim estranhem. A gente tá passando por momentos tão difíceis desde a eleição do Bolsonaro, que é uma pandemia tão ruim quanto a do coronavírus, senão pior. A minha principal expectativa é que a gente consiga tirá-lo, nem que seja através do voto. Eu digo nem que seja através do voto porque acho que seria mais justo tirá-lo antes. Tá demorando demais já. Mas, esse ano temos essa grande chance de tirá-lo e, sendo muito transparente e explícito, colocar um governo de esquerda novamente.

Eu sou uma pessoa de esquerda, gosto de deixar isso claro no meu trabalho e ser coerente é fundamental. Não é brincadeira: os números oficiais, mais de 600 mil mortes é algo que eu não consigo traduzir em palavras, o quanto isso gera e gerou de dores em tantas pessoas. Não dá pra gente numerar isso, não dá pra gente colocar isso na balança de maneira clara. Acho que todo mundo perdeu alguém próximo. Em níveis diferentes, mas todo mundo viu isso de perto, perdeu alguém próximo. Então, isso passar, o ser humano voltar a carnavalizar novamente é fundamental. É fundamental pro humano voltar a sorrir, pra humanidade voltar a sorrir. Eu aprendi uma frase recente, acho que foi até o Caetano (Veloso) que falou, que diz que a gente festeja justamente porque a vida não é boa.

Então a gente ser privado de festejar, com uma vida que não é boa, é terrível demais. Eu usei o Carnaval apenas como metáfora, mas é as pessoas voltarem a não ter medo de trocarem afetos, de se abraçarem, de viverem novamente. Então, eu espero que 2022 traga isso também. E já a Copa, não estou ligando muito. Futebol é outro assunto que eu gosto bastante, mas a seleção é algo que não me empolga. Eu não sou Fortaleza, mas acho muito mais interessante o Fortaleza estar na Libertadores esse ano, acho que isso vai trazer muito mais alegria pro nosso povo do que a seleção canarinho vai trazer no final do ano. O que eu espero é isso, as duas principais coisas, em termos macro, é tirar o Bolsonaro e tentar superar essa pandemia. As pessoas poderem ir em lugares abertos, pararem de usar máscara, poderem se abraçar e não ter mais tanto medo de morrer.

O POVO – Recentemente, o quadrinho “Maus” passou por uma situação muito particular de censura. Uma coisa curiosa de ainda acontecer hoje. O que essa censura diz pra você sobre os tempos que a gente tá vivendo?

Daniel Brandão – Diz que, claramente, a gente tá passando por tempos tenebrosos, preocupantes. E a culminância disso, na minha opinião, é a eleição e a popularidade do Bolsonaro aqui e da era Trump, nos Estados Unidos. E tá muito claro que pós-Trump, pós-Bolsonaro, essa parcela da população mais fascista, mais de extrema direita, com esses pensamentos mais retrógrados de censura continuarão ali fazendo barulho. Usando suas redes sociais, suas fake news pra tentar se manter de alguma forma em evidência no poder.

Sou uma pessoa democrática, acho importante que todo mundo tenha voz, sou completamente contra a censura. Normalmente, a censura vem de uma de uma ignorância sobre a obra, sobre o público alvo a que aquilo é direcionado. No caso de “Maus”, claramente, foi isso. Existe um pensamento muito ruim, muito errado, de que quadrinho é algo pra criança. Isso já deveria ter sido ultrapassado há muito tempo. Quadrinho também é pra criança, existe quadrinho infantil, existe quadrinho adulto, existe quadrinho underground, existe quadrinho pra todos os públicos. E “Maus” é um quadrinho sério, pra adulto, muito importante, muito premiado, ganhou o Pulitzer de literatura. E que, pelo público certo, ele precisa ser lido. Ele chegou a ser adotado, por exemplo, na escola da minha filha quando ela tinha uma idade adequada pra ler “Maus”.

Então eu lamento profundamente essa censura, porém comemoro o fato de “Maus” ter voltado a ser um best-seller, muita gente ter acesso à obra e ler “Maus” pela primeira vez. Acho fundamental ler “Maus” e conhecer essa história do holocausto, muito bem contada pelo Art Spiegelman, a história do pai dele. Então, tomara que realmente se mantenha ali como um livro bem vendido por muito tempo ainda.

O POVO – Existe quadrinho isento, sem opinião?

Daniel Brandão – Eu acredito que não. Acredito, inclusive, que se a intenção do autor ou da autora é ser isento, isso já é uma posição. Já é uma tomada de partido. Nos dias de hoje, especificamente, pra mim é uma tomada de partido a favor da situação, do status quo. Você não ser claramente contra o que esse governo fascista, genocida, que tá no poder aí, você não se manifestar contra isso e se colocar numa posição de “isentão”, isso pra mim não é nada isento. Isso pra mim é jogar a favor. Estou falando dessa época, mas eu acho que em nenhuma época existe quadrinho isento. Acho que não existe produto cultural isento. O ser humano tem na sua natureza a parcialidade. A gente sempre vê o mundo sobre um ponto de vista muito particular, muito parcial e que tem a ver com a nossa educação, a nossa cultura e nossas ideologias. Tem muita gente aí, nos dias de hoje, fazendo discursos contra ideologias, o que pra mim é um tremendo de um absurdo. É fazer discurso pra gente não ter ideias? Como é que a gente consegue ser humano sem ter ideias? E sem juntar essas ideias, sistematizá-las e transformá-las em ideologia? É impossível, é uma falácia. É uma espécie de ideologia também. Então, não, não existe quadrinho isento.

O POVO – Você sempre foi muito crítico nas suas tirinhas. Muitas das suas tirinhas têm críticas muito clara, muito objetivas. E a gente vive também era de cancelamentos, essas tirinhas vão pras redes sociais, as pessoas opinam. De alguma forma essas críticas impactaram no teu trabalho?

Daniel Brandão – Olha, eu acho que ainda não fui cancelado oficialmente. Se fui, não fiquei sabendo. Acho que por alguns motivos. Primeiro, sem querer parecer modesto, mas meu trabalho é pequeno demais pra tanta gente assim se importar a ponto de me cancelar oficialmente. Mas eu tive críticas, recebi discurso de ódio nas redes sociais, comentários mal educados, que eu tive que bloquear, inclusive. Já perdi aluno. Pessoas que foram meus alunos e colocaram comentários dizendo que nunca mais estudariam comigo. De certa forma, isso pra mim é um processo meu “darwiniano”, de seleção natural. Na verdade, assim, eu sou crítico, eu tenho minha posição, sou uma pessoa de esquerda, eu sou anti-Bolsonaro, completamente antifascista. Gosto de deixar extremamente claro, mas eu sou uma pessoa que também acredito muito na gentileza.

Então, nunca tive a intenção real, concreta de ofender pessoalmente alguém no meu trabalho. Embora já tenha recebido uma ligação de uma pessoa que achava que era direcionada a ela e nunca foi. E não é! Acho que seria pequeno da minha parte, deselegante personalizar algum tipo de crítica em relação a isso. Mas tem pessoas que acabam se identificando com o que eu escrevo de uma maneira negativa, acabam vestindo a carapuça e se ofendem. E eu confesso que, quando isso surge, eu consigo ver um lado bom. Primeiro porque estou furando certa bolha. Tem algum leitor que não pensa parecido comigo, e que tá lendo o que estou fazendo. Isso, pra mim, é bom. E segundo que, se eu estou incomodando, digamos, as pessoas certas, significa também que aquilo que eu acredito faz sentido, pra mim pelo menos. Não estou me colocando aqui como dono da verdade, estou sempre aberto a aprender. Mas, vejo esse lado bom sim.

O POVO – Você perdeu seu pai pro covid e acho que num dos períodos mais duros da pandemia. Como foi esse período, pessoal e profissionalmente?

Daniel Brandão – É, muito difícil, né? Eu tive, na minha vida inteira, períodos muito difíceis. Já tinha perdido minha mãe em 2008. Mas, acredito que, por causa de uma conjuntura maior, 2021, que foi o ano em que perdi meu pai, em abril, foi o mais difícil, de fato, da minha vida e da minha carreira também. Por conta da pandemia, o estúdio, a escola, tudo estava mais difícil. Financeiramente estava tudo muito apertado, a vida da minha filha estava difícil, a da minha esposa estava difícil. E, fazendo um paralelo, quando eu perdi minha mãe, eu pude estar presente. Eu pude acompanhá-la, por exemplo, na ambulância até o hospital. Eu pude visitá-la todos os dias na UTI, nos horários abertos a visitação. Com meu pai era tudo pelo telefone.

Eu também perdi um tio, irmão do meu pai. Um mês depois que meu pai morreu. Esse tio era meu braço direito quando o meu pai se hospitalizou. Era meu tio que me ligava e dizia assim: “não vá lá! Você não pode pegar porque você é quem tem que resolver todos os problemas aqui fora. Você é quem tem que segurar essa onda. Se você pegar Covid também está tudo acabado”. Ele tinha razão. Não tiro a razão dele, não me arrependo de nada. Mas você imagina a dor. Eu acompanhei… Mas meu pai teve muita resistência a se internar. Então, ele fugiu de três internamentos. E eu não pude estar lá pra segurar. Sabe? E isso foi muito mais doloroso, muito mais doloroso.

Não estou dizendo que minha dor é maior, menor do que a de ninguém. Eu sei quanta gente, quantas pessoas também passaram pelo que eu passei, meu Deus do céu, nessa pandemia. Mas isso me afetou profundamente, me afeta até hoje.

Eu tenho com meu pai e com minha mãe, e isso eu queria deixar registrado também, uma gratidão, um amor muito grande e uma tranquilidade muito grande de falar deles e da morte deles. Por quê? Porque considero que fui um filho muito presente em vida e que tive muitas chances de falar tudo que eu queria falar pro meu pai e pra minha mãe em vida. Coisas boas principalmente, de gratidão, de amor. Eles se foram sabendo o quanto eu os amava, quão grato eu sou a eles. Isso pra mim me dá uma tranquilidade na alma, cara, que você não pode imaginar. Então, recomendo isso pra todo mundo. Se você tem pai, mãe vivo, tem alguma pendência a resolver com alguém, com filho, resolva em vida. Porque eu não desejo que ninguém leve nenhum sentimento de culpa, de coisa mal resolvida pra depois. Eu não levei.

E uma coisa que sempre me ajudou, desde a minha infância: eu te disse que o desenho pra mim foi um refúgio desde a infância. A minha mãe sempre teve depressão, eu cresci com minha mãe com depressão, ela também era bipolar. Então, era uma situação dentro de casa muito difícil. Mas, quando eu me trancava no meu quarto e desenhava, e lia quadrinhos, as coisas voltavam a ficar coloridas, o bem voltava a vencer o mal, e o universo se organizava novamente. O fato de eu ter a oportunidade de desenhar, de escrever, de colocar isso pra fora teve hoje o mesmo poder que tinha na minha infância. Um poder quase de cura, sabe, cara? Parece mágico, não sei se vai soar exagerado pra alguém. Mas, eu realmente acredito que a arte ela pode ser terapêutica e pra mim é. O quadrinho é. Eu tenho um texto, com minha mãe viva ainda, que eu escrevi dizendo que o quadrinho me salvou e esse texto é atualíssimo porque ele continua me salvando.

O POVO – Você conta diariamente as histórias da sua filha no Jornal. Como é que ela se sentiu sendo retratada diariamente no Jornal?

Daniel Brandão – Sempre foi uma preocupação minha. Porque eu faço tiras dela desde que ela tinha seis anos de idade. E as tiras que eu fiz de 2009 até entrar no Jornal eram muito mais pautadas na realidade dela do que as atuais. Realmente, 70% do que eu fiz na primeira fase eram coisas que ela me trazia. Quando eu fui fazer tiras diárias no Jornal, eu disse: “cara, não vou perturbar a vida dela todos os dias. Cutucar e dizer ‘me dá uma ideia aqui hoje’”. Não dá, né? Então falei pra ela, “olha filha, vai ser algo baseado na nossa vida, mas eu vou chamar de ‘Os Mundos de Liz’ porque vai ser ficção”. Vou inventar coisas, vou inventar personagens coadjuvantes que não existem, situações fantasiosas e tal.

A bailarina, por exemplo, não existia. Hoje existe, a gente ganhou uma bailarina de presente. A bailarina representa, por exemplo, a minha frustração de não saber dançar. Então, isso me deu muita liberdade pra criar tira. Mas, ao mesmo tempo que deu muita liberdade, o fato de ser o nome dela, ter o rostinho dela, ter a idade dela, sempre me trouxe preocupação pra que isso não trouxesse nenhum problema a ela. Então, de todos os personagens da tira, talvez ela seja a que eu mais protejo nos roteiros e que eu estou mais atento às reações dela. O que eu faço? Tudo que eu escrevo, antes de desenhar, eu mando pra ela. Tudo que eu desenho, antes de colorir, eu mando pra ela. Quando vai pro jornal, ela já leu no roteiro, ela já leu desenhada. Se ela não censurou, não achou ruim, pode ser publicado.

E já tive conversas muito sinceras com ela e tenho de tempos em tempos, pra saber como isso está batendo dentro dela. E eu tive uma resposta muito bacana que eu vou confidenciar a você também, que eu acho que resume muito bem essa pergunta. No final do ano passado, por conta da pandemia, de crise, tinha que tentar dobrar o meu trabalho pra conseguir pagar as contas, eu disse “preciso reequilibrar a minha produção aqui e eu vou falar com o Jornal pra deixar de fazer seis tiras de segunda a sábado pra fazer três”. Vou ver se tem essa maleabilidade. Pensei muito, sofri muito, porque eu tenho um apego muito grande às tiras. Antes de falar com vocês, reuni a família pra conversar.

Caiu uma lágrima da Liz e ela disse: “pai, só quero que você não pare de fazer a tira”. Eu não vou parar nunca mais. Pode ter certeza. Pode o Jornal não me querer mais, mas a tira vai continuar sendo feita nem que eu faça uma por semana. Mas não vou parar nunca mais. A maneira que eu me comunico melhor com o mundo é através dos quadrinhos. Acho que a maneira mais profunda e bonita que eu tenho pra dizer pra minha filha ou pra qualquer pessoa que eu a amo é através dos quadrinhos. A minha filha sabe o quão eu a amo por causa das tiras. Acho que isso faz toda a diferença na nossa relação. Por isso que ela hoje com 18 anos está voluntariamente no estúdio, cuidando das redes sociais, fazendo um monte de coisa que a geração dela sabe fazer e eu não. Por que ela tem esse amor, esse carinho pelas tiras, pelo estúdio, pelo pessoal daqui. Isso meio que virou a vida dela de alguma forma.

(Marcos Sampaio)

FONTE: JORNAL O POVO, FORTALEZA-CE, 28.03.2022

Audiolivros ganham força no Brasil graças a novas tecnologias

23/10/2019 às 3:49 | Publicado em Baú de livros, Midiateca, Zuniversitas | 1 Comentário
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Toda forma de obtenção de informação e conhecimento é válida. Confesso que experimentei há alguns anos os audiobooks. Talvez porque a tecnologia ainda estava incipiente, não gostei muito. Esse vídeo, do Olhar Digital, esclarece o “estado da arte” nessa matéria, vale a pena conferir !


A PARTE QUE ME FALTA

19/05/2018 às 3:17 | Publicado em Baú de livros, Canto da poesia | Deixe um comentário
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A “parte que me falta” não me falta porque carrego comigo há trinta anos.

Parabéns filha querida, esse é pra você !

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AParteQueFalta


22 dicas para você escrever melhor e para a vida!

28/07/2016 às 3:43 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 1 Comentário
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Excelentes dicas, confiram !


22 dicas para você escrever melhor e para a vida!

Apple Store Soho Presents Meet The Creators: Stephen King, John Mellencamp And T Bone Burnett

Stephen King, renomado escritor de histórias que cativaram milhões de pessoas ao redor do mundo e que ganha aproximadamente 17 milhões de dólares por ano, em seu memorável, “On Writing“,compartilha informações valiosas sobre como ser um escritor melhor. Ele não dosa as críticas e escreve: “Eu poderia mentir e dizer que não há maus escritores. Desculpem, mas existem muitos escritores ruins.”

Não quer ser um deles? Aqui estão 22 dicas do livro do King sobre como ser um escritor surpreendente:

1. Pare de assistir à televisão. Ao invés, leia tanto quanto puder

Se você for um escritor iniciante, sua televisão deve ser uma das primeiras coisas a serem eliminadas. É “venenosa à criatividade”, diz Stephen.  Os escritores precisam olhar para dentro de si mesmos e direcionar a atenção à vida da imaginação.

E para tanto devem ler o máximo possível. King leva consigo um livro a todo lugar que vai e lê até mesmo durante as refeições. “Se você quiser ser um escritor, deve fazer duas coisas acima de todas: ler muito e escrever muito”. Leia muito e trabalhe constantemente para refinar e redefinir seu trabalho enquanto lê.

2. Prepare-se para mais falhas e críticas do que pode lidar

King compara escrever ficção a travessar o Atlântico em uma banheira, pois em ambos “há inúmeras oportunidades para duvidar de si mesmo”. Não apenas vai duvidar de si mesmo como também haverá outros duvidando de você. “Se você escrever (ou pintar, dançar, esculpir ou cantar, acredito) alguém irá tentar te fazer se sentir mal por isso”, King escreve.

Constantemente você tem que continuar escrevendo mesmo quando não está com vontade de fazê-lo. “Parar um trabalho apenas porque é difícil, seja emocionalmente ou por bloqueio de criatividade, é uma má ideia”, ele escreve. E quando falhar King sugere que continue otimista. “Otimismo é uma resposta perfeitamente adequada à falha”.

3. Não perca seu tempo tentando agradar as pessoas

De acordo com King, a grosseria deve ser a menor de suas preocupações. “Se você pretende escrever da forma mais verdadeira possível, seus dias como membro da sociedade bem-educada estão com os dias contados”. King costumava se envergonhar do que escrevia, especialmente após receber cartas que o acusavam de ser preconceituoso, homofóbico, sanguinário e até mesmo psicopata.

Por volta de seus 40 anos, percebeu que todo bom escritor já fora acusado de não possuir talento algum. King resolveu esse dilema definitivamente. Ele escreve: “Se você não aprova o que escrevo, posso apenas dar de ombros. É só o que tenho”. Como não poderá agradar a todos os leitores o tempo todo King aconselha que pare de se importar.

4. Escreva principalmente para você mesmo

Você deve escrever porque isso traz felicidade e satisfação. “Eu escrevo pelo puro prazer do ato, e se você puder escrever por prazer, você pode escrever para sempre”.

O escritor Kurt Vonnegut fornece um insight parecido: “Encontre um assunto com o qual se importa e que sinta que outros também vão se importar. Será este genuíno cuidado – não seu jogo de palavras – o mais sedutor e cativante elemento em sua escrita”.

5. Enfrente o que for mais difícil escrever

“As coisas mais importantes são as mais difíceis de dizer”, King escreve. “São aquilo de que você sente vergonha porque palavras degradam seus sentimentos”. A maioria das grandes obras são precedidas de horas de reflexão. Segundo King “A escrita é o pensamento aprimorado”.

Ao abordar assuntos difíceis certifique-se de ir a fundo. King diz “Estórias são objetos encontrados, como fósseis no solo… Estórias são relíquias, partes de um desconhecido mundo pré-existente”. Escritores deveriam ser como arqueologistas que escavam por tanta história quanto podem encontrar.

6. Ao escrever desconecte-se do mundo exterior

A escrita deve ser uma atividade completamente íntima. Coloque sua mesa no canto de uma sala e elimine toda possibilidade de distração, desde telefones até janelas abertas. Stephen aconselha: “Escreva com a porta fechada; reescreva com a porta aberta”.

Você deve manter total privacidade entre você e seu trabalho. O primeiro rascunho é “completamente cru, o tipo de coisa que me sinto livre para fazer com a porta fechada – é a história nua, vestida apenas de meias e roupas íntimas”.

7. Não seja pretensioso

“Uma das coisas realmente ruins que você pode fazer ao seu trabalho é rebuscar o vocabulário, à procura de palavras longas por estar ligeiramente envergonhado de usar as curtas”, diz o autor que compara este erro ao de vestir um animal de estimação em trajes de gala – ambos o animal e o dono estarão constrangidos pelo excesso.

Um icônico empresário, David Ogilvy, escreve em um memorando para seus funcionários: “Nunca use jargões como reconceptualizar, desmassificação, atitudinalidade, criticalidade. Estes são símbolos de um idiota pretensioso”. Além disso, não use símbolos a menos que seja necessário. “Simbolismo existe para adornar e enriquecer, não para criar um senso artificial de profundidade”, escreve King.

8. Evite advérbios e parágrafos longos

Conforme King enfatiza várias vezes “os advérbios não são seus amigos”. Ele acredita que “a estrada para o inferno é pavimentada com advérbios” e os compara a dentes-de-leão que estragam seu gramado. E são ainda piores após frases com “Ele disse” e “Ela disse”– frases estas que funcionam melhor sem complemento nenhum.

Você também deve prestar atenção em seus parágrafos para que eles fluam com as reviravoltas e o ritmo de sua estória. “Parágrafos são quase sempre igualmente importantes por sua estética e pelo que dizem”.

9. Não exagere na preocupação com a gramática

De acordo com King escrever é principalmente sobre sedução, não precisão. “A linguagem não deve sempre usar gravata e sapatos finos. A ficção não se trata de exatidão gramatical, mas sim de fazer com que o leitor esteja receptível e confortável à estória para que então você possa contá-la”. Você deve concentrar-se em fazer o leitor se esquecer de que está de fato lendo uma estória.

10.Domine a arte da descrição

“A descrição começa na imaginação do escritor, mas deve acabar na mente do leitor” escreve King. A parte importante não escrever o suficiente, mas também limitar o quanto você escreve. Visualize a experiência que quer que o leitor tenha e então transcreva o que vê em sua mente para palavras. Você precisa descrever de uma forma que vá trazer ao leitor uma sensação de reconhecimento” ele diz.

A chave para uma boa descrição é a clareza, tanto em observação quanto em escrita. Utilize imagens claras e vocabulário simples para evitar que o leitor se sinta exaurido. “Em muitos casos quando o leitor abandona alguma estória porque está chata, tal sensação se dá porque o autor se inflou com seus poderes de descrição e perdeu de vista suas verdadeiras prioridades, que seria manter o andamento da estória”.

11. Não dê informação de contexto demais

“O que você precisa lembrar é que existe uma diferença entre falar sobre o que você sabe e usar isso para enriquecer história”, escreve King. “Isso é bom. Aquilo, não”. Inclua apenas detalhes que levem a história para frente e que motivem o público a continuar lendo.

Se for utilizar de alguma pesquisa, tome cuidado para não ofuscar a história. Pesquisas devem ficar “ao máximo no pano de fundo e no contexto”, diz King. Você pode estar intrigado com o que está aprendendo, mas seus leitores vão se importar mais com os personagens e suas histórias.

12. Conte histórias sobre o que as pessoas realmente fazem

“Uma escrita ruim é muito mais que péssima sintaxe ou má observação; uma escrita ruim geralmente surge de uma forte recusa de contar histórias sobre o que as pessoas realmente fazem — encarar o fato, digamos, de que assassinos às vezes, ajudam senhoras idosas a atravessar a rua”, escreve King. As pessoas em suas histórias são aquilo com o que os leitores mais se importam, então, certifique-se de que você tenha conhecimento de todas as dimensões que seus personagens podem ter.

13. Corra riscos; não fique só naquilo que é seguro

Primeira e mais importante dica, pare de usar a voz passiva. É o maior indicador de medo. “Eu estou convencido de que o medo é o maior responsável por uma escrita ruim”, diz King. Escritores devem endireitar os ombros, levantar a cabeça e deixar a escrita comandar.

“Experimente tudo o que quiser, não importa o quão entediante ou chocante isso possa ser. Se funcionar, ótimo. Se não, esqueça”, afirma King.

14. Perceba que você não precisa de drogas para ser um bom escritor

“A ideia de que o esforço criativo e de que as substâncias que alteram a mente estão ligados é um grande mito pop-intelectual do nosso tempo,” diz King. Aos seus olhos, os escritores que abusam de substâncias são apenas viciados. “Qualquer discurso de que drogas e álcool são necessários para encontrar uma maior sensibilidade é só besteira”.

15. Não tente roubar a voz de alguém

Como King diz “Você não pode ver um livro como um míssil a ser lançado”. Quando você copia o estilo de outro autor por qualquer razão além de prática, você produz nada além de “pobres imitações”. Isso acontece porque não se pode recriar a forma como experimenta uma verdade, especialmente com uma olhada rápida a vocabulário e trama.

16. Entenda que a escrita é uma forma de telepatia

“Todas as artes dependem de algum grau de telepatia, mas eu acredito que escrever é sua pura essência”, conta King. Um importante elemento da escrita é a transferência. Seu trabalho não são as palavras na página, mas sim a transferência de ideias da sua cabeça para a cabeça dos leitores.

“As palavras são só o meio pelo qual a transferência acontece”, afirma King. Em seu conselho sobre escrita, Vonnegut também recomenda que os escritores “usem o tempo de um total estranho de uma forma que ele ou ela não se sinta perdendo tempo nenhum”.

17. Leve sua escrita a sério

“Você pode abordar o ato de escrever com nervosismo, excitação, esperança ou desespero”, diz King. “Faça isso de qualquer forma, menos sem seriedade”. Se não quer levar sua escrita a sério, ele sugere que você feche seu livro e faça outra coisa.

Como diz a escritora Susan Sotang, “a história deve atingir um nervo — em mim. Meu coração tem que acelerar quando eu ouvir a primeira linha na minha cabeça. Eu tenho que tremer diante do risco”.

18. Escreva todo dia

“Uma vez que eu começo a trabalhar em um projeto, eu não paro e não diminuo o ritmo, a menos que eu precise”, diz King. “Se eu não escrevo todo dia, os personagens começam a fugir da minha mente… Eu começo a me perder o enredo e o ritmo.”

Se você falha em escrever de forma consistente, a animação com a ideia começa a desaparecer. Quando o trabalho começa a parecer com uma obrigação “é o beijo da morte”— King descreve. Seu melhor conselho é que trabalhe com “uma palavra por vez”.

19.Termine seu primeiro rascunho em três meses

King gosta de escrever 10 páginas por dia. No período de três meses, isso soma cerca de 180.000 palavras. “O primeiro rascunho de um livro — mesmo o de um longo — não deve levar mais que três meses, o tempo de uma estação”, ele diz. Se você precisa gastar muito tempo em seu trabalho, King acredita que a história começa a tomar um ar estranho.

20. Quando terminar de escrever, afaste-se por um tempo

King aconselha seis semanas de “recuperação” depois que você terminar de escrever, assim, você pode clarear sua mente para amarrar as pontas soltas do enredo ou melhorar o desenvolvimento de personagens. Ele pontua que a percepção inicial de um escritor sobre um personagem pode ser tão errada quanto à de um leitor.

King compara o processo de escrita e revisão com a natureza. “Quando você escreve um livro, você passa dia após dia detectando e identificando as árvores”, ele escreve. “Quando você acaba, você tem que voltar atrás e olhar a floresta”. Ao encontrar os erros, ele diz que “você está proibido de se sentir deprimido por causa deles ou de se condenar. Erros acontecem com os melhores de nós”.

  1. Tenha coragem de fazer cortes

Ao revisar, autores geralmente têm dificuldade de descartar palavras que passaram muito tempo escrevendo. Mas, como King aconselha, “Desapegue, desapegue, mesmo que parta seu egocêntrico pobre coração escritor, desapegue”.

Embora revisão seja uma das partes mais difíceis de escrever, você precisa deixar de fora todas as partes chatas para que a história possa fluir. Em seu conselho sobre escrita, Vonnegut diz que “se uma sentença, não importa quão excelente, não esclarece seu assunto de alguma forma útil e nova, jogue fora”.

22. Continue casado, seja saudável e viva uma boa vida

King atribui seu sucesso a duas coisas: sua saúde física e seu casamento. “A combinação de um corpo saudável de uma relação estável com uma mulher independente que não tira aceita desaforo de mim ou de qualquer um fez a continuidade da minha vida profissional possível”, ele escreve.

É importante ter um forte equilíbrio em sua vida para que a escrita não consuma tudo. Nos 11 mandamentos do pintor e escritor, Henry Miller, ele aconselha: “Mantenha-se humano! Veja pessoas, vá a lugares, beba se quiser.”

FONTE: O BEM VIVER – https://obemviver.blog.br/2016/07/06/22-dicas-para-voce-escrever-melhor-e-para-a-vida/

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