Saramago

28/07/2014 às 3:06 | Publicado em Canto da poesia, Midiateca, Zuniversitas | 2 Comentários
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Cabanga Club

01/06/2013 às 3:17 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Vejam que belo conto. Esse clube existe mesmo em Recife-PE (uma contribuição de minha irmã Moema que me enviou o original pelos Correios, devidamente escaneado por mim.)

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CABANGA CLUB (Paulo Afonso Paiva)

Há muito não ia ao centro da cidade. Caminhando sem destino vi uma feira de livros usados. Numa barraca, discos de vinil, entre os quais um fox – executado por orquestra americana – me chamou a atenção. Pensei em levá-lo para meu pai que gostava desse tipo de música.

Fui até sua casa onde o encontrei na sala com um jornal aberto diante dos olhos. Estava com oitenta e quatro anos e decaíra muito nos últimos tempos. Quando me aproximei, disse:

– Você viu Elza? Pedi meus óculos há tempo, mas ela não trouxe.

Fiquei calado. Faz oito anos que mamãe morreu. Coloquei o disco para tocar e enquanto a música se espalhava pelo ambiente ele a acompanhava, fazendo leves movimentos com a cabeça. Quandoo fox terminou seus olhos brilhavam. Perguntou:

– Como você soube?

– Soube o que, pai?

– Essa música …

– Eu não sei de nada. Estava na cidade e vi o disco. Achei que o senhor ia gostar. O que houve?

Olhou para mim estudando minha expressão. Quando se certificou que eu estava sendo sincero, começou a falar:

– Em 1944, o meu batalhão se preparava para ir àguerra. Uma vez fui ao Cabanga, onde a Igreja de Boa Viagem promevia, aos sáhados, dancings para os soldados. Eles compravam tíquetes, que davam direito a uma dança, cada um. As moças de família, que normalmente não dariam trela para nós, no clube atendiam a qualquer Um que lhe entregasse os bilhetes. Estavam fazendo a parte delas no esforço de guerra, diziam. O dinheiro apurado ia para as obras da Igreja.

Parou de falar, imerso em seus pensamentos.

– Eu comprei alguns, mas era muito inseguro. Fiquei pelos cantos sem dançar e então a vi. Tinha os cabelos louros, curtos e ondeados. Fiquei como se alguém tivesse me segurado pelos braços e me balançado. Ah! eu tinha vinte anos. Passei o resto da noite olhando-a de longe. Não dancei com ninguém. Às dez horas os organizadores acabaram o baile. Nos outros sábados eu estava de volta. Comprava dez tíquetes e nunca os usava Finalmente, uma noite quando já estava chegando o horário de fechar, a orquestra tocou essa música. Fui em direção a ela, mas outro cara se adiantou. Enfim ele a de: .. ou e lutando contra a timidez, me aproximei:

– Ôi, eu já vi você em outros sábados.

-Eu sei.

– Eu sou muito acanhado, por isso …

-Eu sei.

– Você quer dançar comigo?

-Sim.

Quando ela se levantou, o apresentador foi ao microfone, agradeceu e encerrou o baile. Nós rimos e nos dirigimos à saída. Um senhor se aproximou:

– Ana Paula, estou esperando no carro.

Ela me disse alguma coisa e nos despedimos:

– Até sábado.

– Até logo.

Na terça-feira pela madrugada, em segredo – para que algum espião não avisasse a um possível submarino inimigo – embarcamos para a Itália.

Parou um pouco.

– Ah, a estupidez da guerra! Vi cidades destruídas, crianças mortas e outras feridas, sofrendo. Odiei o exército alemão pelo que fazia, mas não todos os soldados inimigos. Grande parte deles era de sujeitos iguais a nós, querendo voltar pra casa Uma coisa que me dava esperança era lembrar. Fazia planos de procurá-Ia, conversar e, finalmente, dançar com ela. Esses desejos me ajudavam a viver. No Natal daquele ano, eu estava num buraco feito na neve, nos Apeninos. Fazia doze graus abaixo de zero. Lembro que desejei Feliz Natal para ela, com uma caneca de café. Finalmente a guerra acabou. Ao voltar para casa, depois de falar com minha família, fui procurá-Ia. Soube que estava para se casar. Senti um choque, mas procurei me conformar. Não podia, nem tinha o direito de importuná-Ia Tudo aquilo fora apenas uma ilusão.

Respirou fundo.

Muito tempo depois soube que se separara, mas não a procurei.

Olhou para mim.

– Sua mãe não merecia. Nunca mais a vi, mas em todos esses anos não houve um dia em que eu não pensasse nela.

Dirigiu-se ao quarto dos fundos, abriu o armário, mexendo em papéis colocados numa
caixa. Depois pegou uma velha vitrola portátil.

– Vamos sair.

– Sair pra onde, pai?

– Para o Cabanga, Não esqueça o disco.

Ele estava tão animado que não quis contrariá-lo. Minha irmã apareceu.

– Pra onde vão?

– Depois te conto.

Chegamos ao clube e ele desceu, parecendo vinte anos mais jovem. Dirigiu-se a parte antiga da sede, agora desocupada. Colocou o aparelho em cima de uma mesa, no canto.

– Procure uma tomada.

Coloquei o disco no prato e liguei o aparelho. Ele se dirigiu ao final do salão, tirou um pedaço de papel do bolso e o mostrou à cadeira a sua frente. Estendeu os braços, como se abraçasse alguém, e começou a dançar, bem suave. Quando a melodia terminou foi até as cadeiras e falou algo, que não ouvi. Senti meus olhos arderem. Voltou.

– Quero ir pra casa.

Eu o guiei, segurando seus braços. Voltara a ter os passos trôpegos. Não disse uma palavra e não ousei quebrar o encanto. Deitei-o na cama e retirei seus sapatos.

Á noite, minha irmã me telefonou.

– Venha agora. É urgente.

Não tive coragem de perguntar por quê. Ao chegar, ela se abraçou comigo.

– Ao vir chamá-lo para jantar não respondeu. Morreu dormindo.

– Uma de suas mãos estava entreaberta. Dentro havia um tíquete, amarelado pelo tempo. Batido à máquina, podia-se ler: “Cabanga Club: vale uma dança”

A carta: cadê tempo para pintar ?

02/10/2012 às 3:44 | Publicado em Artigos e textos | 3 Comentários
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Eu não havia lido esta carta, mas quando li este artigo, publicado na Revista Vilas Magazine, de agosto deste ano, fiquei com vontade de ler. É poesia em forma de prosa. Também pudera, uma carta de Caimmy para Jorge Amado só poderia ser assim ! Quem quiser clique na continuação deste post para ver a íntegra da carta.

CaimmyJorge


A CARTA  carta

Era uma tarde fria de julho, estranhamente bem fria para os padrões daqui, que não conhecia temperaturas abaixo de 20°. Era uma boa tarde para, aconchegada numa esspreguiçadeira à beira da janela, tomar um chocolate quente; olhar através das vidraças, a luzidia paisagem lavada nas recentes chuvas; ler um romance passado em terras de fog, de fiordes, de brumosas montanhas mágicas, ou sonhar com a serra de Lamartine Babo. Boa também para introverter-se, pensar na vida, no mundo e entregar-se às nostalgias todas, que elas também requerem quietude. Eis aí, talvez o porquê de tanto barulho e hiperatividade humana: não deixar a melancolia encostar, como se fosse sempre um grande mal, como se ocasionalmente não servisse à criação artística e para valorizar a alegria de viver.

A tarde era fria e estava prestes a enveredar pelas sendas da nostalgia quando recebi a carta, que aqueceu o dia e iluminou a alma. Não vinha de um grande amor, nem de amigos, embora me chegasse por intermédio de um deles, via e-mail. Na verdade, não fora escrita para mim, podendo ser tomada por um destes textos que circulam na rede. Não, não era texto construído para Internet. Era verdadeiramente uma carta, uma carta de Dorival Caymmi para Jorge Amado, que não precisava ter a veracidade confirmada, pois o teor, o linguajar, o estado de espírito a transparecer não deixavam dúvidas quanto á linhagem. Ainda assim, para não ser mais uma a cair na armadilha das costumeiras falsidades internéticas, fui atrás de comprovação.

Procurei daqui e dali guiada pelo faro jornalístico. E como quem procura, sempre acha, achei o artigo de Tatiana Mendonça, intitulado “As obrigações de Caymmi e outras artes”, publicado no blog O Purgatório, onde contava que encontrara a carta numa exposição em
homenagem ao centenário de Jorge Amado, no Museu da Língua Portuguesa e impressionada a reproduziu na íntegra após breve reflexão que lhe fora suscitada. De lá foi sendo divulgada em sucessivos sites até virar mensagem de e-mail. Mas o efeito que produziu não se deveu à celebridade do remetente e do destinatário. Mais valia a delícia do estilo, na mesma linha da perfeita simplicidade de suas canções e a poética sabedoria do quê dizia no monólogo em
feitio de bate-papo.

O dizer irradiava afeto, sensibilidade e amor logo no começo ao tratar dos seus bens maiores: a música, o mar, e a mulher de sua vida: Jorge, meu irmão, são onze e trinta da manhã e terminei de compor uma linda canção para Yemanjá pois o reflexo do sol desenha seu manto em nosso mar, aqui na Pedra da Sereia. Quantas canções compus para Janaína,
nem eu mesmo sei, é minha mãe, dela nasci. Talvez Stela saiba, ela sabe tudo, que mulher, duas iguais não existem, que foi que eu fiz de bom para merecê-Ia? Ela te manda um beijo, outro para Zélia e eu morro de saudade de vocês”. Adiante, um pedido da vaidade a soar em notas de risonha peraltice: Quando vierem, me tragam um pano africano para eu fazer
uma túnica e ficar irresistível
.

Em seguida, derramava lirismo no reparo dos azuis, dos cheiros, destas coisas corriqueiras, mas ainda assim, preciosas, em meio ao alegre vadear de amigos, bem à moda do jeito baiano de ser no tempo em que havia diálogos e a gostosa convivência sem pressas e sem medos. Tudo perpassado pelo bom humor de quem está sempre de bem com a vida: Ontem saí com Carybé, fomos buscar Camafeu na Rampa do Mercado, andamos por aí trocando pernas, sentindo os cheiros, tantos, um perfume de vida ao sol, vendo as cores, de azuis contamos mais de quinze e havia um ocre na parede de uma casa, nem te digo. Então ao voltar, pintei um quadro, tão bonito, irmão, de causar inveja a Graciano. de inveja, Carybé quase morreu e Jenner, imagine!, se fartou de elogiar, te juro. Um quadro simples: uma baiana, o tabuleiro com abarás e acarajés e gente em volta.

Então chegava à parte mais interessante, a mais filosófica, quando o missivista falava do seu processo de criação, da sua maneira de pensar e ser, passando lições de sabedoria. Se eu tivesse tempo, ia ser pintor, ganhava uma fortuna. O que me falta é tempo para pintar, compor vou compondo devagar e sempre, tu sabes como é, música com pressa é aquela droga que tem às pampas sobrando por aí. O tempo que tenho mal chega para viver: visitar
Dona Menininha
, saudar Xangô, conversar com Mirabeau, me aconselhar com Celestino sobre como investir o dinheiro que não tenho e nunca terei, graças a Deus, ouvir Carybé mentir, andar nas ruas, olhar o mar, não fazer nada e tantas outras obrigações que me ocupam o dia inteiro. Cadê tempo pra pintar?. Com singeleza e desprendimento, saboreava a existência que vale por si mesma, independente de condições e é sempre extraordinária até nas coisas mais banais. Viver é gozar da companhia dos amigos, é contemplar as belezas é admirar a vida, é degustar estas trivialidades. E para não perder estes pequenos, mas intensos, prazeres que lhe garantia a cota de felicidade diária, abria mão, ou melhor, não tinha tempo, de ganhar dinheiro, mesmo porque, como disse na cantiga, pobre de quem acredita! na glória o no dinheiro / para ser feliz.Quem, hoje em dia, presa da pressa na realidade virtual, onde o único valor cultuado é o dinheiro, entende tudo isso? Com certeza poucos,
mas estes lavam a alma ao ler a carta.

E Caymmi continuava, com o mesmo bom humor, dando notícia, que mais revelava do seu caráter: Sabes que vendi a casa da Pedra da Sereia? Pois vendi. Fizeram um edifício medonho bem em cima dela e anunciaram nos jornais: venha ser vizinho de Dorival Caymmi. Então fiquei retado e vendi a casa, comprei um apartamento na Pituba, vou ser vizinho de James e de João Ubaldo, daquelas duas línguas viperinas, veja que irresponsabilidade a
minha“. E finalizava voltando ao ponto de partida: Mas hoje, antes de me mudar, fiz essa canção para Yemanjá que fala em peixe e em vento, em saveiro e no mestre do saveiro, no mar da Bahia. Nunca soube falar de outras coisas. Dessas e de mulher. Dora, Marina, Adalgisa, Anália, Rosa morena, como vais morena Rosa, quantas outras e todas, como sabes, são a minha Stela com quem um dia me casei te tendo de padrinho. A bênção, meu padrinho, Oxôsst te proteja nessas inglaterras, um beijo para Zélia, não esqueçam de trazer meu pano africano, volte logo, tua casa é aqui e eu sou teu irmão Caymmi.

A carta era ainda prova de que “um outro mundo é possível”, ao menos havia sido nos tempos idos. E como “o passado não passa” conforme concluiu o poeta Ruy Espinheira Filho, este outro mundo permanece não só em quem o viveu, mas também na sociedade, para a qual fica como referência e esperança.

(Gilka Bandeira)


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Cinco artigos (3 – Nerds refinados)

09/03/2011 às 11:59 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Essa é a primeira vez, se não me falha a memória, que Caetano ‘visita’ este espaço. Claro que ele é também genial na prosa, não só na poesia de sua belas canções. Mas um dos motivos para este post, no rol dos ‘cinco artigos’ desta semana, é a questão da autoria que ele coloca no texto e que eu me bato desde antes de me iniciar nesta lide de blogueiro. Fiz um post em outubro de 2009 sob o título “A REVOLUÇÃO DAS TIC E A QUESTÃO DA AUTORIA”, quem dera se Caetano um dia pudesse ver isso e refletir, afinal como disse no post “A questão da autoria, num mundo cada vez mais hipertextual, tem que ser necessariamente revista.“

caetanoQuando escrevi que a internet e seu exército de internautas e blogueiros que se virem para introjetar as nossas leis, as leis que vigem off-line, me alegrei por fazer tão simplista exortação: os amantes da web, os jovens que querem divulgar suas criações sem pensar em organizações intermediárias, os neo-rousseauístas cibernéticos que veem essas hordas como bons selvagens, os que se fascinam com a criação coletiva e a “morte do autor” devem se esforçar para acolher os direitos humanos (sim, os direitos dos indivíduos humanos e dos grupos humanos) nos seus planos. Haverá quem me diga que iniciativas como o Creative Commons são justamente isso.

 


 

NERDS REFINADOS (Caetano Veloso)

Quando eu escrevia posts para o blog Obra em Progresso (essa tradução-piada para “trabalho em andamento” ou simplesmente “homens trabalhando”), sentia a intensidade da reação dos internautas que o visitavam e as repercussões de ira ou interesse em outros blogs e sites, mas pouca ou nenhuma reação das pessoas nas ruas. Muitos dos que enviavam comments para o blog se tornaram meus amigos aqui fora. Troco e-mails com eles e eventualmente os encontro em carne e osso. Muito bom. Mas é diferente escrever no GLOBO. Vou estacionar no Leblon para ir ao analista e uma senhora comenta que não imaginava que eu fosse capaz de escrever prosa com tanta desenvoltura. A avaliação me parece otimista demais e, se por um lado me faz pensar em quão alheia essa senhora esteve à existência do blog, por outro me impõe a evidência de que ela nem sabe que escrevi o livro “Verdade tropical”.
Parece que a leitura de jornais é hábito de uma tribo que conversa nas ruas — e não necessariamente lê livros que alguém como eu porventura escreva. Já a tribo que acompanha blogs não parece estar nas ruas dando sopa para conversar. O exemplo da senhora no Leblon é um entre mil. Nos aeroportos, nas salas de espera de consultórios médicos, na fila do cinema, sempre há alguém para comentar comigo, seja o artigo do último domingo, seja a série de artigos que venho publicando aqui. Como tenho tentado mediar a discussão sobre a questão dos direitos na era da internet, abordamme para falar do assunto. O gozado é que quando eu escrevia na internet ninguém aparecia para dizer que tinha lido, ou ao menos para demonstrar que sabia que eu mantinha um blog. Os que me leem no jornal falam até de suas relações com a web. Os que me liam na web nunca estavam nesses estaciona -mentos, salas ou filas. Isso me leva a considerar o fato de que Julian Assange passou a ser assunto de discussão em ônibus, esquinas e mesas de bar só depois que a imprensa divulgou os vazamentos que seu WikiLeaks vinha derramando na rede.
Sou um velho que tem dificuldade de reter o que lê na tela do computador. E uma muito menor propensão a crer no que lê ali do que no que lê impresso em papel. Talvez essas pessoas que comentam meus textos do GLOBO sejam, como eu, membros de uma espécie em extinção. Mas também é possível que os fatos que se passam na internet tenham uma vida restrita ao mundo de nossa relação com essa ferramenta. As interações entre os cidadãos que, na rua, trocam comentários sobre notícias de jornal e aqueles que vivem no mundo virtual a maior parte do tempo (ou os mais intensos dos seus momentos) talvez estejam mais bem traduzidas na Praça Tahrir. Mas o hábito de promover encontros socialmente relevantes através dos twitters e facebooks não se restringe aos últimos acontecimentos no mundo muçulmano. Da eleição de Barack Obama às promoções do grupo Queremos, que trouxe o Vampire Weekend para o Circo Voador, o papel da internet na organização de movimentações off-line tem se mostrado notável. Ainda assim, as relações do mundo aqui de fora com o de lá de dentro da rede estão por ser entendidas de modo satisfatório. Na verdade, parecem longe de sê-lo.
Já tivemos várias mortes do livro, do disco, do cinema. Este ia matar o teatro e ser assassinado pela TV. A internet criou a “nova economia” que se provou, depois do primeiro surto de euforia, uma bolha dessas que, quando explodem, levam alguns para perto do suicídio. Mas essa malha aparentemente incontrolável de comunicação entre computadores individuais que nasceu no Pentágono (não deveríamos manter tão tenazmente no esquecimento o fato de que a internet nasceu no Pentágono) não poderia simplesmente ter sua importância abalada por um primeiro erro de cálculo. Na sua segunda onda, a internet (que em inglês sempre se escreve com a inicial maiúscula) diz como veio para ficar e sugere admiráveis mundos novos. São mundos que fascinam e assombram.
Em meio a essas desorganizadas reflexões é que procuro pensar a questão dos direitos autorais no mundo virtual, c o m a i l u s ã o (também no sentido espanhol de desejo, anelo) de mediar a discussão que envolve tantos colegas e amigos. Quando escrevi que a internet e seu exército de internautas e blogueiros que se virem para introjetar as nossas leis, as leis que vigem off-line, me alegrei por fazer tão simplista exortação: os amantes da web, os jovens que querem divulgar suas criações sem pensar em organizações intermediárias, os neo-rousseauístas cibernéticos que veem essas hordas como bons selvagens, os que se fascinam com a criação coletiva e a “morte do autor” devem se esforçar para acolher os direitos humanos (sim, os direitos dos indivíduos humanos e dos grupos humanos) nos seus planos. Haverá quem me diga que iniciativas como o Creative Commons são justamente isso. Vamos ver. Até aqui, elas têm se esforçado mais para insinuar aos membros das espécies em extinção, aqueles que leem jornal de papel e falam sobre isso nas ruas, que seus direitos são suspeitos. Bem, talvez sejam (e quem comenta artigos de jornal nas ruas muitas vezes os lê na tela do laptop: para muitos já não faz falta o papel, o importante é o status do jornal e a assinatura do articulista). Cada um de nós deve encarar as dificuldades dessa transição com realismo. Espero que pessoas qualificadas — e não apenas ignorantes como eu — se disponham a enfrentar o desafio. Nerds refinados contribuirão.

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