A cachorrinha de Cony e meus paturis

22/01/2018 às 3:02 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 4 Comentários
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Como os bons estão indo, entendo que toda homenagem é pouca. Aqui mais uma ao Carlos Heitor Cony.  Mas dessa vez, sem bairrismos excessivos, a prosa-poesia de Jânio Ferreira Soares ainda é melhor que a de Cony.


A cachorrinha de Cony e meus paturis   janio_thumb

Escrever crônica pode parecer fácil, o que leva muita gente a cometê-las por aí – incluindo este ousado que vos tecla. O problema, minha cara leitora e digno leitor, é fazê-la de um jeito onde palavras não só digam, mas fascinem, como é o caso do luminoso canto de uma coleirinha que diariamente se exibe numa caraibeira no meu quintal, que no embalo do folguedo lança na cumeeira da casa seus derradeiros pingos amarelos, talvez para serenar a avidez das telhas pela chuva que não vem.

Lá nos anos 60/70, quando ainda vivia com peteca no pescoço e olhos em busca do que suspeitava existir, parecia haver uma conspiração praia-torresmo para que aqueles que viriam a ser alguns de nossos maiores cronistas nascessem em Minas e fossem morar no Rio, onde lá introduziriam nos principais jornais e revistas do país um jeito de escrever claramente inspirado nas coisas que rolavam nas quebradas das Gerais. Drummond, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Otto Lara Rezende foram alguns deles, sem falar em Rubem Braga (considerado por muitos o maior de todos) que, antecipando-se ao êxodo etílico-literário que invadiria Ipanema e adjacências, nasceu logo no meio do caminho, mais precisamente em Cachoeiro do Itapemirim (ES).

Meninote ainda, vibrava quando meu tio Lindemar chegava de Salvador com um monte de revistas e jornais debaixo do braço, ocasião em que me deleitava diante da foto de alguma nave Apolo soltando fogo pelo rabo, das malandragens do Amigo da Onça e, claro, do modo diferente dessa moçada transpor para o papel coisas que habitavam meu mundo. Foi aí que percebi que havia, sim, uma maneira de poetizar cheiro de mato, passarinhos, borboletas, tios na varanda, bichos de estimação e, principalmente, um certo rio que, se no meu caso passava longe de ser o de Janeiro, era o de Francisco, naquele tempo correndo forte e solto, sem nem sonhar que um dia seria desviado para fronteiras onde o messianismo dança forró com a desfaçatez.

Semana passada, quando da morte do bravo Cony, a Folha de São Paulo republicou Mila, uma crônica que ele fez em 1995 em homenagem a sua cachorrinha. Não tenho espaço para contá-la aqui, mas se você ainda não a leu, vale um Google. Com a categoria dos craques, ele segue por um caminho completamente oposto ao da época em que metia o sarrafo no golpe militar e dosa com precisão as gotas necessárias que a dor da perda precisa para curar a angústia de uma saudade.

Caçador de mangas que hoje sou, fico aqui na minha várzea assuntando satélites, estrelas e uns lindos paturis que resolveram morar num laguinho em frente. Em setembro eram dois. Hoje, são dezesseis. Quando chego perto todos mergulham, menos um. Pelo seu destemor, pelo mote e pela rima, batizei-o de Heitor.

(Janio Ferreira Soares)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 20.01.2018


MILA  cony

 

(Carlos Heitor Cony)

RIO DE JANEIRO – Era pouco maior do que minha mão: por isso eu precisei das duas para segurá-la, 13 anos atrás. E, como eu não tinha muito jeito, encostei-a ao peito para que ela não caísse, simples apoio nessa primeira vez. Gostei desse calor e acredito que ela também. Dias depois, quando abriu os olhinhos, olhou-me fundamente: escolheu-me para dono. Pior: me aceitou.
Foram 13 anos de chamego e encanto. Dormimos muitas noites juntos, a patinha dela em cima do meu ombro. Tinha medo de vento. O que fazer contra o vento?
Amá-la -foi a resposta e também acredito que ela entendeu isso. Formamos, ela e eu, uma dupla dinâmica contra as ciladas que se armam. E também contra aqueles que não aceitam os que se amam. Quando meu pai morreu, ela se chegou, solidária, encostou sua cabeça em meus joelhos, não exigiu a minha festa, não queria disputar espaço, ser maior do que a minha tristeza.
Tendo-a ao meu lado, eu perdi o medo do mundo e do vento. E ela teve uma ninhada de nove filhotes, escolhi uma de suas filhinhas e nossa dupla ficou mais dupla porque passamos a ser três. E passeávamos pela Lagoa, com a idade ela adquiriu “fumos fidalgos”, como o Dom Casmurro, de Machado de Assis. Era uma lady, uma rainha de Sabá numa liteira inundada de sol e transportada por súditos imaginários.
No sábado, olhando-me nos olhos, com seus olhinhos cor de mel, bonita como nunca, mais que amada de todas, deixou que eu a beijasse chorando. Talvez ela tenha compreendido. Bem maior do que minha mão, bem maior do que o meu peito, levei-a até o fim.
Eu me considerava um profissional decente. Até semana passada, houvesse o que houvesse, procurava cumprir o dever dentro de minhas limitações. Não foi possível chegar ao gabinete onde, quietinha, deitada a meus pés, esperava que eu acabasse a crônica para ficar com ela.
Até o último momento, olhou para mim, me escolhendo e me aceitando. Levei-a, em meus braços, apoiada em meu peito. Apertei-a com força, sabendo que ela seria maior do que a saudade.

(Carlos Heitor Cony)

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/6/04/opiniao/5.html

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O Andarilho

06/11/2017 às 3:20 | Publicado em Artigos e textos, Canto da poesia | 4 Comentários
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Esse vem do blog “Poesia, Futebol e Rock ‘n’ Roll“, do amigo Fabrício Junqueira que já esteve aqui antes (“Uma goleada do martelo”). Textos assim não consigo bem classificar. Talvez um mini-conto. Poesia em prosa certamente.

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O Andarilho

Um olhar distante e triste, um passo sem pressa, inverno de ventos que cortam a alma, garoa que molha, poça d’agua nas calçadas e um pé molhado, o antigo calçado pouco protegia. Assim caminhava um andarilho sem riso, sem expressão, atônito, perdido em lembranças vazias. Não pede, pouco olha, esqueceu palavras, nem mesmo consegue sentir a agora chuva fina gelada que molha suas roupas.

Um resto de pão no lixo, alimentando-se por instinto, não existe paladar, não recorda dos odores, sabores, apenas mastiga devagar. Esboça ruídos, algumas lágrimas acabam saindo, é quando consegue água, cada gole lento, parece ser á única coisa que ele entende, parece sentir ou gostar.

Muitas vezes está sentado em um dos bancos da praça. Olha em direção ao chão, e acaba dormindo… O susto é quase sempre seu companheiro de despertar. Então, volta a andar sem rumo, sem álcool ou qualquer droga, nenhum cão o segue fielmente, o próprio não se segue e se desconhece, uma existência que não está registrada, sem nome ou documentos.

Algumas vezes o andarilho desaparecia, a figura magra, idosa, ficava dias, até semanas sem aparecer no centro da cidade. Quando isso aconteceria, o povo apostava, quando ou se não voltaria do sumiço . Não foram poucas as vezes que perguntavam por ele.

Depois de um tempo, o andarilho já enraizado na cidade, não voltou. Sua vida não contabilizava, não era nem estatística, não possuía nenhum número.

Ninguém sentiu falta.

(Fabrício Junqueira)

FONTE: http://fabriciojunqueira.blogspot.com.br/2017/10/o-andarilho.html?m=1

Saramago

28/07/2014 às 3:06 | Publicado em Canto da poesia, Midiateca, Zuniversitas | 2 Comentários
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Mais de Saramago


Cabanga Club

01/06/2013 às 3:17 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Vejam que belo conto. Esse clube existe mesmo em Recife-PE (uma contribuição de minha irmã Moema que me enviou o original pelos Correios, devidamente escaneado por mim.)

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CABANGA CLUB (Paulo Afonso Paiva)

Há muito não ia ao centro da cidade. Caminhando sem destino vi uma feira de livros usados. Numa barraca, discos de vinil, entre os quais um fox – executado por orquestra americana – me chamou a atenção. Pensei em levá-lo para meu pai que gostava desse tipo de música.

Fui até sua casa onde o encontrei na sala com um jornal aberto diante dos olhos. Estava com oitenta e quatro anos e decaíra muito nos últimos tempos. Quando me aproximei, disse:

– Você viu Elza? Pedi meus óculos há tempo, mas ela não trouxe.

Fiquei calado. Faz oito anos que mamãe morreu. Coloquei o disco para tocar e enquanto a música se espalhava pelo ambiente ele a acompanhava, fazendo leves movimentos com a cabeça. Quandoo fox terminou seus olhos brilhavam. Perguntou:

– Como você soube?

– Soube o que, pai?

– Essa música …

– Eu não sei de nada. Estava na cidade e vi o disco. Achei que o senhor ia gostar. O que houve?

Olhou para mim estudando minha expressão. Quando se certificou que eu estava sendo sincero, começou a falar:

– Em 1944, o meu batalhão se preparava para ir àguerra. Uma vez fui ao Cabanga, onde a Igreja de Boa Viagem promevia, aos sáhados, dancings para os soldados. Eles compravam tíquetes, que davam direito a uma dança, cada um. As moças de família, que normalmente não dariam trela para nós, no clube atendiam a qualquer Um que lhe entregasse os bilhetes. Estavam fazendo a parte delas no esforço de guerra, diziam. O dinheiro apurado ia para as obras da Igreja.

Parou de falar, imerso em seus pensamentos.

– Eu comprei alguns, mas era muito inseguro. Fiquei pelos cantos sem dançar e então a vi. Tinha os cabelos louros, curtos e ondeados. Fiquei como se alguém tivesse me segurado pelos braços e me balançado. Ah! eu tinha vinte anos. Passei o resto da noite olhando-a de longe. Não dancei com ninguém. Às dez horas os organizadores acabaram o baile. Nos outros sábados eu estava de volta. Comprava dez tíquetes e nunca os usava Finalmente, uma noite quando já estava chegando o horário de fechar, a orquestra tocou essa música. Fui em direção a ela, mas outro cara se adiantou. Enfim ele a de: .. ou e lutando contra a timidez, me aproximei:

– Ôi, eu já vi você em outros sábados.

-Eu sei.

– Eu sou muito acanhado, por isso …

-Eu sei.

– Você quer dançar comigo?

-Sim.

Quando ela se levantou, o apresentador foi ao microfone, agradeceu e encerrou o baile. Nós rimos e nos dirigimos à saída. Um senhor se aproximou:

– Ana Paula, estou esperando no carro.

Ela me disse alguma coisa e nos despedimos:

– Até sábado.

– Até logo.

Na terça-feira pela madrugada, em segredo – para que algum espião não avisasse a um possível submarino inimigo – embarcamos para a Itália.

Parou um pouco.

– Ah, a estupidez da guerra! Vi cidades destruídas, crianças mortas e outras feridas, sofrendo. Odiei o exército alemão pelo que fazia, mas não todos os soldados inimigos. Grande parte deles era de sujeitos iguais a nós, querendo voltar pra casa Uma coisa que me dava esperança era lembrar. Fazia planos de procurá-Ia, conversar e, finalmente, dançar com ela. Esses desejos me ajudavam a viver. No Natal daquele ano, eu estava num buraco feito na neve, nos Apeninos. Fazia doze graus abaixo de zero. Lembro que desejei Feliz Natal para ela, com uma caneca de café. Finalmente a guerra acabou. Ao voltar para casa, depois de falar com minha família, fui procurá-Ia. Soube que estava para se casar. Senti um choque, mas procurei me conformar. Não podia, nem tinha o direito de importuná-Ia Tudo aquilo fora apenas uma ilusão.

Respirou fundo.

Muito tempo depois soube que se separara, mas não a procurei.

Olhou para mim.

– Sua mãe não merecia. Nunca mais a vi, mas em todos esses anos não houve um dia em que eu não pensasse nela.

Dirigiu-se ao quarto dos fundos, abriu o armário, mexendo em papéis colocados numa
caixa. Depois pegou uma velha vitrola portátil.

– Vamos sair.

– Sair pra onde, pai?

– Para o Cabanga, Não esqueça o disco.

Ele estava tão animado que não quis contrariá-lo. Minha irmã apareceu.

– Pra onde vão?

– Depois te conto.

Chegamos ao clube e ele desceu, parecendo vinte anos mais jovem. Dirigiu-se a parte antiga da sede, agora desocupada. Colocou o aparelho em cima de uma mesa, no canto.

– Procure uma tomada.

Coloquei o disco no prato e liguei o aparelho. Ele se dirigiu ao final do salão, tirou um pedaço de papel do bolso e o mostrou à cadeira a sua frente. Estendeu os braços, como se abraçasse alguém, e começou a dançar, bem suave. Quando a melodia terminou foi até as cadeiras e falou algo, que não ouvi. Senti meus olhos arderem. Voltou.

– Quero ir pra casa.

Eu o guiei, segurando seus braços. Voltara a ter os passos trôpegos. Não disse uma palavra e não ousei quebrar o encanto. Deitei-o na cama e retirei seus sapatos.

Á noite, minha irmã me telefonou.

– Venha agora. É urgente.

Não tive coragem de perguntar por quê. Ao chegar, ela se abraçou comigo.

– Ao vir chamá-lo para jantar não respondeu. Morreu dormindo.

– Uma de suas mãos estava entreaberta. Dentro havia um tíquete, amarelado pelo tempo. Batido à máquina, podia-se ler: “Cabanga Club: vale uma dança”

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