Do velhodorio@60para jucaboy@22

23/07/2018 às 3:16 | Publicado em Artigos e textos, Canto da poesia | Deixe um comentário
Tags: , ,

Poesia em prosa. Parabéns a Jânio Ferreira Soares e seus meninos !

Celebration with Balloons Candles and Cake


Do velhodorio@60para jucaboy@22

Rapaz, parece que foi ontem, mas naquele 21 de julho de 1996 em que eu fazia 38 e você alguns minutos de vida, o mundo ainda era analógico e girava na pegada da fita VHS que, sem nem desconfiar, registrou sua primeira storie.

O dia era um domingo, tal os domingos pré-iPhones costumavam ser, onde a parentada sempre chegava com panelas cheias de gordas delícias e baralhos nas mãos, enquanto avós inventavam mil brincadeiras para netos e agregados, que só findavam quando ninguém mais enxergava grama nem tronco de goiabeira, tudo acompanhado do sucesso do momento executado pelo É O Tchan, que de uma forma, digamos, didaticamente bizarra, orientava a meninada a botar a mão no joelho e dar uma baixadinha, mexendo gostoso, balançando a bundinha.

Lembro que quando lhe vi pela primeira vez passando no corredor da maternidade nos braços de nossa querida Dra. Jussara, o que mais me chamou a atenção foi a vermelhidão de seus lábios, a ponto de Júlia, então com 6, cutucar Luiza, que acabara de fazer 7, e cochichar – num misto de inveja de quem perdera o título de caçula e de entusiasmo pelo irmão que acabara de chegar – um: “Você viu, Iza, a boca dele parece um jambo!”.

Mas, como eu ia dizendo, depois de 37 anos recebendo camisas sociais que nunca usei (me perdoe a confissão, tia Fernanda) e calções estampados que logo esgarçavam de tanto uso, eis que o destino resolveu que era hora de me presentear com algo que realmente valesse a pena e aí ordenou, com aquela voz que todo destino que se preza deve ter: “Vai, Dr. Anilton, recompense aquele coitado do calção puído, lhe dando de presente esse mimo que durante nove meses esteve embrulhado no quentinho da bolsa amniótica de Valéria e que, a partir de agora, fará com que seu pai nunca mais fuja das festinhas “surpresa” e da inevitável hora do é pique, é pique, é pique, diante de um bolo com quatro velas chamuscando idades distintas”.

Pois muito bem, desde o começo da Copa, eu e sua mãe montamos acampamento no sítio onde você cresceu, cuja forma, aos poucos, vai voltando aos bons tempos. As mangueiras, por exemplo, desandaram a florir e o laguinho já tem patos e piabas. O inverno é que não está ajudando muito, mas, com jeito, dá pra afastar as baronesas em volta da bomba e puxar uma aguazinha da beira do nosso rio, coitado, que assim como amor da ciranda, também era pouco e se acabou.

Quanto à casa, já dá pra passar uma chuva. Semana passada livros e discos retornaram às estantes, panelas foram ariadas e colchões receberam um bom banho de sol. Agora só falta você chegar pra matar a saudade das paredes da sala, que não veem a hora de ouvir de novo um “rá-tim-bum, Juca!, Juca!, Juca!”. Nessa hora, se ninguém notar, estarei brincando de esconde-esconde. Te amo.

(Jânio Ferreira Soares)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 21.07.2018

Anúncios

A cachorrinha de Cony e meus paturis

22/01/2018 às 3:02 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 4 Comentários
Tags: , ,

Como os bons estão indo, entendo que toda homenagem é pouca. Aqui mais uma ao Carlos Heitor Cony.  Mas dessa vez, sem bairrismos excessivos, a prosa-poesia de Jânio Ferreira Soares ainda é melhor que a de Cony.


A cachorrinha de Cony e meus paturis   janio_thumb

Escrever crônica pode parecer fácil, o que leva muita gente a cometê-las por aí – incluindo este ousado que vos tecla. O problema, minha cara leitora e digno leitor, é fazê-la de um jeito onde palavras não só digam, mas fascinem, como é o caso do luminoso canto de uma coleirinha que diariamente se exibe numa caraibeira no meu quintal, que no embalo do folguedo lança na cumeeira da casa seus derradeiros pingos amarelos, talvez para serenar a avidez das telhas pela chuva que não vem.

Lá nos anos 60/70, quando ainda vivia com peteca no pescoço e olhos em busca do que suspeitava existir, parecia haver uma conspiração praia-torresmo para que aqueles que viriam a ser alguns de nossos maiores cronistas nascessem em Minas e fossem morar no Rio, onde lá introduziriam nos principais jornais e revistas do país um jeito de escrever claramente inspirado nas coisas que rolavam nas quebradas das Gerais. Drummond, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Otto Lara Rezende foram alguns deles, sem falar em Rubem Braga (considerado por muitos o maior de todos) que, antecipando-se ao êxodo etílico-literário que invadiria Ipanema e adjacências, nasceu logo no meio do caminho, mais precisamente em Cachoeiro do Itapemirim (ES).

Meninote ainda, vibrava quando meu tio Lindemar chegava de Salvador com um monte de revistas e jornais debaixo do braço, ocasião em que me deleitava diante da foto de alguma nave Apolo soltando fogo pelo rabo, das malandragens do Amigo da Onça e, claro, do modo diferente dessa moçada transpor para o papel coisas que habitavam meu mundo. Foi aí que percebi que havia, sim, uma maneira de poetizar cheiro de mato, passarinhos, borboletas, tios na varanda, bichos de estimação e, principalmente, um certo rio que, se no meu caso passava longe de ser o de Janeiro, era o de Francisco, naquele tempo correndo forte e solto, sem nem sonhar que um dia seria desviado para fronteiras onde o messianismo dança forró com a desfaçatez.

Semana passada, quando da morte do bravo Cony, a Folha de São Paulo republicou Mila, uma crônica que ele fez em 1995 em homenagem a sua cachorrinha. Não tenho espaço para contá-la aqui, mas se você ainda não a leu, vale um Google. Com a categoria dos craques, ele segue por um caminho completamente oposto ao da época em que metia o sarrafo no golpe militar e dosa com precisão as gotas necessárias que a dor da perda precisa para curar a angústia de uma saudade.

Caçador de mangas que hoje sou, fico aqui na minha várzea assuntando satélites, estrelas e uns lindos paturis que resolveram morar num laguinho em frente. Em setembro eram dois. Hoje, são dezesseis. Quando chego perto todos mergulham, menos um. Pelo seu destemor, pelo mote e pela rima, batizei-o de Heitor.

(Janio Ferreira Soares)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 20.01.2018


MILA  cony

 

(Carlos Heitor Cony)

RIO DE JANEIRO – Era pouco maior do que minha mão: por isso eu precisei das duas para segurá-la, 13 anos atrás. E, como eu não tinha muito jeito, encostei-a ao peito para que ela não caísse, simples apoio nessa primeira vez. Gostei desse calor e acredito que ela também. Dias depois, quando abriu os olhinhos, olhou-me fundamente: escolheu-me para dono. Pior: me aceitou.
Foram 13 anos de chamego e encanto. Dormimos muitas noites juntos, a patinha dela em cima do meu ombro. Tinha medo de vento. O que fazer contra o vento?
Amá-la -foi a resposta e também acredito que ela entendeu isso. Formamos, ela e eu, uma dupla dinâmica contra as ciladas que se armam. E também contra aqueles que não aceitam os que se amam. Quando meu pai morreu, ela se chegou, solidária, encostou sua cabeça em meus joelhos, não exigiu a minha festa, não queria disputar espaço, ser maior do que a minha tristeza.
Tendo-a ao meu lado, eu perdi o medo do mundo e do vento. E ela teve uma ninhada de nove filhotes, escolhi uma de suas filhinhas e nossa dupla ficou mais dupla porque passamos a ser três. E passeávamos pela Lagoa, com a idade ela adquiriu “fumos fidalgos”, como o Dom Casmurro, de Machado de Assis. Era uma lady, uma rainha de Sabá numa liteira inundada de sol e transportada por súditos imaginários.
No sábado, olhando-me nos olhos, com seus olhinhos cor de mel, bonita como nunca, mais que amada de todas, deixou que eu a beijasse chorando. Talvez ela tenha compreendido. Bem maior do que minha mão, bem maior do que o meu peito, levei-a até o fim.
Eu me considerava um profissional decente. Até semana passada, houvesse o que houvesse, procurava cumprir o dever dentro de minhas limitações. Não foi possível chegar ao gabinete onde, quietinha, deitada a meus pés, esperava que eu acabasse a crônica para ficar com ela.
Até o último momento, olhou para mim, me escolhendo e me aceitando. Levei-a, em meus braços, apoiada em meu peito. Apertei-a com força, sabendo que ela seria maior do que a saudade.

(Carlos Heitor Cony)

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/6/04/opiniao/5.html

O Andarilho

06/11/2017 às 3:20 | Publicado em Artigos e textos, Canto da poesia | 4 Comentários
Tags: ,

Esse vem do blog “Poesia, Futebol e Rock ‘n’ Roll“, do amigo Fabrício Junqueira que já esteve aqui antes (“Uma goleada do martelo”). Textos assim não consigo bem classificar. Talvez um mini-conto. Poesia em prosa certamente.

2006-andarilho-04


O Andarilho

Um olhar distante e triste, um passo sem pressa, inverno de ventos que cortam a alma, garoa que molha, poça d’agua nas calçadas e um pé molhado, o antigo calçado pouco protegia. Assim caminhava um andarilho sem riso, sem expressão, atônito, perdido em lembranças vazias. Não pede, pouco olha, esqueceu palavras, nem mesmo consegue sentir a agora chuva fina gelada que molha suas roupas.

Um resto de pão no lixo, alimentando-se por instinto, não existe paladar, não recorda dos odores, sabores, apenas mastiga devagar. Esboça ruídos, algumas lágrimas acabam saindo, é quando consegue água, cada gole lento, parece ser á única coisa que ele entende, parece sentir ou gostar.

Muitas vezes está sentado em um dos bancos da praça. Olha em direção ao chão, e acaba dormindo… O susto é quase sempre seu companheiro de despertar. Então, volta a andar sem rumo, sem álcool ou qualquer droga, nenhum cão o segue fielmente, o próprio não se segue e se desconhece, uma existência que não está registrada, sem nome ou documentos.

Algumas vezes o andarilho desaparecia, a figura magra, idosa, ficava dias, até semanas sem aparecer no centro da cidade. Quando isso aconteceria, o povo apostava, quando ou se não voltaria do sumiço . Não foram poucas as vezes que perguntavam por ele.

Depois de um tempo, o andarilho já enraizado na cidade, não voltou. Sua vida não contabilizava, não era nem estatística, não possuía nenhum número.

Ninguém sentiu falta.

(Fabrício Junqueira)

FONTE: http://fabriciojunqueira.blogspot.com.br/2017/10/o-andarilho.html?m=1

Saramago

28/07/2014 às 3:06 | Publicado em Canto da poesia, Midiateca, Zuniversitas | 2 Comentários
Tags: , , ,

Mais de Saramago


Próxima Página »

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d blogueiros gostam disto: