Em nome de quem ?

05/08/2020 às 3:53 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Esse eu recebi de uma grande amiga que é Psicóloga, via zapzap. É de fato um excelente texto sobre nossa realidade. O paralelo entre João de “Deus” e o atual presidente da República é muito bom. Os esclarecimentos com base em grandes filósofos e o resgate histórico da época de Hitler são enriquecedores.

Exclamacao


Em nome de quem?

Depois de ter que digerir muita angústia, raiva, nojo e tristeza, consegui terminar de assistir ao documentário “Em nome de Deus”, produzido pela Globoplay. Trata-se de uma série, em 6 capítulos, que revela história de João Teixeira de Faria, desde o seu surgimento como líder espírita, até sua transformação em João de Deus, seguida de sua condenação e prisão por abuso sexual em 2018. O líder espírita fundou, em 1976, a “Casa de Dom Inácio de Loyola” e, desde então, se destacou fazendo curas e cirurgias espirituais de toda a espécie, se consolidando assim, como o maior médium brasileiro da atualidade. Localizada em Abadiânia, Goiás, “a Casa” recebia semanalmente milhares de pessoas de várias partes do Brasil e do mundo, muitas delas desenganadas pela medicina tradicional, em busca de curas e milagres. Nos seus mais de 40 anos de trabalho religioso, João de Deus conquistou respeito, admiração e fama, inclusive, internacional. Um “homem santo”, à prova de qualquer suspeita.

Mas em 2018, no programa Conversa com Bial, da Rede Globo, a holandesa Zahira Lieneke Mous deu uma entrevista denunciando João de Deus por abuso sexual durante uma “consulta espiritual”. Depois da repercussão da entrevista, centenas de mulheres também decidiram se pronunciar, acusando o médium de abuso e estupro. Algumas delas, inclusive, já haviam denunciado o médium anteriormente, pelos mesmos crimes, inclusive por tentativa de assassinato, mas foram desacreditadas na época. Dentre as vítimas está a própria filha de João Teixeira, abusada desde os 10 anos de idade. As investigações de abuso acabaram por abrir caminhos para desmontar diversas facetas criminosas que sustentavam João de Deus e “a Casa”, envolvendo armas, muito dinheiro e uma espécie de rede miliciana de poder.

O documentário é indigesto por motivos óbvios, em especial pelos depoimentos fortes, carregados de sofrimento, vergonha e revolta, das mulheres que toparam falar sobre as violências sofridas, regadas com medo e silêncio. A série se ocupa de traçar o perfil de abusador serial do médium, um predador compulsivo de mulheres, que se aproveitava da fragilidade e da confiança das mesmas, de seu suposto poder divino e de seu poder político na região de Abadiânia, para impor suas vontades sexuais. Deste modo, a obra jornalística cumpre, principalmente, a função de dar lugar à palavra das mulheres silenciadas e fazer cair um mito.

Entretanto, o documentário nos leva a outras questões importantes,, especialmente nesses tempos de hoje. Como e por que milhares e milhares de pessoas se deixaram enganar por mais de 40 anos, pela “santidade” de João de Deus? O que faz as pessoas depositarem sua fé e se entregarem de modo tão subserviente, abnegado e sem crítica a essas espécies de líderes charlatões e cretinos? Sim, porque João de Deus não está sozinho e nem é raro. Tanto na religião quanto no campo da política, invariavelmente, despontam esses líderes de massa que tiram proveito perverso de sua posição, parasitando e violentando seu rebanho, para exercício de poder e gozo próprios.

Mas, é importante compreender que alguém só alcança esse nível de poder porque conta com a conivência, a participação e a autorização de muitas pessoas. O tamanho da capacidade de sugestão e de domínio de um líder é diretamente proporcional a quantidade de pessoas, de instâncias e instituições que o autoriza. Pensando deste modo, dizer que João de Deus é um criminoso-canalha-perverso que se aproveitou de sua condição para parasitar suas vítimas, não é suficiente para explicar o fenômeno. É preciso também considerar que aquela massa de fiéis desejava um João de Deus para servir. Desejava um homem poderoso e santo, para o qual poderiam entregar seu desamparo e seu sofrimento. João de Deus chegou aonde chegou porque contou com o apoio, a conivência e o silêncio de muita gente e por muito tempo.

No século XVI, Étienne de La Boétie, escreveu o Discurso da Servidão Voluntária; uma ode à liberdade. As questões levantadas pelo jovem pensador eram: Como pode apenas um homem subjugar milhões? O que faz com que as massas se curvem a um único tirano? Para La Boétie, elas não o fazem por serem forçadas ou constrangidas, já que são muito mais fortes que seu líder, elas o fazem voluntariamente. Elas desejam sacrificar sua liberdade alienando-a ao tirano, e escolhem essa opção por serem educadas para tal, já que o ser humano seria naturalmente livre.

Freud trabalhou o mesmo tema, mas de uma forma um pouco diferente. Para Freud, os sujeitos se submetem voluntariamente a líderes, mesmo os mais perversos e tirânicos, mas por ser esse o recurso humano mais primário para lidar com o desamparo. Para a psicanálise, a fragilidade e imaturidade biológica do ser humano, o obriga a ingressar no mundo numa condição de total alienação a um outro ser, aquele que cumpre as funções de maternagem. A função-mãe seria nosso primeiro “tirano”, tirania sem a qual não sobreviveríamos. Portanto, a alienação e a submissão são nossa passagem de entrada na cultura, é ao longo da vida e do processo educativo que vamos nos separando desse Outro primordial, e criando condições de liberdade. Todavia, em situações de desamparo e fragilidade, ficamos suscetíveis a uma espécie de regressão que busca encontrar na submissão a certas lideranças (políticas ou religiosas), aquela condição originária de alienação; um lugar psiquicamente mais confortável para lidar com afetos, como angústia e medo.

Mas é muito importante que se entenda que essa escolha de alienação, submissão e subserviência é uma escolha voluntária, como dirá La Boétie, entretanto, na compreensão freudiana, não se trata de um voluntarismo racional e consciente. Na medida em que existe o inconsciente, e o eu de um sujeito não é “senhor em sua própria casa”, esse voluntarismo ocorre à revelia do comando da razão. São esses mecanismos inconscientes a matéria-prima e o alvo de líderes messiânicos e tirânicos. O fato é que figuras como João de Deus não se explicam apenas pelo seu carisma e falta de caráter, elas só existem porque há centenas de milhares de pessoas dispostas a autorizá-las e desejosas em acreditar nelas e suas soluções milagrosas.

A psicologia fascista

Cheguei até aqui para dizer que o documentário “Em Nome de Deus” é uma obra importante também para compreendermos o Bolsonarismo e sua estrutura psicológica fascista. Diferente de outros presidentes que tivemos, Bolsonaro não é um fenômeno da política democrática republicana, apesar de ter chegado ao poder pelo voto. Dois anos depois de sua posse, fica cada vez claro que o que ainda sustenta Bolsonaro no poder tem a ver com o que chamamos psicologia das massas. Bolsonaro já quebrou todas as pontes políticas possíveis; com partidos, com aliados políticos, com as instituições democráticas, com instâncias internacionais e com a imprensa. Tal como João de Deus, Bolsonaro só se mantém na presidência porque foi capaz de encarnar um tirano messiânico milagreiro, que tanto agrada as massas desalentadas e amedrontadas. Graças ao mecanismo psíquico regressivo próprio de relações do tipo fascista, Bolsonaro pode até mesmo violentar, vilipendiar e subjugar seu povo, e ainda assim, mantê-lo fiel e obediente, aguardando o milagre. Uma foto recente de Bolsonaro diante de seus seguidores mais fervorosos, levantando com as duas mãos uma caixa de cloroquina, é emblemática para ilustrar esse fato. É o Messias oferecendo a salvação para seu povo assolado por uma pandemia de escala mundial, que já matou 87 mil brasileiros. Tal como acontecia com os frequentadores da Casa Santo Inácio de Loyola, os adeptos do Bolsonarismo já abandonaram a ciência,deixaram de escutar as orientações da medicina tradicional – talvez porque elas não são capazes mesmo de oferecer o milagre que tanto desejam. O Bolsonarismo é capaz de fazer com que essa Nação siga suportando o absurdo de estar, há cerca de 3 meses, sem Ministro da Saúde, ou seja, sem nenhuma estratégia política racional a nível nacional. Mas Bolsonaro oferece o milagre da cloroquina, e isso basta para manter o transe coletivo da massa.

Hipnose Coletiva

Freud considerava a hipnose como um fenômeno que ocorre entre duas pessoas, entretanto, em se tratando de psicologia de massas, ele afirma que o líder é capaz de coletivizar esse encantamento hipnótico. Foi isso que permitiu que Hitler garantisse o consentimento da sociedade alemã para assassinar de forma intencional, premeditada e racional, 7 milhões de Judeus.

“Em Nome de Deus” mostra os frequentadores “da Casa”, embalados numa espécie de transe hipnótico coletivo, se submetendo a todo tipo de intervenção. Sob a vista de todos, e sem nenhum cuidado especializado, os fiéis são cortados, perfurados e costurados. Já em ambientes restritos, aconteciam os abusos e estupros denunciados pelas mulheres. No relato delas também fica evidente um tipo de submissão hipnótica. Demoravam a se dar conta do abuso, e quando isso acontecia, usavam a negação como mecanismo de defesa. Talvez uma recusa em enxergar a verdade insuportável; de que foram abusadas, de que o mito que endeusavam tanto não existia, e de que o milagre que esperavam não viria.

Parte do Brasil está sob a onda hipnótica fascista do Bolsonarismo, e outra parte está refém dessa massa irracional, tentando descobrir o que fazer para acordá-la. Já faz tempo que entendemos que não existe argumento racional capaz de tirá-la desse transe. Também já está evidente que o comando hipnótico está sendo feito, preponderantemente, pelas redes sociais, em especial pelo Whatsapp, com a ajuda dos robôs. A pesquisadora e antropóloga, Rosana Pinheiro Machado, escreveu no dia 21 de julho, para o The Intercept Brasil, sobre o último monitoramento realizado por sua equipe. Eles analisaram 2.513 grupos de WhatsApp bolsonaristas, 93.886 usuários e mais de 5 milhões de mensagens conspiracionistas sobre o coronavírus compartilhadas desde fevereiro. A constatação é de que eles continuam a todo vapor, fabricando as verdades que interessam a manutenção do governo. Ela afirma ainda que acabar com o “gabinete do ódio” não é suficiente para quebrar essa rede, já que ela é muito mais autônoma, horizontal, autofinanciada do que se imagina.

Theodor Adorno, escreve em 1951,sobre a propaganda Fascista de Hitler. Ele afirma que os alemães não acreditavam realmente que os judeus eram o demônio, mas toparam participar dessa encenação, pois assim eles puderam, autorizados uns pelos outros, extravasar seus ímpetos pulsionais primitivos, sem terem que assumir que estavam revogando o pacto civilizatório. É exatamente esse caráter fictício da psicologia de grupo, que torna as multidões fascistas tão impiedosas e inalcançáveis. “Se elas parassem para refletir por um segundo, toda a encenação se despedaçaria e elas entrariam em pânico”, diria Adorno.

A verdade difícil de escutar é que, nem João de Deus e nem Bolsonaro subjugam e abusam do seu povo Em Nome de Deus, eles o fazem em nome do seu próprio povo. Eles são o que são porque há muitos que querem que seja assim, e sabemos que não há argumento suficientemente forte para mostrar a verdade para quem não deseja  enxergá-la, mesmo que isso signifique arriscar-se à morte. Essas pessoas preferem à morte real à morte subjetiva, o que aconteceria caso tivessem que admitir que estavam vivendo uma mentira.

Há uma cena no documentário, que ilustra muito bem o parágrafo acima. Nela, Bial entrevista o ator Marcos Frota, um dos seguidores, amigos e assistentes de João de Deus. Frota está nitidamente desconfortável, tentando elaborar as informações que levaram João de Deus para a prisão, e em dado momento, repete em sequência, por cerca de 10 vezes, a seguinte frase: “Não sou eu quem cura, quem cura é Deus” (frase que era dita pelo médium). Ao terminar a repetição, com o olhar absorto, como se recitasse uma profissão de fé, o ator diz: “Não pode haver hipocrisia numa frase como essa… E Deus é um mistério tão grande!” Frota diz isso como quem prefere acreditar que Deus poderia ter autorizado todas aquelas atrocidades, do que admitir que, por 20 anos, se deixou enganar por uma mentira.

Como quebrar o encanto das massas?

Na Alemanha Nazista, a massa só despertou com a derrocada na guerra e a morte de Hitler. Houve os que preferiram se matar ou se deixar matar, a enxergar o que haviam feito com os judeus, tudo em nome de Deus e da Pátria.

O documentário talvez nos dê algumas pistas importantes de como quebrar esse encanto. Primeiramente, é fundamental que o líder seja retirado de cena. Sem ele, a estrutura se desmonta. E para derrubar o líder, não há outro caminho que não seja denunciá-lo, nesse ponto a imprensa é peça chave. Mas a melhor denúncia, a mais efetiva, é aquela feita por quem já esteve do lado de lá, por quem já experimentou daquele torpor hipnótico. Por isso, temos que sim, dar voz aos decepcionados, acolher seus discursos, não para perdoá-los ou coisa parecida (não é disso que se trata aqui), mas para possibilitar que muitos outros se identifiquem a esse novo discurso, e participem dessa nova coletividade: a dos “Bolsonaristas reabilitados”.

João de Deus agiu por 40 anos sem ter sua imagem arranhada e a entrevista de uma só mulher despertou mais de 500 outras, em alguns meses, desmontando seu império. É preciso entender que ninguém vai abandonar a massa Bolsonarista para ficar sozinho, essas pessoas vão precisar de acolhida em uma nova coletividade. Elas vão precisar fazer parte de uma outra coisa. Também vai ser necessário ganhar a guerra, que no nosso caso, é virtual, e segundo a antropóloga Rosana Pinheiro Machado, eles estão nos vencendo por W.O.

Adorno dizia que o grito de guerra nazista “desperte Alemanha!” escondia precisamente o seu contrário. Não consigo deixar de pensar no nosso lema de 2013, “O gigante acordou!” que, ao que parece, serviu também a esse propósito de nos botar pra dormir.

Só espero que ainda haja tempo de acordarmos.

(Rita Almeida)

Marden Filho – Desinstitucionalização dos usuários internados em manicômios judiciários

29/07/2020 às 11:49 | Publicado em Midiateca, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Uma grande honra para mim fazer este post com entrevista de meu sobrinho e Mestre Marden Filho, doutorando em Psicologia na UFF.


Estamos viciados em ser infelizes

19/02/2018 às 3:05 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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O título desse artigo do PapoDeHomem é forte, mas verdadeiro. Estamos diante de uma epidemia ? Parece que sim. Quando vejo o que está acontecendo, me preocupo mais com os maduros/idosos como eu do que com os jovens. Um maduro/idoso cair nessa onda (ou será tsunami ?) para mim beira o ridículo. Parabéns ao autor do artigo, Vitor Hugo Felix, pela forma didática que apresentou o tema e pela pesquisa feita. Confiram !


Estamos viciados em ser infelizes

Como a economia da atenção estimulou as empresas de tecnologia a hackearem nossas mentes e o impacto disso sobre nossa qualidade de vida

A cena é rotineira.

Tinha sentado para estudar há duas horas. Livros dispostos sobre a mesa, cadernos abertos, canetas alinhadas, tela do word em branco aberta no notebook pronta para os resumos nunca iniciados quando se deu conta de que não tinha feito nada. Estava há duas horas entre vídeos de cachorros e textões no Facebook. Dessa vez se sentiu impotente. Ele precisava do relaxamento daquela distração tão facilmente obtida.

1. Eu paro quando quiser

O uso das redes sociais vêm nos tornando mais miseráveis.

A quantidade de evidências indicando isso fica cada dia maior. Elas aumentam níveis de ansiedade, depressão, stress (com impacto significante em nível sérico de cortisol, o “hormônio do stress”). Pioram a auto-estima, a qualidade do sono e erodem a capacidade de relação interpessoal, com correlação entre quantidade de uso e sensação de solidão.

Existiam dúvidas se a causa desses efeitos era devido a forma de uso das mídias sociais. Ou se pessoas mais propensas a se sentir dessa maneira, por causa disso usavam mais redes sociais. Mas os últimos estudos mostram que o mero uso já está negativamente associadas com bem-estar e satisfação de vida para qualquer um.

As razões para isso são diversas. Uma ideia que é central para o funcionamento das redes sociais é o FOMO (Fear Of Missing Out) ou medo de ser deixado de fora. É um sentimento inato ao nosso ser social que conhecemos intrinsecamente das nossas experiências. Pense quando um grupo de pessoas ficou fazendo piadas internas sem te informar, ou quando você não pode aparecer numa festa e fica pensando no que pode ter perdido.

FOMO sempre existiu, e trouxe consigo stress e ansiedade, de saber o que os outros estão fazendo, se estão se divertindo mais que você. A questão é que redes como o Facebook e o Instagram exponenciaram esse sentimento ao te permitir se comparar a cada segundo com milhões de pessoas que estão 24h por dia se divertindo nas Bahamas, enquanto você está usando o celular debaixo das cobertas. Se comparar com os outros, ainda mais num ambiente forjado e controlado como o das redes sociais, faz com que muitos pessoas criem expectativas irrealistas, diminuam sua auto-estima e desenvolvam depressão.

E além de fomentar ansiedade, outro problema do FOMO é que a retroalimentação dele é positiva. Quanto mais você acha que está de fora, e sabendo menos da vida dos outros que a aproveitam, mais você checa suas notificações e seu feed a cada minuto pra se manter “por dentro” e mais ansioso você fica.

Essa própria pressão – de se manter conectado – surge muitas vezes dos nossos próprios amigos. Toda vez que citam um vídeo, ou um meme, que você não conhece, isso te estimula a se manter mais tempo conectado e informado. E você aos outros.

E essa necessidade de saber tudo sempre o tempo todo, causa um sentimento que vem sendo nomeado de Síndrome do Pensamento Acelerado. Basicamente uma sobrecarga nos nossos circuitos devido a um excesso de informação, estímulos sonoros e visuais constantes. Causando mais ansiedade, flutuações de humor, déficits de memória e uma fadiga mental generalizada. E mesmo assim continuamos retornando.

E esse uso contínuo, até na cama antes de dormir, impacta na qualidade e quantidade de sono. A luz emitida por nossos aparelhos possui uma quantidade maior de comprimentos de onda azul que a luz natural. Esse espectro pode impactar na secreção de melatonina (o hormônio do sono) e prejudicar um período de descanso. E problemas de sono, já são sabidamente correlacionados com (novamente): depressão, cansaço, irritabilidade.

Citei apenas alguns fatores implicados na causalidade da sintomatologia de pior qualidade de vida causado pelo uso constante das redes sociais. Por que então não conseguimos parar? Será que os benefícios que esses sites trazem são tantos que relevamos tudo isso?

Minha tese é outra. Nós estamos viciados.

Nós fomos viciados. Porque mais de 40 anos de pesquisa psicológica comportamental conseguiram descobrir toda nossa irracionalidade. E como alcançar ela. E todos os engenheiros sociais do Vale do Silício passam o dia se esforçando para introduzir esses conceitos em seus produtos. Maneiras de acessar nosso cérebro inconsciente e ativar o interruptor do centro de prazer e recompensa. Só o suficiente para que continuemos voltando incessamente a uma ferramenta que nos causa mal.

E não sou eu que estou dizendo isso. Mas muita gente que está dentro do Google,Facebook, percebeu isso. E estão tentando nos salvar desse sequestro.

2. A Economia da Atenção

Para entender como chegamos até aqui, precisamos antes entender o que move esse sistema. Quem ganha o quê ao te grudar na tela.

O nascimento e crescimento da internet foi uma das maiores revoluções da história. O acesso a (qualquer) informação foi facilitado à distância (literal) de um dedo. Posso aprender mais sobre a fabricação de sapatos tailandeses no café da manhã e em seguida me aprofundar no estudo de teoria musical pelo Youtube. E isso é, sinceramente, maravilhoso.

Existe aí um único impeditivo para aproveitar todo esse conhecimento. Um único recurso escasso que estou gastando minuto a minuto ao longo do dia, a cada vez que escolho abrir o facebook, e a cada letra que coloco nesse texto. Minha atenção.

A transformação econômica das últimas décadas levou cada vez menos trabalhadores a estar envolvidos com processos produtivos de criação, transporte e distribuição de produtos, mas trabalhando com informação. O que levou muita gente a classificar o momento vivido como uma Economia da Informação. Mas frequentemente a economia de uma sociedade é definida a partir de seus recursos escassos. Pense em uma economia agricultora na escassez de terra medieval e uma economia industrial baseada na escassez de trabalho. Em um mundo baseado em informação, sobrecarregado dela, a atenção individual é a commodity que todos estão atrás. Ou como foi colocado por Matthew Crawford: “Atenção é um recurso – algumas pessoas têm apenas uma quantidade limitada dela”.

Esta é a teoria da Economia da Atenção. Termo criado na década de 1970 por Herbert Simon e popularizado depois da consolidação da web no fim dos anos 1990 pelo físicoMichael Goldhaber. Você não precisa mais gastar dinheiro para estar consumindo. Você está gastando outra moeda de troca. Sua atenção.

E essa foi a base sobre qual a internet se construiu e conseguiu se monetizar. As propagandas (ads) online que ainda movem grande parte do lucro dos sites pagam de acordo com essa lógica. Quanto mais acessos (views) um site consegue, mais ele recebe. E quais sites recebem mais visitas? Os mais eficazes em conquistar sua atenção. Isso levou a vários problemas como as manchetes enganosas, notícias escolhidas a dedo para gerar indignação, as listas do Buzzfeed. Todas estratégias buscando mais cliques. Há uma discussão em curso para mudar os problemas inerentes a esta maneira de remuneração para uma que privilegie uma métrica de tempo de permanência na página. A ideia é que isto estimularia um conteúdo de mais qualidade. Ou levaria as plataformas a ficar ainda mais eficazes em estimular o compromisso (engagement) individual com elas e reter cada vez mais pessoas.

Ou seja, as mídias sociais, os sites, estão jogando a partir das regras que estão postas. Citando Adam Alter, autor do livro Irresistible: The Rise of Addictive Technology and the Business of Keeping Us Hooked (em tradução livre algo como: “Irresistível: a ascensão da tecnologia viciante e os negócios de nos manter fisgados”, ainda sem tradução no Brasil):

Eu não creio que as empresas de mídia social estão tentando fazer plataformas ‘viciantes’ per se. Mas como todas estão competindo pelo nosso tempo e atenção (limitados) elas sempre estão focadas em criar a experiência mais cativante possível”.

O problema nasce da tendência dessas plataformas de maximizar seu lucro, da necessidade de conquistar cada vez mais sua atenção para não perder para o concorrente.

Ganha quem for capaz de criar um hábito, quem conquista o tempo do usuário. O presidente da Netflix, mais ou menos brincando, disse que seus 3 maiores concorrentes são o Youtube, o Facebook e o sono das pessoas. Afinal de contas são oito horas por dia que você não está gastando sua atenção ao ficar deitado na cama.

Ao ver um estudo americano com 205 pessoas entre 18 e 85 anos que concluiu que o desejo de estar diariamente em alguma rede social é maior que o desejo de dormir ou descansar, te faz refletir o quão assustadoramente eficiente as grandes empresas da internet estão ficando em redirecionar nossa atenção para fora do nosso controle. Tanto que nem percebemos mais.

Em 1997, Michael Goldhaber previra “a possibilidade que a demanda cada vez crescente pela nossa limitada atenção vai nos impedir de refletir ou pensar profundamente, quanto mais de aproveitar o lazer, o tempo de descanso”. Sua maior vontade num fim de semana envolve o quê? Poder usar desse tempo para saciar desenfreadamente da internet ou aproveitar o tempo com pessoas próximas? Pense bem antes de responder.

3. O casamento perfeito

Ao longo da adolescência da internet, durante os anos 2000, nos idos de ICQ, Orkut e MySpace existia uma quantidade limitada de técnicas que podiam ser usadas para agarrar sua atenção quando a relação de uso da internet dependia de se sentar em frente ao computador. Claro que já existiam estudos na área de vício na internet e oWorld of Warcraft ia deixando vítimas uma quest por vez.

Mas tudo parecia pontual e envolvendo pessoas em situação de risco. Estávamos longe da estimativa recente de dois bilhões de pessoas cadastradas em alguma rede social, gastando em média duas horas por dia nesses sites. Ou as oito horas diárias que os brasileiros passam na internet (somados computador e celular).

Quando essa é a norma, fica difícil distinguir entre hábito e abuso. O que permitiu este avanço?

Tudo mudou no eternizado dia 9 de janeiro de 2007 com o anúncio do Iphone.

O surgimento do smartphone e o impacto dele sobre a sociedade é inegável, ainda que de tão recente difícil de mensurar. Mas é só pensar na quantidade de aparelhos e itens que ele extinguiu nos últimos 10 anos. Mapas, MP3’s, câmeras, agendas, calendários. O último levantamento do IBGE mostra que o smartphone é a principal forma de acesso à internet para maioria dos brasileiros. Daqui alguns anos mais pessoas terão acesso a um smartphone do que à água corrente. Em suma, ele se tornou essencial.

Ele está conosco da hora que acordamos, no banheiro, no ônibus, no almoço e antes de dormir. Na alegria e na tristeza. Ele é uma ferramenta – não é bom ou mau – ubíqua que nos permite acessar e sermos acessados ininterruptamente. E essa é uma combinação perigosa. Ou uma oportunidade.

O smartphone foi o que permitiu a expansão da economia da atenção. Ele é a razão da existência do Instagram e do Snapchat. Da explosão do Twitter e do Facebook. Cada marcação em uma foto que precisava esperar o dia todo, até meu retorno para casa e ligar o computador para ser conferida, cada retweet, ou novo vídeo daquele canal do youtube que adoro, agora é visualizada instantaneamente ao sentir a vibração em meu bolso.

E já que puxei o celular, porque não ficar mais um tempinho e checar só esse email?

A possibilidade virtual de acessar a internet a qualquer minuto que o smartphone permite, significa que cada minuto é uma oportunidade para você se engajar na internet e gastar sua atenção. Gastar seu tempo. E fazer alguém ganhar mais dinheiro. Quanto mais você usar o celular e menos viver, mais as grandes companhias de internet estão vencendo. E a magia delas é fazer você crer que quer estar ali no celular. Porque é prazeroso. Porque elas descobriram como te manter ali.

E se a saída parece tão fácil quanto clicar no botão desligar, não esqueçamos que como comentei o celular é essencial hoje. Ser um eremita digital não parece possível e nem é desejável. Então talvez a solução seja ter um pouco de vontade e deletar o Facebook. Para citar o Tristan Harris, o grande defensor do design ético no Vale do Silício hoje:

O que o papo de ‘força de vontade’ não compreende é o fato de existirem mais de 1000 pessoas do outro lado da tela cujo trabalho é derrubar toda auto-regulação mental de escolha que você possui”.

Cada detalhe do design desses aplicativos, cada escolha de cor e musiquinha, serve ao interesse comercial de capturar quanta atenção for possível.

As grandes empresas da internet dominaram o Design Persuasivo.

4. Design Persuasivo

No seu ótimo livro de 2012 Addiction by Design: Machine Gambling in Las Vegas(Vício através do Design: Máquinas de Aposta em Las Vegas, em tradução livre), a autora Natasha Döw Schull demonstra todas as técnicas usadas pelos fabricantes de máquinas caça-níquel para manter os apostadores engajados e derradeiramente viciados. O vício em jogos de azar é um dos poucos reconhecidos pelo DSM (Manual de diagnóstico de desordens mentais). Mas enquanto a culpabilização frequentemente cai sobre as pessoas, pouco se comenta sobre o potencial aditivo intrínseco do jogo. Principalmente do caça-níquel, em que cada detalhe foi estudado e desenhado para te manter na “zona” (como os viciados em jogo se referem, ao estado de graça em que todas as preocupações desaparecem e o tempo parece voar) enquanto continua a te derrotar e retirar dinheiro.

Essas máquinas operam sobre o príncipio de uma Caixa de Skinner, nomeada em homenagem ao famoso psicólogo behaviorista B. F. Skinner que descobriu o conceito. Em seu experimento na década de 1960, um pombo era colocado em uma gaiola com uma alavanca. Toda vez que a alavanca era acionada o pombo ganhava uma comida. Entretanto Skinner percebeu que logo os pombos paravam de apertar a alavanca, tendo a certeza de que ganhariam sempre. Então ele começou a testar frequências diferentes em que cada clique recompensaria o pombo com comida. Ele descobriu que poucas recompensas frustravam o animal, mas que um número mágico e inconstante em que os pombos ganhavam a comida entre 50 a 70% dos cliques, fazia com que os pombos puxassem a alavanca duas vezes mais.

Esse é o princípio por trás do que foi chamado de Sistema de Recompensas Variáveis e Intermitentes (SRVI). É o princípio por trás da antecipação do caça-níquel cada vez que a alavanca (que coincidência) é puxada e os símbolos começam a girar.

Também é o princípio por trás do News Feed, cada vez que você abre o Facebook e atualiza o feed, há uma pequena demora (já percebeu?), que cria uma antecipação do que virá a seguir. Você pode ganhar uma notícia irrelevante, um meme engraçado, uma foto nova do crush…

Cada vez que você abre o aplicativo é uma aposta. Assim como no Instagram ou no Twitter. Quando você posta uma foto nova, um link interessante, atualiza seu status,  é uma aposta pra ver quantos likes vão te retornar.

Ou quando você puxa o celular do bolso. Será que vai ter alguma notificação no Whatsapp? Algum email novo? E como checamos o celular em média a cada 150 vez por dia, estamos estimulando esse circuito do SRVI frequentemente. Estamos girando nosso caça-níquel de bolso.

O que foi descoberto é que essa antecipação, essa expectativa positiva da recompensa, libera frações de dopamina no sistema de recompensa cerebral gerando uma pequena sensação de prazer, de quantidade suficiente para te manter fisgado e retornando.

E se ter um vício em uma atividade, como o jogo de azar, que te faz perder dinheiro já é ruim o suficiente, imagine um vício que te faz perder seu tempo, o único bem que você nunca poderá obter novamente.

E o SRVI é apenas um dos métodos cognitivos que são explorados para nos manter presos.

Outro famoso experimento é o da sopa sem fundo. O professor Wansink, tentando entender o quanto a forma que as opções nos são apresentadas influenciam nossas escolhas, selecionou dois grupos. No primeiro havia um prato fundo normal com sopa em que os participantes comiam. No segundo grupo, sem saberem, a sopa era reposta pelo fundo do prato e nunca chegava ao fim. O resultado foi que o grupo do prato infinito consumiu 73% mais sopa, apesar de não relatarem se sentir mais saciados que o primeiro grupo.

Lembre agora do feed infinito do Facebook, do Instagram, Pinterest… Você pode continuar consumindo sem sequer se sentir saciado. E o FOMO que foi mencionado no começo do texto, potencializa a necessidade de uso contínuo. Afinal de contas, talvez seja no próximo post que eu ver, após os 300 que já passaram, que estava aquela informação importante que eu queria. Ou a próxima pessoa que eu deslizar para a direita, o amor da minha vida no Tinder.

Aliás lembram do casamento perfeito? O smartphone permite esses pequenos gestos que se incrustam no subconsciente e reforçam o uso. “Pull to refresh”, “Swipe left”, “Scroll down”. O mero ato de tirar o celular do bolso é um ato que intuitivamente realizamos às vezes sem razão (consciente) para pegá-lo. Toda essa resposta tátil gera uma necessidade física semelhante a do fumante que precisa segurar algo entre os dedos, pela associação entre o prazer do ato e o movimento físico. Cria-se uma correlação na memória. Não é a toa que lançaram um celular fake de plástico, com dimensões semelhantes, para as pessoas que estão tentando reduzir seu uso de smartphone carregarem por aí e reduzirem essa ansiedade que surge da falta de ter uma paralelepípedo de metal entre as mãos.

Outro estudioso que influenciou muito os designers do Vale do Sílicio é o professor B. J. Fogg do Stanford Persuasive Tech Lab. Dentre seus alunos estão vários profissionais da Apple, Google, Facebook, inclusive um dos criadores do Instagram. E toda pesquisa dele se baseia em Design Comportamental ou como mobilizar as pessoas? Como criar hábitos?

Uma das suas descobertas é que para alguém fazer algo, é muito mais eficaz diminuir os impeditivos da realização da tarefa do que motivar a pessoa para fazer o que precisa.

Quando o Youtube instaurou o auto-play no fim dos vídeos, foi para retirar barreiras entre você e o próximo vídeo. É também a razão que explica os 5 segundos entre um episódio e outro no Netflix. Não exija nada do usuário e ele é mais capaz de permanecer no seu serviço.

Outro mecanismo recente é o “Snap Streak” do Snapchat. Cada dia que você manda uma foto para seu amigo, sua sequência aumenta. Então vários adolescentes se sentiam compelidos a continuar usar o aplicativo e mandar fotos (nem que fossem de paredes) para não perder os 100 dias conquistados. É uma ideia baseada no conceito explicitado pelo jogo do leilão de 1 real. O medo de perder seu progresso – o que você já conquistou – te faz continuar indefinidamente mesmo quando as consequências já são negativas.

As redes sociais alcançam um dos nossos mais fundos desejos individuais. É um grande motivador que explica o potencial viciante destes sites frente à outros. A motivação advinda da necessidade de aprovação social.

O like existe pra isso. Validar e presentear nossas inseguranças. Nos fazer sentir bem pela reciprocidade social. Se sentir parte de um grupo. É por isso que o algoritmo do Facebook te mostra com tanto vigor quando as pessoas (mesmo as mais distantes) mudaram a foto de perfil. É um grande momento de fragilidade pessoal, de exposição pública, que deverá ser recompensado pelo maior número de curtidas e reforçar esse prazer.

O cérebro libera neurotransmissores relacionados com prazer e formação de hábito, frente a interações sociais. E os maiores gatilhos para essa liberação são outras pessoas: você e seus amigos e seguidores, constantemente estimulando os outros a usarem o serviço por mais tempo.

O que um estudo encontrou foi que, similar a muitos vícios, a ativação do sistema de recompensa e o aumento de dopamina através desta resposta social pode gerar uma estrutura de dependência para o uso excessivo das redes sociais. Inclusive outrostrabalhos indicam que o uso prolongado de internet leva a redução de transportadores de dopamina. A autora de uma revisão sistemática argumenta que 26,3% dos jovens estadunidenses preencheriam critérios para o diagnóstico de Vício em Internet. O que representa uma fatia de pessoas maior do que do abuso de álcool e drogas para essa idade.

O problema é que todas essas técnicas priorizam aumentar o tempo que você gasta no serviço do que o prazer que você desfruta em fazer isso. Não há um respeito pelo desejo individual. Elas são todas projetadas para alcançar nosso cérebro e capitalizar em seus instintos, peculiaridades e falhas.

O comportamento humano é movido em parte por sucessivos cálculos de custo-benefício que determinarão se um ato será realizado uma, duas, cem vezes ou nunca. Quando os benefícios superam os custos, é difícil não voltar a realizar aquela ação continuamente, particularmente quando todas notas certas de recompensa cerebral são tocadas. Todas as grandes techs realizam testes com milhões de usuários para aprender quais modificações funcionam e quais não. Qual cor de fundo, fonte e frequência de som maximizam o tempo permanecido no app e quais diminuem a frustração com ele. Conforme esse experimento evolui, ele se torna irresistível, uma versão nuclear da experiência que um dia já existiu. Em 2004, o Facebook era divertido, hoje ele é viciante.

5. iGen

Estabelecido que o uso desenfreado das redes sociais e dos smartphones traz consequências para nossa qualidade de vida e de que existem diversas técnicas que são exploradas para nos manter engajados e passando cada dia mais checando a telinha, o que o futuro nos reserva? Há algum impacto social devido à forma que estamos gastando nossos dias?

Num dos melhores textos que li em 2017, a pesquisadora geracional e professora de psicologia da Universidade de San Diego, Jean Twenge apresenta diversos dados, colhidos a partir de entrevistas realizadas anualmente desde os anos 1980 nos Estados Unidos com adolescentes entre 12-18 anos, que apontam o impacto que o uso do smartphone causou sobre a geração que cresceu junto dele. A geração nascida após 98-99. A iGen.

O comportamento desses adolescentes, os primeiros que cresceram junto de smartphones e rede social, os que já possuiam uma conta no Instagram antes mesmo de estarem no ensino médio, mostra mudanças significativas na forma que eles experimentam o mundo quando comparados com a geração anterior. O que chamou a atenção da autora. Frequentemente as tendências que vêm a definir uma geração aparecem suavemente, já podendo ser sentidas na geração predecessora. Mas os comportamentos analisados para os iGen’ers criam gráficos abruptos. Esse padrão começa a mudar após 2012, coincidentemente o ano em que foi ultrapassado a porcentagem de 50% da população estadunidense que tinha um smartphone.

Essas mudanças afetam todo aspecto da vida desses adolescentes, da natureza das suas relações sociais até a saúde mental. E essas mudanças podem ser sentidas em toda esta faixa etária. Não importa a demografia, a tendência é universal, em jovens ricos ou pobres, de cidades grandes ou pequenas.

Os resultados da pesquisa revelam que eles saem menos de casa. Seja com os pais ou com os amigos. Afinal de contas podem se comunicar com quem quiserem sem sair da cama. O número de adolescentes que relatam saírem para se encontrar com os amigos caiu 40% num período de 15 anos a partir de 2000. Os dados desmistificam também a teoria de que a possibilidade de comunicação contínua fariam esses jovens estar mais integrados com seus amigos. O sentimento de solidão para essa idade atingiu um pico desde 2013 e continuam numa alta histórica desde então. Os adolescentes que responderam que usam redes sociais diariamente e visitam menos seus amigos foram os mais prováveis a concordar com as afirmações “Muitas vezes eu me sinto sozinho” e “Frequentemente me sinto deixado de fora”.

A correlação do tempo gasto no celular com infelicidade é inegável. Dentre as mais de mil perguntas do questionário, perguntando sobre diversas atividades realizadas por essa faixa etária, os jovens que em média passam mais tempo em atividades fora da tela são os mais contentes. Não há exceção em nenhum grupo. Quem relatou gastar mais de 10 horas por semana em redes sociais tinham 56% mais chance de admitir estar infeliz. E dentre 6 a 9 horas, 47% mais probabilidade de infelicidade que quem passa menos tempo curtindo e checando Instastories.

O contrário acontece com interações interpessoais. Quem estava acima da média na quantidade de tempo gasto pessoalmente com os amigos possuía 20% menos resposta de infelicidade frente aos que estavam abaixo da média nesse quesito.

Interações pessoais online não são diferentes das suas partes reais apenas pelo quesito físico. Elas são mensuravelmente piores. Humanos aprendem compreensão e empatia ao assistir o efeito de suas ações sobre outras pessoas. Não há como esses sentimentos aflorarem sem uma resposta imediata de causa e efeito. E mesmo assim é uma habilidade que leva tempo para se formar. Uma análise de estudos entre 1979 e 2009 encontrou que os níveis de empatia diminuíram entre universitários. Segundo a psicóloga Catherine Steiner-Adair:

Mensagens de texto, através de qualquer mídia, é o pior campo de treinamento possível para qualquer um aspirando à uma relação madura, sensível e amorosa”.

Na redes sociais eles são menos propensos a entender a perspectiva dos outros e se preocupar com o que outras pessoas podem estar passando. Twenge descobriu que 1 em cada 3 garotas entre 12 e 16 anos disse que as pessoas são majoritariamente desagradáveis online. E como todos adolescentes estão presos nesse ambiente, a má reciprocidade só cresce.

Os encontros românticos sofreram também de acordo com a pesquisa. Na era dos emojis, apenas 56% dos adolescentes de 17 anos relataram ter saído num encontro frente a 85% das suas contrapartes da Geração X e Baby Boomers. Eles estão fazendo menos sexo também. Os gráficos são todos decrescentes em todas faixas etárias nos últimos anos. Não à toa que 1 em 3 jovens reportou que sentiria mais falta do smartphone do que de sexo.

Essa geração parece não ter muito interesse em aprender a dirigir também. Um dos grandes paradigmas da geração retratada por John Hughes, o carro e a liberdade associada com ele não parece interessar tanto os jovens de hoje. Mais de 25% dos adolescentes terminam o ensino médio sem uma licença para dirigir (lembrando que nos EUA a idade para dirigir é de 16 anos). Quando se sai menos de casa, e existem Ubers por todo lado, porque se preocupar?

Outro parâmetro que tem sofrido nos últimos anos é a quantidade de horas de sono dos adolescentes. Dormindo com os celulares do lado da cama ou debaixo do travesseiro, 57% a mais dos jovens podem ser classificados como privados de sono (dormindo menos de 7 horas por noite) do que em 1991 mostram os dados da pesquisa. E os efeitos da falta de sono, novamente, podem ser associados com diversos problemas: pensamento acelerado, falta de atenção, comprometimento imune, ganho de peso, ansiedade.

São todos dados que explicam outro achado que explodiu nos últimos anos. Nos níveis de depressão e suicídio entre adolescentes. Dentre os jovens de 14 anos que são usuários frequentes de redes sociais, o risco de depressão aumenta 27%. Os sintomas depressivos aumentaram 21% entre meninos de 2012 até 2015 e 50% para as garotas.

Desde 2007, enquanto as taxas de homicídio entre adolescente tem diminuído, a taxa de suicídio cresceu. Como os adolescentes começaram a passar menos tempo juntos, eles possuem menos chances de matar uns aos outros e, passando mais tempo sozinho em seus quartos, mais probabilidade de cometer suicídio. Em 2011, pela primeira vez em 24 anos nos Estados Unidos, a taxa de suicídio juvenil ultrapassou a de homicídio.

Twenge, acertadamente, atenta que o objetivo de um estudo geracional não é sucumbir a uma nostalgia e a um elogio ao jeito que as coisas costumavam ser. Algumas mudanças são positivas e outras negativas. Passando mais tempo no conforto do quarto, esses jovens são menos propensos a participar de um acidente automotivo, se embebedar, e os níveis de gravidez na adolescência vêm caindo.

Psicologicamente no entanto eles estão mais vulneráveis do que nunca. A conclusão é de que esses adolescentes e os que virão, estão à beira do abismo de uma crise de grandes proporções na saúde mental.

Se os celulares e as redes sociais se fizeram indispensáveis, como escapar desta miríade de efeitos deletérios e se libertar dos grilhões do vício?

Epílogo: Um dia de cada vez

O que eu quero fazer com meu tempo?

Essa é a pergunta que venho tentando me fazer diariamente. Esse é o tipo de atenção plena que temos que ter frente nossa interação com a tecnologia.

Partindo do princípio de que desejo mudar a forma de utilização do celular, e emprestando alguns conceitos de terapia cognitivo-comportamental, é preciso entender quais os benefícios que essa interação me proporciona, quais os desejos subjacentes que ela supre e de que maneira eu gostaria de usufruir disso na minha vida. Não é problema nenhum checar o Facebook na fila de espera do ônibus, mas sabendo que ele atrapalha meu foco no trabalho é importante que eu conscientemente escolha abrir o app depois que eu terminar a tarefa que estou realizando. Retomar o controle da minha atenção para orientá-la no que me é importante.

Mesmo assim, existem os diversos truques psicológicos que são usados para desviar nosso foco. Apenas a força de vontade não é suficiente para mudar um hábito. Aprendendo a usar o design comportamental a nosso favor, existem técnicas que facilitam a reconquista da atenção.

Se essas empresas tentam várias maneiras de reduzir as barreiras entre o uso e o serviço, podemos criar nossos próprios impeditivos. A mera mudança de colocar o aplicativo do Facebook dentro de uma pasta na segunda página do celular, me obrigando a clicar duas vezes mais para abri-lo, foi o suficiente para diminuir o número de vezes por dia que eu usava o Facebook intuitivamente, gastando pelo menos uns 5 minutos fora a quebra de concentração.

Outro ato ao nosso alcance é desligar todas as notificações (no Android e iOS)que não sejam relacionadas a pessoas (Whatsapp, Messenger, SMS). Não preciso da tela do meu celular acendendo e vibrando toda vez que um vídeo novo chega no Youtube, que alguém curte uma foto minha no Instagram ou uma notícia desinteressante aparece no Flipboard. Não é necessário desativar todas, mas saber o que eu considero importante para mim e respeita meu tempo, posso tomar uma decisão mais positiva relacionado ao que eu quero saber sobre.

Outro facilitador para manter atenção ininterrupta é ativar o modo avião quando começar atividades mais longas e que demandam mais concentração. Segundo minha experiência, até agora ficar sem Wi-Fi por uma manhã não causou terremotos em nenhum lugar do mundo.

Claro que as situações diferem diariamente, e há situações que é impossível ficar incomunicável. Um truque que pode ser usado é tirar a cor da tela do celular. Sobrando só tons de cinza, o apelo visual das milhões de cores vibrantes utilizadas pelo display 1080p diminui seu apelo de nos manter hipnotizados.

Existem apps para combater apps. Por exemplo, o Moment no iOS, que revela quanto tempo é direcionado para quais aplicativos no celular. O StayFocusd no Chrome, que permite que o usuário decida quanto tempo ele pretende permitir de uso de diferentes sites. O Flux para PC e Mac, muda o tom de luz azul emitido pelos computadores para uma frequência de onda mais amarelada e natural do entardecer, melhorando a qualidade de sono. O NightShift, que a Apple estreou no iOS 11, faz a mesma coisa no iPhone. Sobre o sono aliás, coloquei um alarme analógico no quarto e passei a carregar o celular na sala, após cronometrar quanto tempo eu passava, sem perceber, no celular antes de dormir e principalmente logo ao acordar.

Por fim, a decisão mais importante que tomei, foi voltar a olhar para as pessoas em vez de olhar para o celular. Nos jantares familiares e nas rodas de conversas de amigos no bar. Claro que é mais cômodo sacar o celular do bolso e evitar ter que falar sobre frustrações profissionais com aquela tia distante, ou passear no Facebook em vez de discutir aquela situação complicada com minha parceira antes de dormir.

Mas ao final do dia, é a conexão com outras pessoas, conexões reais, que contam e nos fazem sentir completos. Nossa presença, nossa atenção completa, é o que de mais importante podemos dar para os outros.

Reconhecimentos

Grande parte do texto foi inspirada pelo ativismo que vem sendo realizado peloTristan Harris e sua empreitada Time Well Spent. Essa TED Talk dele é um ótimo ponto de partida. Em português tem essa ótima tradução no Papo de Homem.

Os diversos textos que foram publicados nos dois últimos anos apontando para as técnicas de design persuasivo. No New York Times, The Economist, The Guardian,Vice.

Ao canal de Youtube do Will Schoeder, que produz um dos melhores conteúdos que já encontrei na plataforma, e me fez conhecer mais sobre economia da atenção.

Jean Twenge e sua pesquisa fantástica na The Atlantic que me fez ter a epifania e concatenar todas essas informações que estavam dispersas na minha cabeça

Diversos livros que foram esclarecedores e permitiram me aprofundar no tema. Adam Alter traçando o panorama do Vício e Design Comportamental, Natasha Döw Schull e o agregado de décadas de pesquisa em como designers da experiência dos cassinos e caça-níqueis projetam o vício. Nancy Colier recuperando a importância do tempo desconectado. Sherry Turkle nessa linha mas sobre retomar a arte das conversaspessoais.

Obrigado a todos vocês.

(Vitor Hugo Felix)

FONTE: https://papodehomem.com.br/estamos-viciados-em-ser-infelizes?utm_content=buffer86524&utm_medium=social&utm_source=facebook.com&utm_campaign=buffer

QS

12/09/2017 às 3:25 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Na minha opinião, qualquer tentativa de classificação da inteligência humana deve ser sempre vista com ceticismo. Quocientes hoje em voga, se pesquisarmos bem, são quase sempre coisa antiga… com outro nome. QE é um exemplo. Entretanto, como o objetivo desse blog é exatamente “provocar o pensamento”, posto hoje mais essa classificação, vinda de um grande amigo de São Paulo, via zapzap.

InteligenciaEspiritual


QS

No início do século 20, o QI era a medida definitiva da inteligência humana. Só em meados da década de 90, a “descoberta da inteligência emocional mostrou que não bastava o sujeito ser um gênio se não soubesse lidar com as emoções.”

A ciência começa o novo milenio com descobertas que apontam para um terceiro quociente, o da inteligência espiritual. Ela nos ajudaria a lidar com questões essenciais e pode ser a chave para uma nova era no mundo dos negócios.

Drª DanaZohar, da Universiade de Oxford no seu livro QS – Inteligência Espiritual, lançado no ano passado, a física e filósofa americana aborda um tema tão novo quanto polêmico: a existência de um terceiro tipo de inteligência que aumenta os horizontes das pessoas, torna-as mais criativas e se manifesta em sua necessidade de encontrar um significado para a vida.

Ela baseia seu trabalho sobre Quociente Espiritual (QS) em pesquisas só há pouco divulgadas de cientistas de várias partes do mundo que descobriram o que está sendo chamado “Ponto de Deus” no cérebro, uma área que seria responsável pelas experiências

espirituais das pessoas.

O assunto é tão atual que foi abordado em recentes reportagens de capa pelas revistas americanas Newsweek e Fortune.

Afirma Dana:

“A inteligência espiritual coletiva é baixa na sociedade moderna. Vivemos numa cultura espiritualmente estúpida, mas podemos agir para elevar nosso quociente espiritual”.

Aos 57 anos, Dana vive em Inglaterra com o marido, o psiquiatra Ian Marshall, co-autor do livro, e com dois filhos adolescentes. Formada em física pela Universidade de Harvard, com pós-graduação no Massachusetts Institute of Tecnology (MIT), ela atualmente leciona na universidade inglesa de Oxford. É autora de outros oito livros, entre eles, O Ser Quântico e A Sociedade Quântica, já traduzidos para português.

O que é inteligência espiritual?

É uma terceira inteligência, que coloca nossos atos e experiências num contexto mais amplo de sentido e valor, tornando-os mais efetivos.

Ter alto quociente espiritual (QS) implica ser capaz de usar o espiritual para ter uma vida mais rica e mais cheia de sentido, adequado senso de finalidade e direção pessoal.

O QS aumenta nossos horizontes e nos torna mais criativos.

É uma inteligência que nos impulsiona.

É com ela que abordamos e solucionamos problemas de sentido e valor.

O QS está ligado à necessidade humana de ter propósito na vida.

É ele que usamos para desenvolver valores éticos e crenças que vão nortear nossas ações.*

De que modo essas pesquisas confirmam suas ideias sobre a terceira

inteligência?

Os cientistas descobriram que temos um “Ponto de Deus” no cérebro, uma área nos lobos temporais que nos faz buscar um significado e valores para nossas vidas. É uma área ligada à experência espiritual. Tudo que influencia a inteligência passa pelo cérebro e seus prolongamentos neurais. Um tipo de organização neural permite ao homem realizar um pensamento racional, lógico. Dá a ele seu QI, ou inteligência intelectual. Outro tipo permite realizar o pensamento associativo, afectado por hábitos, reconhecedor de padrões, emotivo. É o responsável pelo QE, ou inteligência emocional. Um terceiro tipo permite o pensamento criativo, capaz de insights, formulador e revogador de regras. É o pensamento com que se formulam e se transformam os tipos anteriores de pensamento. Esse tipo lhe dá o QS, ou inteligência espiritual.

Qual a diferença entre QE e QS?

É o poder transformador. A inteligência emocional me permite julgar em que situação eu me encontro e me comportar apropriadamente dentro dos limites da situação.

A inteligência espiritual me permite perguntar se quero estar nessa situação particular.

Implica trabalhar com os limites da situação.

Daniel Goleman, o teórico do Quociente Emocional, fala das emoções.

Inteligência espiritual fala da alma.

O quociente espiritual tem a ver com o que algo significa para mim, e não apenas como as coisas afectam minha emoção e como eu reajo a isso.

A espiritualidade sempre esteve presente na história da humanidade.

Dana Zohar identificou dez qualidades comuns às pessoas espiritualmente inteligentes. Segundo ela, essas pessoas:

1. Praticam e estimulam o autoconhecimento profundo

2. São levadas por valores. São idealistas

3. Têm capacidade de encarar e utilizar a adversidade

4. São holísticas

5. Celebram a diversidade

6. Têm independência

7. Perguntam sempre “por quê?”

8. Têm capacidade de colocar as coisas num contexto mais amplo

9. Têm espontaneidade

10. Têm compaixão

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