Pedófobos ?

10/09/2016 às 3:58 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 1 Comentário
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Muito bom esse artigo. Vi no blog do amigo José Luis (jlcarneiro.com). Vale a reflexão !

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Por que pisamos em ovos com nossos filhos

francisco_daudt.pngVejo crianças fazendo manha, gritando em restaurantes, se jogando no chão, esperneando no shopping quando contrariadas, desrespeitando professores, sendo insuportáveis…

Por que essas coisas se tornaram cada vez mais comuns, e por que eram tão raras quando eu fui criança? Lembro-me de minha mãe dizendo para meu irmão, que a olhava furibundo depois de um merecido – e literal – puxão de orelha: Você pensa que me mete medo com esses olhos?

E não metia mesmo. Ao contrário de muitos pais da atualidade, ela não tinha medo de criança, ela não sofria de pedofobia.

Essas palavras que terminam em fobia passaram a ser entendidas mais recentemente como “ter-se ódio a”, como em “homofobia”, mas o sentido original é “medo de”. No entanto, o medo e o ódio não andam distantes quando o assunto é a homofobia, ou a pedofobia.

Supostamente, somos mais fortes que uma criança, sempre o fomos. O que as tornou tão poderosas ao ponto de temê-las, de nos sentirmos impotentes para o exercício da autoridade tão necessária para prepará-las para a vida?

Há vários fenômenos confluentes para esse resultado, mas ele resulta de duas mudanças básicas: a maneira como vemos as crianças e a maneira como vemos a autoridade.

A concepção do que é uma criança mudou drasticamente nos últimos trezentos anos: de objeto da propriedade dos pais, podendo ser vendida ou morta sem consequências legais, até virar um bibelô, coitadista, frágil, traumatizável, tutelada por leis e estatutos protecionistas, que deve ser alvo de um amor incondicional beirando a subserviência, para quem os pais devem dar “tempo de qualidade”, já que não devotam todas as horas de sua vida (“como deveriam”), e diante de quem é dever moral de quaisquer pais minimamente educados se sentir culpadíssimos por tudo o que erram em sua criação (e eles “erram muito”, espere até seu filho crescer e ir a um psicanalista para você ver a desgraça que fez nele).

Ou seja, as crianças passaram de moscas mortas a monstros poderosos diante de quem os pais morrem de medo.

Nenhuma surpresa, pois o movimento mais comum da humanidade é o pêndulo da formação reativa: ficamos com horror das barbáries cometidas contra as crianças no passado, e por isso exageramos para o lado oposto, passamos a mimá-las como se fossem quebrar com um espirro.

Antes eram invisíveis; agora damos-lhes toneladas de atenção, até a brincar com elas nos impomos! Antes éramos tiranos; agora as tiranas são elas, nós lhes passamos o bastão.

É quando o medo desperta o ódio: os filhos gritam e a gente fica de saco cheio. Mas odiá-los é tabu impensável, pior que incesto, por isso nós o reprimimos, e em seu lugar surge a bondade reativa: Meu amor, mamãe vai te explicar que gritar não é bonito. Mais gritos; mais “bondade”.

Pais bonzinhos podem ferrar a vida de seus filhos por falta de autoridade.

Autoridade: depois de anos de ditadura, passamos a confundir autoridade (a condução de quem sabe mais) com autoritarismo (imposição pela força), e com isso, perdoem a metáfora, jogamos o bebê fora junto com a água do banho.

* Francisco Daudt é médico e psicanalista. Escreve uma coluna quinzenal para o jornal Folha de São Paulo.

FONTE:  http://www.jlcarneiro.com/voce-e-pedofobo/

SAÚDE PRISIONAL

14/07/2016 às 3:03 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Se dedica com afinco a esse importante tema nacional um querido e competente sobrinho, Marden Marques Soares Filho, assessor do Conselho Nacional de Justiça. Confiram essas duas matérias:


CNJ lança “Saúde Prisional” para garantir assistência básica a presos

 

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) lançou, no início da 234ª Sessão Plenária desta terça-feira (28/06), o programa “Saúde Prisional”, com o objetivo de garantir um padrão sanitário e de assistência social mínimo às pessoas em situação de privação de liberdade, assegurando-lhes o acesso universal às ações de assistência básica à saúde. Entre as medidas previstas no programa estão a definição de protocolos para avaliação da condição de saúde na entrada e na saída de qualquer pessoa no ambiente prisional, ações para a prevenção de doenças e acesso a tratamentos de saúde. Também serão implantadas ações específicas para garantir a saúde de gestantes e seus filhos, bem como medidas terapêuticas aos presos com transtorno mental e dependentes de drogas.

De acordo com o presidente do CNJ e do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Ricardo Lewandowski, o programa “Saúde Prisional” volta-se não apenas para a saúde dos presos, mas também de seus familiares e de toda a comunidade carcerária, inclusive os agentes penitenciários e suas famílias. “Em um sistema superlotado com 600 mil pessoas, é claro que a higidez física é extremamente precária e a situação de saúde é calamitosa, com elevados índices de tuberculose, Aids e doenças sexualmente transmissíveis que acabam refletindo na própria sociedade em função de visitas intimas de familiares”, diz o presidente do CNJ. O ministro Lewandowski ressaltou que o programa pertence à série de ações iniciadas em sua gestão com objetivo de combater o estado inconstitucional de coisas do sistema prisional brasileiro, como as Audiências de Custódia, o Cidadania nos Presídios e o Sistema Eletrônico de Execução Unificada (SEEU).

Protagonismo dos juízes – O presidente do CNJ e do STF, ministro Lewandowski, ressaltou que o programa “Saúde Prisional” confere maior protagonismo para os juízes de execução, que terão agora a incumbência de cuidar da saúde dos presos. “Os juízes potencializarão nos espaços prisionais não apenas a rede que já existe do SUS, mas também a rede do sistema único de assistência social (SUAS)”, diz o ministro. De acordo com o coordenador do Departamento de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e do Sistema de Execução de Medidas Socioeducativas do CNJ (DMF/CNJ), Luís Geraldo Lanfredi, o juiz vai ser o articulador das ações, partindo da perspectiva de que cada unidade prisional passa a ser um ponto referencial e geográfico em condições de poder integrar a rede tanto do SUS quanto do SUAS. “O que se pretende é que os espaços prisionais possam ser qualificados para serem realmente um lugar adequado para o recolhimento de pessoas que tem direitos e dignidade, viabilizando o cumprimento das finalidades dos escopos da Lei de Execução Penal e da própria Constituição Federal”, diz Lanfredi.

Triagem na entrada e saída – Uma das ações previstas no programa “Saúde Prisional” é a definição de protocolos para a entrada (triagem e acolhimento), o cuidado e a saída (desinstitucionalização) de qualquer pessoa no ambiente prisional, mediante avaliação de sua condição de saúde, como forma de garantir os encaminhamentos devidos em cada caso. De acordo com o assessor do DMF/CNJ Marden Marques Soares Filho, desde o início a sentença judicial, o preso deve passar necessariamente pelo acolhimento de saúde, chamada anamnese (diagnóstico inicial) em que sejam ofertados exames para saber se há algum tipo de agravo, além da oferta de imunização. “Hoje isso acontece muito pouco e não necessariamente o preso passa pela triagem de saúde, já indo diretamente para a cela”, diz Marques.

Saúde das mulheres e gestantes – Estão incluídas no “Saúde Prisional” orientações para atenção integral à saúde de mulheres, gestantes e mães em situação de privação de liberdade. Entre as medidas está, por exemplo, a obrigatoriedade da inclusão dessas mulheres nos sistemas de informação do câncer do colo do útero e de mama (SISCOLO) e de acompanhamento do programa de humanização no pré-natal e nascimento (SispreNatal). Também deverão ser criados fluxos de atendimentos especiais e prioritários, junto à rede de assistência social pública e demais órgãos de proteção, dos filhos das mulheres presas.

As previsões do programa embasam a resolução em elaboração pelo CNJ que vai estabelecer princípios e diretrizes para o acompanhamento das mulheres e gestantes presas, bem como seus filhos, com objetivo de impedir que esses sigam o caminho da criminalidade. “Historicamente temos uma dívida em relação às mulheres no sistema prisional, e precisamos nos envolver mais nas questões que dizem respeito também a maternagem”, diz Marques.

Presos com transtorno mental – O programa “Saúde Prisional” prevê a aplicação de uma série de medidas terapêuticas às pessoas com transtorno mental em conflito com a lei e no tratamento dos dependentes de drogas. O programa prevê a construção de fluxos de acompanhamento dos processos de desinstitucionalização progressiva dos hospitais de custódia. De acordo com Marques, o objetivo é trazer o escopo da Lei n. 10.216 – a Lei Antimanicominal – escopo para dentro do sistema prisional, com a implantação de um modelo mais humanizado ao tratamento dessas pessoas.

Política prisional – O programa foi construído com base nas políticas do CNJ para o sistema prisional para o biênio 2015-2016, conforme a Portaria n. 16/2015, que determina o combate à cultura do encarceramento desnecessário e o estudo sobre as condições de saúde da população carcerária. O programa “Saúde Prisional” deve ocorrer por meio de parcerias entre o Poder Judiciário, o Poder Executivo e a sociedade civil, estando articulado em quatro eixos – “Universalização do Acesso à Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade”, “Saúde das Mulheres Privadas de Liberdade”, “Medidas Terapêuticas Aplicáveis à Pessoa com Transtorno Mental em Conflito com a Lei”, “Indicador CNJ de fiscalização e monitoramento da dignidade humana”.

Acesse aqui a apresentação do programa “Saúde Prisional”.

Luiza Fariello
Agência CNJ de Notícias

FONTE: http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/82726-cnj-lanca-saude-prisional-para-garantir-assistencia-basica-as-pessoas-presas


Reforma psiquiátrica: manicômios judiciários – Bloco 4

A reforma psiquiátrica ainda não chegou à justiça brasileira, pois as pessoas com transtorno mental que cometem delitos recebem mais punições do que tratamento. Parte do problema é a percepção do doente mental como uma pessoa perigosa e irracional, que precisa, portanto, ser afastada da sociedade. No capítulo de hoje da Reportagem Especial sobre a reforma psiquiátrica, você vai conhecer os manicômios judiciários.

 

(Música “Diário de um detento” – paciente cantando + Racionais MC’s)

O pior do hospital psiquiátrico com o pior da prisão. É assim que um relatório do Conselho Federal de Psicologia feito em parceira com a Ordem dos Advogados do Brasil define os manicômios judiciários brasileiros. Esse é um nome genérico para as instituições que recebem pessoas com transtornos mentais que tenham cometido infrações. São duas as principais: os hospitais de custódia e tratamento psiquiátrico e as alas psiquiátricas das penitenciárias. O Rodrigo Torres é o coordenador da Comissão de Psicologia Jurídica do Conselho Federal de Psicologia e acompanhou todo o processo de pesquisa, realizada em 17 estados e no Distrito Federal. Ele explica a situação encontrada:

“O manicômio, ou como se chama hoje, os hospitais de custódia são um híbrido entre o sistema prisional e o hospital psiquiátrico, e essas duas violências das duas instituições se encontram no manicômio ou nos hospitais de custódia. Então, você tem desde condições físicas degradantes, falta de privacidade, rato, bicho, questões de higiene, iluminação, banho frio, condições mais degradantes que a gente vê nas prisões e que a gente acha que ficou pra trás no âmbito dos hospitais.”

A situação se agrava pela ausência de advogados e pela baixa proporção de profissionais de saúde em relação aos agentes de segurança. Para o Conselho Federal de Psicologia, isso sugere que a lógica dessas instituições não é o tratamento, mas apenas a punição.

(Música “Diário de um detento” – Racionais MC’s)

Quando uma pessoa com transtorno mental comete delito, aplica-se a chamada “medida de segurança”, que tem duas modalidades: de internação e de tratamento ambulatorial. Pela lógica da reforma psiquiátrica, essa pessoa deveria ser tratada prioritariamente em meio aberto. Mas, na prática, a internação tem sido o primeiro recurso utilizado, ainda que a maioria dos delitos cometidos sejam leves, como pequenos furtos, danos contra patrimônio público ou desacato a autoridade. Segundo Marden Marques, do Conselho Nacional de Justiça, pode-se dizer que a reforma psiquiátrica ainda não chegou à Justiça Brasileira, mas está a caminho:

“Mesmo a lei sendo de 2001, da reforma psiquiátrica, para dentro da Justiça criminal, isso é uma novidade, porque existe essa mudança de paradigma. E essa mudança de paradigma exige não interpretar mais Lei 7.210, que é a Lei de Execução Penal, e começar a interpretar a Lei 10.216, buscando alternativas para o não encarceramento e sim para o tratamento desse sujeito em uma rede substitutiva ao manicômio. (…) Já tem um movimento nesse sentido, que são alguns projetos do CNJ, ele já mexe com os tribunais nesse sentido de revisar essas questões.”

Dois programas estaduais estão sendo usados pelo CNJ como modelo para essa mudança de cultura entre os juízes brasileiros: o Programa de Atenção Integral ao Louco Infrato, Paili, de Goiás; e o Programa de Atenção Integral ao Paciente Judiciário Portador de Sofrimento Mental, PAI-PJ, de Minas Gerais. A coordenadora-geral do PAI-PJ, Fernanda Otoni Brisset, explica a lógica de funcionamento do programa, que nasceu no ano 2000, antes mesmo da aprovação da lei da reforma psiquiátrica:

“O juiz, considerando que ela cometeu o crime em uma situação de sofrimento psíquico e que precisa de dar tratamento a isso, determina o acompanhamento do caso pelo programa. Aí nós discutimos com a rede pública de saúde a forma de tratamento dessa pessoa e aí vamos acompanhando e subsidiando o juiz e, enquanto isso, o juiz vai ajustando todo o procedimento jurídico a essa lógica.”

Essa intermediação entre a Justiça e a Saúde é um dos pontos fortes do programa, diz Fernanda, pois evita que o paciente em alta continue internado por não ter permissão judicial para sair. O que, segundo o relatório do Conselho Federal de Psicologia, ocorre com muita frequência no País, condenando o louco infrator, na prática, a uma espécie de prisão perpétua.

(Música “Bicho de sete cabeças” – Zé Ramalho)

Segundo a Fernanda Otoni, o PAI-PJ conseguiu reduzir em 1.500 o número de internos em manicômios judiciários mineiros, que hoje contam com 170 pacientes. Mas mesmo com esses bons resultados, o programa passa neste momento por um revés. Todos os funcionários que acompanhavam casos em cidades do interior que não têm núcleo permanente do PAI-PJ foram demitidos, deixando mais de 900 pacientes desassistidos. Segundo Fernanda Otoni, por motivos orçamentários, o Tribunal de Justiça demitiu terceirizados em diversas áreas, não apenas no PAI-PJ. Mas uma articulação da Presidência do Tribunal com o Governo de Minas vem tentando encontrar uma solução para retomar o programa nas cidades que ficaram sem atendimento.

(Música “Lua de cristal” – Xuxa – paciente cantando)

O Rodrigo Torres, do Conselho Federal de Psicologia, lembra que algumas figuras já se tornaram folclóricas, principalmente no interior: como o doidinho que tira a roupa na rua, grita palavrões para o padre, persegue alguém, ou se sente perseguido. Essas figuras, quase caricatas, ajudaram a construir o imaginário coletivo em torno da agressividade da pessoa com transtorno mental. Essa presunção de periculosidade – para usar o termo jurídico – vem conduzindo o olhar de muitos cidadãos e a caneta de muitos juízes, mas, segundo Fernanda Otoni, do PAI-PJ, precisa ser reconstruída como presunção de sociabilidade:

“A gente percebe que essa presunção da periculosidade seria muito mais a lógica da segregação no sentido de passar a falsa mensagem de que os loucos estão presos, os perigosos estão isolados e que todos os outros podem viver em paz, o que é uma presunção. Todos nós temos condições de fazer laço social ainda que em algum momento das nossas vidas, por alguma situação, fizemos atos que considerados uma ruptura com as normas de convívio.”

O preconceito em relação à loucura prejudica até mesmo a implementação de políticas públicas para tratamento e acolhimento dessas pessoas. Como as residências terapêuticas, que são locais voltados para pessoas com transtorno mental que perderam os vínculos familiares após longa internação. São exatamente o que o nome diz: casas, onde os pacientes retomam a vida em comunidade com o apoio de profissionais de saúde. Eles lavam, passam, fazem compras, passeiam na praça, ou seja, cuidam da própria casa e da própria vida, como qualquer cidadão.

No Distrito Federal, ainda não existe nenhum residência terapêutica. Além de entraves burocráticos, o principal obstáculo é ainda o preconceito por parte dos futuros vizinhos. A Maria Garrido é gerente de um Centro de Atenção Psicossocial da região central de Brasília. Ela conta que, apesar de todas as tentativas de diálogo, não foi possível convencer a população a aceitar que o governo alugasse uma casa para acolher pacientes com transtorno mental nos moldes da residência terapêutica:

“A gente tentou argumentar, mostrou estatisticamente qual era o nosso público-alvo, como era elevada a demanda de atendimentos aqui das Asas Norte e Sul, Lagos Norte e Sul, mas a gente escutava aquelas coisas: ‘olha, se eu tiver um filho, eu tranco ele dentro de casa, quem trata ele sou eu, do jeito que eu quiser e você não vão entrar e se vocês entrarem a gente quebra tudo’ e foram feitos ‘n’ diálogos.”

(Música “Bicho de sete cabeças” – Alceu, Elba e Zé Ramalho)

Esse imaginário coletivo que faz do doente mental uma pessoa perigosa e irracional gera ainda outras distorções. A coordenadora da Frente Parlamentar em Defesa da Reforma Psiquiátrica e da Luta Antimanicomial, deputada Erika Kokay, do PT do Distrito Federal, conta que encontrou vários casos de pessoas que foram internadas por ordem judicial, mas não por terem cometido algum delito, apenas por apresentarem comportamentos peculiares, como colher uma flor no jardim da casa de uma autoridade.
(Música “Bicho de sete cabeças” – Alceu, Elba e Zé Ramalho)
Confira, no último capítulo: o tratamento de dependentes químicos por meio de internação involuntária continua provocando debates acalorados no Brasil.

Edição – Mauro Ceccherini
Reportagem – Verônica Lima
Produção – Lucélia Cristina e Christiane Baker
Trabalhos Técnicos – João Vicente de Oliveira

FONTE: http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/radio/materias/REPORTAGEM-ESPECIAL/511568-REFORMA-PSIQUIATRICA-MANICOMIOS-JUDICIARIOS-BLOCO-4.html

O valor da vida: uma entrevista rara de Freud

21/06/2015 às 3:49 | Publicado em Artigos e textos | 2 Comentários
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A entrevista em si já é histórica. Porém o que mais gostei foi sentir o lado humano de Freud.


O VALOR DA VIDA. UMA ENTREVISTA RARA DE FREUD

Entre as preciosidades encontradas na biblioteca da Sociedade Sigmund Freud está essa entrevista. Foi concedida ao jornalista americano George Sylvester Viereck, em 1926. Deve ter sido publicada na imprensa americana da época. Acreditava-se que estivesse perdida, quando o Boletim da Sigmund Freud Haus publicou uma versão condensada, em 1976. Na verdade, o texto integral havia sido publicado no volume Psychoanalysis and the Fut número especial do “Journal of Psychology”, de Nova Iorque, em 1957.

Setenta anos ensinaram-me a aceitar a vida com serena humildade.

Quem fala é o professor Sigmund Freud, o grande explorador da alma. O cenário da nossa conversa foi uma casa de verão no Semmering, uma montanha nos Alpes austríacos.

Eu havia visto o pai da psicanálise pela última vez em sua casa modesta na capital austríaca. Os poucos anos entre minha última visita e a atual multiplicaram as rugas na sua fronte. Intensificaram a sua palidez de sábio. Sua face estava tensa, como se sentisse dor. Sua mente estava alerta, seu espírito firme, sua cortesia impecável como sempre, mas um ligeiro impedimento da fala me perturbou.

Parece que um tumor maligno no maxilar superior necessitou ser operado. Desde então Freud usa uma prótese, para ele uma causa de constante irritação.

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S. Freud: Detesto o meu maxilar mecânico, porque a luta com o aparelho me consome tanta energia preciosa. Mas prefiro ele a maxilar nenhum. Ainda prefiro a existência à extinção.

Talvez os deuses sejam gentis conosco, tornando a vida mais desagradável à medida que envelhecemos. Por fim, a morte nos parece menos intolerável do que os fardos que carregamos.

Freud se recusa a admitir que o destino lhe reserva algo especial.

– Por quê – disse calmamente – deveria eu esperar um tratamento especial? A velhice, com sua agruras chega para todos. Eu não me rebelo contra a ordem universal. Afinal, mais de setenta anos. Tive o bastante para comer. Apreciei muitas coisas – a companhia de minha mulher, meus filhos, o pôr do sol. Observei as plantas crescerem na primavera. De vez em quando tive uma mão amiga para apertar. Vez ou outra encontrei um ser humano que quase me compreendeu. Que mais posso querer?

George Sylvester Viereck: O senhor teve a fama, disse que Sua obra influi na literatura de cada país. O homem olha a vida e a si mesmo com outros olhos, por causa do senhor. E recentemente, no seu septuagésimo aniversário, o mundo se uniu para homenageá-lo – com exceção da sua própria Universidade.

S. Freud: Se a Universidade de Viena me demonstrasse reconhecimento, eu ficaria embaraçado. Não há razão em aceitar a mim e a minha obra porque tenho setenta anos. Eu não atribuo importância insensata aos decimais.

A fama chega apenas quando morremos, e francamente, o que vem depois não me interessa. Não aspiro à glória póstuma. Minha modéstia não e virtude.

George Sylvester Viereck: Não significa nada o fato de que o seu nome vai viver?

S. Freud: Absolutamente nada, mesmo que ele viva, o que não e certo. Estou bem mais preocupado com o destino de meus filhos. Espero que suas vidas não venham a ser difíceis. Não posso ajudá-los muito. A guerra praticamente liquidou com minhas posses, o que havia poupado durante a vida. Mas posso me dar por satisfeito. O trabalho é minha fortuna.

Estávamos subindo e descendo uma pequena trilha no jardim da casa. Freud acariciou ternamente um arbusto que florescia.

S. Freud: Estou muito mais interessado neste botão do que no que possa me acontecer depois que estiver morto.

George Sylvester Viereck: Então o senhor é, afinal, um profundo pessimista?

S. Freud: Não, não sou. Não permito que nenhuma reflexão filosófica estrague a minha fruição das coisas simples da vida.

George Sylvester Viereck: O senhor acredita na persistência da personalidade após a morte, de alguma forma que seja?

S. Freud: Não penso nisso. Tudo o que vive perece. Por que deveria o homem construir uma exceção?

George Sylvester Viereck: Gostaria de retornar em alguma forma, de ser resgatado do pó? O senhor não tem, em outras palavras, desejo de imortalidade?

S. Freud: Sinceramente não. Se a gente reconhece os motivos egoístas por trás de conduta humana, não tem o mínimo desejo de voltar a vida, movendo-se num círculo, seria ainda a mesma.

Além disso, mesmo se o eterno retorno das coisas, para usar a expressão de Nietzsche, nos dotasse novamente do nosso invólucro carnal, para que serviria, sem memória? Não haveria elo entre passado e futuro.

Pelo que me toca estou perfeitamente satisfeito em saber que o eterno aborrecimento de viver finalmente passará. Nossa vida é necessariamente uma série de compromissos, uma luta interminável entre o ego e seu ambiente. O desejo de prolongar a vida excessivamente me parece absurdo.

George Sylvester Viereck: Bernard Shaw sustenta que vivemos muito pouco, disse eu. Ele acha que o homem pode prolongar a vida se assim desejar, levando sua vontade a atuar sobre as forças da evolução. Ele crê que a humanidade pode reaver a longevidade dos patriarcas.

– É possível, respondeu Freud, que a morte em si não seja uma necessidade biológica. Talvez morramos porque desejamos morrer.

Assim como amor e ódio por uma pessoa habitam em nosso peito ao mesmo tempo, assim também toda a vida conjuga o desejo de manter-se e o desejo da própria destruição.

Do mesmo modo com um pequeno elástico esticado tende a assumir a forma original, assim também toda a matéria viva, consciente ou inconscientemente, busca readquirir a completa, a absoluta inércia da existência inorgânica. O impulso de vida e o impulso de morte habitam lado a lado dentro de nós.

A Morte é a companheira do Amor. Juntos eles regem o mundo. Isto é o que diz o meu livro: Além do Princípio do Prazer.

No começo, a psicanálise supôs que o Amor tinha toda a importância. Agora sabemos que a Morte é igualmente importante.

Biologicamente, todo ser vivo, não importa quão intensamente a vida queime dentro dele, anseia pelo Nirvana, pela cessação da “febre chamada viver”, anseia pelo seio de Abraão. O desejo pode ser encoberto por digressões. Não obstante, o objetivo derradeiro da vida é a sua própria extinção.

Isto, exclamei, é a filosofia da autodestruição. Ela justifica o auto-extermínio. Levaria logicamente ao suicídio universal imaginado por Eduard von Hartamann.

S.Freud: A humanidade não escolhe o suicídio porque a lei do seu ser desaprova a via direta para o seu fim. A vida tem que completar o seu ciclo de existência. Em todo ser normal, a pulsão de vida é forte o bastante para contrabalançar a pulsão de morte, embora no final resulte mais forte.

Podemos entreter a fantasia de que a Morte nos vem por nossa própria vontade. Seria mais possível que pudéssemos vencer a Morte, não fosse por seu aliado dentro de nós.

Neste sentido acrescentou Freud com um sorriso, pode ser justificado dizer que toda a morte é suicídio disfarçado.

Estava ficando frio no jardim.

Prosseguimos a conversa no gabinete.

Vi uma pilha de manuscritos sobre a mesa, com a caligrafia clara de Freud.

George Sylvester Viereck: Em que o senhor está trabalhando?

S. Freud: Estou escrevendo uma defesa da análise leiga, da psicanálise praticada por leigos. Os doutores querem tornar a análise ilegal para os não médicos. A História, essa velha plagiadora, repete-se após cada descoberta. Os doutores combatem cada nova verdade no começo. Depois procuram monopoliza-la.

George Sylvester Viereck: O senhor teve muito apoio dos leigos?

S. Freud: Alguns dos meus melhores discípulos são leigos.

George Sylvester Viereck: O senhor está praticando muito psicanálise?

S. Freud: Certamente. Neste momento estou trabalhando num caso muito difícil, tentando desatar os conflitos psíquicos de um interessante novo paciente.

Minha filha também é psicanalista, como você vê…

Nesse ponto apareceu Miss Anna Freud acompanhada por seu paciente, um garoto de onze anos, de feições inconfundivelmente anglo-saxonicas.

George Sylvester Viereck: O senhor já analisou a si mesmo?

S. Freud: Certamente. O psicanalista deve constantemente analisar a si mesmo. Analisando a nós mesmos, ficamos mais capacitados a analisar os outros.

O psicanalista é como o bode expiatório dos hebreus. Os outros descarregam seus pecados sobre ele. Ele deve praticar sua arte à perfeição para desvencilhar-se do fardo jogado sobre ele.

George Sylvester Viereck: Minha impressão, observei, é de que a psicanálise desperta em todos que a praticam o espírito da caridade cristão. Nada existe na vida humana que a psicanálise não possa nos fazer compreender. “Tout comprec’est tout pardonner”.

Pelo contrário! – bravejou Freud, suas feições assumindo a severidade de um profeta hebreu. Compreender tudo não é perdoar tudo. A análise nos ensina não apenas o que podemos suportar, mas também o que podemos evitar. Ela nos diz o que deve ser eliminado. A tolerância com o mal não e de maneira alguma um corolário do conhecimento.

Compreendi subitamente porque Freud havia litigado com os seguidores que o haviam abandonado, por que ele não perdoa a sua dissensão do caminho reto da ortodoxia psicanalítica. Seu senso do que é direito é herança dos seus ancestrais. Uma herança de que ele se orgulha como se orgulha de sua raça.

Minha língua, ele me explicou, é o alemão. Minha cultura, mina realização é alemã. Eu me considero um intelectual alemão, até perceber o crescimento do preconceito anti-semita na Alemanha e na Áustria. Desde então prefiro me considerar judeu.

Fiquei algo desapontado com esta observação.

Parecia-me que o espírito de Freud deveria habitar nas alturas, além de qualquer preconceito de raças que ele deveria ser imune a qualquer rancor pessoal. No entanto, precisamente a sua indignação, a sua honesta ira, tornava o mais atraente como ser humano.

Aquiles seria intolerável, não fosse por seu calcanhar!,

Fico contente, Herr Professor, de que também o senhor tenha seus complexos, de que também o senhor demonstre que é um mortal!

Nossos complexos, replicou Freud, são a fonte de nossa fraqueza; mas com frequência são também a fonte de nossa força.

Tradução de Paulo Cesar Souza – 20 de abril de 2010

FONTE: http://www.contioutra.com/o-valor-da-vida-uma-entrevista-rara-de-freud/

A queda do Airbus A320

04/04/2015 às 3:37 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Para mim um dos melhores textos sobre o fatídico acidente que chocou o mundo há poucos dias. Veio do Facebook de Odailson da Silva (postado em 29.03.2015). Aproveito para recomentar mais uma vez o livro mais recente de sua autoria: “DIAGNÓSTICOS BARATOS, REMÉDIOS CAROS ! A quem serve a Psiquiatria ?”.

Airbus


A queda do Airbus A320

O mundo ocidental está em completa perplexidade diante do atentado cometido pelo copiloto da empresa área alemã Germanwings, que culminou com a morte de 150 pessoas, entre passageiros e tripulação. Para a imprensa alemã, com base na vida pessoal do jovem aeronauta Andréas Lubitz de 27 anos, marcada pela depressão, – o rapaz foi submetido a tratamento para depressão durante seis anos, a causa da tragédia teria como causa o desequilíbrio mental do rapaz . Ou seja, a hipótese mais aceitável é de que o que ocorrera fora um suicídio, seguido de homicídio em massa. Ressalte-se apenas, que o suicídio é a 2ª causa mortis do mundo e que pessoas que padecem de algum transtorno psiquiátrico são exageradamente mais susceptíveis de cometer tal ato.
Mas, ainda há muito a ser esclarecido. Ora, atribuir a causa a sua doença – depressão é mero reducionismo. Nem todas as pessoas que sofrem de depressão oferecem quaisquer riscos a si ou a outrem. Seria loucura? Outra hipótese levantada, também muito pouco provável, pois Andréas decidiu deliberadamente e tinha seu pensamento e raciocínio plenamente organizado. Ele sabia o que estava fazendo! Então, qual teria sido a causa para um “tresloucado” ato dessa natureza. Uma fala, a meu ver, merece uma atenção especial. A frase dita pelo copiloto poucos antes do crime: “o mundo ainda vai falar muito de mim”. Aos leitores que não lembram: a mesma dita por Sandro Barbosa, que em 2000 seqüestrou o ônibus 174 no Rio de Janeiro, que teve um final menos, mas também trágico: a morte da professora Geísa Gonçalves e sua própria. Aquela época, Sandro fora “diagnosticado” como esquizofrênico, o que discordo. Tanto Andréas como Sandro, desconheciam o que é sentimento de culpa, queriam mostrar-se a qualquer preço. Sofriam do mal que sofre toda nossa sociedade: narcisismo. O que escreveu Getúlio Vargas antes da morte: “saio da vida para entrar para a História!”…

(Odailson da Silva – psicanalista e escritor)

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