O poder da Retórica e como ela pode ser utilizada para manipular as pessoas nas redes sociais

07/04/2017 às 3:24 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Um excelente artigo para reflexão. Abaixo alguns destaques:

  • Na rede o real é o que eu acredito. Como disse o escritor Umberto Eco, a internet deu voz aos idiotas.

 

  • A informação em rede, portanto, não democratiza o conhecimento, ela aumenta as diferenças.
    As técnicas mais comuns de persuasão, porém, não são novas. A ampliação da esfera pública abriu um espaço infinito para os aproveitadores. Nesse caso, o conhecimento prévio também é importante. Se o indivíduo, por exemplo, conhece história, política e outras matérias, dificilmente cairá em certas armadilhas discursivas. Porém, caso contrário, e a maior parte das pessoas apresenta enorme deficiência nessas áreas, pode se tornar presa fácil para esses “estelionatários virtuais”. Assim, o outrora desinformado, vira o neoidiota do Facebook.

 

  • O pensamento crítico causa desconforto, pois é resultado de uma permanente desconstrução e reconstrução do sujeito, dos saberes, dos dogmas e das crenças. Ele não cria espantalhos para bater, ele não desqualifica o outro, ele não transfere a responsabilidade. E, por isso, provoca incômodo.

 

  • Tolstoi: “os temas mais complexos podem ser explicados ao menos inteligente dos homens, caso ele ainda não tenha uma opinião formada sobre eles; mas o assunto mais banal não pode ser esclarecido ao mais inteligente dos homens caso ele esteja convencido de que já conhece sem sombra de dúvidas o que tem diante de si”.

O poder da Retórica e como ela pode ser utilizada para manipular as pessoas nas redes sociais

Atenção: esse texto contém ironia, sarcasmo e outras figuras de linguagem. Caso você entenda as palavras em sentido literal, por favor, feche este link. Aqui também não encontrará nenhum rigor científico. Apenas as impressões de uma pessoa que já foi chamada dezenas de vezes de comunista, além de uma interpretação totalmente equivocada do Gonzaguinha. Caso seu interesse seja me mandar ir para Cuba, pode pular o texto e ir direto aos comentários. Aos demais, sigamos em frente…

Introdução

São tantas coisinhas miúdas
Roendo, comendo
Arrasando aos poucos
Com o nosso ideal
São frases perdidas num mundo
De gritos e gestos
Num jogo de culpa
Que faz tanto mal…

Convencer é exercer poder. E nada é mais sedutor que o poder. A retórica, portanto, é uma arte imersa em estratégias políticas. E, como tal, pode ser usada para múltiplos objetivos. Não por acaso os primeiros estudos sobre o tema datam da Grécia Antiga, que também era a terra dos sofistas. Estes eram os mestres da retórica, do convencimento. O gordo Górgias, um dos sofistas mais famosos, regozijava-se ao dizer que queria uma quantia de ouro equivalente ao seu peso como meio de pagamento por suas aulas. Seus alunos seriam capazes de convencer os cidadãos atenienses a entrarem em guerra, caso fosse do seu interesse, ou poderiam, igualmente, serem pacifistas. Tudo dependeria do peso, da quantidade de ouro empenhada.

Não mudamos tanto assim. A vaidade, o egoísmo e o desejo pelo poder continuam sendo afetos poderosos e perigosos. E tais características estão na base da decepção generalizada que a internet tem provocado nos especialistas. No início, a rede mundial de computadores era vista como portadora de um potencial revolucionário. Libertaria o homem do julgo dos meios de comunicação. A informação seria plural, o conhecimento estaria ao alcance de todos. O que se viu, no entanto, foi algo muito diferente. A informação descontrolada, e financiada por grupos de interesses, borrou as fronteiras entre o real e a ficção. Notícias falsas “viralizam” com uma facilidade impressionante. A verdade é à la carte. Como existe informação sobre praticamente tudo, eu escolho aquilo em que vou acreditar e que, por coincidência, reforça o que eu já sabia. Fatos são detalhes. Na rede o real é o que eu acredito. Como disse o escritor Umberto Eco, a internet deu voz aos idiotas. E eles se multiplicam, presos numa bolha que ecoa apenas a sua consciência. “O grande isolamento é cercar-se daqueles que pensam igual a você” (Hannah Arendt).

Arte de Paweł Kuczyński.

O conhecimento também não foi democratizado. Muito pelo contrário. A internet proporciona possibilidades infinitas de pesquisa. Porém, para aproveitar tais ferramentas é preciso um amplo conhecimento prévio. Um historiador, por exemplo, pode pesquisar com precisão e rapidez sobre a Roma Antiga estando no Brasil. Um economista pode ter acesso a estatísticas econômicas sobre um vilarejo perdido na Savana Africana. Porém, caso o primeiro não conheça a História Romana e os métodos de pesquisa historiográficos, de nada adiantaria o Google. O mesmo vale para o segundo exemplo. A informação em rede, portanto, não democratiza o conhecimento, ela aumenta as diferenças.
As técnicas mais comuns de persuasão, porém, não são novas. A ampliação da esfera pública abriu um espaço infinito para os aproveitadores. Nesse caso, o conhecimento prévio também é importante. Se o indivíduo, por exemplo, conhece história, política e outras matérias, dificilmente cairá em certas armadilhas discursivas. Porém, caso contrário, e a maior parte das pessoas apresenta enorme deficiência nessas áreas, pode se tornar presa fácil para esses “estelionatários virtuais”. Assim, o outrora desinformado, vira o neoidiota do Facebook. Assuntos, antes vistos como complexos e distantes do entendimento de muitos, são facilmente explicados e enlatados por sites como “Implicante” e defendidos por políticos como Jair Bolsonaro. Como num passe de mágica, tudo parece fazer sentido. As dúvidas se evaporam. Uma vida vazia ganha uma causa para defender. Está formado mais um “neofascista”.
Mostrar, com casos concretos, como as estratégias retóricas são empregadas é uma maneira de anular seu potencial manipulatório. Esse texto, portanto, usando uma interpretação livre da música do Gonzaguinha, deve ser lido como um “grito de alerta”.

***

Começamos com um caso recente. Um vídeo do youtube, publicado no dia 12/2/2017, mostra a vereadora de fortaleza, Priscila Costa (PRTB), fazendo um discurso indignado na tribuna. Segundo a parlamentar, que havia sido citada numa matéria do jornal “O Povo”, ela estaria sendo vítima de intolerância religiosa por parte de grupos de “extrema-esquerda”. A prova seria um documento assinado por 85 ONGs que pediam a rejeição do seu nome para presidir a Comissão de Direitos Humanos. Tais entidades demandavam um perfil técnico para a pasta e teriam dito que a vereadora não seria adequada para a vaga por seu vínculo com igrejas evangélicas. Aparentemente, um caso típico de preconceito. Priscila, em sua defesa, retrucou dizendo ter sido legitimamente eleita pelo povo e que era livre para expressar a sua religião. E concluiu afirmando que os movimentos feministas eram intolerantes e não aceitavam “mulheres livres”.

Outro grupo que tem ganhado notoriedade, Escola Sem Partido, queixa-se da mesma intolerância por parte da “extrema-esquerda”. O objetivo do movimento, dizem, é lutar por um ensino neutro. Sem a influência de partidos de esquerda, que querem doutrinar as crianças com objetivos políticos. Nada mais justo. Quem seria contra? Sim, mais uma vez a dita “extrema-esquerda”. Sempre ela.

O último caso interessante destacado é a ofensiva dos movimentos gays e feministas contra a família tradicional. Os homossexuais, não satisfeitos com a sua condição, desejariam que todos tivessem o mesmo destino. O objetivo do movimento gay seria o de transformar o Brasil numa “ditadura gayzista”. As feministas estariam querendo colocar homens contra mulheres. A prova do ENEM, que citou a frase da filosofa Simone de Beauvoir “ninguém nasce mulher: torna-se”, corroboraria tal visão. A prova não seria de vestibular, mas da perversidade da “extrema-esquerda”. Ora, minha filha nasceu com órgão sexual, desde o ultrassom o médico havia me informado o sexo, como assim ninguém nasce mulher? Trata-se, portanto, de mais uma investida do “Marxismo Cultural” contra a família tradicional. Socorro! Os valores cristãos estão em perigo. A solução: Jair Bolsonaro, Magno Malta, Silas Malafaia e companhia. O circo da política está montado. Pessoas passam a se digladiar nas redes sociais em defesa da “tradição cristã”, enquanto os verdadeiros problemas são resolvidos no congresso, pelos deputados e senadores, sem maiores questionamentos por parte da população.

Sarcasmos à parte, esses casos são exemplares. Por mais que esses discursos sejam toscos é preciso levá-los a sério. Eles lançam mão de várias estratégias discursivas para convencer o interlocutor e tem obtido certo sucesso. Abaixo esses estratagemas serão esmiuçados usando a obra “A Arte de Ter Razão”, do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, como base de análise.

A Dialética Erística


A análise do Schopenhauer parte do seguinte questionamento: como vencer um debate sem ter razão? A vitória, nesse caso, não tem relação com a verdade, mas com o convencimento. Partindo dessa pergunta, o filósofo explicou as 38 estratégias mais comuns usadas nessa arte de enrolar. Para surpresa do leitor contemporâneo, há inúmeros exemplos desse tipo de patifaria no mundo atual. A estratégia principal é simples e potente. Divida o mundo em dois grupos: certo ou errado, bem ou mal, feio ou bonito, céu ou inferno etc. Não é difícil. Desde criança aprendemos a pensar dessa maneira. Depois se coloque de um lado e crie uma caricatura do outro. Bata constantemente nesse espantalho. Pronto! Quem estiver do “lado oposto” automaticamente é silenciado. Quem vai querer ouvir um agente do mal? Lembra da sempre citada “extrema-esquerda”? Pois é.

Bloco 1: A) Generalize as afirmações do seu oponente; B) Confunda a argumentação; C) Mude as palavras do oponente para confundi-lo; D) Homonímia – Mude os significados das palavras-chaves do adversário.


Quanto mais amplo for um enunciado, mais fácil será rebatê-lo. Por exemplo, se eu digo que um limão é azedo, dificilmente alguém entrará em desacordo. Mas sua missão é retrucar, você é pago para isso, como fazer então? Simples: diga que ontem você comeu uma jaca e ela não era azeda. Logo é um absurdo afirmar que todas as frutas são azedas. Esta achando uma aberração esse tipo de manipulação? Acha que não funcionaria na prática? Então observe esses exemplos reais.

Muitos defendem a legalização da maconha por suas funções terapêuticas. Umas das contraposições mais comuns que se escuta é a da que as drogas viciam, destroem famílias etc. Na incapacidade de mostrar dados científicos sobre o uso da maconha, colocamos a cannabis no mesmo saco da cocaína e do craque. Pronto, agora basta mostrar os danos provocados por estas duas últimas drogas e a legalização da maconha naufraga junto com elas. Maconha é droga, droga mata, logo a maconha mata. Lógica para leigos a serviço da manipulação.

O mesmo vale para o debate sobre o fim da Polícia Militar (desmilitarização). A “extrema-esquerda” fala: queremos o fim da PM. Como retrucar? Argumentando sobre os benefícios do modelo militar de organização? Não. Mostrando casos reais em que a militarização melhorou a qualidade da segurança? Claro que não. Tudo isso requer trabalho, pesquisa e outras coisas chatas. Pergunte apenas ao filhote de Che Guevara como seria o mundo sem a existência da polícia. Repare que a afirmação é específica. Eles pediram o fim da militarização, não da polícia, mas essa é a sua chance de confundi-los. Depois conclua que pedir o fim da PM é coisa de maconheiro que não respeita a lei e quer se drogar sem maiores incômodos. Pronto, missão cumprida! Passamos para a próxima.

Caso você queira sentir na pele o ódio que esse tipo de manipulação provoca. Faça um teste. Vá até a página do MBL e cite uma frase do Karl Marx. Qualquer coisa do tipo: “tudo que é sólido desmancha no ar”, nesse caso é preciso colocar as referências para eles saberem a origem do pensamento. Você está pensando que vão discutir a influência de Hegel na obra do Marx? Ou que eles abordarão as transformações estruturais da modernidade? Marshall Sahlins? Nada disso. Aposto o que você quiser que a primeira mensagem irá lhe propor uma viagem a Cuba. – Mas Marx não era cubano. Não importa. Ele era comunista e, ao citá-lo, você receberá o pacote completo, incluindo: Stalin, Gulag, satanismo, pedofilia, Hugo Chavez, e mais um milhão de coisas.

Casamento gay também pode ser rebatido com esse artifício. Se algum comunista petista disser que gays merecem o mesmo tratamento por serem cidadãos, não se intimide. Diga que estimular a homossexualidade é um equivoco, pois relações homoafetivas não geram filho e isso seria um risco para a sociedade. – Mas qual a relação entre estender direitos a uma minoria e estimular um tipo de comportamento que tem a ver com o desejo? Não faça perguntas, diga apenas isso, sempre haverá aqueles que irão acreditar.
Pessoas confusas são mais facilmente manipuláveis. Pegue uma afirmação que a princípio foi feita de maneira relativa e amplie seu sentido, de modo a confundir. No cômico debate entre o ex-governador doCeará Ciro Gomes e o economista Rodrigo Constantino, o primeiro propôs a seguinte reflexão: “sabe quantas pessoas estão matriculadas no ensino superior público brasileiro?” Ele mesmo respondeu: “06 de cada 100 garotos de 18 a 25 anos. Em cuba tem 48”. E agora? O debatedor deu um número, concreto, objetivo, de um país de extrema esquerda. O que fazer? Simples, confunda. Constantino retrucou: “doutrinados, né”. A afirmativa havia sido direta, objetiva e fazia referência à capacidade do Estado de colocar jovens dentro das universidades. Apenas isso. O que era feito lá dentro não estava sendo objeto do debate. Mas a suposta doutrinação do ensino cubano foi lembrada apenas para confundir. Um telespectador menos atento poderia achar que o ex-governador estivesse defendendo uma educação doutrinária.

Ciro Gomes, com sua experiência, percebeu a manipulação discursiva e inverteu a situação: “doutor, não ponha palavras na minha boca. Cuba é um país miserável, que tem um regime deplorável. Você quer que eu fale mal? Cuba consegue num regime deplorável, numa economia ridícula, botar 48 de cada 100 dos seus jovens na universidade. O Brasil bota 06”.

Como podemos observar, ao se antecipar e falar mal do sistema cubano, Ciro Gomes conseguiu anular a única arma do seu debatedor. Ciro percebeu a manobra, a tentativa de confundir o debate, e mostrou que conhecia os limites políticos e econômicos do país referido e matou a questão ao concluir que, mesmo com os problemas citados, eles conseguiam ter oito vezes mais alunos que o Brasil no curso superior. Xeque-mate. Não havia saída. Foi em função de tiradas como essa que o vídeo viralizou no youtube. O sofista estava “nu”.

Passamos para a homonímia. Sim, a língua portuguesa é rica, use-a a seu favor. O exemplo do Schopenhauer é o seguinte: um debatedor diz “você já foi iniciado nos mistérios da filosofia kantiana?” O interlocutor responde “não gosto de mistérios”. Repare, a pergunta foi sobre se o interlocutor conhecia o pensamento de Kant. E, para fugir, ele aproveitou dos múltiplos sentidos da palavra mistério.
A política brasileira também possui os seus mistérios. Na corrida para a prefeitura da cidade do Rio de Janeiro no ano passado, umas das propostas do candidato Marcelo Freixo era a de formar “conselhos” de bairros para discutir os problemas locais. Seria uma forma de democracia participativa, em que a prefeitura ouviria os moradores sobre os problemas regionais. Alguém seria contra? Aparentemente não. Só existe uma forma de derrubar essa proposta, você imagina? Apelar para a “extrema-esquerda”: o coringa de todo sofista.

O equivalente Russo para palavra “conselho” é soviete. Sim, exatamente. Problema resolvido. Esse caso ainda tem a vantagem de ser um estratagema bilíngue, mostrar conhecimento da língua Russa não é para qualquer pessoa. Aproveite!

Essa homonímia me permite refutar o Marcelo Freixo evocando a famosa frase “todo poder aos sovietes”. “Todo o poder” é coisa de gente totalitária, logo a proposta do deputado é totalitária. Não importa se a frase está fora de contexto. Não importa se ela está sendo interpretada de modo equivocado. Quem ainda estuda seriamente a história da URSS? kerensky  parece nome de personagem de desenho animado. “Poder Dual” também não faz nenhum sentido para muitos. Siga em frente.

Bloco 2: Desqualifique o argumento do outro; Mude o curso, interrompa antes da perda certa; desfoque, depois encontre uma brecha; provoque o oponente; deixe o seu oponente desequilibrado; ganhe a simpatia da audiência e depois ridicularize o adversário; como último recurso, parta para o ataque pessoal.

Bem, neste segundo bloco os métodos são bem claros e os títulos autoexplicativos. Não vou me deter muito dissertando sobre algo que é evidente. Mas, caso o leitor queira algum exemplo, sugiro que mostre esse texto para algum eleitor do Bolsonaro ou para algum leitor do Olavo de Carvalho. Em poucos minutos você poderá observar vários desses estratagemas expostos acima.

Bloco 3: a) Use a exceção para destruir a tese; b) use as premissas do seu oponente contra ele. c) cole um sentido ruim na alegação do outro; d) invalide a teoria pela prática; e) apresente uma segunda opção inaceitável; f) prepare o caminho, mas oculte as conclusões; g) mostre ao seu oponente que está lutando contra os seus próprios interesses.

Use a exceção para destruir ou, eu adicionaria, para corroborar a tese. O movimento Escola Sem Partido usa esse tipo de manipulação o tempo inteiro. Eles partem do seguinte pressuposto: existe um projeto em curso de doutrinação nas escolas. Há dados científicos que corroborem essa premissa? Não. Há pesquisas? Também não. Como então convencer que esse problema existe? Simples, use relatos difusos. É uma menina que disse que foi expulsa do mestrado por ser cristã. É um livro de história, que sequer é adotado mais, que mostra uma visão positiva do socialismo etc. Na impossibilidade de mostrar o problema de forma estrutural, usa-se relatos isolados para confundir aquele que se pretende manipular.

Usar as premissas do oponente contra ele. Você está lembrado de quando destacamos o caso da vereadora Priscila Costa? Do que ela acusou o movimento feminista mesmo? Isso mesmo, de não suportarem mulheres livres. E o que o movimento feminista defende? – A liberdade das mulheres. Ótimo! Já podemos passar para o próximo exemplo.

Cole um sentido ruim na alegação do outro. Chame a oposição de petralha ou mortadela. Chame os defensores dos Direitos Humanos de defensores de bandidos. Chame os programas anti-homofobia de kit gay. Chame as feministas de feminazi etc.

Invalide a teoria pela prática. Esse estratagema é muito útil para quebrar a argumentação do seu debatedor e confundir a plateia. Caso seu oponente fale bem sobre um assunto e você não tenha como argumentar, diga a seguinte frase: “isso é muito bonito na teoria, mas na prática não funciona”. Usando esse artifício você passará a impressão que conhece a fundo tudo o que foi dito, inclusive as experiências empíricas.

Apresente uma segunda opção inaceitável. Faça criticas ao liberalismo na frente de um leitor do Rodrigo Constantino. Diga que o capitalismo não é justo. Que ele gera crises. Que ele não funciona etc. Primeiro ele se defenderá usando uma série de clichês. Caso você insista em apontar os problemas, ele passará a atacar Stalin, Lênin e companhia. Perceba, o debate era sobre os problemas do modelo liberal. Ou sobre as diferentes formas de se adotar o sistema capitalista. Mas ele não está apto a fazer uma discussão dessas. Então recorrerá a uma segunda opção inaceitável. Ou você concorda com tudo que eu digo ou você estará defendendo o terror Stalinista.

Prepare o caminho, mas oculte as conclusões. Trata-se do uso do famoso silogismo aristotélico. Explicando de forma mais simples, o debatedor usa premissa que, isoladas, dificilmente serão refutadas, porém podem levar a conclusões absurdas. “Todos os cavalos raros são caros. Os cavalos baratos são raros. Então, os cavalos baratos são caros.” Repare que essa manipulação segue uma sequência lógica e dificilmente alguém discordaria de cada argumento isoladamente. Porém a conclusão que se chega é absurda e paradoxal. Esse método é usado pelo Movimento Escola Sem Partido da seguinte forma: primeiro eles perguntam se o debatedor concorda com a premissa que a educação não deve ser doutrinadora. Claro que a resposta será positiva. Depois afirmam que o professor não deve usar a “audiência cativa” dos alunos para buscar seu interesse próprio. Novamente, não há como se opor. Por fim, eles dizem que nenhum professor deve perseguir um aluno por suas convicções políticas ou religiosas. Total acordo. No fim, vem o salto lógico, se nem os oposicionistas discordam das nossas propostas, por que eles não querem que as crianças saibam desses direitos?

g) Mostre ao seu oponente que está lutando contra os seus próprios interesses. Para convencê-lo a trabalhar mais tempo, sem aposentadoria, diga que é preciso reformar no presente para garantir os rendimentos futuros. Diga também que os seus direitos geram desemprego e miséria.

Olhando para além das palavras: análise do discurso movimento do Escola Sem Partido.

“We don’t need no education
We don’t need no thought control”


O Movimento Escola Sem Partido nasceu da indignação do promotor Miguel Nagib com uma aula de história que sua filha havia recebido no colégio. O professor havia comparado Che Guevara a São Francisco de Assis. Tal fato fez com que o promotor chegasse à conclusão de que havia um processo de doutrinação em curso nas escolas e universidades brasileiras. Sim, isso mesmo, partindo de um relato de uma comparação infeliz, Miguel Nagib montou um movimento com o objetivo de acabar com esse suposto partidarismo. Mas como provar que tais práticas eram recorrentes? Estudar a história da educação? Ler os PCNs? Procurar os vínculos existentes entre o governo e os colégios para mostrar como este influencia no ensino? Nada disso. O caminho escolhido foi a manipulação e distorção dos fatos.

O primeiro passo você já conhece, isso mesmo, dividir o mundo em dois. Bem contra o Mal. O nome escolhido já ajuda a identificar essa manobra, de um lado estão aqueles que defendem a escola sem partido e do outro, por exclusão, os que defendem a escola partidária. Você já deve saber quem está no lado das trevas, sim, ela mesma, a extrema esquerda. São os herdeiros de Lênin que querem ocupar a mente das crianças indefesas.

Os defensores do projeto, para “provar” que a doutrinação é uma prática recorrente, apontam uma pesquisa, encomendada pela Revista Veja ao instituo Instituto CNT/Sensus, em que era perguntado qual era o principal papel da educação. Segundo o levantamento, 78% dos professores entrevistados teriam dito que é formar cidadãos. Pronto, hora de manipular as palavras e seus sentidos. Para Nagib e seus seguidores, com este resposta, os professores estariam assumindo que doutrinavam os alunos. Também passaram a confundir a argumentação. Usaram os péssimos resultados das escolas brasileiras nos exames internacionais para mostrar os efeitos desse suposto partidarismo. Ignoram todos os problemas estruturais da educação: falta de estrutura, baixos salários dos professores, falta de professores, desmotivação, pouco investimento por aluno etc. Tudo se resume mais uma vez a um plano diabólico da “extrema-esquerda” para conquistar o poder. Obviamente que um projeto que coloca a culpa nos professores pela baixa qualidade do ensino e ainda desqualifica a esquerda chamaria a atenção dos deputados e senadores. Era a chance de transferir a culpa para a oposição e para uma classe profissional.

Os erros teóricos, conceituais e as contradições do projeto são inúmeras. Mas, como já dito, poucos estão interessados nessas coisas chatas. Mas não custa apontar aqui os erros mais gritantes. Os professores responderam que o papel da educação seria o de “formar cidadãos” porque só foi dada uma opção de escolha. Isso não quer dizer que eles ignorem outros objetivos do ensino que, diga-se, não são excludentes. O processo educacional é múltiplo e é perfeitamente possível que várias habilidades cognitivas sejam estimuladas ao mesmo tempo. Mas as manipulações não param por aí.

Em seguida a turma do Nagib resolveu formular uma série de orientações que, segundo eles, seriam deveres do professor. Camufladas por um discurso de “neutralidade”, tais propostas, caso aplicadas, inviabilizariam qualquer forma de ensino crítico.

Além de colocar “teorias” e “opiniões” lado a lado e sem especificar o que seriam essas “opiniões”, o projeto parte de uma concepção errada do que seria o “pensamento crítico”. Obrigar os professores a tratar de todas as questões (e opiniões) políticas, socioculturais e econômicas importantes não é estimular o pensamento crítico. O resultado será muito parecido com o que já acontece nas redes sociais, ou seja, os alunos irão começar a buscar visões que corroboram os valores que eles já trazem. Pensamento crítico não é uma teoria, mas um método. Um método de desconstrução de crenças arraigadas e de crítica do próprio sujeito. Ou seja, o pensamento crítico é algo para ser usado para relativizar, não sendo construído apenas ouvindo todo o tipo de opinião. Se assim fosse, o Facebook estaria povoado por grandes pensadores. A capacidade crítica é uma habilidade que precisa ser desenvolvida ao longo do processo de aprendizagem e ela não se encontra nas teorias, mas na capacidade do aluno e pensar e desconstruir seus pressupostos.

O “dever” 06 é igualmente absurdo. Como um professor, num sala com 50 alunos, irá ministrar uma aula, digamos, sobre nazismo ou sobre o Golpe Militar de 1964 com um papel desses fixado na frente dos alunos? Imagina quantas crianças escutam em casa que o que houve em 64 foi uma Revolução Cívica? Ou que Hitler era comunista? Não há nenhuma base historiográfica para tais afirmações, são apenas opiniões, mas o projeto também contempla opiniões! E se o aluno entender que a ética existencialista não está de acordo com sua tradição cristã?

O pensamento crítico causa desconforto, pois é resultado de uma permanente desconstrução e reconstrução do sujeito, dos saberes, dos dogmas e das crenças. Ele não cria espantalhos para bater, ele não desqualifica o outro, ele não transfere a responsabilidade. E, por isso, provoca incômodo.

Considerações finais

Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro.

As redes sociais criaram uma realidade em que os usuários foram se colocando em nichos de opinião. O grande fluxo de informação desorienta. Como processar uma quantidade quase infinita de opiniões conflitantes e divergentes? Imerso numa Torre de Babel de palpiteiros, os usuários começaram a procurar lugares em que tais informações cheguem a eles filtradas e explicadas. Nesse caso, quanto mais simples melhor, ninguém tem tempo a perder. Se a página do MBL me diz que a esquerda não presta, ótimo, estou autorizado a ignorar boa parte das publicações que chegam até mim. Bem, se eu não gosto de petista e sigo o MBL, é porque eu devo ser liberal. Pronto, agora basta procurar pessoas que pensam igual a mim. Ali eu encontrei explicações prontas para qualquer coisa. As dúvidas se evaporam, o desconforto desaparece. Sinto-me pronto para debater com qualquer um, pois tenho todas as respostas.

Arte de Paweł Kuczyński.

As redes sociais, portanto, mais que um local de troca de ideias ou de informação, transformou-se num ambiente de construção de identidade. Um espaço para demarcar uma posição. Por isso o debate tem sido tão pobre. O que se pretende não é construir ideias, refletir, mas rivalizar com aqueles que pensam diferente. Se não há dúvidas, não há reflexão, isso já é sabido desde os gregos.

As manipulações, muitas delas grosseiras, de imagens e dos discursos, tem conseguido enorme repercussão em função disso. O critério principal não é a verdade, mas o engajamento a uma determinada visão de mundo. O outro lado que se vira para desmentir esse conteúdo, minha função é “atacar” o inimigo. É uma disputa de narrativas, de imaginários, em que a grande vítima é o pensamento.

Ou seja, vivemos uma realidade distinta daquela de Schopenhauer. Quando o filósofo alemão pensou A Arte de Ter Razão, ele estava escrevendo partindo do princípio de um debate entre duas pessoas diante de um público neutro, aberto às diferentes ideias em jogo. Não é o que normalmente acontece na rede. A discussão na internet é travada entre grupos de opiniões, fechados às divergências e que estão mais preocupados em demarcar território do que construir qualquer forma de saber. E, como nos lembra Tolstoi: “os temas mais complexos podem ser explicados ao menos inteligente dos homens, caso ele ainda não tenha uma opinião formada sobre eles; mas o assunto mais banal não pode ser esclarecido ao mais inteligente dos homens caso ele esteja convencido de que já conhece sem sombra de dúvidas o que tem diante de si”.

A internet não tem sido um instrumento democrático de acesso ao conhecimento, mas ela não perdeu esse potencial. Por isso, precisa ser repensada. O maior drama é saber que textos críticos só chegarão àqueles que já perceberam o problema. Um artigo como esse que você acabou de ler, voltado para pessoas que discordam da sua opinião, é como uma garrafa com uma mensagem esquecida no oceano à espera que alguém em terra firma a encontre. E, caso você resolva ler esse artigo e mesmo assim não concorde comigo, por favor, não se ofenda, “eu busquei as palavras mais certas, vê se entende o meu grito de alerta”.

Para saber mais:

• A Arte de Ter razão, de Arthur Schopenhauer.

(Eduardo Migowski)

FONTE: http://voyager1.net/sociedade/voce-esta-sendo-enganado-no-facebook/

Castells vê “expansão do não-capitalismo”‏

15/02/2014 às 3:55 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 2 Comentários
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Confiram esta entrevista de Manuel Castells. Seria mais um sonho ? (Cultura Econômica Alternativa ?). O fenômeno que ele diz ocorrer, por exemplo, de forma acentuada na Catalunã eu não consegui ver quando estive em Barcelona ano passado. Mas naquela ocasião meus olhos estavam voltados para outras coisas. Seria isso ? Falta a gente olhar bem e enxergar outro mundo, outra economia, outro modo de se viver que já se instalou ?


Castells vê “expansão do não-capitalismo”‏

Culturas econômicas alternativas teriam sido reforçadas pela crise. Mas sociólogo adverte: sistema não entrará em colapso por si mesmo 

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O professor Manuel Castells é um dos sociólogos mais citados no mundo. Em 1990, quando os mais tecnologicamente integrados de nós ainda lutavam para conseguir conectar seus modens, o acadêmico espanhol já documentava o surgimento da Sociedade em Rede e estudava a interação entre o uso da internet, a contracultura, movimentos de protesto urbanos e a identidade pessoal.

Paul Mason, editor de notícias econômicas da rádio BBC, entrevistou o professor Castells na London School of Economics (Escola de Economia de Londres) sobre seu último livro, “Aftermath: The Cultures of Economic Crisis” (“Resultado: as Culturas da Crise Econômica”), ainda sem tradução para português.

Castells sugere que talvez estejamos prestes a ver o surgimento de um novo tipo de economia. Os novos estilos de viver dão sentido à existência, mas a mudança tem também um segundo motor: consumidores que não têm dinheiro para consumir.

São práticas econômicas não motivadas pelo lucro, tais como o escambo, as moedas sociais, as cooperativas, as redes de agricultura e de ajuda mútua, com serviços gratuitos – tudo isso já existe e está se expandindo ao redor do mundo, diz ele. Se as instituições políticas vão se abrir para as mudanças que acontecem na sociedade – é cedo para saber. Seguem trechos da conversa.

O que é surgimento de novas culturas econômicas?

Quando menciono essa Cultura Econômica Alternativa, é uma combinação de duas coisas. Várias pessoas têm feito isso já há algum tempo, porque não concordam com a falta de sentido em suas vidas. Agora, há algo mais — é a legião de consumidores que não podem consumir. Como não consomem — por não terem dinheiro, nem crédito, nem nada — tentam dar sentido a suas vidas fazendo alguma coisa diferente. Portanto, é por causa das necessidades e valores — as duas coisas juntas — que isso está se expandindo.

Você escreveu que as economias são culturais. Pode falar mais sobre isso?

Se queremos trabalhar para ganhar dinheiro, para consumir, é porque acreditamos que comprando um carro novo ou uma nova televisão, ou um apartamento melhor, seremos mais felizes. Isso é uma forma de cultura. As pessoas estão revertendo essa noção. Pelo contrário: o que é importante em suas vidas não pode ser comprado, na maioria dos casos. Mas elas não têm mais escolha porque já foram capturadas pelo sistema. O que acontece quando a máquina não funciona mais? As pessoas dizem “bem, eu sou mesmo burro. Estou o tempo todo correndo atrás de coisa nenhuma”.

Qual a importância dessa mudança cultural?

É fundamental, porque desencadeia uma crise de confiança nos dois maiores poderes do mundo: o sistema político e o financeiro. As pessoas não confiam mais no lugar onde depositam seu dinheiro, e não acreditam mais naqueles a quem delegam seu voto. É uma crise dramática de confiança – e se não há confiança, não há sociedade. O que nós não vamos ver é o colapso econômico per se, porque as sociedades não conseguem existir em um vácuo social. Se as instituições econômicas e financeiras não funcionam, as relações de poder produzem transformações favoráveis ao sistema financeiro, de forma que ele não entre em colapso. As pessoas é que entram em colapso em seu lugar.

A ideia é que os bancos vão ficar bem, nós não. Aí está a mudança cultural. E grande: uma completa descrença nas instituições políticas e financeiras. Algumas pessoas já começam a viver de modo diferente, conforme conseguem – ou porque desejam outras formas de vida, ou porque não têm escolha. Estou me referindo ao que observei em um dos meus últimos estudos sobre pessoas que decidiram não esperar pela revolução para começar a viver de outra maneira – o que resulta na expansão do que eu chamo de “práticas não-capitalistas”.

São práticas econômicas, mas que não são motivadas pelo lucro – redes de escambo, moedas sociais, cooperativas, autogestão, redes de agricultura, ajuda mútua, simplesmente pela vontade de estar junto, redes de serviços gratuitos para os outros, na expectativa de que outros também proverão você. Tudo isso existe e está se expandindo ao redor do mundo.

Na Catalunha, 97% das pessoas que você pesquisou estavam engajadas em atividades econômicas não-capitalistas.

Bem, estão entre 30-40 mil os que são engajados quase completamente em modos alternativos de vida. Eu distinguo pessoas que organizam a vida conscientemente através de valores alternativos de pessoas que têm vida normal, mas que têm costumes que podem ser vistos como diferentes, em muitos aspectos. Por exemplo, durante a crise, um terço das famílias de Barcelona emprestaram dinheiro, sem juros, para pessoas que não são de sua família.

O que é a Sociedade em Rede?

É uma sociedade em que as atividades principais nas quais as pessoas estão engajadas são organizadas fundamentalmente em rede, ao invés de em estruturas verticais. O que faz a diferença são as tecnologias de rede. Uma coisa é estar constantemente interagindo com pessoas na velocidade da luz, outra é simplesmente ter uma rede de amigos e pessoas. Existe todo tipo de rede, mas a conexão entre todas elas – sejam os mercados financeiros, a política, a cultura, a mídia, as comunicações etc –, é nova por causa das tecnologias digitais.

Então, nós vivemos numa Sociedade em Rede. Podemos deixar de viver nela?

Podemos regredir a uma sociedade pré-eletricidade? Seria a mesma coisa. Não, não podemos. Apesar de agora muitas pessoas estarem dizendo “por que não começamos de novo?” É um grande movimento, conhecido como “decrescimento”. Algumas pessoas querem tentar novas formas de organização comunitária etc.

No entanto, o interessante é que, para as pessoas se organizarem e debaterem e se mobilizarem pelo decrescimento e o comunitarismo, elas têm que usar a internet. Não vivemos numa cultura de realidade virtual, mas de real virtualidade, porque nossa virtualidade – significando as redes da internet – é parte fundamental da nossa realidade. Todos os estudos mostram que as pessoas que são mais sociáveis na internet são também mais sociáveis pessoalmente.

Existem diversos grupos que hoje protestam sobre o assunto A, amanhã sobre o assunto B, e à noite jogam World of Warcraft (jogo RPG online de aventura). Mas será que eles vão conseguir o que Castro e Guevara conquistaram?

O impacto nas instituições políticas é quase insignificante, porque elas são hoje impermeáveis a mudanças. Mas, se você olhar para o que está acontecendo em termos de consciência… há coisas que não existiam três anos, como o grande debate sobre a desigualdade social.

Em termos práticos, o sistema é muito mais forte do que os movimentos nascentes… você atinge a mente das pessoas por um processo de comunicação, e esse processo, hoje, acontece fundamentalmente pela internet e pelo debate. É um processo longo, que vai das mentes das pessoas às instituições da sociedade. Vamos usar um exemplo histórico: a partir do fim do século XIX, na Europa, existiam basicamente os Conservadores e os Liberais, direita e esquerda. Mas então alguma coisa aconteceu – a industrialização, os movimentos da classe trabalhadora, novas ideologias. Nada disso estava no sistema político. Depois de vinte ou trinta anos, vieram os socialistas e depois a divisão dos socialistas… e os liberais basicamente desapareceram. Isso mudará a política, mas não por meio de ações políticas organizadas da mesma maneira. Por quê? Porque as redes não necessitam de organizações hierárquicas.

Onde isso vai dar?

Tudo isso não vai virar uma grande coalizão eleitoral, não vai virar nenhum novo partido, nenhum novo coisa nenhuma. É simplesmente a sociedade contra o Estado e as instituições financeiras – mas não contra o capitalismo, aliás, contra instituições financeiras, o que é diferente.

Com esse clima, acontece que nossas sociedades se tornarão cada vez mais ingovernáveis e, em consequência, poderá ocorrer todo tipo de fenômeno – alguns muito perigosos. Veremos muitas expressões de formas alternativas de política, que escaparão das correntes principais de instituições políticas tradicionais. E algumas, é claro, voltando ao passado e tentando construir uma comunidade primitiva e nacionalista para atacar todos os outros movimentos e, finalmente, conseguir ter uma sociedade excluída do mundo, que oprime seu próprio povo.

Mas acontece que, em qualquer processo de mudança social desorganizada e caótica, todos esses fenômenos coexistem. E o modo como atuam uns contra os outros vai depender, em última análise, de as instituições políticas abrirem suficientemente seus canais de participação para a energia de mudança que existe na sociedade. Então talvez elas possam superar a resistência das forças reacionárias que também estão presentes em todas as sociedades.

(Entrevista a Paul Mason. Tradução: Gabriela Leite para o Outras Palavras)

FONTE: http://revistaforum.com.br/blog/2012/11/castells-ve-expansao-do-nao-capitalismo/

O BARCELONA E A NOVA CIÊNCIA DAS REDES

01/07/2012 às 3:51 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 3 Comentários
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A performance do Barcelona, sem dúvidas o melhor time do mundo na atualidade, já foi objeto de muitos estudos. Vi esse agora, da Escola de Redes de Augusto Franco, que achei interessante. Vale a leitura, afinal hoje é domingo, e domingo é dia de futebol !


O BARCELONA E A NOVA CIÊNCIA DAS REDES

Aqui onde moro atualmente, nos Jardins, em São Paulo, ouvi ontem (24/04/12) ao final da partida Barcelona x Chelsea, gritos enfurecidos: “Chupa Barcelona Filho da Puta!”. A partida empatou (2 x 2), mas o Barcelona foi eliminado da Champions League porque precisava vencer por dois gols et coetera.

Fiquei pensando se Albert Camus, prêmio Nobel de literatura, não tinha razão quando dizia que de todas as suas experiências na vida a que maior conhecimento lhe proporcionou sobre os homens foi o futebol. Aquele buzinaço que se seguiu à partida, comemorando o não-futebol do Chelsea, me disse muita coisa desagradável. Revelou, por um lado, as entranhas da intolerância com o que foge dos padrões. Mais do que isso, entretanto, soou, por outro lado, como um lamento desesperado de seres aprisionados que gostariam de se libertar mas não o fazem porque acham que não é possível, porque imaginam que a sua prisão é universal.

Quem viu o jogo pôde perceber que o Chelsea, a partir de certo momento (coincidente com o início da partida), praticamente não jogou bola. Matou o tempo. Matou o futebol. Mesmo assim, contou com o entusiasmo de fervorosos torcedores. Mais do que isso, contou com hard feelings de uma multidão que mais parecia estar se vingando da arte.

Arte? Como é possível? Parem com isso! O que queremos é a guerra. Não queremos um lírico Iniesta fazendo firulas no meio campo. Queremos a força, a garra, o vale-tudo orientado pelo resultado do gigante Drogbah. Fora Iniesta, seu anão imprestável! Drogbah é o nosso herói!

Bem, devo dizer que meu interesse no assunto não é propriamente futebolístico e sim investigativo e decorre de minhas explorações na nova ciência das redes. Há bastante tempo venho observando como a topologia da rede “produz” o comportamento coletivo. É claro – não vou negar – que prefiro me deleitar assistindo o novo futebol criativo do Barcelona do que o futebol de resultados dos times ingleses e italianos que envelheceram-mal e que só sabem dar chutão prá frente para tentar surpreender a defesa desarmada do oponente. Ainda não me deformei a ponto de gostar da realpolitik: para isso não preciso de futebol: bastaria acompanhar as guerras, a luta política pervertida como arte da guerra ou a concorrência adversarial praticada pelas empresas hierárquicas.

Mas isso agora talvez não venha ao caso.

Diz-se que o Barcelona perdeu porque ficou vulnerável. Concordo. Acho que o futebol do Barcelona é extremamente vulnerável mesmo, não a um ou outro adversário que tenha estudado suas fraquezas e sim às regras do futebol, que não acompanharam a evolução do futebol.

O velho futebol do século 20 é – como observou argutamente George Orwell no artigo “The Sporting Spirit” (London: Tribune, December 1945) – uma espécie de guerra sem mortes (“It is war minus the shooting”, escreveu ele textualmente). Não é bem um jogo, uma atividade lúdica da qual se possa tirar fruição, admirada em si mesma ou por si mesma, uma coreografia estrutural coletiva onde as coordenações de coordenações comportamentais se encaixem sinergicamente (a essência da dança e daí a arte), mas um vale-tudo no qual se exalça as capacidades dos indivíduos de obter por qualquer meio a vitória, seja dando uma joelhada desleal nas costas do jogador adversário, seja falsificando abertamente as regras (pois, afinal, “guerra é guerra” e na guerra, como se sabe, é necessário que a primeira vítima seja a verdade).

Parece óbvio que o futebol one-touch oriented do Barcelona exigiria novas regras no-touch oriented. Por exemplo, as regras atuais do futebol deixam um jogador tirar outro fisicamente da jogada com um encontrão (que se for feito com o ombro, com o quadril ou com o tronco, na maior parte dos casos não é falta e sim “disputa normal” do jogo). Ora, nessas condições, quem se prepara melhor para o vale-tudo (quem se prepara para a guerra) tende a prevalecer.

Nessa espécie de variação de baixa intensidade do rugby, o futebol vai assim se rendendo aos atributos físicos individuais dos jogadores e à chamada “tática”, traçada de antemão por algum chefe-técnico que monta seus ardis com base no comando-e-controle. Não é por acaso o deslizamento de categorias próprias da guerra para o futebol: tática, estratégia, ofensiva, defensiva, espírito de corpo ou coesão e aplicação tática (quer dizer, subordinação a um esquema pré-determinado). Faz sentido. E a utilização desses conceitos só corrobora a hipótese de George Orwell. Mas o problema é que tudo isso favorece o ânimo adversarial e diminui as nossas oportunidades de sentir aquele prazer tipicamente humano de contemplar as interações sociais (quer dizer… aquelas interações tipicamente humanas).

O Chelsea é uma remanescência do futebol do século passado. No entanto, como as regras do jogo continuam no passado, já se sabia, antes da partida, que tudo poderia acontecer. Quer dizer: que o não-futebol poderia vencer o futebol. Como venceu, pelas regras. Não apenas o Chelsea, mas qualquer outro time poderia (e poderá) vencer o Barcelona, sem violar as regras. Porque é fácil derrotar o Barcelona. Basta, para tanto, derrubar seus jogadores. Se o jogador não está em pé ele não pode jogar. Ponto.

No entanto, o futebol do Barcelona não foi derrotado pelo futebol de outros times. Nem poderá sê-lo. Mesmo que o Barcelona venha a perder todas as próximas partidas que disputar, parece óbvio que um número maior de caminhos (mais passes por unidade de tempo) significa a configuração de uma topologia de rede mais distribuída do que centralizada. E que quanto mais distribuída for a topologia da rede, mais conectividade e mais interatividade haverá. E que, assim, mais possibilidades surgirão de fazer a bola chegar ao gol adversário (a regra suprema do jogo). É matemático. O que não quer dizer que ocorrerá sempre.

Eis os diagramas ilustrativos (publicados originalmente por Paulo Ganns, na Escola-de-Redes) do jogo Barcelona x Santos em dezembro de 2011. Veja-se a diferença das topologias (caricaturadas na imagem para evidenciar a diferença).

E eis agora minhas variações do diagrama do Paulo Ganns, comparando a rede distribuída configurada pelos passes do Barcelona com a representação de um emaranhado quântico (imediatamente abaixo) e a rede centralizada do Santos Futebol Club com o organograma de uma organização centralizada (mais abaixo).

Pois bem. O mais importante, do ponto de vista das redes, vem agora.

O campo social gerado pela alta interatividade do Barcelona (o time mais highly connected que já foi formado) enseja a manifestação daqueles fenômenos acompanhantes da auto-organização e da inteligência coletiva: seus jogadores se aglomeram (clustering) e desaglomeram de acordo com os fluxos da partida, jogam a maior parte do tempo sem a bola, mudando de lugar continuamente (o time é realmente mobile), praticam o imitamento ou cloning (clonagem variacional dos movimentos dos outros jogadores do mesmo time e, às vezes, do time adversário – coisa que pouquíssima gente nota, sobretudo os experts no assunto), eventualmente enxameiam (swarming) impedindo que a bola saia do campo adversário e diminuem o espaço-tempo para os movimentos do oponente, quer dizer, contraem o tamanho social do mundo composto pelos vinte e dois players (o Barcelona provoca o efeito Small-World). Basta observar: seus jogadores são pequenos (não precisam de corpo avantajado), seus passes são pequenos (curtos)… O Barcelona – provavelmente sem ter a menor consciência disso – causa esse amassamento (crunching) e talvez esta seja sua principal virtude e vantagem comparativa: o Barcelona é a prova viva de que small is powerful!

Por tudo isso, não tenho receio de afirmar que há mais inteligência coletiva embutida num jogo do Barcelona do que em todas as partidas travadas pelo Real Madrid, ainda que este último possa ter craques com mais assertividade e mais combatividade e sejam mais – como direi? – results-oriented do que os jogadores do Barcelona.

Bem… aqui começa minha investigação. O jogo aparentemente bobo do Barcelona, de ficar trocando passes redundantemente na intermediária é em geral censurado pelos comentaristas futebolísticos (e por outros metidos a profundos conhecedores de futebol) como sintoma de falta de objetividade. Mas a contração de redundância (repetição de caminhos) com distribuição (multiplicação de caminhos) é o que compõe a resiliência, uma das características principais da sustentabilidade (ou do que chamamos de vida). O tempo de posse de bola é um indicador indireto dessa resiliência quando revela, entre outras coisas, a frequência da mudança de trajetória da bola e a repetição de caminhos (não é raro ver um jogador do Barcelona trocar passes com outro jogador mantendo os dois praticamente as mesmas posições; ou então progredindo no terreno como em um movimento solidário de dois corpos, como se fosse um haltere se deslocando ou Plutão e Caronte em translação ao redor do Sol).

Sim, o Barcelona imita a vida. Ao contrário do que se pensa, a vida nunca trabalha com economia de esforços e sim com repetição intermitente (iteração) de ações similares. E a vida não economiza esforços simplesmente porque não precisa fazer isso, porque multiplicação de caminhos gera abundância e não escassez.

Mas não é só isso. O Barcelona clona o funcionamento do formigueiro. Como as formigas, seus jogadores não têm posição fixa, mas podem mudar de função várias vezes em uma mesma partida. Como nos mostrou a cientista Deborah Gordon (1999), em “Formigas em ação”, ao contrário do que se acreditava, as formigas mudam de função (dependendo das necessidades coletivas do formigueiro, uma forrageira pode virar “soldado”, por exemplo). Os jogadores do Barcelona também não têm dificuldade de mudar de posição (ou de função). Usando as antigas denominações (no caso, merecidas): o ponta esquerda pode virar ponta direita, o meio-campista pode virar beque ou centroavante, qual o problema?

O problema é que se pensava em produtividade a partir da especialização, do desempenho ótimo de funções fixas: como na produção fordista, um indivíduo que repetiu milhares de vezes a mesma função tem mais chances de ser mais rápido e menos chances de errar no exercício daquela função determinada. Isso é válido, por certo, para a reprodução mecânica das mesmas ações. Aplicado ao futebol, porém, contribui para eliminar a criatividade, sobretudo a criatividade coletiva, quer dizer, o ambiente favorável à criação ou à inovação. Instaura-se assim o futebol reprodutivo, a fábrica de jogar bola da sociedade industrial.

Nesse ambiente reprodutivo o que se destaca é o craque (o indivíduo), não o time (a rede social composta pelos jogadores interagindo segundo determinado padrão). Porque, em tais circunstâncias estruturais da rede centralizada só a genialidade individual pode romper o esquema, surpreender, sair fora da caixa. Tudo então passa a depender dos craques, dos indivíduos. É o futebol-burro com a sobressaliência dos pontos fora da curva, daqueles indivíduos inteligentes capazes, como se diz, de fazer a diferença e definir a partida com um lance magistral.

E é por isso que se atribui, não raro, o sucesso do Barcelona à genialidade do craque Messi. Sim, Messi é de fato um jogador excepcional, mas o futebol do Barcelona não depende de suas jogadas excepcionais. Com toda certeza as interações do dipolo Xavi Hernándes – Andrés Iniesta e deles com o restante do time (com Lionel Messi inclusive e deste último com Daniel Alves) são mais decisivas para o excelente comportamento do time do que os lances geniais individuais do fabuloso artilheiro argentino. Essas bobagens são ditas porque ainda é bastante generalizada a crença de que o comportamento coletivo pode ser explicado a partir dos atributos dos indivíduos, de que a inteligência coletiva é a soma das inteligências dos indivíduos e não uma nova qualidade que emerge das relações entre eles.

Os gritos enraivecidos de ontem, comemorando a eliminação do Barcelona (sim, porque o time não perdeu o jogo, foi desclassificado pela tabela), revelam que existe base social para legitimar mais um retrocesso no futebol. Dir-se-á que o “estilo-barsa” esgotou-se, que o “futebol-arte” não pode resistir ao “futebol-de-resultados”, que “Messi entrou numa fase ruim”, que o futebol é assim mesmo (as modas, os estilos, vêm e vão) e outras besteiras semelhantes. Já se dá até como certa a derrota do Barcelona para o Real Madrid no campeonato espanhol (e isso pode acontecer mesmo).

Assistiremos, provavelmente, a mais uma daquelas tristes revoltas de escravos que introjetaram a escravidão a tal ponto que, em vez de lutarem para se libertar dessa condição, não suportam ver que existem pessoas livres e querem torná-las também escravas como eles. Assim interpretei os gritos de “Chupa Barcelona Filho da Puta” no final da tarde de 24 de abril de 2012.


FONTE: http://escoladeredes.net/forum/topic/show?id=2384710:Topic:162567&xgs=1&xg_source=msg_share_topic

Redes Sociais e Cidadania

12/04/2011 às 3:52 | Publicado em Artigos e textos, Midiateca, Zuniversitas | Deixe um comentário
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O vídeo tem tudo a ver com o artigo de Aninha Franco. Será que as redes sociais vão ser o último reduto da cidadania? Como diz a autora: “… a cidadania se busca nas redes sociais, porque a família e a es­cola não promovem mais discussões e troca de co­nhecimento como no século passado”.


NINGUÉM É CIDADÃO

As palavras surgem para comunicar quem se comunica com quem se trumbica. Cidadão, cidadania e cidade nasceram em Roma, Ci­vitas, invenção toda glamourosa que o português usou no século 13, só chegando à cidadania, con­vivência dos habitantes em determinado espaço geográfico, no século 20. Atualmente, a cidadania se busca nas redes sociais, porque a família e a es­cola não promovem mais discussões e troca de co­nhecimento como no século passado.

A cidade é custeada por impostos que os bra­sileiros pagam para suprir serviços que não acontecem, ou acontecem mal. Quando os cidadãos não pagam, num sistema de pa­guem-mas-não-peguem, são atirados na dívida ativa, única coisa ativa do serviço público. E o déficit entre o que os cidadãos pagam e o IOH baixo, que desfrutam, permanece.

Existe uma maneira de resolver o impasse. Atirar os maus servidores na vida ativa da de­núncia. Responsabilizar publicamente os que se locupletam com o público para afastá-Ios do poder. Os desistentes dizem que se todos que che­gam ao poder se locupletam, que nos locupletmos todos, mas assim a coisa pública será priva­da, e a cidadania, os cidadãos e as cidades se trumbicarão.

Não há cidadania onde cidadãos pagam impostos para sustentar corrupção, des­perdício e incompetência em terra inutilmente fértil, inutilmente parideira, inutilmente rica de luz, de petróleo e de água. No entanto, fora das redes, tudo é silêncio. A sociedade paga por um IOH pífio calada, o que em 1973 atordoa­va Chico Buarque (Cálice), mas era explicável, já que era preciso permanecer silencioso vendo, emergir os monstros da lagoa, que emergiam sem parar, com o AI-S nas mãos gritando Ordem e Progresso!

Agora, emerge Bolsonaro, representando milhares de idiotas sem a legalidade do AI-S. Então, por que silêncio? Para prote­ger a escória? É preciso instaurar o Correio Nagô, nosso órgão de controle privado, na esfera públi­ca dos jornais, do Ministério Público, das rádios e TVs denunciando o detrito e elogiando os que re­sistem – a duas penas – à locupletação geral e irrestrita. Privado, o Correio Nagô infecta, mas público, ele pode desinfetar.

(Aninha Franco, A TARDE, Salvador/BA, 10/04/2011)

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