Jamais pise na sombra de um professor

18/01/2011 às 3:32 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Mais uma vez Frei Betto se faz presente. E uma vez mais ouso uma pequena crítica. No final do texto ele coloca duas frases brilhantes: “Todos gostariam que seus filhos tivessem ótimos professores. Mas quem sonha em ver o filho professor?”. Porém no meio em dois pontos ele diz:

1 – “Onde está o nosso tendão de aquiles? Na falta de investimentos – em qualificação de professores, plano de carreira, equipamentos nas escolas (informática, laboratório, biblioteca, infra desportiva etc.).“ e

2 – “É preciso magistério capacitado, qualificado e bem remunerado.“

E eu me atrevo a repetir que a ordem nos dois itens está incorreta, no item 1, ‘Plano de Carreira’ (quer dizer: SALÁRIOS), primeiro. No item 2, ‘bem remunerado’, primeiro !


Educação: da quantidade à qualidade (Frei Betto, artigo publicado em 13/01/2011 em vários jornais do Brasil) FreiBetto2

A presidente Dilma promete priorizar a educação. No Brasil, apenas 10% da população concluíram o ensino superior; 23% o médio, e 36% não terminaram o fundamental. O ministro Fernando Haddad se compromete a adotar tempo integral no ensino médio, combinando atividades curriculares com aprendizado profissionalizante.
São promessas às quais se soma a de aplicar 7% do Produto Interno Bruto (PIB) na educação (hoje, apenas 5,2%, cerca de R$ 70 bilhões).

O governo Lula avançou muito na área: criou 14 universidades públicas e mais de 130 expansões universitárias; a Universidade Aberta do Brasil (ensino a distância), cuja qualidade é discutível; construiu mais de 100 câmpus universitários pelo interior do país; criou e/ou ampliou escolas técnicas e institutos federais e, por meio do Programa Universidade para Todos (ProUni), possibilitou a mais de 700 mil jovens o acesso ao ensino superior.

Outro avanço é a universalização do ensino fundamental, no qual se encontram matriculados 98% dos brasileiros de 7 a 14 anos. Porém, quantidade não significa qualidade. Ainda há muito a fazer. Estão fora da escola 15% dos jovens entre 15 e 17 anos. Ao desinteresse, principal motivo, alinham-se a premência de trabalhar e a dificuldade de acesso à escola.

Tomara que a proposta de tempo integral do ministro Haddad se torne realidade. Nos países desenvolvidos os alunos permanecem na escola, em média, oito horas por dia. No Brasil, quatro horas e meia. Pesquisas indicam que, em casa, passam o mesmo tempo diante da TV e/ou do computador. Nada contra, exceto o risco de obesidade precoce. Mas como seria bom se TV a emitisse mais cultura e menos entretenimento e se na internet fossem acessados conteúdos mais educativos!

Os estudantes brasileiros leem 7,2 livros por ano, dos quais 5,5 são didáticos ou indicados pela escola. Apenas 1,7 livro por escolha própria. E 46% dos estudantes não frequentam bibliotecas.

No Programa Internacional de Avaliação de Alunos 2009 (Pisa), aplicado em 65 países, o Brasil ficou em 53º lugar. Na escala de 1 a 800 pontos, nosso país alcançou 401. No quesito leitura, 49% de nossos alunos mereceram nível 1 (1 equivale a conhecimento rudimentar e 6 ao mais complexo). Nível 1 também para 69% de nossos alunos em matemática e para 54% em ciências.

O Pisa é aplicado em alunos(as) de 15 anos. Nas provas de matemática e leitura, apenas 20 alunos (0,1%), dos 20 mil testados, alcançaram o nível 6 em leitura e matemática. Em ciências, nenhum. No conjunto, é em matemática que nossos alunos estão mais atrasados: 386 pontos (o máximo são 800). O Ministério da Educação apostava atingirem 395. Na leitura, nossos alunos fizeram 412 pontos, e em ciências, 405.

Estamos tão atrasados que o Plano Nacional de Educação prevê o Brasil alcançar, no Pisa, 477 pontos em 2021. Em 2009, a Lituânia alcançou 479; a Itália, 486; os EUA, 496; a Polônia, 501; o Japão, 529; e a China, campeã, 577.

Nos países mais desenvolvidos, 50% do tempo de instrução obrigatório aos alunos de 9 a 11 anos e 40% do tempo para os alunos de 12 a 14 anos é ocupado com ciências, matemática, literatura e redação. E, no ensino fundamental, não se admitem mais de 20 alunos por classe.

Onde está o nosso tendão de aquiles? Na falta de investimentos – em qualificação de professores, plano de carreira, equipamentos nas escolas (informática, laboratório, biblioteca, infra desportiva etc.).

Análise de 39 países, feita pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 2010, revela que o investimento do Brasil em educação corresponde a apenas 1/5 do que os países desenvolvidos desembolsam para o setor. EUA, Reino Unido, Japão, Áustria, Itália e Dinamarca investem US$ 94.589 (cerca de R$ 160 mil) por aluno no decorrer de todo o ciclo fundamental. O Brasil investe apenas US$ 19.516 (cerca de R$ 33 mil).

Embora a Organização Mundial do Comércio (OMC) tenha insinuado retirar a educação da condição de dever do Estado e direito do cidadão e transformá-la em simples negócio – ao que o governo Lula se contrapôs decididamente -, os 5,2% do PIB que nosso país aplica na educação são insuficientes. O que favorece a multiplicação de escolas e universidades particulares de duvidosa qualidade. Entre os países mais ricos, derivam do poder público 90% do investimento em ensinos fundamental e médio.

Ainda convivemos com cerca de 14 milhões de analfabetos com 15 anos ou mais. Sem contar os analfabetos funcionais. Dos 135 milhões de eleitores em 2010, 27 milhões não sabiam ler nem escrever. Faltou ao governo Lula um plano eficiente de alfabetização de jovens e adultos.

Tomara que Dilma cumpra a promessa de criar 6 mil creches e o Ministério da Educação se convença de que alfabetização de jovens e adultos não se faz apenas com dedicados voluntários. É preciso magistério capacitado, qualificado e bem remunerado.

Todos gostariam que seus filhos tivessem ótimos professores. Mas quem sonha em ver o filho professor? Na Coreia do Sul, onde são tão bem remunerados quanto médicos e advogados, e socialmente prestigiados, todos conhecem o provérbio: “Jamais pise na sombra de um professor”.

(Frei Betto é escritor)

Educação em duas doses

20/12/2010 às 15:42 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 4 Comentários
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educacaoDo A TARDE, de Salvdor/BA, do dia 18 deste, extraí estas duas crônicas, ligadas entre si pelo tema Educação, objeto deste blog. A do antropólogo e professor Luiz Mott me fez lembrar os já idos tempos em que estive na sala de aula e, da mesma forma que ele, nunca cheguei a ser agredido por nenhum aluno. Os tempos são outros ? Não sei. O de Cláudio Carvalho, também professor, enfatiza a mesma questão tantas vezes colocadas neste espaço por mim: a valorização do professor. A conclusão é óbvia: como podemos esperar a emancipação dos jovens se mantemos os educadores atrelados aos baixos salários e à desvalorização profissional ? O grande desafio social é inventar um lugar para o mestre emancipado. Ah, detalhe, como não achei nem com a ajuda de São Google estes dois artigos, e como onde estou atualmente não existem scanner, tive que digitar os dois textos. Isso vem de encontro a uma frase já batida no mundo da cibercultura de hoje: o que não está na Internet não está no mundo.  images


PROFESSORES EM RISCO DE VIDA (Luiz Mott, Professor Titular de Antropologia da UFBA)

Ser professor(a), além dos baixos salários, da trabalheira diária, dores de garganta de tanto falar, provas para corrigir em casa, cada vez mais nossos heróicos mestres e mestras correm risco de vida em sala de aula. Aqui na Bahia, em maio último, um aluno de 15 anos esfaqueou o professor numa escola estadual em Cajazeiras; em Porto Alegre, no mês passado, estudante de enfermagem de 25 anos deu socos e cadeiradas em professora de 57, deixando-a cheia de hematomas e obrigada a engessar os membros superiores; agora, numa faculdade metodista de Belo Horizonte, universitário de 23 anos mata professor a facadas, por não aceitar críticas ao seu trabalho escolar.

Antigamente professores do mundo todo impunham a disciplina com castigos físicos: palmatórias, golpes de régua, ajoelhar em cima de grãos de milho, ficar de castigo em sala escura. Vi um bedel, no Liceu Coração de Jesus em São Paulo, arrancar um tufo de cabelo de um menino indisciplinado de 9 anos.

Os tempos mudaram. Para os alunos, para melhor: se uma ‘pró’ perde a cabeça, dando uma palmada ou qualquer castigo num menor, imediatamente os pais prestam queixa na delegacia e a ‘delinquente’ é despedida por justa causa. Para os professores, a situação piora cada dia mais, sobretudo nas escolas públicas mais pobres: alunos e também alunas adolescentes badernam impunemente, falam alto atrapalhando a aula, assumem posturas inadequadas, soberanos e ameaçadores. Partem para a agressão física, matam seus mestres !

Nos meus 35 anos de magistério universitário, na Unicamp e UFBA, felizmente, nunca sofri qualquer ameaça física, sequer verbal por parte do alunato. Sempre fui pontual e exigi pontualidade dos discentes, tanto no horário das aulas quanto nos prazos de trabalhos e provas. Severo na cobrança dos deveres e impedindo conversas paralelas, mas compreensivo em dar a segunda chance para melhorar a nota e estimulando o diálogo ordenado dos discentes.

Cuidado, colegas professores e professoras: atenção máxima, acautelem-se para não ser a próxima vítima !


O MESTRE EMANCIPADO (Cláudio Carvalho, Professor de História e Filosofia)

Foi divulgado na última terça-feira, dia 07/12, o resultado do Programa Internacional de Avaliação dos Alunos (Pisa, em Inglês). O Ministro da Educação, Fernando Haddad, comemorou o desempenho dos estudantes brasileiros baseado em dados que demonstram uma clara evolução, a despeito de o Brasil ainda figurar nas últimas posições.

Mas, dentre as declarações do Ministro em sua avaliação, gostaria de destacar a que se refere aos docentes. Segundo Haddad, para manter esta tendência e avançar, é fundamental a valorização do professor através de investimentos na formação continuada e em política salarial, equiparando os seus salários à média das outras profissões de nível superior. Concordo com o ministro.

De um mestre espera-se que tenha certo domínio sobre sua arte ou ciência e seja capaz de despertar a curiosidade de seus alunos. Por outro lado, o dever de uma sociedade é o de legitimar o lugar do professor, ao criar condições para ele apresenta aos jovens o encantamento ao achegar-se às bordas do saber, sempre limitado diante da impossibilidade de se atingir um saber total, acabado.

O professor não é simplesmente aquele que sabe mais, mas é, sobretudo, de quem se espera o despojamento necessário para transitar entre a maestria e a ignorância, testemunhando para o aluno o fato de que aprender é um processo descontínuo, de idas e vindas, erros e acertos, e não um movimento contínuo em direção a um saber positivo. Ao educador cabe dar provas de que inteligência tem mais a ver com o desejo de saber e a imaginação do que com a capacidade de decorar conteúdos.

No Pisa, os alunos brasileiros atingiram o nível 1 no quesito leitura. Esse é o nível mínimo exigido e indica a capacidade de identificar o que está explícito no texto. Isso um ensino conteudista faz. Agora ler o que está implícito só é possível com autonomia do pensamento.

Como podemos esperar a emancipação dos jovens se mantemos os educadores atrelados aos baixos salários e à desvalorização profissional ? O grande desafio social é inventar um lugar para o mestre emancipado.

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