As intermitências da morte

05/05/2011 às 3:39 | Publicado em Baú de livros | 1 Comentário
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SaramagoA cada obra de Saramago que acabo de ler me dá logo vontade de compatilhar com os amigos. E este ‘Baú de Livros’ é para mim o melhor espaço para isso. Nas “Intermitências da Morte’ Saramago segue com seu estilo já tradidiconal (apesar de abaixo quem fez o resumo na Wikipedia se referir a ‘capítulos’, não é isso que se vê na edição que acabo de ler!): parágrafos enormes, ausência de nomes próprios e aqui e acolá de uma maiúscula e outras licenças que só mesmo um gênio da língua pode se dar ao luxo, e nos brindar com um enredo que nos encanta sempre pelo ineditismo, criatividade e exploração da nossa condição humana. Desta vez num país imaginário (seria o nosso velho e bom Portugal – 10 milhões de habitantes ?), a partir de um certo 1º de janeiro ninguém mais morre. Quem ainda não leu esta obra, e teve a infelicidade de até hoje nunca ter lido Saramago, pode imaginar o que há de vir nas duzentas próximas páginas do livro. Abaixo um resumo:


AS INTERMITÊNDCIAS DA MORTE Intermitencias_Morte

As Intermitências da Morte é um livro do escritor português José Saramago publicado em 2005. Sua frase inicial “No dia seguinte ninguém morreu” é ponto de partida para ampla divagação sobre a vida, a morte, o amor e o sentido, ou a falta dele, da nossa existência.

Fiel ao seu estilo e ainda mais sarcástico e irônico, Saramago vai além de reflexões existenciais, fazendo uma dura crítica a sociedade moderna (o país da obra é fictício) ao relatar as reações da Igreja, do Governo, do Clero, dos repórteres, dos filósofos, dos economistas, das funerárias, casas de pensão, hospitais, seguradoras, das famílias com um moribundo em casa, da máphia, etc.

Morte

Pode-se dividir a obra em três partes. A primeira é a intermitência da morte, uma visão panorâmica dos fatos a partir do dia 1º de janeiro, quando ninguém mais morreu naquele país. Aqui são abordados os paradoxos da ausência da morte, conflitos, discussões e soluções para o problema dos que não morrem nem podem voltar a viver, os moribundos.

No sétimo capítulo há uma carta encaminhada pela morte a uma emissora de televisão, para que seja levada a público a notícia de seu retorno. Contudo, o retorno dar-se-á sob novas regras: “a partir da meia-noite de hoje se voltará a morrer tal como sucedia, sem protestos notórios (…) ofereci uma pequena amostra do que para eles seria viver para sempre (…) a partir de agora toda a gente passará a ser prevenida por igual e terá um prazo de uma semana para pôr em dia o que ainda lhe resta na vida”. Para cada um a quem estivesse a chegar a temida hora da partida sem volta, o tal prazo de sete dias seria precedido pelo recebimento de uma carta, de autoria da morte, anunciando-lhe a “rescisão deste contrato temporário a que chamamos vida”. Este novo sistema de anunciação e a reação das pessoas – também calamitosa – tomará os próximos três capítulos.

No décimo capítulo, uma dessas cartas – que deveria ser recebida por um violoncelista – é devolvida à remetente (tal como o pode ocorrer em autênticas correspondências postais), e a partir daí há uma narração mais clássica com personagens (a morte e o músico), espaço e conflitos bem definidos. Nesta parte a morte é humanizada, para muitos o ponto alto do livro. Gabriel Perisséu, escritor e crítico, afirma que “importa saborear a sabedoria com que o autor aborda a personificação da morte e a necessidade que esta sente (feminina ela se apresenta) de ser amada”.

[editar] Discussões acerca da linguagem e da obra

“As palavras também têm a sua hierarquia, o seu protocolo, os seus títulos de nobreza, os seus estigmas de plebeu.”

Aliando-se a uma tendência de desconstrução surgida no século XX, o narrador em Saramago por diversas vezes dialoga com o leitor, rompe o fluxo ficcional para discussões sobre o léxico ou sobre a própria narrativa. Em certo momento o narrador brinca com a verosimilhança ao dizer que o leitor perguntará como a morte pagou os ingressos com os quais veria uma apresentação do músico (quando, na verdade, a própria existência física da morte já seria racionalmente inverosímil).

[editar] Trechos

  • “A vantagem da igreja é que, embora às vezes o não pareça, ao gerir o que está no alto, governa o que está em baixo. (…) a nossa outra especialidade, além da balística, tem sido neutralizar, pela fé, o espírito curioso”.[1]
  • “De Deus e da morte não se tem contado senão histórias, e esta é mais uma delas.”, página 146
  • “Os amantes da concisão, do modo lacônico, da economia de linguagem, decerto se estarão perguntando porque, sendo a idéia assim tão simples, foi preciso todo este arrazoado para chegarmos enfim ao ponto crítico. A resposta também é simples, e vamos dá-la utilizando um termo atual, moderníssimo, com o qual gostaríamos de ver compensados os arcaísmos com que, na provável opinião de alguns, hemos salpicando de mofo este relato, Por mor do background.”, página 67
  • “É possível que só uma educação esmerada, daquelas que já se vêm tornando raras, a par, talvez, do respeito mais ou menos superticioso que nas almas timoratas a palavra escrita costuma infundir, tenha levado os leitores, embora motivos não lhes faltassem para manifestar explícitos sinais de mal contida impaciência, a não interromperem o que tão profusamente viemos relatando e a quererem que se lhes diga o que é que anunciou o seu regresso.”, página 123
  • “Por um instante a morte soltou-se a si mesma, expandindo-se até às paredes, encheu o quarto todo e alongou-se como um fluido até à sala contígua, aí uma parte de si deteve-se a olhar o caderno que estava aberto sobre uma cadeira, era a suite número seis opus mil e doze em ré maior de johann sebastian bach composta em cöthen e não precisou de ter aprendido música para saber que ela havia sido escrita, como a nona sinfonia de beethoven, na tonalidade da alegria, da unidade entre os homens, da amizade e do amor. Então aconteceu algo nunca visto, algo não imaginável, a morte deixou-se cair de joelhos, era toda ela, agora, um corpo refeito, e por isso é que tinha joelhos, e pernas, e pés, e braços, e mãos, e uma cara que entre as mãos escondia, e uns ombros que tremiam não se sabe porquê, chorar não será, não se pode pedir tanto a quem sempre deixa um rasto de lágrimas por onde passa, mas nenhuma delas que seja sua. Assim como estava, nem visível nem invisível, em esqueleto nem mulher, levantou-se do chão como um sopro e entrou no quarto.”, páginas 158 e 159
  • “Não entendo nada, falar consigo é o mesmo que ter caído num labirinto sem portas, Ora aí está uma excelente definição da vida, Você não é a vida, Sou muito menos complicada que ela.”, página 198
  • “Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu.”, página 214

Referências

  1. José Saramago. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 19-20.

Saramago, sobre o pecado e a bíblia

20/03/2011 às 3:44 | Publicado em Espaço ecumênico | 1 Comentário
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Mais uma domingueira, dia de missa, com José Saramago. Simplesmente genial, como sempre. E, claro, vem para este ‘Espaço Ecumênico’.

Saramago mais uma vez

12/03/2011 às 3:22 | Publicado em Midiateca, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Dia 05 do mês passado havia feito um post sobre o documentário “José e Pilar” e tive oportunidade além de colocar o trailer oficial do filme um arquivo com belas mensagens do mestre. Republico hoje este arquivo porque é riquíssimo.

É muita coisa a ser destacada no arquivo, mas fico com duas que traduzem bem toda a humildade e sabedoria do Saramago:
1) “DENTRO DE NÓS HÁ UMA COISA QUE NAO TEM NOME, ESSA COISA É O QUE SOMOS”
2) “SE TENS UM CORAÇÃO DE FERRO, BOM PROVEITO. O MEU, FIZERAM-NO DE CARNE, E SANGRA TODO DIA”
E uma das frases mais interssantes, porque nos faz também pensar, é a do filósofo e pensador brasileiro, Leonardo Boff, um cristão, com certeza, falando de um ateu: “GANHAMOS UM AMIGO E A FÉ ME DIZ QUE ELE AGORA MERGULHOU NAQUELE MISTÉRIO DE AMOR QUE SEMPRE BUSCOU”.


O conhecimento (e o saber) é algo aparentemente paradoxal, e subverte os meandros da Matemática, porque quanto mais você divide (compartilha), mais ele aumenta ! (José Rosa)

José e Pilar

05/02/2011 às 3:48 | Publicado em Midiateca, Zuniversitas | 2 Comentários
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JoseEPilar Saramago faleceu numa sexta, 18/06/2010. Como não poderia deixar de ser fiz um post em sua homenagem naquela ocasião. Semana passada vi o filme-documentário “José e Pilar”, excelente. A obra de fundo do filme, última do grande escritor da língua portuguesa, “A Viagem do Elefante”, eu já havia lido há algum tempo, uma delícia. Posto aqui um PPT com várias mensagens do mestre e o trailer oficial do filme.

SALVE SARAMAGO !

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