Um mundo com menos

15/01/2018 às 11:41 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Karnal, aquele que para alguns é o “filósofo do óbvio”, nos vem lembrar como era a infância dos adultos de hoje.

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Um mundo com menos  LEANDRO_KARNAL_03

Minha infância foi a comum da classe média brasileira de então. Se eu tivesse de identificar a grande diferença entre ser uma criança em 1970 ou 2018 no mesmo patamar social, eu apontaria para a variedade atual. Variedade do quê? Tudo.

Sobre a mesa da nossa cozinha repousavam bananas, laranjas, ocasionalmente maçãs. Havia um abacateiro por perto e, na época certa, os frutos ameaçavam carros e cabeças. Minha avó tinha uma videira com cachos de uma uva rosada. Gostávamos das mexericas, chamadas no Sul de bergamotas. Surgia de quando em vez um tipo de mamão amarelo e algum melão. Nada de kiwis ou da bela e insípida fruta-dragão. Desconhecíamos physalis. Vi minha primeira lichia já doutor.

Havia chocolates. Eram sempre doces e com leite. Hoje há com 75% de cacau, com leite, com pimenta e com grãos de flor de sal. O café chegou ao paroxismo máximo: descafeinado, com aroma, intensidades variadas, com espuminha de leite, nuvem leve de canela, traços de pó de cacau e até grãos defecados por um animal. O simples refrigerante, hoje, comporta as possibilidades de vir acompanhado de gelo, limão em rodelas, suco espremido ou fatias de laranja. Também pode ser zero, diet ou com sabores especiais.

Quase tudo que ocorreu faz parte de um processo de mundialização cada vez mais intenso. Exportamos e importamos com maior facilidade. Além dos fatos econômicos e geopolíticos, a informação circula mais e entre mais gente. Apesar da explicação óbvia, há mais coisas atrás do biombo.

Eu usava um calçado esportivo preto chamado ki-chute nas aulas de educação física. Hoje, uma prateleira de tênis na loja é uma festa de cores cada vez mais impressionantes. É difícil escolher um em 2018, em parte porque ficaram mais caros e em parte porque trazem excesso de informações. Sempre vejo nos tênis atuais a chance boa de que, em caso de cair em meio à neve em área isolada, serei visível até para um satélite do espaço.

Todo mundo que teve menos escolha e liberdade olha para hoje com a tendência de indicar que era mais feliz com menos e que as crianças atuais são mais entediadas. O desejo do consumo existe em todos os grupos sociais, ainda que nem todos possam atendê-lo. Zygmunt Bauman chega a sugerir que as lojas fossem denominadas farmácias, porque oferecem remédios para variados males. Está triste? Compre! Está eufórico? Compre! Está com tédio? Compre!

O mundo da internet tem um efeito secundário importante. Ele escancara as possibilidades de tudo para todos. Mesmo que eu não possa comprar X ou Y, estou exposto às ofertas. Sou seduzido como um Ulisses amarrado ao mastro, ouvindo sereias e ficando insano. A loucura passageira do rei de Ítaca pode ilustrar bem o desejo de consumir inexistindo a possibilidade. As sereias excedem a possibilidade de renúncia. Todos queremos nos atirar às rochas dos produtos.

Havia diferenças sociais (inclusive maiores do que as de hoje) quando eu tinha 7 anos. Havia pobres e ricos e, provavelmente, um maior conformismo com as desigualdades. É difícil comparar épocas. Queríamos coisas e desejávamos consumir. Tenho a sensação subjetiva de que aceitávamos melhor a recusa da nossa vontade. Não era necessário, parece, que as crianças fossem intensamente felizes 24h por dia.

Despontam duas diferenças notáveis que tornam a infância e a juventude de hoje distintas da minha. Associamos a ideia de variedade ao conceito de liberdade. Mais coisas a escolher parece representar maior liberdade, quando apenas quer dizer mais coisas a escolher. A expansão dos nomes das pizzas no cardápio não gera um aumento na qualidade do que é oferecido, tampouco alegria efusiva. Ter tudo à disposição roça em quase ter nada.

Temos equilibrado no mundo atual dois malabares no ar instável: a oferta excessiva de coisas para um grupo e a negação do consumo para muitos. Isso gera uma frustração muito grande. Seria como matar de fome uma pessoa em uma delicatessen com cheiros sedutores.

Como explicar que a diminuição visível da desigualdade de renda em alguns anos do século atual não foi acompanhada de uma queda de furtos ou roubos? Devemos levar em conta que a força do consumo aumentou e nem sempre o crime é famélico. A lei é quebrada pela busca de status, por um celular mais avançado e pelo tênis importado. Matamos e morremos por logomarcas e seu valor simbólico. Uns estão entediados pelo excesso e outros ressentidos pela falta. Ambos constituem uma dupla complicada para um projeto nacional.

O processo de globalização é irreversível. As promessas de variedade e abundância foram incorporadas no mundo do desejo de muitas pessoas. Todos querem ser felizes e isso, hoje, implica consumir. Lógico que, no modelo atual, o consumo é insustentável. O padrão da classe média norte-americana não pode ser universalizado, o planeta não aguentaria o modelo. O primeiro problema está aí. O segundo está na tensão causada pela exposição clara de altos padrões de consumo para todos, inclusive para quem não pode adquirir as coisas que deseja. Em função disso, aumenta tanto a dor social de quem nada tem como o endividamento dos que possuem pouco.

Por fim, o terceiro e último problema: acima dos padrões das necessidades básicas, o consumo não tem poder redentor ou de esteio de felicidade. É um ópio, uma cortina de fumaça, uma forma de não encarar as questões centrais. Eis um enorme desafio para ensinar às próximas gerações. Bom domingo para todos nós.

(Leandro Karnal)

FONTE: Estado de S. Paulo, ontem, recebido por email

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Al Margen

10/01/2018 às 3:36 | Publicado em Fotografias e desenhos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Confesso que não conhecia o artista argentino Al Margen (À Margem). Um amigo me enviou essas imagens via email e logo me identifiquei com algo que provoca o pensamento. O texto original dizia:

Al Margen, um ilustrador de Buenos Aires, Argentina, cria desenhos incríveis que identificam as falhas dos nossos tempos e que gritam mais alto do que as palavras mais provocadoras.

 


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Qual país tem a melhor saúde, educação e segurança ?

09/01/2018 às 3:56 | Publicado em Midiateca, Zuniversitas | 2 Comentários
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A resposta para muitos é inusitada. Para mim não !


Empresário baiano aposta na geração de energia das ondas

15/12/2017 às 8:55 | Publicado em Zuniversitas | Deixe um comentário
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São  8.514.876 km de extensão. O potencial de geração de energia das ondas é imenso em nosso litoral ! Ai a velha pergunta, que serve tanto para energia eólica, quanto para a energia solar, e para os demais tipos de energias alternativas, além dessa própria:

Por que não se investe maciçamente nesses projetos ?

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Empresário baiano aposta na geração de energia das ondas

A força das ondas pode ser fonte de energia não apenas para surfistas e demais amantes do mar. Mais do que isso: pode, de fato, representar produção de energia renovável, contribuindo para a infraestrutura produtiva de um país. É o principal argumento do empresário baiano Helio Borges, que inventou um equipamento para converter a energia cinética das ondas em eletricidade limpa, renovável e sustentável.

O projeto de Borges, que atua no setor de bombas hidráulicas,foi um dos seis selecionados pela ação A TARDE Inovação e Tecnologia, lançada este ano, em agosto, durante a primeira edição na Bahia da Campus Party, evento internacional de tecnologia. Desde então, os 188 projetos inscritos vinham sendo analisados pela curadoria, que acaba de indicar os seis vencedores.

Clara Luz (contêiner coletor de água para o semiárido), Michelle Melo (sistema de limpeza para painéis solares), Alex Correia (projeto Mosquito Zero),Wagner Barreto (Aplicativo D’Maré) e os estudantes do Centro Estudantil de Educação Profissional (Ceep), de Lauro de Freitas, representados por Matheus Miler, Thiago Alves e Sérgio Carneiro (robô antibomba), também assinam os projetos selecionados e que estão sendo apresentados durante esta semana em série de reportagens em A TARDE, Portal A TARDE e A TARDE FM (103,9 FM).

Patente

No caso do conversor de energia criado por Helio Borges, a invenção já foi até patenteada pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi). “O protótipo já se encontra desenvolvido, necessitando apenas de análises técnicas mais aprofundadas a respeito de materiais, testes práticos e estudos de capacidade de geração, por exemplo”, explica o texto de apresentação do projeto.

Quando foi patentear a invenção, Borges soube de outras iniciativas de ondomotriz (energia das ondas) feitas até por outros países (Portugal, Espanha e Alemanha, entre outros) e também em outros estados brasileiros, como o Ceará. “A própria Petrobras também já desenvolve algumas iniciativas na área, usando a energia gerada pelas ondas para alimentar pequenas estruturas em duas plataformas”, conta o engenheiro eletricista Marcelo Cad, do Instituto Federal da Bahia (Ifba).

“Simples e eficiente”

A novidade do projeto de Helio Borges, entretanto, “está na simplicidade e no resultado (proporcionalmente) tão efetivo”, como explica o próprio inventor. “Trata-se de um conjunto de boias que flutua sobre o mar e que, junto com correntes e catracas, giram o eixo em que estão acopladas e que geram energia, a partir de ondas com altura entre 20 centímetros e 1,5 metro”, explica Borges, que mantém o protótipo em um galpão de sua empresa, por conta dos custos relativamente elevados para manter testes constantes no mar.

“É, sem dúvida, um projeto muito interessante, que trouxe comigo para ser avaliado pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, obtendo reconhecimento pelo professor Nevan Hanamura, que ficou impressionado com a simplicidade de um aparelho mecânico que pode gerar mais de 200 kVA de energia”, contou o professor Roberto Badaró, titular do Senai-Cimatec na Bahia, que está em viagem ao país norte-americano. “O diferencial do projeto baiano está justamente na simplicidade e eficiência”,frisa Badaró.

Depois de ter patenteado a ideia, tudo o que Borges quer agora é encontrar parceiros dispostos a investir no aperfeiçoamento técnico, seja do equipamento ou de sistemas de distribuição. Para tanto, espera despertar o interesse de universidades e outras instituições de pesquisa,que disponham no orçamento de recursos para investir em testes e mais estudos.

Na onda

“Há ainda empresas privadas do setor ou mesmo instituições públicas, como a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que também lançam editais para pesquisa, mas que, na maioria das vezes, exigem a participação de instituições reconhecidas, como universidades, para selecionar projetos para liberação de recursos”, lembra Helio Borges, confiante em atrair mais interessados em mergulhar com ele na onda da energia renovável.

Hoje, o filho,quejáfoi surfista e tem o mesmo nome do pai,tornou-se o principal parceiro de ondomotriz. “Meu pai já gastou muito com testes até que chegou um momento que, ao percebermos a viabilidade do projeto reconhecida por instituições e perseguida por dezenas de países, notamos que o que precisamos agora é de ajuda técnica e financeira, e é essa boa energia que esperamos encontrar em futuros parceiros”, diz Helio Filho, engenheiro.

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(Joyce de Souza)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 14.12.2017

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