A ‘guilda’ pós-moderna do século 21

08/11/2019 às 2:21 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
Tags: , ,

Essa eu não sabia. A guilda mais importante da Idade Média foi a universitas existente até hoje em nossa sociedade. E alguns ainda querem diminuir a sua força cortando verbas… Nesse artigo Lourenço Mueller faz o paralelo da Universidade com a Cibernética do mundo pós-moderno e nos convida a pensar.


A ‘guilda’ pós-moderna do século 21

No século onze, as guildas foram o associativismo possível e a única forma de sobreviver ao banditismo medieval: não havia segurança a não ser na associação e a liberdade era forçosamente corporativa. “Vivia-se e morria-se conforme o estilo da classe e da corporação a que se pertencia”. As guildas foram associações típicas da Idade Média: “… A guilda ergue-se e cai com a cidade medieval: são a cidade no seu aspecto econômico, e a cidade equivale às guildas no seu aspecto social e político…”, escreve Lewis Mumford.

Apenas uma única guilda sobreviveu, a mais importante instituição isolada medieval e aumentou gigantescamente o seu poder: “… Com um reconhecimento instintivo da sua importância, o nome dessa organização foi inicialmente o termo designativo comum de todas as guildas do século doze: ‘universitas’. Como outras formas de guildas de ofícios, o objetivo da universidade era preparar para a prática de uma vocação e regular as condições de trabalho de seus membros. Cada uma das grandes escolas que inicialmente se formaram na universidade – de jurisprudência, de medicina e de teologia – era de caráter profissional: a educação humanística geral que começou a surgir como colégio da Renascença foi como um enxerto de primeira classe na árvore original…”

Por que, de todas as guildas medievais, a única que sobreviveu e cresceu espetacularmente foi a universidade? A resposta é: foi um sistema organizado de conhecimento, um método científico independente em que o sistema era mais importante do que a coisa em si; escreve Mumford : …” Tinha-se aí uma invenção social de primeira ordem: por ela apenas, a corporação medieval já seria importante.” E aquela guilda era a guilda do conhecimento, da atualização que concerne intrinsecamente ao método do conhecer. Lembra algo contemporâneo?

Comparo Universidade com Cibernética, essa gigantesca guilda do século 21, rainha do associativismo. Em ambas, a atualização é prioridade. Do ponto de vista digital tudo tem a ver com a forma de pesquisar no ciberespaço. A navegação em Rede consiste em interligações, onde os nós, os ‘links’, dão outros destinos à pesquisa, se descobrem mais coisas a cada novo clique, se reorienta o próprio pensar.

Quando organizamos uma rede ‘zap’, no princípio era um simples meio de comunicação usando plataforma digital; agora avançou para um modelo de ‘networking’ que vem se transformando num circuito (infelizmente às vezes ‘curto-circuito’…) de reflexão internáutica de pessoas qualificadas: na mente de cada internauta deste Cibergrupo chamado Kirimure, há um desejo de compreensão do grande mar interior dos Tupinambá. É nosso objetivo maior planejar esse ambiente: o diálogo entre o mar e o continente não foi bem equacionado e os estudos ainda são insuficientes. Um sistema de cidades organizado no litoral e nas ilhas poderia ser a resposta?

Em tempo: na tarde de segunda, dia 11, na Academia de Letras da Bahia, provocaremos essa discussão.

(Lourenço Mueller)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 03.11.2019

Universidade pública, gratuita e livre

27/11/2018 às 3:33 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 2 Comentários
Tags: , ,

Mais um bom artigo do Professor Marlon Marcos, confiram. Também sou muito grato às Universidades Públicas !

 

acesso_ao_ensino

 


Universidade pública, gratuita e livre

Precisamos lutar para salvar a educação brasileira do fracasso. Cuidar para que irresponsáveis obtusos não esfacelem as nossas universidades públicas, como fizeram os militares com a chamada Educação Básica (Ensino Fundamental é Médio) durante o tenebroso regime militar, que se configurou numa ditadura ocasionada por um Golpe de Estado, em 1964, e que durou até 1985. É na má educação oferecida as elites sa- botam a autonomia política, social e cultural do nosso povo. A universidade pública, gratuita e livre sempre foi um dos instantes mais exitosos nossos em relação à produção de conhecimento, fomento de pesquisas, desenvolvimento económico e cultural, além de garantir ascensão social a centenas de milhares de jovens pertencentes às camadas menos favorecidas neste pais tão desigual.

Eu sou fruto da universidade pública somada às ações dos movimentos sociais brasileiros. Sou grato ao imprescindível Partido dos Trabalhadores, ao Partido Comunista do Brasil e, mais recentemente, ao PSOL. Sou devedor da força educativa é transformadora dos movimentos negros, dos movimentos LGBT, das comunidades eclesiais de base fincadas em Leonardo Boff, e mais determinantemente, no meu caso, sou grato e aquecido pela experiência política e religiosa dos terreiros de candomblé na minha Cidade da Bahia.

Estão querendo enterrar as possibilidades de uma educação libertadora, critica e inclusiva, pelo viés estúpido e hipócrita da “Escola sem Partido”, um projeto direcionado à Educação Básica, mas atento a desmandar o destino livre das nossas universidades, com montagens de perseguições a docentes que escapam desta torrente conservadora, que quer aniquilar o pensamento autónomo das pessoas que vivem nesta “nação”.

A Universidade é o destino mais significativo para quem busca à educação como um meio de expressão e atuação social. Ela imprime transformações, portanto, precisa ser melhorada e financiada pelo Estado para atingir a todos e todas. um lugar que deve ser cultivado para gerar pontes de ligação com as comunidades, uma ambiência de ensino e pesquisa erguida à extensão para garantir o seu sentido existencial e institucional a favor do desenvolvimento irrestrito da União.

Falar em universidade é enxergar o sacerdócio político educacional de Darcy Ribeiro. Entender as profundezas do pensamento libertador de Paulo Freire. Arrastar para o centro de nós as múltiplas conquistas que promovem equidades sociais. Evidenciar os motivos do “Mais Médicos”, que traz a grandeza da medicina cubana os rincões do Brasil, já que muitos nossos nem se atrevem.

Temino em Rousseau: “A liberdade pode ser conquistada, mas nunca recuperada.” Atentos e fortes. A luta recomeçou.

(Marlon Marcos)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 17.11.2018

Semeando educação

16/03/2017 às 3:52 | Publicado em Artigos e textos, Baú de livros, Zuniversitas | Deixe um comentário
Tags: , ,

Muito interessante essa história do escritor Raduan Nassar. Confiram.


LavouraArcaica2


Escritor que virou agricultor realiza sonho doando fazenda para UFSCAR

Raduan Nassar deixou a vida literária para se tornar agricultor. Em 2012, ele doou a fazenda Lagoa do Sino para Universidade Federal de São Carlos

O escritor Raduan Nassar doou sua fazenda, chamada Lagoa do Sino, em Buri, no sudoeste de São Paulo à Universidade Federal de São Carlos. Nela está sendo estabelecido um complexo educacional de nível superior voltado para os problemas da produção rural da região.

José Hamilton Ribeiro levanta a relação da fazenda com o famoso livro do escritor: “Lavoura Arcaica”. A obra conta na primeira pessoa a ghistória de um jovem perturbado com seu drama, o conflito com o pai, suas paixões e até sua doença. Mas corre ao longo do livro, um cenário da vida simples na roça.

Raduan Nassar ganhou recentemente o Prêmio Camões, de Portugal. O maior prêmio para quem escreve em português. Isso depois de receber o prêmio da Academia Brasileira de Letras e outras distinções nacionais.

Com base no livro foi feito um filme de mesmo nome, com Selton Mello no papel do filho inquieto e o Raul Cortez como pai conservador e rígido.

De uma família de imigrantes libaneses, Raduan Nassar nasceu em Pindorama, no oeste de São Paulo. Desde cedo, desenvolveu o gosto pela criação de animais. Após 20 anos com a família já com loja rica em São Paulo, passou um tempo no exterior. De volta ao Brasil, inicia em Cotia, em SP, uma grande criação de coelhos. Deixa depois a criação para tocar uma empresa da família, até que tira um tempo para escrever ‘Lavoura Arcaica’ e outros escritos. Em 1984, beirando os 50 anos – e já um escritor consagrado com livros publicados em várias línguas – duas coisas: rompe com a literatura, não escreve mais; e a partir daí, se dedica à fazenda Lagoa do Sino por mais de 30 anos.

Raduan Nassar não gosta de aparecer e também não dá entrevista, mas aceitou receber o Globo Rural pra uma conversa informal e escreveu um texto especial para a reportagem: “Abandonei a literatura há mais de trinta anos, o motivo não vem ao caso. Depois de adquirir a Fazenda Lagoa do Sino, em 1984, mergulhei de cabeça na área rural. A fazenda encontrava-se abandonada, amplos espaços ocupados por grama batatais, e mesmo indaiá, o rasteiro. A lidar também com terra vermelha de campo, mista, um tanto mais pra argilosa. Os primeiros tempos foram muito difíceis, erros foram cometidos acompanhados de prejuízos. Poucos anos depois, contava com ótima equipe. Além de contínuas correções do solo, com calagem, incorporação de matéria orgânica, inclusive esterco frio de galinha, além de nutrientes químicos, a coisa começou a engrenar, a ponto de chegarmos a índices de produtividade em grãos entre os melhores da região”.

Depois de uma safra excelente, uma decisão surpreendente de Raduan mudou muito o cotidiano da Lagoa do Sino.

Em 2012, ele a doou de papel passado, uma parte pra seu funcionário de confiança, o Nilton. Outra parte maior pra Universidade Federal de São Carlos.

Uma exigência do Raduan na doação: a fazenda teria que abrigar uma universidade, com vários cursos ligados ao campo e às ciências da natureza e com foco na agricultura familiar. No local funciona  o Campus Lagoa do Sino da UFSCAR e a fazenda, grande produtora de grãos, hoje também produz conhecimento

Além da movimentação econômica na região, filhos de agricultores e moradores locais hoje também têm onde estudar. Os agricultores familiares também ganharam mais assistência técnica para melhorar seu negócio.

FONTE: http://g1.globo.com/economia/agronegocios/globo-rural/noticia/2017/01/escritor-que-virou-agricultor-realiza-sonho-doando-fazenda-para-ufscar.html

Adeus “universitas” ou: onde foi parar nossa Academia ?

04/03/2014 às 3:56 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 2 Comentários
Tags: ,

Passei quase minha vida toda dentro de Universidades e Faculdades. Talvez seja por isso que às vezes me vejo no direito de criticá-las. Aqui neste ZEducando, onde eu criei esta seção, para alguns estranha, de nome “Zuniversitas” (a Universidade do Zé ?), já coloquei muita crítica à Academia. Segue para reflexão mais este artigo, da pena de Ruy Espinheira Filho. Fica a pergunta: o que fazer para tirar a Academia da situação em que se encontra ?


NOVAMENTE A UNIVERSIDADE    RuyE.]jpg

Escrevi, no artigo anterior (“A universidade em mau caminho:’), que lá – na universidade – ainda há gente de valor. E tanto há que choveram e-mails de aprovação e apoio aos meus questionamentos. Mesmo um leitor que disse não concordar “totalmente” com o texto achou importante encaminhá-lo a seus correspondentes para estimular o “debate”.

Tanto professores da ativa quanto aposentados manifestaram suas impressões. Ao contrário do citado leitor, concordavam inteiramente com as minhas colocações. Uns se diliam inconformados com a mediocrizacão do ensino e da cada vez mais clara intenéão de substituir os estudiosos e criadores que’ ainda restam por aventureiros do papel, ou seja, caçadores de títulos a qualquer preço – inclusive o da fraude. Um dos missivistas disse que
desistiu de trabalhar em qualquer banca, pois não suporta mais o baixíssimo nível das dissertações e teses que aparecem e são – ah, sim … – aprovadas, às vezes com louvor.

Um professor refere-se à degradação moral de ter que conviver com colegas que vivem
envolvidos em disputas mesquinhas de passagens para congressos, diárias em hotéis, etc.
Nesses congressos, o que fazem? No máximo, leem uma “comunicação” de poucas laudas,
quase nunca original, para obtenção dos pontinhos – e o resto é passeio, farra. E para se ter
direito a tais benesses é preciso cultuàr certas lideranças que, por sua vez, seguem ditames
políticos que nada têm a ver com a universidade, como era considerada a universidade em melhores épocas.

Um leitor disse que meu artigo “lavou a alma” de muita gente. Sim, porque há ainda quem ame e respeite a universidade. Mas, infelizmente, o mal já está feito, a mediocridade carreirista e politiqueira logo reinará sozinha em nosso ensino superior. Que de superior já não tem quase nada, e logo nada mais terá, pois, com raríssimas exceções, os arrogantes multidoutores de hoje jamais passariam no velho exame de admissão ao ginásio dos tempos em que estudo e ensino eram coisas sérias.

(FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, em papel, 06.02.2014)

Próxima Página »

Blog no WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d blogueiros gostam disto: