A PÁTRIA DE CHUTEIRAS

14/06/2020 às 11:17 | Publicado em Baú de livros, Zuniversitas | 2 Comentários
Tags: , ,

Há muito estava procurando este livre do genial Nélson Rodrigues. E eis que no meio de sua leitura encontro a definição do famoso termo criado por ele próprio. Uma doença muito pior e mais antiga que qualquer vírus. Parafraseando às avessas o próprio mestre, eu diria que nosso viralatismo começou 40 minutos antes de Cabral avistar o Monte Paschoal.


Patria_de_Chuteiras_capa


Patria_de_Chuteiras_viralatice

O CORPO FALA E NÃO MENTE 

03/06/2020 às 17:25 | Publicado em Artigos e textos, Canto da poesia | Deixe um comentário
Tags: , ,

Excelente crônica. Tostão, craque da bola e da letra. Quarta era dia de futebol, antes da pandemia. Mas o craque não escreve só sobre futebol, escreve sobre vida. E com poesia.

“Fiz de mim o que não soube, e o que podia fazer de mim não fiz. Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti. Quando quis tirar a máscara, estava pegada à cara. Quando a tirei e me vi ao espelho, já tinha envelhecido”.

(Fernando Pessoa)


O CORPO FALA E NÃO MENTE  tostao_thumb

Há 50 anos, no dia 3 de junho, o Brasil estreou na Copa de 1970. Na semana anterior, Zagallo definiu o time, ao escalar o volante Piazza na zaga e Everaldo na lateral esquerda. O treinador achava que o clássico e fino zagueiro Joel, do Santos, titular da zaga, era um pouco indolente e o reserva Fontana possuía poucos recursos técnicos. Piazza tinha duas qualidades importantes para um volante e para um zagueiro: antevia o lance, se antecipava ao adversário e tinha um bom passe, ainda mais para um defensor.

Na semana da estreia, Marco Antônio, titular da lateral esquerda, reclamou de muitas dores musculares. O médico ficou na dúvida, já que o exame clínico era normal e , na época, não havia tomografia para diagnosticar pequenas lesões. Zagallo se antecipou ao Dr.Lídio Toledo e escalou o gaúcho Everaldo.

Na véspera da estreia, não dormi bem,como era habitual antes de um jogo importante. Pensei na partida e fiquei mais tenso. Isso me ajudava a atuar melhor. A ansiedade, até certo limite, é benéfica, por aumentar a concentração. O atleta fica mais esperto, ativo. Se é excessiva, prejudica a tomada de decisões. Grandes derrotas no esporte acontecem por problemas emocionais.

Ganhamos da Tchecoslováquia, por 4 a 1, de virada. A atuação não foi excepcional, mas o time já mostrava ótimas qualidades coletivas e individuais. O passe longo e perfeito de Gérson para Pelé, que subiu e adormeceu a bola no peito, como corpo equilibrado e ereto, para, em seguida, finalizar, com precisão, é uma das maravilhas do Mundial. Na mesma partida, Pelé, do meio-campo, encobriu o goleiro e quase marcou. Esse tipo de gol passou a ser chamado de “o gol que Pelé não fez”.

Eu e Pelé nos entendíamos cada vez melhor. Eu tentava acompanhá-lo. Antes de a bola chegar, ele se movimentava e, com os olhos expressivos, esbugalhados, me dizia tudo o que queria fazer. A comunicação analógica, pelo olhar e pelos movimentos do corpo, é imprecisa, porém, muito mais rica que a digital, por palavras. O corpo fala e não mente.

Eu tive, individualmente, uma atuação discreta. Adaptava-me a uma nova posição. No Cruzeiro, eu recebia a bola no meio-campo e tinha toda a visão à frente. Na Seleção, mais adiantado e de costas para o gol, a visão era toda para trás, do que acontecia desde o goleiro.

Em qualquer atividade, o conhecimento não está apenas na informação. Está também e, principalmente, na visão ampliada que temos do conjunto. Quanto mais lemos e vemos, mais sabemos. É preciso saber ver.

Duas máscaras

Enquanto não houver uma vacina, o que vai ainda demorar, precisamos ter muitos cuidados, como o uso constante de máscaras. Essas são diferentes de outra, que o ser humano costuma usar para viver e sobreviver, decorrentes de repressões e sublimações dos instintos e dos desejos não aprovados pela sociedade. Graças a esses mecanismos de defesa – pagamos um preço por isso –, existe a civilização, ameaçada por um inimigo invisível, agressivo e traiçoeiro, ainda mais que o vírus encontra adversários impacientes, apressados e indisciplinados.

Preciso da ajuda de Fernando Pessoa para explicar melhor o uso das máscaras: “Fiz de mim o que não soube, e o que podia fazer de mim não fiz. Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti. Quando quis tirar a máscara, estava pegada à cara. Quando a tirei e me vi ao espelho, já tinha envelhecido”.

(Tostão)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, hoje.

DOIS EM UM AO FINAL DO DOMINGO

19/04/2020 às 17:56 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
Tags: , , ,

Nesse final de domingo, publico aqui dois bons artigos do jornal A TARDE, Salvador-BA. Um do Professor Paulo Ormindo de Azevedo e outro do craque Tostão. O primeiro é uma excelente crônica onde o autor contra-argumenta com seus leitores. Num mundo cada vez mais globalizado e interligado via grande rede digital, isolamento é um contrassenso, cabível apenas na cabeça desse DESgoverno e nas, infelizmente, milhares de cabeças de gado que ainda acreditam nele. O segundo texto é mais uma boa crônica daquele que foi um dia um dos maiores craques de futebol, médico e hoje é escritor. Como sempre digo após ler seus artigos, Tostão não escreve só sobre futebol, ele vai além. Nesse ele nos brinda ao final com essas belas e sábias palavras de Adélia Prado: “O que a memória amou se torna eterno”.


RESPONDENDO AOS MEUS LEITORES   foto-paulo-ormindo_thumb

Meu artigo de 05/04/20 sobre a desindustrialização do país provocou um amplo debate no Facebook. Recebi apoios e algumas contestações. Só posso responder às últimas.

Ecles Lisboa levanta algumas questões. Zerar impostos, inclusive de produtos que não fabricamos desestimula sua produção interna e investimentos externos. Guedes não representa o setor produtivo, que cria empregos, senão financeiro, que ganha o mesmo importando ou exportando. Ele sabe dos impactos dos acordos de comércio e por isso quer gradual. Abrir mais o quê? Importamos desde meias a carros de luxo. Todos os organismos internacionais constatam que o livre-comércio aumentou a distância entre ricos e pobres e deflagrou migrações massivas do Oriente Médio para a Europa, da América Central para os EUA.

China, Correia do Norte e Cingapura, que haviam feito investimentos enormes em educação, alta tecnologia e infraestrutura, pularam na frente dos EUA que defendiam o livre-comércio. A briga hoje é da alta tecnologia: EUA X China, Reino Unido X União Europeia, Rússia X Arábia Saudita. O desafio não vem mais do Norte, mas do Leste. Os EUA adotam sobretaxas e cotas e nós continuamos a pensar como o Chile de 1970, que implodiu. A desindustrialização do país começou em 1990, mas o corte da pesquisa por Guedes, a venda da Embraer e a entrega da base de Alcântara sem transferência de tecnologia acentuam mais o nosso descompasso mundial. O abandono da política externa multilateral, do Acordo de Paris e os ataques à China, nosso maior comprador, só aumentam o nosso isolamento. Algumas reformas são necessárias, mas não incrementarão a nossa competitividade, não criarão empregos, nem desativarão a bomba social.

Dirceu Romani observa que em todo mundo só se vê produtos da China, Vietnã, Sri Lanka e Bangladesh. É verdade, os ricos não querem mais trabalhar, só especular nas bolsas. A pandemia está mostrando o desastre dessa dependência nos EUA, Europa e Brasil.

Meu amigo Lito Passos afirma: “A indústria nacional acaba devido ao excesso de proteção e a falta de produtividade do trabalhador brasileiro” e faz uma caricatura dos nossos operários. Simples assim? A nossa indústria está acabando porque não tem apoio oficial, tecnologia competitiva e infraestrutura, portos, ferrovias, cabotagem, e a concorrência não regulamentada dos orientais. Conheço bemosetor da construção,amaior indústria do país, e as péssimas condições de trabalho, segurança, treinamento e remuneração dos trabalhadores. O que ele fazem é um milagre. O absenteísmo é alto pela falta de saneamento e o desmonte do SUS: dengue, zika e chicungunha.

Adorei a síntese do artista e meu ex-aluno Jamison Pedra Prazeres: “Voltamos aos tempos de exportar látex e importar chiclete, exportar cacau e comprar chocolate”.

(Paulo Ormindo de Azevedo)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, hoje


PAIXÕES DA MEMÓRIA tostao_thumb

Hoje, poderemos ver, pelo SporTV, a final da Copa de 1970. Muitos dirão que a Seleção foi espetacular, melhor até do que se dizia, enquanto outros falarão que o futebol era muito lento, que era uma grande equipe, mas nem tanto.

No passado e no presente, há grandes times e jogadores e também os razoáveis e os ruins. Não podemos confundir a deliciosa memória afetiva com o saudosismo, em achar que tudo antes era superior, nem se iludir que a vida e o futebol começaram com a internet.

Na véspera da final, na reunião dos jogadores com a comissão técnica, combinamos que, quando Jairzinho entrasse em diagonal e fosse acompanhado pelo lateral da Itália, Carlos Alberto avançaria pela direita. Combinamos também que eu jogaria entre os quatro defensores, que faziam a marcação individual, e o zagueiro da sobra, para evitar que ele saísse na cobertura. Um marcaria o outro. Saiu tudo como planejado. Foi também uma vitória tática.

Eu sabia que pouco pegaria na bola, espremido entre os defensores. Mas sabia também que era necessário. Senti-me importante. Repito, não fui um clássico centroavante, finalizador, nem um meia-atacante,como era no Cruzeiro, com um centroavante à minha frente. Em um time com dois atacantes excepcionais, agressivos e artilheiros, como Pelé e Jairzinho, era preciso um centroavante armador, um facilitador.

Na véspera da final, como aconteceu antes de todos os jogos do Brasil na Copa, houve um encontro entre alguns jogadores, uns seis, que se revezavam. Ninguém era obrigado ou coagido a participar. Um dos presentes fazia uma reflexão inicial, sobre futebol ou sobre o que quisesse. Alguns gostavam de rezar. Só não se falava sobre estratégia de jogo, o que acontecia na reunião com a comissão técnica.

Naquele último encontro, houve uma exceção, e foi convidado para falar o Dr. Roberto Abdala Moura, que tinha me operado do olho e que assistiu a todos os jogos no estádio, a convite da comissão técnica. Após as partidas, ele viajava para Houston, nos EUA, onde morava.

Dr. Roberto disse na preleção: “Parafraseando Padre Antônio Vieira, o contrário da luz não éa escuridão, mas sim uma luz mais forte, pois, na escuridão, qualquer luz brilha, por menos intensa que seja. Ao lado de uma luz forte,  as luzes menores não são detectadas, como que se apagam. E nossa luz, a da Seleção, será mais brilhante”.

Na manhã do jogo, tomamos café juntos, já que a partida seria ao meio-dia, sob intenso calor. Havia um silêncio. De repente, Dario, meu reserva, se levantou, olhou para Zagallo e disse que havia sonhado ter feito três gols e que garantia os gols no jogo,se fosse escalado. Todos deram gargalhadas.

Não houve surpresa na final. No intervalo (estava 1 a 1), havia, no vestiário, um consenso de  que o segundo tempo seria mais fácil, já que era evidente o cansaço dos italianos, por causa do calor, da marcação individual, da semifinal desgastante contra a Alemanha e porque o Brasil tinha o melhor preparo físico da Copa. E nu m canto, como era habitual, Gérson fumou seu cigarro.

A Seleção Brasileira foi encantadora e revolucionária para a época. Zagallo era um estrategista, o que era raro. Ele foi importante para a conquista. A Seleção unia o talento individual com o coletivo, a fantasia e a inventividade com a organização e a disciplina tática. “O que a memória amou se torna eterno” (Adélia Prado).

(Tostão)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, hoje

O MUNDO NÃO SERÁ O MESMO

22/03/2020 às 17:19 | Publicado em Artigos e textos | 1 Comentário
Tags: ,

Domingo normalmente é dia de música, cerveja, praia e futebol. Em tempos de tsunami virótico mundial, sem praia nem futebol, nos resta a música e a cerveja. Isso além da leitura. Confiram esse artigo do craque da bola e da pena Tostão, o velho Tusta. Imperdível porque vai muito além do futebol. Nesse ele cita Bernardo Soares – Fernando Pessoa.


O MUNDO NÃO SERÁ O MESMO Tostao

O mundo parou. Jamais imaginaria essa tragédia. Vai passar. Temos de ser fortes e solidários. A ansiedade leve, moderada, estimula as pessoas a ficar atentas, a se preparar para enfrentar o perigo. Mas, se a ansiedade for excessiva, leva ao pânico e à doença mental.

O distanciamento social não é isolamento. As pessoas podem se comunicar por telefone e pela internet, um vendo o outro, como se estivessem juntas.

Como passo, normalmente, a maior parte do tempo em casa, lendo, escrevendo, assistindo aos noticiários, aos programas esportivos e aos jogos de futebol, não mudou tanto minha rotina. De vez em quando,caminho pelas ruas vazias, para buscar minhas necessidades essenciais. Preciso seguir as recomendações dos especialistas. Estou bem de saúde, não estou gripado, mas sou idoso. Corro mais riscos.

Procuro saber de todos os fatos, mas o noticiário excessivo é massacrante. Tento fazer algo novo, ler, reler, assistir a novos filmes. O duro é ficar sem ver uma partida de futebol ao vivo, mesmo que seja um jogo qualquer, uma pelada.

Estou relendo ‘O livro do desassossego’, escrito por Bernardo Soares, um dos 127 heterônimos de Fernando Pessoa: “Toda a vida humana é um movimento na penumbra. Vivemos num lusco-fusco da consciência, nunca certos com o que somos ou com o que nos supomos ser. Somos qualquer coisa que se passa num intervalo de um espetáculo; por vezes, por certas portas, entrevemos o que talvez não seja senão cenário”.

O mundo e o futebol não serão os mesmos quando terminar a pandemia. Dirigentes terão de refletir e analisar tudo o que ocorreu, para fazer mudanças, de acordo com a nova realidade. Quem sabe o mundo e o futebol melhorem e o ser humano se transforme, evolua, mude de hábitos, comportamentos, e se torne mais solidário, autêntico e menos tendencioso. Preciso falar de futebol.Concordo com Juca Kfouri, que essa é uma boa chance para se mudar o calendário do Brasil, que passaria a seguir o modelo europeu. Se não houver futebol no primeiro semestre, o Campeonato Brasileiro poderia começar em agosto e terminar em maio. Na Argentina também é assim.

Na coluna anterior, escrevi que, se Marcelo voltasse a jogar no Brasil, seria destaquen o meio-campo, pela esquerda, como é Daniel Alves pela direita. Zidane já disse que, se o Real Madrid não tivesse muitos craques no meio-campo, ele escalaria Marcelo como meio-campista.

Receio que, na próxima Copa, por causa da idade ou pela condição técnica, o Brasil não conte com Marcelo, Daniel Alves e Thiago Silva. Há bons jogadores para substituí-los, mas nenhum à altura do que jogam ou jogaram os três. Marcelo foi o melhor lateral esquerdo do mundo na última década. Daniel Alves competiu, na lateral direita, com outro craque, o alemão Lahm. Thiago Silva está entre os grandes zagueiros do planeta.

Na última convocação de Tite, havia, em todas as posições, muito bem definidas, dois jogadores,umtitulareum reserva. Tudo certinho, programado, previsível. São dois volantes mais recuados (Casemiro e Fabinho), dois volantes que avançam mais, chamados de segundos volantes (Arthure Bruno Guimarães), e dois meias de ligação (Coutinho e Éverton Ribeiro). Os melhores times e técnicos do mundo são os que têm mais conhecimento, que são mais organizados, mas que surpreendem, inovam, em momentos certos.

(Tostão)

FONTE: Maiores jornais do país, hoje.

Próxima Página »

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d blogueiros gostam disto: