Repensar moldura

11/06/2012 às 3:11 | Publicado em Espaço ecumênico | Deixe um comentário
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Esse ainda é do mês de abril, mas sempre será atual nesses tempos de ‘invasão evangélica’.


PASTOR ELOGIA ATEÍSMO ÉTICO E CRITICA CANALHICE FEITA EM NOME DE DEUS

O pastor Ricardo Gondim está escrevendo em seu site uma série de artigos onde tem exposto o seu desencanto em relação ao que chama de “movimento evangélico”.espelho

A sua caminhada (ou expulsão velada) para fora do habitat de seus pares teve início no ano passado, quando escreveu um artigo pedindo a Deus que livrasse o Brasil de se tornar um país evangélico para que não haja uma devastação na cultura brasileira.

Gondim passou a sofrer fortes pressões de seus colegas e de fiéis, ainda mais porque defendeu a união de pessoas do mesmo sexo. Uma revista cristã o dispensou depois de 20 anos de colaboração. Em redes sociais, passou a ser chamado de “pastor herege”. Recentemente, ele anunciou o seu desligamento da Igreja Betesda. Em seu site, não se apresenta como pastor.
Em artigo publicado hoje (23) diz, entre outras coisas, que prefere a franqueza áspera dos “sem religião” a “carolice desencarnada dos alienados” e reconhece que “o ateísmo ético supera em muito a canalhice praticada em nome de Deus”.

Trata-se de um texto com palavras fortes onde fala em “repensar moldura” e em “se assumir”. Afirma: “Repensar moldura significa assumir-se. Canhotos não precisam envergonhar-se do canhotismo. Baixinhos não devem se sentir inadequados. Orientação sexual não define caráter. É revoltar-se com as etiquetas imbecis de uma cultura burguesa que parasitou em costumes franceses e, depois, emulou o pior dos Estados Unidos”.


Repensar moldura  (Ricardo Gondim)

Ninguém vive fora de algum círculo. Quando escrevi o livro “Pensando Fora da Caixa” não sugeri o abandono de molduras. Ninguém pensa sem paradigmas. Propor anarquia intelectual é desatino. Nietzsche afirmou corretamente: “O nada nega a si mesmo”. Quem procura sair de formas busca mudar de lente ou de pedra de arranque. Não cogita cometer suicídio intelectual. Talvez tente criticar pressupostos; quem sabe, desobedecer bitola; com certeza, abrir algum cadeado.
Repensar moldura significa coragem de rir enquanto probos pensadores posam, com olhar compenetrado, de senhores da razão. Não há nada mais ridículo, e ao mesmo tempo engraçado, do que presenciar debate em que acadêmicos discutem a irrelevância do óbvio. Rubem Alves expressou seu desdém por essa moinha árida, que consome filósofos, teólogos e teóricos. Pensar nem sempre garante sentir. Como não desejava refletir o mundo como um espelho frio, disse: “É isso que me separa dos f ilósofos: sou um amante. Tenho um caso de amor com o universo…”. Para celebrar a vida é preciso esse namoro.
Repensar moldura significa não temer o mundo da sensibilidade. É preciso ousadia para chorar quando o riso se torna fácil e a alegria, banal. Na gargalhada dos medíocres, o pranto se torna virtude. Se galhofa expressar complacência, chegou a hora de lamentar. Compadecer, igual a sofrer com, precisa migrar dos imperativos e virar privilégio.
Repensar moldura significa manter acesa a flama da esperança e em tempos cínicos, sonhar. Esperança se define como a teimosia de plantar uma árvore mesmo se não há mais idade para descansar à sua sombra.
Repensar moldura significa aprender a disciplina da prece. É fazer da contemplação o alimento de uma fé que zomba do pessimismo, acredita em outro mundo possível, pisa os grilhões do destino e profetiza um porvir, em que justiça e paz se beijam.
Repensar moldura significa escolher estrada menos trilhada. Quando a multidão preferir os píncaros, descer aos vales. Se todos acharem que lodaçais crescem, sacudir a lama e alçar o voo das águias.
Repensar moldura significa não ter medo de andar para trás. É desprezar o progresso, achincalhar o sucesso, voltar à idade menina de falar na língua do “P”, apaixonar-se perdidamente, assombrar-se com a escuridão, ver o mundo grande, fechar os olhos ao grotesco e perceber anjos e fadas ao derredor.
Repensar moldura significa assumir-se. Canhotos não precisam envergonhar-se do canhotismo. Baixinhos não devem se sentir inadequados. Orientação sexual não define caráter. É revoltar-se com as etiquetas imbecis de uma cultura burguesa que parasitou em costumes franceses e, depois, emulou o pior dos Estados Unidos.
Repensar moldura significa desvencilhar-se de afirmações piegas, ridiculamente sentimentais. É preferir a franqueza áspera dos “sem -religião” ao invés da carolice desencarnada dos alienados e por fim, constatar que o ateísmo ético supera em muito a canalhice praticada em nome de Deus.
Soli Deo Gloria

Este texto foi publicado originalmente no site do Gondim.

Pastor diz ter se afastado do meio evangélico por causa dos vigaristas.
abril de 2012

Jesus era peripatético

18/04/2011 às 3:45 | Publicado em Artigos e textos, Espaço ecumênico, Zuniversitas | 2 Comentários
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Boas lições podemos tirar deste artigo. Mas fiz questão de colocá-lo também no ‘Espaço Ecumênico’ por uma passagem no meio do texto, que o autor, Max Gehringer passou batido na sua conclusão: o ateísmo ! É como tantos e tantos preconceitos que temos hoje em dia, porém o mais antigo, a meu ver, porque imagino que surgiu ainda nas cavernas quando algum teimoso insistiu que o Sol não era Deus… cavernas1


JESUS ERA … PERIPATÉTICO

Numa das empresas em que trabalhei, eu fazia parte de um grupo de treinadores voluntários.Éramos coordenados pelo chefe de treinamento, o professor Lima, e tínhamos até um lema: ‘Para poder ensinar, antes é preciso aprender’ (copiado, se bem me recordo, de uma literatura do Senai).
Um dia, nos reunimos para discutir a melhor forma de ministrar um curso para cerca de 200 funcionários. Estava claro que o método convencional – botar todo mundo numa sala – não iria funcionar, já que o professor insistia na necessidade da interação, impraticável com um público daquele tamanho. Como sempre acontece nessas reuniões, a imaginação voou longe do objetivo, até que, lá pelas tantas, uma colega propôs usarmos um trecho do Sermão da Montanha como tema do evento.E o professor, que até ali estava meio quieto, respondeu de primeira.

Aliás, pensou alto: – Jesus era peripatético…

Seguiu-se uma constrangida troca de olhares, mas, antes que o hiato pudesse ser quebrado por alguém com coragem para retrucar a afronta, dona Dirce, a secretária, interrompeu a reunião para dizer que o gerente de RH precisava falar urgentemente com o professor. E lá se foi ele, deixando a sala à vontade para conspirar.

– Não sei vocês, mas eu achei esse comentário de extremo mau gosto – disse a Laura.

– Eu nem diria de mau gosto, Laura. Eu diria ofensivo mesmo – emendou o Jorge, para acrescentar que estava chocado, no que foi amparado por um silêncio geral.

– Talvez o professor não queira misturar religião com treinamento – ponderou o Sales, que era o mais ponderado de todos.

– Mas eu até vejo uma razão para isso…

– Que é isso, Sales? Que razão?

– Bom, para mim, é óbvio que ele é ateu.

– Não diga!

– Digo. Quer dizer, é um direito dele. Mas daí a desrespeitar a religiosidade alheia…

Cheios de fúria, malhamos o professor durante uns dez minutos e, quando já o estávamos sentenciando à fogueira eterna, ele retornou. Mas nem percebeu a hostilidade. Já entrou falando: — Então, como ia dizendo, podíamos montar várias salas separadas e colocar umas 20 pessoas em cada uma. É verdade que cada treinador teria de repetir a mesma apresentação várias vezes, mas…

Por que vocês estão me olhando desse jeito?

– Bom, falando em nome do grupo, professor, essa coisa aí de peripatético, veja bem…

– Certo! Foi daí que me veio a idéia. Jesus se locomovia para fazer pregações, como os filósofos também faziam, ao orientar seus discípulos.

Mas Jesus foi o Mestre dos Mestres, portanto a sugestão de usar o Sermão da Montanha foi muito feliz.

Teríamos uma bela mensagem moral e o deslocamento físico… Mas que cara é essa?… Peripatético quer dizer ‘o que ensina caminhando’.

E nós ali, encolhidos de vergonha. Bastaria um de nós ter tido a humildade de confessar que desconhecia a palavra que o resto concordaria e tudo se resolveria com uma simples ida ao dicionário.Isto é, para poder ensinar, antes era preciso aprender.
Finalmente, aprendemos. Duas coisas. A primeira é: o fato de todos estarem de acordo não transforma o falso em verdadeiro.E a segunda é que a sabedoria tende a provocar discórdia, mas a ignorância é quase sempre unânime.

(Artigo escrito por Max Gehringer publicado na Revista VOCÊ SA.)


DO AURÉLIO:

peripatético
[Do gr. peripatetikós, ‘que gosta de passear’, pelo lat. peripateticu.]
Adjetivo.
1.Filos. Aristotélico (1 e 2).
2.Restr. Pertencente ou relativo a peripatetismo.
3.Que se ensina passeando.
4.Fig. Exagerado na expressão, nos gestos. ~ V. escola —a.
Substantivo masculino.
5.Aristotélico (3):
“Consultamos …. todos os escolásticos, todos os platônicos, todos os peripatéticos, todos os epicuristas” (Ramalho Ortigão, As Farpas, II, p. 37).

Richard Dawkins no TED

28/12/2010 às 5:51 | Publicado em Espaço ecumênico, Midiateca | 4 Comentários
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Imperdível este vídeo de Richard Dawkins. No início deste blog, lá pelos idos de outubro de 2007, ao explicar o porquê de um “Espaço Ecumênico” fiz um post inicial com o título “Introdução, essências e reminiscências – provocação inicial“, onde tratei brevemente do livro DEUS – UM DELÍRIO deste cientista. Voltei ao tema algumas outras vezes, em destaque os posts “Deus – uma dúvida” e o último “Ateísmo“.

Retorno agora com esta palestra proferida no TED, com a profundidade e o humor que são característicos do autor. Para ver as legendas em Português, clique em “View subtitles” e escolha “Portuguese (Brazil)”.

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