Respeitosa discórdia

18/11/2013 às 3:01 | Publicado em Artigos e textos, Baú de livros | Deixe um comentário
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Não conhecia mais esse personagem baiano da vida nacional. Vale a pena a leitura porque trata-se de uma fase de nossa história pouco conhecida. Pena o personagem de fundo, Luiz Carlos Prestes, não mais estar aqui para poder (ou não) também discordar ! Lendo esse texto a gente fica com vontade de ler o “Armênio Guedes, sereno guerreiro da liberdade” !

ARMÊNIO GUEDES -CONVITE S. PAULO


RESPEITOSA DISCÓRDIA ARMENIO

Armênio: biografia é o “retrato de um cidadão brasileiro do século XX que concebe a ação política como um meio de chegar à sociedade justa, fraterna, igualitária”, escreve Gullar

Ninguém mais improvável para ocupar um posto de guarda-costas de Luiz Carlos Prestes, então líder máximo do Partido Comunista Brasileiro (PCB), do que um magricela de escassos 52 quilos distribuídos em 1,75 metro de altura – e reflexos tão rápidos quanto os celebrizados pelo lendário baiano Dorival Caymmi. O trabuco Taurus 38 que lhe deram quase não parava dentro das calças. Mas foi para esse cargo, que acumulava com o de assistente, que o PCB, em 1945, indicou o baiano de Mucugê Armênio Guedes. Na época, estava com 27 anos, 10 de militância. Prestes acabara de ser libertado de 9 anos de prisão, beneficiado por uma anistia de Getúlio Vargas.

Nascia ali uma respeitosa discórdia, que permearia por décadas toda uma geração de intelectuais, como diz o poeta Ferreira Gullar em seu prefácio do livro “Sereno Guerreiro da Liberdade”, de Sandro Vaia, que a editora Barcarolla lança na segunda-feira, a partir das 18h30, na Livraria da Vila da alameda Lorena, em São Paulo.

A biografia de Armênio, hoje com 95 anos, vale “como retrato de um cidadão brasileiro do século XX que concebe a ação política como um meio de chegar à sociedade justa, fraterna, igualitária”, escreve Gullar.

A personalidade de Armênio, “mais flexível, de fala mansa e trato delicado”, na descrição do poeta, iria se confrontar com a de quem deveria guardar as costas: o rígido militar gaúcho Prestes, que já entrara para o partido como dirigente, pelas mãos dos então poderosos soviéticos.

Entre 1945 e 1983, Armênio viveu como assalariado do Partido Comunista – do “ouro de Moscou”, como ele lembra, brincando – e se especializou em espalhar jornais e revistas pelo Brasil: “Seiva”, “Revista Continental”, “Tribuna Popular”, “Estudos Sociais”, “Novos Rumos”, “Voz Operária”, entre tantos títulos, até a “Voz da Unidade” nos anos 1980. Na direção do PCB, foi suplente, entre 1943 e 1954, do Comitê Central (CC), de onde foi afastado por “atitudes antissoviéticas”. Voltou para o CC em 1967, para organizar o partido no exílio, com sua primeira mulher, Zuleika Alambert.

O pano de fundo para essa biografia escrita pelo ex-diretor de Redação de “O Estado de S. Paulo” é o desenrolar do confronto dessas personalidades tão diferentes. Mas o embate era também de valores. O principal deles, do qual Armênio não abria mão, segundo Gullar, seu companheiro e amigo, “era a noção de liberdade, mais compatível com o regime democrático”. Isso poria Armênio em conflito permanente com Prestes.

O embate ficaria mais agudo nos anos 1970. Naquela época o mundo era dividido, grosseira e rigidamente, em dois blocos: o capitalista e o comunista. Os comunistas costumavam associar o conceito de democracia ao qualificativo burguesa, como se democracia fosse um modo de dominação inerente ao capitalismo. Depois da queda do Muro de Berlim, em 1989, a divisão do mundo se esfumaçou, junto ao bloco comunista. E o ideal da democracia se espalhou pelo mundo. Sem adjetivos, como esperança universal.

Antes, porém, que a primeira pedra rolasse da muralha alemã, intelectuais europeus haviam começado a desmontar a barreira ideológica entre democracia e comunismo. Na vanguarda, os italianos de Enrico Berlinguer (líder do PCI) arriaram a bandeira “rossa” e hastearam a da esquerda democrática. Outros partidos europeus seguiriam o mesmo caminho.

Os ventos dessa mudança foram captados na Europa e trazidos para o Brasil pelo militante Júlio ou André ou tantos outros nomes que Armênio Guedes adotou durante 48 anos de militância, condensados por Sandro Vaia.

No livro, ele mostra de que forma Júlio – como Cecília Comegno, sua mulher, o chama até hoje – funcionou como uma antena no exílio parisiense, onde editava a “Voz Operária”, órgão oficial do PCB. Captava, ampliava e retransmitia as convulsões vividas pela esquerda europeia para atentos ouvidos de intelectuais brasileiros que passavam por lá ou estavam aqui, no outro lado do Atlântico.

Em 1979, uma entrevista de Armênio ao “Jornal do Brasil” (reproduzida no livro) serviu como senha para quem pretendia aposentar a velha cartilha partidária leninista e adotar a democracia como princípio, meio e fim.

Nessa entrevista, Armênio faz uma afirmação que serve como autocrítica da história do PCB: “Houve um certo tempo em que nós identificávamos liberdades democráticas com o poder da burguesia. Mas a verdade é que, pouco a pouco, a vida foi-nos mostrando que a democracia é algo importante, permanente, para o avanço da sociedade”. Era a pedra que faltava para fazer ruir a muralha ideológica. Mas ela se alojaria diretamente no sapato de Prestes, defensor, até a morte, do sistema liderado pela finada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Ele se deu ao trabalho de escrever uma “Carta aos Brasileiros”, em março de 1980, criticando aqueles que queriam se integrar, sem pretensões de dirigir, na luta pela ampliação da democracia no Brasil.

A relação com os soviéticos sempre opôs os dois dirigentes. Embora admirador da língua russa, que ainda arranha, Armênio jamais gostou da rigidez de hábitos adotados na extinta URSS, onde passou longas temporadas. Achava chatíssimas as excursões culturais programadas; recusava a visita a museus e a subserviência recomendada pelos dirigentes brasileiros. Permitiu-se até a gaiatice temerária de roubar uma taça da “dacha” de Stálin, que guarda como suvenir.

O conflito mais grave, porém, estourou entre os camaradas durante a Copa do Mundo de 1954. Os pró-soviéticos achavam que tinham de apoiar os times comunistas, enquanto Armênio defendia o Brasil. “Futebol está acima ou abaixo da luta de classes… de maneira que torço pelo Brasil”, justificou.

Quando o assunto era o Botafogo, o clima ficava ainda mais belicoso. Era o time do coração dele e de seu irmão Célio, o Celito, como era carinhosamente apelidado, o mais novo entre 11 irmãos, a quem lhe coube tutorar, de acordo com a tradição da família Guedes.

O caçula era ligado em esportes, cultuava a beleza física e aprendeu com o pai a lapidar diamantes, ofício que exerceu para ajudar a família depois da morte do patriarca. Celito também serviu a Prestes como motorista e guarda-costas. A morte, em 1972, desse irmão tão próximo, causou uma das maiores dores da vida de Armênio. Estava no Chile, quando soube da notícia, contou a Vaia: “… me mostraram um telegrama de Prestes. Ele me avisava que o motorista de uma missão – não falava o nome de Célio – tinha sido liquidado. Foi um choque tão violento que eu cheguei a ter um começo de pneumonia. Fiquei de cama quase um mês. Nesse período eu balancei… tive vontade de me afastar de tudo”.

Na versão oficial, Célio teria pulado do 7º andar do Cenimar. A da família é a de que ele foi morto sob tortura, no I Distrito Naval, em 15 de agosto de 1972. A lembrança da morte do irmão fica ainda mais dolorida para Armênio, porque ela poderia ter sido evitada. A direção do partido já sabia que Célio corria sério risco de ser pego pelos agentes da repressão, mas nem por isso teria cancelado a missão, conta o livro.

A frieza do telegrama de Prestes para seu companheiro fala muito das diferenças entre os dois. O livro dedica um capítulo especialmente a elas. Hoje o quase centenário Armênio comenta com tranquilidade e elegância: “As personalidades que mais admirei no partido foram João Saldanha e Oscar Niemeyer”. Sobre Prestes diz apenas: “Foi um grande lutador, mas péssimo político”.

Avesso a grandiloquências, Armênio talvez não se sinta confortável no papel de opositor histórico ao muitas vezes biografado “Cavaleiro da Esperança”. Mas certamente não vai se preocupar muito com isso. Atualmente prefere se dedicar à escolha entre ouvir Billie Holiday ou Prokofiev. Sem dispensar um bom papo de padaria.

(Ricardo Lessa, autor de “Brasil e Estados Unidos, o Que Fez a Diferença”, é jornalista e assessor de imprensa da Amcham Brasil)

FONTE: OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

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Anita Leocádia Benário Prestes

06/09/2012 às 3:05 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 1 Comentário
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Já havia feito, em 11/10/2010 , um post com o título MEMÓRIAS DO EXÍLIO PRESTES, em homenagem a Luz Carlos Prestes. Agora recebi um email de um amigo com esse artigo da Anita Leocádia Benário Prestes sobre o (ou será os) Partido Comunista do Brasil. No email indicava apenas Anita Leocádia Prestres, mas eu fiz questão de colocar o nome completo, onde aproveito para homenagear uma das mulheres mais marcantes e corajosas que já passou por essa terra: Olga Benário !


PCdoB: a falsificação da história dos comunistas brasileirosAnitaPrestes

O movimento revolucionário mundial socialista e comunista conviveu, desde o século XIX, com correntes reformistas de diferentes tipos. Os pais fundadores do marxismo – Marx, Engels, Lenin –, assim como teóricos do comunismo e dirigentes revolucionários da estatura de A. Gramsci e R. Luxemburgo, tiveram que levar adiante uma luta sem tréguas contra os reformistas do seu tempo. …

Os reformistas precisaram justificar sempre a adoção de políticas de conciliação de classes, ou seja, de políticas baseadas em concessões às classes dominantes e no abandono dos objetivos revolucionários do proletariado e dos seus aliados; políticas de caráter evolucionista, marcadas pela negação do momento revolucionário, indispensável, segundo os marxistas, para a conquista do poder político pelos trabalhadores, única maneira efetiva de realizar as transformações revolucionárias necessárias para a construção de uma nova sociedade, livre da exploração do homem pelo homem.

Nesse esforço de justificação, os reformistas precisaram e ainda precisam recorrer à falsificação da História, inclusive da História do movimento operário e revolucionário, em busca de argumentos que contribuam para a aceitação de suas posições por amplos setores sociais, argumentos de prestígio, que sirvam de aval para sua atuação política.

A postura atual do PCdoB constitui exemplo edificante de semelhante tentativa de avalizar sua política atual recorrendo à falsificação da História dos comunistas brasileiros. Na medida em que o PCdoB passou a trilhar o caminho reformista da chegada ao poder sem revolução, tornou-se natural sua adesão às escolhas feitas por Lula e a direção do PT, na virada do século XX para o XXI, e agora mantidas por Dilma.

Foram escolhas reveladoras da capitulação de Lula e da direção do PT diante dos interesses do grande capital internacionalizado, em especial, do capital financeiro, ou seja, dos banqueiros internacionais. Tal capitulação ocorreu após três tentativas frustradas de alcançar o poder, nas eleições presidenciais de 1989, 1994 e 1998. Para conquistar a presidência, em 2002, foi escolhido o caminho mais seguro:

O governo do PT, sem coragem de afrontar os interesses constituídos, sem nenhuma disposição para arriscar uma mudança na postura do Estado que o tornasse capaz de enfrentar os problemas experimentados pelo país, escolheu a reafirmação da lógica perversa que já estava em curso e a entrega total do Brasil às exigências da acumulação privada. [1]

Da mesma maneira que nos governos de Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso, nos Governos Lula e Dilma o capital financeiro permanece hegemônico, embora esteja em curso uma reforma do neoliberalismo, voltada para a construção de uma “nova versão do modelo capitalista neoliberal”[2].

A adesão por parte do PCdoB a semelhante política de reforma do capitalismo o conduziu à tentativa de buscar no passado heróico dos comunistas brasileiros – embora eivado de erros provocados pela presença de falsas concepções – o aval para seu comportamento político atual. Tirando proveito do jubileu de 90 anos da fundação do Partido Comunista no Brasil, os atuais dirigentes do PCdoB divulgam uma versão falsificada da História desse partido. Distorcendo a realidade, apresentam a História do PC como uma sucessão retilínea de êxitos, cujo apogeu seria a política atual do PCdoB. Ao mesmo tempo, silenciam sobre as teses oriundas de uma falsa concepção nacional-libertadora da revolução brasileira, responsável pelas ilusões nas possibilidades de um “capitalismo autônomo”, cujo corolário foi o abandono, na prática, da luta pela revolução socialista no Brasil, concepção que esteve presente tanto n a história do antigo PCB quanto na de quase todos os seus “filhotes”, inclusive o PCdoB.

São distorcidos os fatos relacionados com a cisão de 1962, quando um grupo de dirigentes do antigo PCB, discordando das posições políticas aprovadas no seu V Congresso (1960), usou o pretexto da mudança do nome do partido com vistas ao seu registro eleitoral, para criar outro partido – o PCdoB. Partido este que, durante várias décadas, combateu com violência o PCB e o seu ex-secretário-geral Luiz Carlos Prestes. Partido este que, durante toda a década de 1980, foi insistentemente criticado por Prestes pela postura oportunista de entendimentos espúrios com os governantes para alcançar o registro eleitoral e de apoio à candidatura de Tancredo Neves nas eleições indiretas de 1985 e, em seguida, de apoio ao governo de José Sarney. Segundo Prestes, tratava-se do abandono de todo compromisso com os interesses dos trabalhadores e com os ideais de verdadeiras transformações socialistas em nosso país.

É este partido, o PCdoB, que trata hoje de apropriar-se indevidamente do legado de Prestes para, tirando proveito do prestígio do Cavaleiro da Esperança, justificar-se perante amplos setores populares. Tal falsificação deve ser denunciada, pois a permanência de uma versão distorcida da trajetória dos comunistas brasileiros, difundida por um partido que se apresenta como comunista e fala em nome do socialismo, serve aos desígnios dos inimigos da emancipação social dos trabalhadores brasileiros, contribui para a manutenção da exploração capitalista em nossa terra, dificultando o caminho efetivo da construção de uma sociedade socialista no Brasil.

[1] PAULANI, Leda Maria. Quando o medo vence a esperança (um balanço da política econômica do primeiro ano do governo Lula). Crítica Marxista, n. 19, outubro de 2004, p. 23.

[2] BOITO, Armando. O Governo Lula e a reforma do neoliberalismo. Revista da Adusp, maio de 2005. (www.cecac.org.br)

Por Anita Leocadia Prestes

A hipótese comunista

03/08/2012 às 3:58 | Publicado em Baú de livros, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Esse eu ainda não concluí a leitura. Alain Badiou é maoísta, mas o que presenciamos no mundo de hoje é que as idéias do velho Marx não morreram. Para um dinossáuro comunista, ou socialista, um livro desses é um alento, ou um novo alento.



A HIPÓTESE COMUNISTA (Alain Badiou)  

A “hipótese comunista”, conceito formulado pelo filósofo, dramaturgo e militante francês Alain Badiou, inspira uma obra homônima sobre a revitalização do comunismo e um novo programa para a esquerda, lançada agora pela Boitempo. Desde 2008, quando foi exposto pela primeira vez em um artigo da New Left Review, o termo vem sendo adotado e discutido por uma ampla gama de pensadores, como Slavoj Žižek, Jacques Rancière, Michael Hardt, Antonio Negri e Terry Eagleton.

Considerado um dos principais filósofos de nosso século, Badiou parte da reflexão sobre a noção de fracasso do comunismo ­–­ enunciado negativo amplamente disseminado pela “nova filosofia” ocidental a partir da década de 1970 – para defender a sua retomada. Badiou vê o fracasso como uma trajetória, e não como o fim de uma experiência histórica.

Sua convicção se esclarece com uma comparação científica: o “teorema de Fermat” foi por três séculos um problema matemático não resolvido, que assumiu a forma de uma hipótese. Houve inúmeras tentativas de justificação, de longo alcance, que não conseguiram resolver o problema em si. “Mas foi fundamental que a hipótese não tenha sido abandonada durante os três séculos em que foi impossível demonstrá-la. A fecundidade desses fracassos, de sua análise, de suas consequências, estimulou a vida matemática. Nesse sentido, o fracasso, desde que não provoque o abandono da hipótese, é apenas a história da justificação dessa hipótese”, afirma no prefácio.

Neste volume, além de um artigo sobre Maio de 1968 e outro sobre as lições da Comuna de Paris, o leitor encontrará o pensamento de Badiou sobre a Revolução Cultural Chinesa e sobre seu mestre na política, Mao Tsé-Tung. Analisando detalhadamente esses três momentos, o autor sustenta que os aparentes fracassos de acontecimentos profundamente ligados à hipótese comunista foram e ainda são etapas de sua história, defende o retorno da palavra “comunismo” e, com ela, da hipótese geral que envolve seus processos políticos efetivos. A posição da palavra, no entanto, não pode mais ser a de adjetivo, como em “partido comunista” ou “regimes comunistas”. Segundo o filósofo, a forma partido, assim como a de Estado socialista, é inadequada para garantir a sustentação real da Ideia. Novas formas políticas, que se referem a uma política sem partido, foram e ainda são experimentadas.

Em um paradoxo histórico, o autor aponta que estamos mais próximos dos problemas examinados na primeira metade do século XIX do que dos problemas herdados do século XX. Como no início do século XIX, não se trata da vitória da Ideia, como foi o caso, de forma imprudente, durante parte do século XX. O que importa é sua existência e os termos de sua formulação. Ou seja, em primeiro lugar, é preciso dar uma sólida existência subjetiva à hipótese comunista. “Combinando as construções do pensamento, que são sempre globais e universais, e as experimentações de fragmentos de verdades, que são locais e singulares, mas universalmente transmissíveis, podemos garantir a nova existência da hipótese comunista, ou melhor, da Ideia comunista, nas consciências individuais. Podemos inaugurar o terceiro período de existência dessa Ideia. Nós podemos, logo devemos.”, afirmou durante a conferência “A ideia do comunismo”, realizada em Londres, no ano de 2009, cuja transcrição se encontra no livro.

Além de seus dois iniciadores (Alain Badiou e Slavoj Žižek), participaram dessa conferência grandes nomes da filosofia contemporânea, entre o quais Judith Balso, Bruno Bosteels, Terry Eagleton, Peter Hallward, Michael Hardt, Toni Negri, Jacques Rancière, Alessandro Russo, Alberto Toscano e Gianni Vattimo. A única condição para a participação era que, qualquer que fosse a abordagem, eles deveriam sustentar que a palavra “comunismo” pode e deve recuperar um valor positivo. O encontro lotou um gigantesco auditório de mil lugares em torno de uma palavra praticamente condenada à morte pela opinião dominante há quase trinta anos. Uma surpresa para todos, e um sintoma para Badiou.

Trecho do livro

“A história de uma vida é por si mesma, sem decisão nem escolha, uma parte da história do Estado, cujas mediações clássicas são a família, o trabalho, a pátria, a propriedade, a religião, os costumes… A projeção heroica, mas individual, de uma exceção a tudo isso – como é um processo de verdade – também quer estar em partilha com os outros, quer se mostrar não só como exceção, mas também como possibilidade agora comum a todos. E esta é uma das funções da Ideia: projetar a exceção no comum das existências, preencher o que só faz existir com uma dose de inaudito. Convencer meu entorno individual, esposo ou esposa, vizinhos, amigos e colegas, de que existe também a fabulosa exceção das verdades em devir, de que não estamos fadados à formatação de nossa existência pelas exigências do Estado. É claro que, em última instância, apenas a experiência nua, ou militante, do processo de verdade, forçará a entrada desse ou daquele no corpo de verdade. Mas para conduzi-lo ao ponto em que essa experiência ocorre, para torná-lo espectador e, portanto, já meio ator daquilo que importa para uma verdade, a mediação da Ideia, a partilha da Ideia são quase sempre necessárias.

Sobre o autor

Alain Badiou nasceu em 1937 na cidade marroquina de Rabat. Autor de vasta produção intelectual, é tido como um dos principais filósofos franceses da atualidade. Lecionou filosofia entre 1969 e 1999 na Universidade de Paris-VIII e, atualmente, é professor emérito da École Normale Supérieure de Paris, onde criou o Centre International d’Étude de la Philosophie Française Contemporaine. Sua trajetória está marcada pelo ativismo político. Filho de um professor de matemática – prefeito de Toulouse entre 1944 e 1958 – que se destacou na Resistência Francesa, Badiou participou dos movimentos de 1968, foi membro-fundador do Parti Socialiste Unifié (PSU) e um dos dirigentes da L’Union des Communistes de France Marxiste-Léniniste (UCF-ML), grupo maoista francês. Desde o fim da década de 1980 integra a Organisation Politique. Além de obras filosóficas, escreveu ensaios políticos, romances e atua como dramaturgo, tendo trabalhado com diretores como Antoine Vitez e Christian Schiaretti. De sua autoria a Boitempo também publicou São Paulo, a fundação do universalismo (2009).

Ficha técnica

Título: A hipótese comunista

Subtítulo: L’hypothèse communiste

Autor: Alain Badiou

Tradução: Mariana Echalar

Orelha: Norman Madarasz

Páginas: 152

ISBN: 978-85-7559-194-9

Preço: a definir

Coleção: Estado de sítio

Editora: Boitempo

Primeiro como tragédia, depois como farsa

04/05/2012 às 3:11 | Publicado em Baú de livros | 1 Comentário
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Neste livro, o escritor e filósofo eslovaco Slavoj Zizek (não tenho como colocar os acentos para nós meio doidos, vai assim mesmo o nome dele) faz uma análise dos últimos acontecimentos nos EUA e reavalia o papel do comunismo na sociedade atual. Cita no início o 18 de Brumado de Marx e faz um interessante paralelo com o que ele diz ter ocorrido primeiro como tragédia, a queda das torres gêmeas, em 2001, e depois como farsa, a crise financeira de 2008. Um interessante livro, de leitura não tão fácil, para quem um dia já foi revolucionário, de carteirinha ou não, como quase todos os meus amigos e contemporâneos. Recomendo.

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