Autocrítica ou anticomunismo? Aportes teóricos para compreender a autofobia na esquerda brasileira 

01/05/2020 às 2:39 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Primeiro de Maio, Dia do Trabalhador. Uma bela aula de História, confiram. Parabéns ao Professor Jones Manoel.

comunismo


Autocrítica ou anticomunismo? Aportes teóricos para compreender a autofobia na esquerda brasileira JonesManoel

Domenico Losurdo (1941-2018), um dos maiores intelectuais da história do marxismo.
Um pensador dos condenados da terra.

É comum ouvirmos falar de forma genérica que “a esquerda tem que fazer uma autocrítica dos seus erros passados”. Os autores dessa frase partem, no entanto, de um pressuposto falso. Essa autocrítica não só existe, como desde a década de 1990 até hoje é praticamente impossível se afirmar marxista sem citar os “erros do passado”. A autocrítica, porém, parece nunca ter fim. Como um fiel católico, quanto mais perdão pedimos, mais pecados parecemos ter.

O nível de domínio ideológico dessa falsa concepção de “autocrítica” é tão grande que, habitualmente, quando se necessita de um exemplo negativo para criticar um governo, partido ou movimento de direita, o exemplo é buscado no nazifascismo ou em algum país socialista. Jair Bolsonaro já foi comparado com Lênin, Hugo Chávez, Mao Tsé-Tung e Fidel Castro. Na hagiografia do mundo construída pelo liberalismo em que se conta: “era uma vez um mundo feliz para sempre e democrático; um dia, porém, dois lobos maus – o nazismo e o comunismo – tentaram devorar a Dona Democracia.” Mas o liberalismo consegue derrotar os dois, e Fim da História!

Para compreendermos de verdade porque isso não tem nada a ver com autocrítica – não passando de uma expressão do anticomunismo [1] cabe buscar adentrar-se nos fundamentos dessa ideologia caracterizando seus aspectos centrais, fundamentos teóricos e seu balanço histórico da modernidade burguesa. Depois de feito esse percurso, buscaremos pontuar o papel da falsificação histórica, retirada dos horrores da história dos comunistas do seu quadro histórico-concreto e pontuar a substancial ignorância que existe na esquerda brasileira sobre produções recentes que derrubam vários mitos da Guerra Fria. Terminado esse caminho, finalizamos com a conclusão.

A hagiografia do liberalismo, o recalque da questão colonial e o mito da não violência

Marx ironiza as visões românticas sobre o surgimento do capitalismo a partir do esforço individual de uma parte mais laboriosa e disciplinada da população, e diz que: “na história real, como se sabe, o papel principal é desempenhado pela conquista, a subjugação, o assassínio para roubar, em suma, a violência” (MARX, 2015, p. 786). O que Marx combate é uma autoimagem do liberalismo, produzida por seus próprios ideólogos e vencedora ao final do século XX, que coloca a história do liberalismo como um caminho inexorável em defesa das “liberdades individuais” e da democracia contra seus inimigos – especialmente o movimento operário.

Na história real o liberalismo nasce compreendendo que os direitos naturais não se estendiam aos escravos, povos coloniais, mulheres e trabalhadores, como bem demonstra Losurdo (2006, p. 13-42; 2017, p. 179-211). Ao contrário da visão muito difundida, o liberalismo nasce organicamente conectado com a escravidão. Não só grandes pensadores liberais, como John Locke e Adam Smith, eram abertamente a favor do lucrativo negócio da escravidão colonial – sendo Locke acionista numa empresa de tráfico de escravos; como também a Revolução Gloriosa na Inglaterra e a Revolução Americana deram grande impulso ao negócio da escravidão[2].

O direito de voto também era negado aos trabalhadores. Immanuel Kant, Bernard Mandeville, Barão de Montesquieu, Alexis de Tocqueville e muitos outros justificavam, a partir de diversos argumentos, a restrição ao direito de voto para os operários. Um dos argumentos mais comuns era de que os operários são “instrumentos de trabalho falantes”, “máquinas bípedes”. Em suma, seres despidos da razão e das luzes e incapazes de participar do poder. Muitos pensadores liberais, como o Barão de Montesquieu, ainda sublinhavam que a participação do povo nos negócios políticos tinha potencial de criar o caos na República e ameaçar a propriedade privada (LOSURDO, 2004. p. 15-60). Por falar em Tocqueville, é oportuno lembrar que o autor, no seu clássico “A democracia na América”, definiu os EUA como um exemplo de democracia a despeito da escravidão dos negros, o extermínio dos povos indígenas peles vermelhas e as formas de segregação racial que enfrentavam os negros livres – a democracia na América era democrática porque a raça dos senhores, os proprietários brancos, desfrutava de um regime constitucional-representativo.  (LOSURDO, 2006b, p. 83-86; TOCQUEVILLE, 2005).

O alargamento da esfera dos portadores de direitos naturais do homem, o fim do sistema colonial clássico, a derrubada de regimes de apartheid, a luta pelo sufrágio universal e a criação de uma democracia burguesa que não fosse um regime constitucional com direitos políticos apenas para burguesia não foram conquistas do liberalismo em defesa das liberdades individuais, mas vitórias do movimento operário e das lutas de libertação nacional nas colônias contra o liberalismo (LOSURDO, 2015).[3]

A primeira tese fundamental do anticomunismo atual, portanto, é a exclusão do liberalismo da sua história real, transformando-o em um mito, produzindo uma hagiografia liberal. Esse mito está profundamente ligado a outro elemento central: o recalcamento da questão colonial. A história da dominação colonial, ser constitutivo do capitalismo, é apagada como se nunca tivesse existido ou tratada de forma idílica, uma versão atualizada da ideologia do “fardo civilizatório do homem branco” (LÊNIN, 2016; LOSURDO, 2017).

Podemos usar três exemplos ilustrativos desse recalcamento da questão colonial na história do capitalismo. O filósofo Norberto Bobbio defendia nos anos posteriores à Segunda Guerra que os comunistas precisavam incorporar o liberalismo na sua teoria e prática de governo nos países socialistas. O comunista italiano Palmiro Togliatti, porém, faz o seguinte questionamento: “Quando e em que medida foram aplicados aos povos coloniais aqueles princípios liberais sobre os quais se diz fundado o Estado inglês do século XIX?” E prossegue afirmando que “a verdade é que a doutrina liberal […] está fundada numa discriminação bárbara entre as criaturas humanas, que se alastra não só nas colônias, mas na própria metrópole, como demonstra o caso dos negros estadunidenses” (TOGLIATTI apud LOSURDO, 2018, p. 72).

Bobbio sabia que liberalismo e democracia não são convergentes e que essa última foi uma construção das lutas do movimento operário; ao mesmo tempo, pensava o liberalismo apagado da questão colonial e absolutizava uma certa visão da história do liberalismo na realidade europeia – balanço histórico em si também mitificado[4]. Basta citar, por exemplo, a realidade colonial da Irlanda. Já a filosofa alemã Hannah Arendt, no seu clássico livro “As Origens do Totalitarismo” (ARENDT, [1949] 2012), começa falando do imperialismo europeu na África e Ásia e mostra como instituições totais, como o campo de concentração, foram uma criação da política colonial dos Estados europeus. Eis que, misteriosamente, na terceira parte do seu livro, o imperialismo colonial desaparece de cena e o totalitarismo diz respeito apenas ao nazismo e a URSS (ARENDT, 2012, p. 415-611).

Progredindo nesse caminho, no seu livro “Sobre a revolução” (ARENDT, [1965] 2011, p.92-158), a filósofa  afirma que a Revolução Americana, ao contrário da Francesa, garantiu a “liberdade” constituindo-se num processo revolucionário não violento que nunca conheceu episódios como o terror jacobino. A Revolução Americana, por não ter a questão social como centro, evitou os perigos totalitários presentes no pensamento e na ação de uma tradição histórica que vai de Robespierre, Marx, Lênin e encontra seu ápice em Stálin. O colonialismo interno dos EUA com a “marcha para o oeste” e o extermínio dos peles vermelhas, a ampliação da escravidão, o regime de supremacia racial e a ação imperialista dos EUA nos anos pós revolução – expropriação de territórios do México, anexação do Havaí, neocolonialismo nas Filipinas,etc. não têm peso na construção teórico-filosófica e no balanço histórico da autora. Sai a análise histórica, e assume o papel central a apologia.[5]

Só que a apologia em Arendt ainda é indireta, tendo como fundamento o ocultamento. Já com o historiador Niall Ferguson, há uma exaltação do colonialismo. Ferguson é um saudosista do Império inglês e do colonialismo ocidental. Ele reconhece vários de seus atos de barbárie, como os massacres, práticas de tortura em massa, campos de concentração, segregação racial; mas, a despeito de tudo isso, celebra o Ocidente liberal como portador de valores superiores de democracia, direitos humanos, etc. (FERGUNSON, 2010; 2011) [6]. Ainda atribui ao Ocidente o mérito inquestionável de ter fornecido uma via à modernidade para os colonizados. Nesse sentido, por exemplo, não importa se quase metade da população do Congo foi massacrada pelo colonialismo belga; mesmo assim, a Bélgica representava a civilização contra a barbárie nativa e possibilitou a esse povo “entrar na modernidade” (LOSURDO, 2017, p. 253-308).

O apagamento da questão colonial e a apologia do imperialismo caminham pari passu com o terceiro mito burguês: a não violência. Na visão ideológica do capitalismo, a violência não é parte constitutiva e estrutural do funcionamento desse sistema socioeconômico. Segundo Habermas (2011) e Arendt (2011), a política é por essência uma ação humana mediada pela comunicação e o consenso (ROUANET, 1987). No plano filosófico, está excluída a violência que existe na história real. Para Joseph Schumpeter, o capitalismo não tem qualquer necessidade de guerra e violência, sendo esses fenômenos um resquício de elementos pré-capitalistas [7]. A violência na política é uma perversão introduzida pela tradição democrático-revolucionária que vai do jacobinismo ao bolchevismo [8].

Os massacres nas metrópoles capitalistas como a repressão à Comuna de Paris, o assassinato de militantes na Revolução Alemã de 1918, as duas grandes guerras mundiais, o ciclo de ditaduras empresariais-militares na América Latina, massacres como o dos comunistas na Indonésia e tantos outros episódios históricos não perturbam a visão do liberalismo e da democracia burguesa como essencialmente não-violentos (MAGRI, 2014, p. 76-84).

A partir desses três pilares é que toda violência, repressão e aparecimento de instituições totais nas experiências socialistas devem ser vistas. Não em um quadro histórico-concreto em toda sua complexidade, mas como um derivado necessário da ideologia marxista, ela própria portadora de um vírus essencialmente totalitário – em suma, uma excepcionalidade histórica em um mundo democrático e pacífico. Nesse sentido, é dever de todos os comunistas que fizeram a devida “autocrítica” olhar toda sua história como o ápice – ao lado do nazifascismo – da barbárie na modernidade. Podemos ilustrar essa tese a partir da abordagem de duas figuras históricas do primeiro plano durante a Segunda Guerra: Winston Churchill e Josef Stálin.

O primeiro é considerado um grande estadista e democrata. Churchill, todavia, foi um político que ganhou notoriedade como um fanático defensor do império colonial inglês. Era um entusiasta da white supremacy (supremacia branca), considerava os povos colonizados como bárbaros, foi responsável por inúmeros massacres coloniais na Índia, defendeu com obsessão o esmagamento militar da Rússia Soviética e nutria muitas simpatias pelo fascismo italiano [9]. Segundo Gandhi, o governo inglês de Churchill era “hitleriano” e aplicava na Índia tudo o que os nazistas defendiam[10].

A despeito de tudo isso, é possível, sem quaisquer problemas, reivindicar Churchill como exemplo de democrata; já qualquer menção a Stálin que não seja a mais apressada condenação, é lida como adesão ao totalitarismo. Não importa se durante a liderança de Stálin na URSS houve um firme apoio aos movimentos de libertação nacional, combate ao racismo e ao apartheid; se a URSS, sob Stálin, foi o primeiro país do mundo a criminalizar o racismo na Constituição de 1936 e a pôr em prática uma eficiente política educacional e cultural de promoção da igualdade racial; ou se a URSS tornou-se, no auge do stalinismo, um centro mundial de formação política, cultural e militar totalmente gratuita para milhares de pessoas quebrarem as correntes do colonialismo; ou se toda periferia do sistema capitalista, da África do Sul passando pela Argélia, Vietnã até o gueto negro dos EUA, Stálin era símbolo de libertação e emancipação (MAGRI, 2014; LOSURDO, 2010; SALEM, 2008).[11]

O ato de considerar, concretamente, a dialética entre emancipação e desemancipação nas experiências socialistas, é imediatamente interditado pela ideologia burguesa. Aliado a isso, os próprios momentos de horror – e eles aconteceram! – devem ser retirados do quadro histórico real e reduzidos a uma abordagem dedutiva da ideologia ou da personalidade de tal ou qual líder. Nesse sentido, a repressão stalinista é desconectada do permanente estado de exceção imposto à URSS pelo imperialismo e seus atos de sabotagem, terrorismo, ameaça de guerra, bloqueio econômico, etc.

Um exemplo é suficiente para demonstrar isso: quando os comunistas conseguem chegar ao poder na China, a cúpula do Estado norte-americano além de ameaçar usar armas atômicas, impôs um duro bloqueio econômico. Eles sabiam que como os comunistas não tinham experiência na administração da economia urbana, o bloqueio econômico, junto de outros expedientes, como a pressão militar permanente, conduziriam a erros (POMAR, 2003). O “Grande Salto para Frente” nada mais foi que uma tentativa desesperada de queimar etapas no desenvolvimento econômico para superar as fragilidades da economia subdesenvolvida sabotada pelo imperialismo. Frente aos erros e tragédias desse período histórico da China, porém, essa “parte” da história incomoda, deve ser apagada e tudo se resume a um instinto assassino dos comunistas.

Na guerra, a primeira vítima é a verdade

No quadro hegemônico do balanço histórico do movimento operário comunista no século XX, não é exagerado insistir na retirada das condições histórico-concretas onde os horrores foram produzidos. Isso, evidentemente, não significa nenhum relativismo moral, mas uma compreensão verdadeiramente científica da história [12]. A requisição por um balanço histórico sério torna-se ainda mais urgente com a percepção de que a ideologia dominante, na sua operação de escrita da história, recorre à pura e simples mentira. Vejamos.

Os números fantásticos de mortos na URSS que sobem a cada ano sem o mínimo de rigor científico são um bom exemplo desse tipo de mentira [13]. Números de presos e mortos durante a repressão no período maoísta também são inflados – mesmo fenômeno que já atinge o jacobinismo francês (LOSURDO, 2018, p. 22). Mas, se nesse caso existe um falseamento a partir de uma base real (mortes realmente aconteceram), em outros, a mentira caminha livre de qualquer lastro na realidade. Podemos citar alguns exemplos: a) o mito de que Stálin confiava em Hitler e ele e a direção do PCUS ficaram surpresos com a quebra do Pacto de não agressão germano-soviético (Medvedev, 2006, p. 291); b) a existência de um suposto “Holodomor” contra os ucrânios, mentira fundamental para aproximar soviéticos e nazistas (cada um com sua “Solução final”) (LOSURDO, 2010, p. 198); c) a fome planejada na China que exterminou 90 milhões de camponeses (ARRIGHI, 2008, p. 375); e d) o antissemitismo soviético como política de Estado (LOSURDO, 2010, p. 217).

Guardado toda diversidade, no campo da direita, qualquer questionamento a essas mentiras é lido como algo inaceitável. No diverso campo da esquerda, no geral, é visto como um relativismo moral de alguém que ainda não aceitou a “necessária autocrítica”. Ora, recuperar a verdade histórica e mostrar, por exemplo, que o gulag soviético não pode ser comparado ao campo de extermínio nazista não significa dizer “o gulag era lindo”.

Nessa temática, a particularidade brasileira é ainda mais grave. A chamada “nova historiografia soviética”, que surge ao final dos anos de 1970 e ganha força na década seguinte, conseguiu derrubar vários mitos anticomunistas construídos durante a Guerra Fria. Essa historiografia, porém, simplesmente não tem espaço no mercado editorial brasileiro e também não é do interesse dos partidos de esquerda realizar sua divulgação [14]. Nesse sentido, as obras de Geoffrey Roberts, J. Arch Getty, Robert W. Thurston e Annie Lacroix-Riz, para citar alguns exemplos, continuam sendo desconhecidas do público leitor e do conjunto da militância brasileira.

Conclusão: superar a autofobia e realizar uma verdadeira autocrítica

Domenico Losurdo detalha um fenômeno interessante: grupos sociais derrotados, muitas vezes na história, passam a assimilar a ideologia, identidade e balanço histórico dos vencedores. Essa é a autofobia. A negação da história e identidade em um processo de fuga da história. Essa postura pode assumir uma feição de “direita” e outra de “esquerda”. Vários ex-comunistas renegaram esse passado vermelho, mesmo sendo dirigentes de partidos, e afirmaram que “nunca foram comunistas” e assumiram os “valores universais” do Ocidente: propriedade privada, democracia burguesa, OTAN,etc. Outros, porém, continuam se afirmando socialistas e lutam por uma sociedade pós-capitalista; mas fazem isso guiados pela ideologia dominante. Confundem, assim, autocrítica com autofobia, diz Losurdo:

Porém, apesar das assonâncias, autocrítica e autofobia constituem duas posições antitéticas. Em seu rigor, e até mesmo em seu radicalismo, a autocrítica exprime a consciência da necessidade de acertar as contas com a própria história; a autofobia é uma fuga vil desta história e da realidade da luta ideológica e cultural que sob ela que ainda arde. Se a autocrítica é o pressuposto da reconstrução da identidade comunista, a autofobia é sinônimo de capitulação e de renúncia da identidade autônoma (LOSURDO, 2004, p. 15).

Nesse sentido, a verdadeira autocritica não deve renegar toda experiência do movimento comunista do século XX. Posturas como defender um mítico “retorno a Marx” como se todos os líderes, militantes, partidos e movimentos no século passado tivessem traído a palavra sagrada revelada nas escrituras, não passa de uma fuga covarde da realidade e uma expressão da autofobia que redunda no anticomunismo. Esse tipo de postura nos impede, por exemplo, de responder uma pergunta fundamental que o século XX colocou aos revolucionários e que algumas experiências socialistas, como Cuba, ainda procuram responder: como garantir a democracia socialista e uma forma de liberdade superior – a de tipo burguesa – numa situação de estado de guerra permanente imposto pelo imperialismo e tendo que superar o subdesenvolvimento e a dependência?

A verdadeira autocrítica pressupõe, portanto, um balanço crítico e científico sobre o nosso passado; combatendo a ideologia dominante, inserindo os erros de nossa história em um quadro histórico-concreto e valorizando o nosso legado emancipatório. Sem o movimento comunista, dentre outras coisas, o mundo provavelmente ainda conheceria o nazismo e a escravidão racial aberta.

Pode parecer um truísmo – e de fato o é -, mas os intelectuais e ideólogos burgueses não estão interessados em divulgar e debater o legado emancipatório dos comunistas. Para eles, como já dissemos, tudo não passa de uma série infinita de horrores. Se não defendermos criticamente a nossa história, ninguém o fará. O nosso passado será expropriado – como é a mais-valia dos trabalhadores – e o futuro, interditado. Como bem disse Walter Benjamin na famosa tese 7 sobre o conceito de História: “O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer”.

 

Notas:

[1] – É importante negritar que esse debate não é uma escolástica acadêmica restrita ao ambiente universitário. Na linguagem política de políticos profissionais, como Fernando Haddad e Ciro Gomes (ambos candidatos a presidência em 2018, ficando, respectivamente, com o segundo e o terceiro lugar do pleito), nos meios de comunicação chamados de “progressistas”, como a Revista Carta Capital e no jornal El País e em meios de informação cada vez mais responsáveis pela “educação política” de uma parcela da população, como canais no Youtube, a ideia de fugir de extremos iguais, extrema direita e extrema esquerda, ambos violentos, autoritários e antidemocráticos – o comunismo soviético, o representante por excelência da “extrema esquerda” e o nazismo da “extrema direita” – é cada vez mais forte. Essa ideologia tem íntima relação com a hagiografia do liberalismo. Esperamos que ao final do texto o leitor perceba claramente essa relação.

[2] – “A escravidão não é algo que permaneça não obstante o sucesso das três revoluções liberais; ao contrário, ela conhece o seu máximo desenvolvimento em virtude desse sucesso: “o total da população escrava nas Américas somava aproximadamente 330.000 no ano de 1700, chegou a quase três milhões no ano de 1800, até alcançar o pico de mais de 6 milhões nos anos 50 do séc. XIX” (LOSURDO, 2006. p. 47).”

[3] – Em 5 de junho de 1920, no Esboço inicial das Teses sobre a Questão Nacional e Colonial, no II Congresso da Internacional Comunista, Lênin expressa em termos teóricos o que, na prática, foi um elemento central (não sem contradições e erros) da ação dos comunistas no século XX: “não só em toda propaganda e agitação dos partidos comunistas – tanto da tribuna parlamentar como fora dela – devem ser incansavelmente desmascaradas as constantes violações da igualdade das nações e das garantias dos direitos das minorias nacionais em todos os Estados capitalistas, a despeito das suas constituições ‘democráticas’ […]; Segundo, é necessário uma ajuda direta de todos os partidos comunistas aos movimentos revolucionários nas nações dependentes ou que não gozam de igualdade de direitos (por exemplo, na Irlanda, entre os negros da América etc.) e nas colônias” (LÊNIN, 2017, p. 438).

[4] – Importante pontuar que posteriormente, já nos anos de 1970, Bobbio expressa uma história mais crítica do liberalismo e reconhece suas cláusulas de exclusão e a barbárie colonial. Exemplo disso é seu livro Política e Cultura, Editora Unesp, [1977] 2015. Mesmo assim, porém, em situações concretas, como na invasão de Granada, Panamá e nos atos terroristas dos EUA contra a Nicarágua Sandinista, Bobbio manteve silêncio e apoiou a primeira guerra [neocolonial] contra o Iraque. Esse último episódio chocou bastante os alunos e seguidores de Bobbio dado sua imagem de “pacifista” e defensor de uma ordem mundial baseada no direito internacional e não na força.

[5] – Não é demais lembrar que Alexis de Tocqueville, o famoso liberal francês, torna-se uma das grandes referências teóricas de Hannah Arendt e é notória sua influência no livro “Sobre a Revolução”. Tocqueville, que dentre outras proezas, foi um defensor total da conquista colonial francesa no Mabreg e da crucificação colonial da China.

[6] – A ideologia da superioridade civilizatória do europeu comparece, inclusive, em vários sujeitos políticos – intelectuais, veículos de comunicação, partidos políticos etc. – identificados com a esquerda. Ano passado, durante uma entrevista ao jornal espanhol El país, disse o filósofo Slavoj Žižek: “aceitemos que as pessoas venham para cá porque, apesar de toda a corrupção, continuamos oferecendo ao mundo aquele que talvez seja o grande modelo de bem-estar relativo, um único modelo que combina bem-estar e liberdade, o melhor até agora na história mundial. Portanto, deveríamos estar orgulhosos do nosso destino europeu. O fantástico da nossa tradição democrática é que a imperfeição está dentro do sistema, faz parte da capacidade da nossa democracia de ser crítica consigo mesma. É um sistema único, que inclui a autocrítica.” A entrevista completa pode ser acessada nesse link: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/12/14/cultura/1544788158_128530.html

[7] – Para uma crítica à visão de Schumpeter, presente em “The Sociology of Imperialism” (A sociologia do imperialismo), ver o também já citado Losurdo, 2018, p. 155-158.

[8] – “Neste aspecto, é surpreendente como boa parte das éticas contemporâneas, tão em voga nas academias, busca encontrar solução para os problemas da sociedade contemporânea, a partir de pretensos princípios morais universalizáveis, sem considerar a sua viabilidade junto à base econômica-material que move a sociedade civil. Como se fosse possível construir-se valores morais justos sobre uma infraestrutura injusta [e eu acrescendo: violenta]. É o caso das éticas discursivas de K. Apel e J. Habermas e da teoria da justiça de Jonh Rawls” (VIEIRA, 2006, p. 16)

[9] – Churchill era um grande admirador de Mussolini, que chegara ao poder em Itália em 1922. Saudava tanto o anticomunismo de Mussolini, quanto a sua forma autoritária de organizar e disciplinar os italianos. Visitou a Itália em 1927 […] e encontrou-se com Mussolini, sobre quem proferiu rasgados elogios numa conferência de imprensa […]. ‘Se fosse italiano, estou seguro que estaria de todo o coração ao vosso lado, desde o início até ao fim, na vossa luta triunfante contra os apetites e paixões animalescas do Leninismo’. E sobre as simpatias de Churchill pelos golpistas espanhóis escreve Ponting: “todas as suas simpatias estavam com Franco e o lado nacionalista. […] Descreveu o governo legítimo e a parte republicana como ‘um proletariado pobre e atrasado que exige o derrube da Igreja, do Estado e da propriedade e a instalação dum regime Comunista’. Contra eles erguiam-se ‘forças patrióticas, religiosas e burguesas, sob o comando do exército […] em marcha para reestabelecer a ordem através da instauração duma ditadura militar’” – CADIMA, Jorge. Nos 70 anos da vitória de 1945, 2015. Disponível no link: https://pcb.org.br/portal2/8195/nos-70-anos-da-vitoria-de-1945/

[10] – “Na Índia, temos um governo hitleriano, ainda que camuflado em termos mais brandos […] Hitler foi o pecado da Grã-Bretanha. Hitler é apenas uma resposta ao imperialismo britânico” (GANDHI apud LOSURDO, 2010, P. 191).

[11] – “A URSS de Stalin influencia poderosamente a luta dos afro-americanos (e dos povos coloniais) contra o despotismo racial. No Sul dos EUA se assiste a um fenômeno novo e preocupante do ponto de vista da casta dominante: é a crescente ‘imprudência’ dos jovens negros. Estes, graças aos comunistas, começam, de fato, a receber o que o poder teimosamente lhes negava, a saber, uma cultura que vai muito além da instrução elementar tradicionalmente transmitida aos que estão destinados a fornecer trabalho semiescravo a serviço da raça dos senhores. Agora, porém, nas escolas organizadas pelo partido comunista no norte dos Estados Unidos ou nas escolas de Moscou, na URSS de Stalin, os negros se empenham em estudar economia, política, história mundial; interrogam essas disciplinas para compreender também as razões da dura sorte reservada a eles num país que se comporta como campeão da liberdade” (Losurdo, 2010, p. 280-281)

[12] – Interessante destacar que as duas principais revoluções liberais hoje defendidas pela burguesia, a Revolução Inglesa e a Americana, não são moralizadas por sua violência ou elementos de barbárie, como a manutenção e ampliação da escravidão. O olhar moralizador e de horror é reservado apenas às revoluções socialistas e anticoloniais. Professor que sou, debatendo com colegas de profissão, quando apresento a contra-história das revoluções liberais, a resposta que sempre escuto era “isso era a ideologia da época”. Ou seja, a Revolução Americana, por exemplo, está livre de qualquer juízo ético, político e moral, afinal, era “assim que se pensava no período”.

[13] – Jean Salem (2008, p. 30-32) mostra como essa lógica se desenvolve na França. Um cálculo que começa com 10 milhões de mortos na URSS e consegue, tranquilamente, alcançar a casa dos 110 milhões de mortos já anos de 1970 (2008, p. 27).

[14] – As exceções, como as traduções de Domenico Losurdo e de Wendy Goldman, apenas confirmam a regra.

 

Referências:

ARENDT, Hannah. As origens do totalitarismo: antissemitismo, imperialismo, totalitarismo. Companhia das Letras, São Paulo, 2012.

_______________. Sobre a revolução. Companhia das Letras, São Paulo, 2011.

ARRIGHI, Giovanni. Adam Smith em Pequim – origens e fundamentos do século XXI. Boitempo Editorial, São Paulo, 2008.

FERGUSON, Niall. Colosso: ascensão e queda do império americano. Planeta, São Paulo, 2011.

_______________. Imperio: como os britânicos fizeram o mundo moderno. Planeta, São Paulo, 2010.

HABERMAS, Jürgen. Teoria do agir comunicativo – vol. 1: Racionalidade da ação e racionalização social. Martins Fontes, São Paulo, 2011.

LÊNIN, V. I. Imperialismo, etapa superior do capitalismo. Expressão Popular, São Paulo, 2016.

__________. Lenin e a revolução de outubro – textos no calor da hora (1917-1923). Expressão Popular, São Paulo, 2017.

LOSURDO, Domenico. A luta de classes. Uma história política e filosófica. Boitempo Editorial, São Paulo, 2015.

__________________. Contra-história do liberalismo. Ideias e Letras, São Paulo, 2006.

__________________. Democracia ou bonapartismo? Triunfo e decadência do sufrágio universal. Editora Unesp, São Paulo, 2004.

__________________. Fuga da história? A Revolução Russa e a revolução chinesa vistas de hoje. Editora Revan, Rio de Janeiro, 2004.

__________________. Guerra e revolução – o mundo um século após Outubro de 2017. Boitempo Editorial, São Paulo, 2017.

__________________. Liberalismo. Entre a civilização e a barbárie. Editora Anita Garibaldi, 2006, São Paulo.

__________________. O marxismo ocidental. Como nasceu, como morreu, como pode renascer. Boitempo Editorial, São Paulo, 2018.

__________________. Stálin – uma história crítica de uma lenda negra. Editora Revan, Rio de Janeiro, 2010.

MAGRI, Lucio. O alfaiate de Ulm – uma história possível do Partido Comunista Italiano. Boitempo Editorial, São Paulo, 2014.

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política – Volume I. Boitempo Editorial, São Paulo, 2015.

MEDVEDEV, zhores A.;  MEDVEDEV, roy A. Um Stálin desconhecido: novas revelações dos arquivos soviéticos. Editora Record, Rio de Janeiro, 2006.

POMAR, Wladimir. A Revolução Chinesa. Editora Unesp, São Paulo, 2003.

ROUANET, Sérgio Paulo. As razões do iluminismo. Companhia das Letras, São Paulo, 1987.

SALEM, Jean. Lênin e a Revolução. Expressão Popular, São Paulo, 2008.

TOCQUEVILLE, alexis. A democracia na América. Leis e costumes – Livro I. Martins Fontes, São Paulo, 2005.

VIEIRA, Luiz Vicente. A Democracia com pés de Barro: O diagnóstico de uma crise que mina as estruturas do Estado de direito. Editora UFPE, Recife, 2006.

(Jones Manoel)

FONTE: https://revistaopera.com.br/2019/03/20/autocritica-ou-anticomunismo-aportes-teoricos-para-compreender-a-autofobia-na-esquerda-brasileira/

Respeitosa discórdia

18/11/2013 às 3:01 | Publicado em Artigos e textos, Baú de livros | Deixe um comentário
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Não conhecia mais esse personagem baiano da vida nacional. Vale a pena a leitura porque trata-se de uma fase de nossa história pouco conhecida. Pena o personagem de fundo, Luiz Carlos Prestes, não mais estar aqui para poder (ou não) também discordar ! Lendo esse texto a gente fica com vontade de ler o “Armênio Guedes, sereno guerreiro da liberdade” !

ARMÊNIO GUEDES -CONVITE S. PAULO


RESPEITOSA DISCÓRDIA ARMENIO

Armênio: biografia é o “retrato de um cidadão brasileiro do século XX que concebe a ação política como um meio de chegar à sociedade justa, fraterna, igualitária”, escreve Gullar

Ninguém mais improvável para ocupar um posto de guarda-costas de Luiz Carlos Prestes, então líder máximo do Partido Comunista Brasileiro (PCB), do que um magricela de escassos 52 quilos distribuídos em 1,75 metro de altura – e reflexos tão rápidos quanto os celebrizados pelo lendário baiano Dorival Caymmi. O trabuco Taurus 38 que lhe deram quase não parava dentro das calças. Mas foi para esse cargo, que acumulava com o de assistente, que o PCB, em 1945, indicou o baiano de Mucugê Armênio Guedes. Na época, estava com 27 anos, 10 de militância. Prestes acabara de ser libertado de 9 anos de prisão, beneficiado por uma anistia de Getúlio Vargas.

Nascia ali uma respeitosa discórdia, que permearia por décadas toda uma geração de intelectuais, como diz o poeta Ferreira Gullar em seu prefácio do livro “Sereno Guerreiro da Liberdade”, de Sandro Vaia, que a editora Barcarolla lança na segunda-feira, a partir das 18h30, na Livraria da Vila da alameda Lorena, em São Paulo.

A biografia de Armênio, hoje com 95 anos, vale “como retrato de um cidadão brasileiro do século XX que concebe a ação política como um meio de chegar à sociedade justa, fraterna, igualitária”, escreve Gullar.

A personalidade de Armênio, “mais flexível, de fala mansa e trato delicado”, na descrição do poeta, iria se confrontar com a de quem deveria guardar as costas: o rígido militar gaúcho Prestes, que já entrara para o partido como dirigente, pelas mãos dos então poderosos soviéticos.

Entre 1945 e 1983, Armênio viveu como assalariado do Partido Comunista – do “ouro de Moscou”, como ele lembra, brincando – e se especializou em espalhar jornais e revistas pelo Brasil: “Seiva”, “Revista Continental”, “Tribuna Popular”, “Estudos Sociais”, “Novos Rumos”, “Voz Operária”, entre tantos títulos, até a “Voz da Unidade” nos anos 1980. Na direção do PCB, foi suplente, entre 1943 e 1954, do Comitê Central (CC), de onde foi afastado por “atitudes antissoviéticas”. Voltou para o CC em 1967, para organizar o partido no exílio, com sua primeira mulher, Zuleika Alambert.

O pano de fundo para essa biografia escrita pelo ex-diretor de Redação de “O Estado de S. Paulo” é o desenrolar do confronto dessas personalidades tão diferentes. Mas o embate era também de valores. O principal deles, do qual Armênio não abria mão, segundo Gullar, seu companheiro e amigo, “era a noção de liberdade, mais compatível com o regime democrático”. Isso poria Armênio em conflito permanente com Prestes.

O embate ficaria mais agudo nos anos 1970. Naquela época o mundo era dividido, grosseira e rigidamente, em dois blocos: o capitalista e o comunista. Os comunistas costumavam associar o conceito de democracia ao qualificativo burguesa, como se democracia fosse um modo de dominação inerente ao capitalismo. Depois da queda do Muro de Berlim, em 1989, a divisão do mundo se esfumaçou, junto ao bloco comunista. E o ideal da democracia se espalhou pelo mundo. Sem adjetivos, como esperança universal.

Antes, porém, que a primeira pedra rolasse da muralha alemã, intelectuais europeus haviam começado a desmontar a barreira ideológica entre democracia e comunismo. Na vanguarda, os italianos de Enrico Berlinguer (líder do PCI) arriaram a bandeira “rossa” e hastearam a da esquerda democrática. Outros partidos europeus seguiriam o mesmo caminho.

Os ventos dessa mudança foram captados na Europa e trazidos para o Brasil pelo militante Júlio ou André ou tantos outros nomes que Armênio Guedes adotou durante 48 anos de militância, condensados por Sandro Vaia.

No livro, ele mostra de que forma Júlio – como Cecília Comegno, sua mulher, o chama até hoje – funcionou como uma antena no exílio parisiense, onde editava a “Voz Operária”, órgão oficial do PCB. Captava, ampliava e retransmitia as convulsões vividas pela esquerda europeia para atentos ouvidos de intelectuais brasileiros que passavam por lá ou estavam aqui, no outro lado do Atlântico.

Em 1979, uma entrevista de Armênio ao “Jornal do Brasil” (reproduzida no livro) serviu como senha para quem pretendia aposentar a velha cartilha partidária leninista e adotar a democracia como princípio, meio e fim.

Nessa entrevista, Armênio faz uma afirmação que serve como autocrítica da história do PCB: “Houve um certo tempo em que nós identificávamos liberdades democráticas com o poder da burguesia. Mas a verdade é que, pouco a pouco, a vida foi-nos mostrando que a democracia é algo importante, permanente, para o avanço da sociedade”. Era a pedra que faltava para fazer ruir a muralha ideológica. Mas ela se alojaria diretamente no sapato de Prestes, defensor, até a morte, do sistema liderado pela finada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Ele se deu ao trabalho de escrever uma “Carta aos Brasileiros”, em março de 1980, criticando aqueles que queriam se integrar, sem pretensões de dirigir, na luta pela ampliação da democracia no Brasil.

A relação com os soviéticos sempre opôs os dois dirigentes. Embora admirador da língua russa, que ainda arranha, Armênio jamais gostou da rigidez de hábitos adotados na extinta URSS, onde passou longas temporadas. Achava chatíssimas as excursões culturais programadas; recusava a visita a museus e a subserviência recomendada pelos dirigentes brasileiros. Permitiu-se até a gaiatice temerária de roubar uma taça da “dacha” de Stálin, que guarda como suvenir.

O conflito mais grave, porém, estourou entre os camaradas durante a Copa do Mundo de 1954. Os pró-soviéticos achavam que tinham de apoiar os times comunistas, enquanto Armênio defendia o Brasil. “Futebol está acima ou abaixo da luta de classes… de maneira que torço pelo Brasil”, justificou.

Quando o assunto era o Botafogo, o clima ficava ainda mais belicoso. Era o time do coração dele e de seu irmão Célio, o Celito, como era carinhosamente apelidado, o mais novo entre 11 irmãos, a quem lhe coube tutorar, de acordo com a tradição da família Guedes.

O caçula era ligado em esportes, cultuava a beleza física e aprendeu com o pai a lapidar diamantes, ofício que exerceu para ajudar a família depois da morte do patriarca. Celito também serviu a Prestes como motorista e guarda-costas. A morte, em 1972, desse irmão tão próximo, causou uma das maiores dores da vida de Armênio. Estava no Chile, quando soube da notícia, contou a Vaia: “… me mostraram um telegrama de Prestes. Ele me avisava que o motorista de uma missão – não falava o nome de Célio – tinha sido liquidado. Foi um choque tão violento que eu cheguei a ter um começo de pneumonia. Fiquei de cama quase um mês. Nesse período eu balancei… tive vontade de me afastar de tudo”.

Na versão oficial, Célio teria pulado do 7º andar do Cenimar. A da família é a de que ele foi morto sob tortura, no I Distrito Naval, em 15 de agosto de 1972. A lembrança da morte do irmão fica ainda mais dolorida para Armênio, porque ela poderia ter sido evitada. A direção do partido já sabia que Célio corria sério risco de ser pego pelos agentes da repressão, mas nem por isso teria cancelado a missão, conta o livro.

A frieza do telegrama de Prestes para seu companheiro fala muito das diferenças entre os dois. O livro dedica um capítulo especialmente a elas. Hoje o quase centenário Armênio comenta com tranquilidade e elegância: “As personalidades que mais admirei no partido foram João Saldanha e Oscar Niemeyer”. Sobre Prestes diz apenas: “Foi um grande lutador, mas péssimo político”.

Avesso a grandiloquências, Armênio talvez não se sinta confortável no papel de opositor histórico ao muitas vezes biografado “Cavaleiro da Esperança”. Mas certamente não vai se preocupar muito com isso. Atualmente prefere se dedicar à escolha entre ouvir Billie Holiday ou Prokofiev. Sem dispensar um bom papo de padaria.

(Ricardo Lessa, autor de “Brasil e Estados Unidos, o Que Fez a Diferença”, é jornalista e assessor de imprensa da Amcham Brasil)

FONTE: OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

Anita Leocádia Benário Prestes

06/09/2012 às 3:05 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 2 Comentários
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Já havia feito, em 11/10/2010 , um post com o título MEMÓRIAS DO EXÍLIO PRESTES, em homenagem a Luz Carlos Prestes. Agora recebi um email de um amigo com esse artigo da Anita Leocádia Benário Prestes sobre o (ou será os) Partido Comunista do Brasil. No email indicava apenas Anita Leocádia Prestres, mas eu fiz questão de colocar o nome completo, onde aproveito para homenagear uma das mulheres mais marcantes e corajosas que já passou por essa terra: Olga Benário !


PCdoB: a falsificação da história dos comunistas brasileirosAnitaPrestes

O movimento revolucionário mundial socialista e comunista conviveu, desde o século XIX, com correntes reformistas de diferentes tipos. Os pais fundadores do marxismo – Marx, Engels, Lenin –, assim como teóricos do comunismo e dirigentes revolucionários da estatura de A. Gramsci e R. Luxemburgo, tiveram que levar adiante uma luta sem tréguas contra os reformistas do seu tempo. …

Os reformistas precisaram justificar sempre a adoção de políticas de conciliação de classes, ou seja, de políticas baseadas em concessões às classes dominantes e no abandono dos objetivos revolucionários do proletariado e dos seus aliados; políticas de caráter evolucionista, marcadas pela negação do momento revolucionário, indispensável, segundo os marxistas, para a conquista do poder político pelos trabalhadores, única maneira efetiva de realizar as transformações revolucionárias necessárias para a construção de uma nova sociedade, livre da exploração do homem pelo homem.

Nesse esforço de justificação, os reformistas precisaram e ainda precisam recorrer à falsificação da História, inclusive da História do movimento operário e revolucionário, em busca de argumentos que contribuam para a aceitação de suas posições por amplos setores sociais, argumentos de prestígio, que sirvam de aval para sua atuação política.

A postura atual do PCdoB constitui exemplo edificante de semelhante tentativa de avalizar sua política atual recorrendo à falsificação da História dos comunistas brasileiros. Na medida em que o PCdoB passou a trilhar o caminho reformista da chegada ao poder sem revolução, tornou-se natural sua adesão às escolhas feitas por Lula e a direção do PT, na virada do século XX para o XXI, e agora mantidas por Dilma.

Foram escolhas reveladoras da capitulação de Lula e da direção do PT diante dos interesses do grande capital internacionalizado, em especial, do capital financeiro, ou seja, dos banqueiros internacionais. Tal capitulação ocorreu após três tentativas frustradas de alcançar o poder, nas eleições presidenciais de 1989, 1994 e 1998. Para conquistar a presidência, em 2002, foi escolhido o caminho mais seguro:

O governo do PT, sem coragem de afrontar os interesses constituídos, sem nenhuma disposição para arriscar uma mudança na postura do Estado que o tornasse capaz de enfrentar os problemas experimentados pelo país, escolheu a reafirmação da lógica perversa que já estava em curso e a entrega total do Brasil às exigências da acumulação privada. [1]

Da mesma maneira que nos governos de Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso, nos Governos Lula e Dilma o capital financeiro permanece hegemônico, embora esteja em curso uma reforma do neoliberalismo, voltada para a construção de uma “nova versão do modelo capitalista neoliberal”[2].

A adesão por parte do PCdoB a semelhante política de reforma do capitalismo o conduziu à tentativa de buscar no passado heróico dos comunistas brasileiros – embora eivado de erros provocados pela presença de falsas concepções – o aval para seu comportamento político atual. Tirando proveito do jubileu de 90 anos da fundação do Partido Comunista no Brasil, os atuais dirigentes do PCdoB divulgam uma versão falsificada da História desse partido. Distorcendo a realidade, apresentam a História do PC como uma sucessão retilínea de êxitos, cujo apogeu seria a política atual do PCdoB. Ao mesmo tempo, silenciam sobre as teses oriundas de uma falsa concepção nacional-libertadora da revolução brasileira, responsável pelas ilusões nas possibilidades de um “capitalismo autônomo”, cujo corolário foi o abandono, na prática, da luta pela revolução socialista no Brasil, concepção que esteve presente tanto n a história do antigo PCB quanto na de quase todos os seus “filhotes”, inclusive o PCdoB.

São distorcidos os fatos relacionados com a cisão de 1962, quando um grupo de dirigentes do antigo PCB, discordando das posições políticas aprovadas no seu V Congresso (1960), usou o pretexto da mudança do nome do partido com vistas ao seu registro eleitoral, para criar outro partido – o PCdoB. Partido este que, durante várias décadas, combateu com violência o PCB e o seu ex-secretário-geral Luiz Carlos Prestes. Partido este que, durante toda a década de 1980, foi insistentemente criticado por Prestes pela postura oportunista de entendimentos espúrios com os governantes para alcançar o registro eleitoral e de apoio à candidatura de Tancredo Neves nas eleições indiretas de 1985 e, em seguida, de apoio ao governo de José Sarney. Segundo Prestes, tratava-se do abandono de todo compromisso com os interesses dos trabalhadores e com os ideais de verdadeiras transformações socialistas em nosso país.

É este partido, o PCdoB, que trata hoje de apropriar-se indevidamente do legado de Prestes para, tirando proveito do prestígio do Cavaleiro da Esperança, justificar-se perante amplos setores populares. Tal falsificação deve ser denunciada, pois a permanência de uma versão distorcida da trajetória dos comunistas brasileiros, difundida por um partido que se apresenta como comunista e fala em nome do socialismo, serve aos desígnios dos inimigos da emancipação social dos trabalhadores brasileiros, contribui para a manutenção da exploração capitalista em nossa terra, dificultando o caminho efetivo da construção de uma sociedade socialista no Brasil.

[1] PAULANI, Leda Maria. Quando o medo vence a esperança (um balanço da política econômica do primeiro ano do governo Lula). Crítica Marxista, n. 19, outubro de 2004, p. 23.

[2] BOITO, Armando. O Governo Lula e a reforma do neoliberalismo. Revista da Adusp, maio de 2005. (www.cecac.org.br)

Por Anita Leocadia Prestes

A hipótese comunista

03/08/2012 às 3:58 | Publicado em Baú de livros, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Esse eu ainda não concluí a leitura. Alain Badiou é maoísta, mas o que presenciamos no mundo de hoje é que as idéias do velho Marx não morreram. Para um dinossáuro comunista, ou socialista, um livro desses é um alento, ou um novo alento.



A HIPÓTESE COMUNISTA (Alain Badiou)  

A “hipótese comunista”, conceito formulado pelo filósofo, dramaturgo e militante francês Alain Badiou, inspira uma obra homônima sobre a revitalização do comunismo e um novo programa para a esquerda, lançada agora pela Boitempo. Desde 2008, quando foi exposto pela primeira vez em um artigo da New Left Review, o termo vem sendo adotado e discutido por uma ampla gama de pensadores, como Slavoj Žižek, Jacques Rancière, Michael Hardt, Antonio Negri e Terry Eagleton.

Considerado um dos principais filósofos de nosso século, Badiou parte da reflexão sobre a noção de fracasso do comunismo ­–­ enunciado negativo amplamente disseminado pela “nova filosofia” ocidental a partir da década de 1970 – para defender a sua retomada. Badiou vê o fracasso como uma trajetória, e não como o fim de uma experiência histórica.

Sua convicção se esclarece com uma comparação científica: o “teorema de Fermat” foi por três séculos um problema matemático não resolvido, que assumiu a forma de uma hipótese. Houve inúmeras tentativas de justificação, de longo alcance, que não conseguiram resolver o problema em si. “Mas foi fundamental que a hipótese não tenha sido abandonada durante os três séculos em que foi impossível demonstrá-la. A fecundidade desses fracassos, de sua análise, de suas consequências, estimulou a vida matemática. Nesse sentido, o fracasso, desde que não provoque o abandono da hipótese, é apenas a história da justificação dessa hipótese”, afirma no prefácio.

Neste volume, além de um artigo sobre Maio de 1968 e outro sobre as lições da Comuna de Paris, o leitor encontrará o pensamento de Badiou sobre a Revolução Cultural Chinesa e sobre seu mestre na política, Mao Tsé-Tung. Analisando detalhadamente esses três momentos, o autor sustenta que os aparentes fracassos de acontecimentos profundamente ligados à hipótese comunista foram e ainda são etapas de sua história, defende o retorno da palavra “comunismo” e, com ela, da hipótese geral que envolve seus processos políticos efetivos. A posição da palavra, no entanto, não pode mais ser a de adjetivo, como em “partido comunista” ou “regimes comunistas”. Segundo o filósofo, a forma partido, assim como a de Estado socialista, é inadequada para garantir a sustentação real da Ideia. Novas formas políticas, que se referem a uma política sem partido, foram e ainda são experimentadas.

Em um paradoxo histórico, o autor aponta que estamos mais próximos dos problemas examinados na primeira metade do século XIX do que dos problemas herdados do século XX. Como no início do século XIX, não se trata da vitória da Ideia, como foi o caso, de forma imprudente, durante parte do século XX. O que importa é sua existência e os termos de sua formulação. Ou seja, em primeiro lugar, é preciso dar uma sólida existência subjetiva à hipótese comunista. “Combinando as construções do pensamento, que são sempre globais e universais, e as experimentações de fragmentos de verdades, que são locais e singulares, mas universalmente transmissíveis, podemos garantir a nova existência da hipótese comunista, ou melhor, da Ideia comunista, nas consciências individuais. Podemos inaugurar o terceiro período de existência dessa Ideia. Nós podemos, logo devemos.”, afirmou durante a conferência “A ideia do comunismo”, realizada em Londres, no ano de 2009, cuja transcrição se encontra no livro.

Além de seus dois iniciadores (Alain Badiou e Slavoj Žižek), participaram dessa conferência grandes nomes da filosofia contemporânea, entre o quais Judith Balso, Bruno Bosteels, Terry Eagleton, Peter Hallward, Michael Hardt, Toni Negri, Jacques Rancière, Alessandro Russo, Alberto Toscano e Gianni Vattimo. A única condição para a participação era que, qualquer que fosse a abordagem, eles deveriam sustentar que a palavra “comunismo” pode e deve recuperar um valor positivo. O encontro lotou um gigantesco auditório de mil lugares em torno de uma palavra praticamente condenada à morte pela opinião dominante há quase trinta anos. Uma surpresa para todos, e um sintoma para Badiou.

Trecho do livro

“A história de uma vida é por si mesma, sem decisão nem escolha, uma parte da história do Estado, cujas mediações clássicas são a família, o trabalho, a pátria, a propriedade, a religião, os costumes… A projeção heroica, mas individual, de uma exceção a tudo isso – como é um processo de verdade – também quer estar em partilha com os outros, quer se mostrar não só como exceção, mas também como possibilidade agora comum a todos. E esta é uma das funções da Ideia: projetar a exceção no comum das existências, preencher o que só faz existir com uma dose de inaudito. Convencer meu entorno individual, esposo ou esposa, vizinhos, amigos e colegas, de que existe também a fabulosa exceção das verdades em devir, de que não estamos fadados à formatação de nossa existência pelas exigências do Estado. É claro que, em última instância, apenas a experiência nua, ou militante, do processo de verdade, forçará a entrada desse ou daquele no corpo de verdade. Mas para conduzi-lo ao ponto em que essa experiência ocorre, para torná-lo espectador e, portanto, já meio ator daquilo que importa para uma verdade, a mediação da Ideia, a partilha da Ideia são quase sempre necessárias.

Sobre o autor

Alain Badiou nasceu em 1937 na cidade marroquina de Rabat. Autor de vasta produção intelectual, é tido como um dos principais filósofos franceses da atualidade. Lecionou filosofia entre 1969 e 1999 na Universidade de Paris-VIII e, atualmente, é professor emérito da École Normale Supérieure de Paris, onde criou o Centre International d’Étude de la Philosophie Française Contemporaine. Sua trajetória está marcada pelo ativismo político. Filho de um professor de matemática – prefeito de Toulouse entre 1944 e 1958 – que se destacou na Resistência Francesa, Badiou participou dos movimentos de 1968, foi membro-fundador do Parti Socialiste Unifié (PSU) e um dos dirigentes da L’Union des Communistes de France Marxiste-Léniniste (UCF-ML), grupo maoista francês. Desde o fim da década de 1980 integra a Organisation Politique. Além de obras filosóficas, escreveu ensaios políticos, romances e atua como dramaturgo, tendo trabalhado com diretores como Antoine Vitez e Christian Schiaretti. De sua autoria a Boitempo também publicou São Paulo, a fundação do universalismo (2009).

Ficha técnica

Título: A hipótese comunista

Subtítulo: L’hypothèse communiste

Autor: Alain Badiou

Tradução: Mariana Echalar

Orelha: Norman Madarasz

Páginas: 152

ISBN: 978-85-7559-194-9

Preço: a definir

Coleção: Estado de sítio

Editora: Boitempo

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